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domingo, 7 de dezembro de 2025

Timor à vista

A menina dos altifalantes avisa-me, numa voz metálica e sincopada, de andróide: "Próxima paragem, Timor." Sobressalto-me, de repente o coração enche-se-me de egrégios avós, de coragem que nunca tive, às armas às armas, digo, maubere people, canto, emociono-me de mim, Ai Timor, os olhos afogados em lágrimas, olho pela vigia, o mar calmo e eu agoniado, faço as últimas orações, seja o que Deus quiser, dou o peito às balas... e dou também fé que estou no 500, o autocarro da STCP que faz a ligação entre o Mercado de Matosinhos e a portuense Praça da Liberdade pela marginal, viceversando. Para quem vai, Timor fica entre as paragens do Castelo do Queijo e do Homem do Leme, Avenida Montevideu, Foz, e antes assim.

P.S. - Hoje é Dia de Timor-Leste.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2025

Vademetro!

Disseram-lhe - Vá de metro, Satanás! E o Diabo foi. Saiu na estação do Bolhão e apanhou o 401 para São Roque. 

P.S. - O Diabo, semanário português, foi lançado no dia 10 de Fevereiro de 1976.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2025

E se fossem lamber sabão?

Foto Hernâni Von Doellinger

A rede de carros eléctricos da STCP resume-se a duas linhas e chama-se, hoje em dia, Porto Tram City Tour, está-se logo a ver porquê: é produto para camones. A STCP é a Sociedade de Transportes Colectivos do Porto, E.I.M., S.A. Isso. A STCP informa que o PTCT "é um ex-líbris incontornável da cidade do Porto". Do Porto - como o célebre vinho. E decerto por isso é que o eléctrico da Linha 18, ou Linha da Restauração, exibe garbosamente as cores do irlandíssimo uísque Jameson.
Que fique registado - eu não tenho nada contra o uísque Jameson, antes pelo contrário. Aliás, se o uísque em geral não soubesse a sabão e se eu gostasse de uísque, era Jameson que beberia. E bebi durante algum tempo, por armanço puro e sem gelo.
Aqui há coisa de trinta anos estive lá, na Old Jameson Distillery, em Dublin, ou na The Jameson Experience Midleton, em Cork - isso é que já não sei precisar, porque os ares da Irlanda, pelo que percebi daquela vez, para além de fazerem muito mal ao fígado, também não são grande coisa para a memória. Mas quase que posso jurar que estive lá, e fiquei convencido. O Jameson foi o único uísque que alguma vez pedi pelo nome, mais que não fosse para ex-pli-car ao resto do balcão que eu... estive lá. Depois cheguei à idade de ganhar juízo, e ganhei. Aprendi o vinho.

(Já aqui contei: havia o sabão azul, o sabão rosa e o sabão amarelo. O sabão azul era o sabão macaco, para lavar roupa de barba rija, o sabão rosa já naquele tempo era para peças mais delicadas e o sabão amarelo era para lavar as escadas e os soalhos, que, em muitas casas, depois eram encerados. E havia também o sabão para lamber, que eu nunca soube de que cor era nem que sabor tinha, mas era o que a minha mãe me mandava fazer, - Vai lamber sabão!, quando eu andava à roda dela a arengar conversa sem assunto.)

Posto isto, permito-me continuar inclinado a afirmar, aguardando entretanto comprovação laboratorial, que é com sabão de lamber que se faz uísque. Anda portanto meio mundo a lamber sabão, e era também ao que deveriam dedicar-se as cabeças da STCP que têm a distinta lata de deixar colar publicidade a uísque num "ex-líbris incontornável da cidade do Porto". Do Porto - como o célebre vinho. Nem que fosse o Três Velhotes, que o meu avô da Bomba guardava ou escondia na mala de enxoval, no quarto, mesmo em frente à cama, aferrolhada a sete chaves e ali debaixo de olho, somando todos os anos mais duas ou três, dadas ou abafadas, nunca percebi a razão daquele desenfreado açambarque. E nunca molhei o bico.
Devia ser só o prazer de não dar. E deviam ser milhões de garrafas na mala quando o meu avô morreu. E o meu avô da Bomba deve ter morrido bastante satisfeito.

Eu sei. O vinhinho em questão, modesto mas honrado, chama-se apenas Velhotes, mas o povo, que percebe muito bem os desenhos, chama-lhe desde sempre Três Velhotes. Nunca percebi por que razão produtores e distribuidores não lhe mudam o nome, aproveitando a abébia da publicidade popular. Quanto a isso, porém, Cálem-te boca...

P.S. - Obra do Marquês de Pombal, a lei que estabelece a primeira região demarcada no mundo para a produção de vinho - o vinho do Porto - e cria a Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro, com sede na cidade do Porto, foi assinada pelo rei D. José I no dia 10 de Setembro de 1756. E 10 de Setembro é, anualmente, Dia do Vinho do Porto. Hoje, 27 de Janeiro, também é Dia Internacional do Vinho do Porto.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2022

E se fossem lamber sabão?

Foto Hernâni Von Doellinger

A rede de carros eléctricos da STCP resume-se a três linhas e chama-se, hoje em dia, Porto Tram City Tour, está-se logo a ver porquê: é produto para camones. A STCP informa que o PTCT "é um ex-líbris incontornável da cidade do Porto". Do Porto - como o célebre vinho. E decerto por isso é que o eléctrico da Linha 18, ou Linha da Restauração, exibe garbosamente as cores do irlandíssimo uísque Jameson.
Que fique registado - eu não tenho nada contra o uísque Jameson, antes pelo contrário. Aliás, se o uísque em geral não soubesse a sabão e se eu gostasse de uísque, era Jameson que beberia. E bebi durante algum tempo, por armanço puro e sem gelo.
Aqui há coisa de trinta anos estive lá, na Old Jameson Distillery, em Dublin, ou na The Jameson Experience Midleton, em Cork - isso é que já não sei precisar, porque os ares da Irlanda, pelo que percebi daquela vez, para além de fazerem muito mal ao fígado, também não são grande coisa para a memória. Mas quase que posso jurar que estive lá, e fiquei convencido. O Jameson foi o único uísque que alguma vez pedi pelo nome, mais que não fosse para ex-pli-car ao resto do balcão que eu... estive lá. Depois cheguei à idade de ganhar juízo, e ganhei. Aprendi o vinho.

(Havia o sabão azul, o sabão rosa e o sabão amarelo. O sabão azul era o sabão macaco, para lavar roupa de barba rija, o sabão rosa já naquele tempo era para peças mais delicadas e o sabão amarelo era para lavar as escadas e os soalhos, que, em muitas casas, depois eram encerados. E havia também o sabão para lamber, que eu nunca soube de que cor era nem que sabor tinha, mas era o que a minha mãe me mandava fazer, - Vai lamber sabão!, quando eu andava à roda dela a arengar conversa sem assunto.)

Posto isto, permito-me continuar inclinado a afirmar, aguardando porém comprovação laboratorial, que é com sabão de lamber que se faz uísque. Anda portanto meio mundo a lamber sabão, e era também ao que se deveriam dedicar as cabeças da STCP que têm a distinta lata de deixar colar publicidade a uísque num "ex-líbris incontornável da cidade do Porto". Do Porto - como o célebre vinho. Nem que fosse o Três Velhotes...

P.S. - Publicado originalmente no dia 11 de Abril de 2014. Hoje, 27 de Janeiro, é Dia Internacional do Vinho do Porto. Já agora: o vinhinho aí de cima chama-se apenas Velhotes, mas o povo, que percebe muito bem os desenhos, chama-lhe desde sempre Três Velhotes, e burro é quem não aproveita a abébia publicitária. Quanto a isso, porém, Cálem-te boca...

quinta-feira, 6 de janeiro de 2022

O cãozinho da mamã

A madama tinha um cão ao colo e, entre as pernas mas ao nível dos sapatos de tacão altíssimo, uma bolsa em poliéster com rede e design italiano. Era uma madama jovem, bela e produzida, esperável ao volante de um Porsche Cayenne e a lamber o telemóvel, e não ali, no banco do autocarro e a ser lambida pelo cão. O cão era a condizer: sucinto, peludo, de marca, transpirando pedigree por todos os poros. Uma fofura.
Sentia-se-lhes um orgulho mútuo, percebia-se uma relação muito bonita. Que ternura! A madama babada beijava o lingrinhas barbudo e o lingrinhas barbudo e babado beijava a madama babada. Beijavam-se na boca. Lambiam-se, se não me engano. A madama falava xi-qui-pi-ri-qui-ti-nhu-nhu-nhu-meu-querido-mais-beijinho-mais-beijinho-mais-beijinho-da-mamã e o xi-qui-pi-ri-qui-ti-nhu-nhu-nhu-meu-querido-mais-beijinho-mais-beijinho-mais-beijinho-da-mamã não dizia nada mas apenas por ser cão e por gostar de festas nos genitais e não querer interromper a coisa. Realmente só lhe faltava falar, ao cão, como muito bem observou o autocarro em coro, era o 500, e até eu me comovi, eu que, como sabem, mantenho um ancestral e desagradável contencioso com os canídeos de uma forma geral, e cuido que a culpa não é minha. A cena deu-me também um bocado de tesão.

A madama apeou-se na paragem de Matosinhos Praia, sempre com o cão ao colo, sempre xi-qui-pi-ri-qui-ti-nhu-nhu-nhu-meu-querido-mais-beijinho-mais-beijinho-mais-beijinho-da-mamã. Com a mão de vago, a madama pousou no passeio a bolsa em poliéster com rede e design italiano, abriu-a e retirou de lá de dentro um bebé de meses. Menino, vestia azul. Também era giro. 

terça-feira, 4 de janeiro de 2022

Deixei o cego a falar sozinho

Quem não sabe é como quem não vê
Sabeis que há o Dia Mundial da Bengala Branca. Claro que sabeis. Branca, a bengala. Branca e apenas branca. Ainda por cima, branca. E eu parece-me que há aqui qualquer coisa que não bate certo, mas a verdade é que os modernos entendidos, os intrépidos vigilantes das palavras e do palavrismo, os mui respeitáveis fiscais do arco-íris, os anti-racistas desde pequeninos e benévolos defensores das pessoas-portadoras-de, ainda não disseram nada. Nadinha! O que se me afigura manifestamente extraordinário.

Era um cego que andava pelas melhores ruas da cidade a vender lotarias e tinha dois curiosos predicados que saltavam logo à vista: era um inflamado benfiquista, ofensivo, quero dizer, ofensivo para quem por ali passasse sem querer, e dizia palavrões atrás de palavrões como se fosse esse o seu verdadeiro modo de vida. A cegueira poderá explicar o primeiro curioso predicado, mas suponho que já não conseguirá justificar convenientemente o segundo. Em todo o caso, era um cego bem-posto, independente, pequeno empresário do retalho cauteleiro, e se fosse hoje ainda estaria melhor, já nem sequer seria cego, graças a Deus, porque as condições são realmente outras, seria, quando muito, invisual, e isso, como toda a gente sabe, faz toda a diferença.
Para além de ser pelo Benfica, vendedor de lotaria e campeão da malcriadez, o cego ouvia as notícias num transístor em altos berros, próprio certamente para surdos, e aqui atrasado, já lá vai um tempinho, estávamos na paragem de autocarro, o aparelho falava da Grécia, da tentativa de primavera grega que agitou a Europa durante mais de cinco anos. A reportagem ainda ia a meio, mas o cego, sem que eu lho pedisse, resumiu-me imediata e cientificamente a questão: "Se se fossem mas é foder, filhos da puta do caralho, se querem chupar que chupem piças, era fodê-los, era fodê-los"...
Eu, para não mandar o cego àquela parte, que não se faz, pelo menos sem indicações precisas e talvez levado pelo braço, ia-lhe debitando os números dos autocarros que se aproximavam da paragem, como se estivesse a "cantar o quino" no café Peludo por alturas do Natal, marcando com milho os cartões escarrapachados em cima das mesas de bilhar cobertas com lençóis sebentos e felizmente fora de uso. Informei-o do 111. "A mim só me interessam o 500 e o 502", respondeu-me, com maus modos, como se a culpa fosse minha. Já agora, culpa de quê? "O 502 passou há um bocadinho, perdi-o por pouco", expliquei eu, a ver se amenizava a coisa. "Há um bocadinho não, que eu estou aqui há um pedaço e ele não passou", atirou-me o cego, mais ríspido era imposível. Acreditai em mim, por favor: eu tinha chegado à paragem há cinco minutos, não mais, o cego chegara há três minutos. Fiquei invisual com a desconfiança e com a falta de educação do homem, e então afastei-me, amuado, para não ter de lhe responder torto.
Deixei-o a falar sozinho, literalmente a falar sozinho, porque ele continuou a comentar as notícias, caralho acima, quem os fodesse abaixo, aparentemente virado para mim, imaginando-me ao seu lado, mas eu estava a mais de quinze metros de distância e, confesso, a começar a sentir-me mal com a situação, comigo. Não se faz, deixar um cego a falar sozinho.

(Lembrei-me do "meu" cego das quartas-feiras em Fafe, lá longe na infância, o que cantava tragédias tão bonitas naquele ponto estratégico entre o tasco do Zé Manco e as portas enormes da velha loja das Turicas, na Rua Monsenhor Vieira de Castro, quase em frente ao Palacete. Funcionávamos a meias: ele cantava e eu ouvia. Eu era o seu melhor espectador, embora raramente contribuinte. Conversávamos às vezes, éramos quase amigos. Eu respeitava-o muito, admirava-o tanto! E tive vergonha de mim, do que estava a fazer a "este"...)

Reaproximei-me quando chegava mais um autocarro. Um rapazinho avisa o cego, "É o 523". O rapaz confundiu-se, era o 123, o 523 não existe, e o cego, que sabe os autocarros de cor e salteado, aproveita para dar uma desanda ao miúdo. Vem finalmente o 500 e o jovem, ainda cheio de boas intenções apesar do raspanete, alerta, satisfeitíssimo, "É o 500, é o 500". O autocarro pára e abre a porta. O cego pergunta lá para dentro, ao motorista, "É o 500?", "É o 500", confirma o motorista. Da paragem, corado de vergonha e tristeza, o rapazinho queixa-se ao cego, "Não acredita em mim?", e o cego responde, "Acreditar em quem, caralho, tu até inventas números..."
Não renego o meu fardo judaico-cristão, mas os remorsos passaram-me ali de repente. Sim, deixei o cego a falar sozinho - e, sabeis que mais, não me arrependo!

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Publicado originalmente no dia 6 de Julho de 2015. Hoje, 4 de Janeiro, é Dia Mundial do Braille.)

sexta-feira, 10 de dezembro de 2021

O cãozinho da mamã

A madama tinha um cão ao colo e, entre as pernas mas ao nível dos sapatos de tacão altíssimo, uma bolsa em poliéster com rede e design italiano. Era uma madama jovem, bela e produzida, esperável ao volante de um Porsche Cayenne e a lamber o telemóvel, e não ali, no banco do autocarro e a ser lambida pelo cão. O cão era a condizer: sucinto, peludo, de marca, transpirando pedigree por todos os poros. Uma fofura.
Sentia-se-lhes um orgulho mútuo, percebia-se uma relação muito bonita. Que ternura! A madama babada beijava o lingrinhas barbudo e o lingrinhas barbudo e babado beijava a madama babada. Beijavam-se na boca. Lambiam-se, se não me engano. A madama falava xi-qui-pi-ri-qui-ti-nhu-nhu-nhu-meu-querido-mais-beijinho-mais-beijinho-mais-beijinho-da-mamã e o xi-qui-pi-ri-qui-ti-nhu-nhu-nhu-meu-querido-mais-beijinho-mais-beijinho-mais-beijinho-da-mamã não dizia nada mas apenas por ser cão e por gostar de festas nos genitais e não querer interromper a coisa. Realmente só lhe faltava falar, ao cão, como muito bem observou o autocarro em coro, era o 500, e até eu me comovi, eu que, como sabem, mantenho um ancestral e desagradável contencioso com os canídeos de uma forma geral, e cuido que a culpa não é minha. A cena deu-me também um bocado de tesão.

A madama apeou-se na paragem de Matosinhos Praia, sempre com o cão ao colo, sempre xi-qui-pi-ri-qui-ti-nhu-nhu-nhu-meu-querido-mais-beijinho-mais-beijinho-mais-beijinho-da-mamã. Com a mão de vago, a madama pousou no passeio a bolsa em poliéster com rede e design italiano, abriu-a e retirou de lá de dentro um bebé de meses. Menino, vestia azul. Também era giro. 

P.S. - Publicado originalmente no dia 19 de Abril de 2015. Hoje, 10 de Dezembro, é Dia Internacional dos Direitos dos Animais. Ou dos Direitos Animais.

sábado, 15 de maio de 2021

E se fossem lamber sabão?

Foto Hernâni Von Doellinger

A rede de carros eléctricos da STCP resume-se a três linhas e chama-se, hoje em dia, Porto Tram City Tour, está-se logo a ver porquê: é produto para camones. A STCP informa que o PTCT "é um ex-líbris incontornável da cidade do Porto". Do Porto - como o célebre vinho. E decerto por isso é que o eléctrico da Linha 18, ou Linha da Restauração, exibe garbosamente as cores do irlandíssimo uísque Jameson.
Que fique registado - eu não tenho nada contra o uísque Jameson, antes pelo contrário. Aliás, se o uísque em geral não soubesse a sabão e se eu gostasse de uísque, era Jameson que beberia. E bebi durante algum tempo, por armanço puro e sem gelo.
Aqui há coisa de 30 anos estive lá, na Old Jameson Distillery, em Dublin, ou na The Jameson Experience Midleton, em Cork - isso é que já não sei precisar, porque os ares da Irlanda, pelo que percebi daquela vez, para além de fazerem muito mal ao fígado, também não são grande coisa para a memória. Mas quase que posso jurar que estive lá, e fiquei convencido. O Jameson foi o único uísque que alguma vez pedi pelo nome, mais que não fosse para ex-pli-car ao resto do balcão que eu... estive lá. Depois cheguei à idade de ganhar juízo, e ganhei. Aprendi o vinho.

(Havia o sabão azul, o sabão rosa e o sabão amarelo. O sabão azul era o sabão macaco, para lavar roupa de barba rija, o sabão rosa já naquele tempo era para peças mais delicadas e o sabão amarelo era para lavar as escadas e os soalhos, que, em muitas casas, depois eram encerados. E havia também o sabão para lamber, que eu nunca soube de que cor era nem que sabor tinha, mas era o que a minha mãe me mandava fazer, - Vai lamber sabão!, quando eu andava à roda dela a arengar conversa sem assunto.)

Posto isto, permito-me continuar inclinado a afirmar, aguardando porém comprovação laboratorial, que é com sabão de lamber que se faz uísque. Anda portanto meio mundo a lamber sabão, e era também ao que se deveriam dedicar as cabeças da STCP que têm a distinta lata de deixar colar publicidade a uísque num "ex-líbris incontornável da cidade do Porto". Do Porto - como o célebre vinho. Nem que fosse o Três Velhotes...

P.S. - Publicado originalmente no dia 11 de Abril de 2014. Hoje, terceiro sábado de Maio, é Dia Mundial do Whisky. Já agora: o vinho chama-se apenas Velhotes, mas o povo, que percebe muito bem os desenhos, chama-lhe desde sempre Três Velhotes, e burro é quem não aproveita a abébia publicitária. Quanto a isso, porém, Cálem-te boca...

domingo, 13 de dezembro de 2020

Deixei o cego a falar sozinho

Quem não sabe é como quem não vê
Sabeis que há o Dia Mundial da Bengala Branca. Claro que sabeis. Branca, a bengala. Branca e apenas branca. Ainda por cima, branca. E eu parece-me que há aqui qualquer coisa que não bate certo, mas a verdade é que os modernos entendidos, os intrépidos vigilantes das palavras e do palavrismo, os mui respeitáveis fiscais do arco-íris, os anti-racistas desde pequeninos e benévolos defensores das pessoas-portadoras-de, ainda não disseram nada. Nadinha! O que se me afigura manifestamente extraordinário.

Era um cego que andava pelas melhores ruas da cidade a vender lotarias e tinha dois curiosos predicados que saltavam logo à vista: era um inflamado benfiquista, ofensivo, quero dizer, ofensivo para quem por ali passasse sem querer, e dizia palavrões atrás de palavrões como se fosse esse o seu verdadeiro modo de vida. A cegueira poderá explicar o primeiro curioso predicado, mas suponho que já não conseguirá justificar convenientemente o segundo. Em todo o caso, era um cego bem-posto, independente, pequeno empresário do retalho cauteleiro, e se fosse hoje ainda estaria melhor, já nem sequer seria cego, graças a Deus, porque as condições são realmente outras, seria, quando muito, invisual, e isso, como toda a gente sabe, faz toda a diferença.
Para além de ser pelo Benfica, vendedor de lotaria e campeão da malcriadez, o cego ouvia as notícias num transístor em altos berros, próprio certamente para surdos, e aqui atrasado, já lá vai um tempinho, estávamos na paragem de autocarro, o aparelho falava da Grécia, da tentativa de primavera grega que agitou a Europa durante mais de cinco anos. A reportagem ainda ia a meio, mas o cego, sem que eu lho pedisse, resumiu-me imediata e cientificamente a questão: "Se se fossem mas é foder, filhos da puta do caralho, se querem chupar que chupem piças, era fodê-los, era fodê-los"...
Eu, para não mandar o cego àquela parte, que não se faz, pelo menos sem indicações precisas e talvez levado pelo braço, ia-lhe debitando os números dos autocarros que se aproximavam da paragem, como se estivesse a "cantar o quino" no café Peludo por alturas do Natal, marcando com milho os cartões escarrapachados em cima das mesas de bilhar cobertas com lençóis sebentos e felizmente fora de uso. Informei-o do 111. "A mim só me interessam o 500 e o 502", respondeu-me, com maus modos, como se a culpa fosse minha. Já agora, culpa de quê? "O 502 passou há um bocadinho, perdi-o por pouco", expliquei eu, a ver se amenizava a coisa. "Há um bocadinho não, que eu estou aqui há um pedaço e ele não passou", atirou-me o cego, mais ríspido era imposível. Acreditai em mim, por favor: eu tinha chegado à paragem há cinco minutos, não mais, o cego chegara há três minutos. Fiquei invisual com a desconfiança e com a falta de educação do homem, e então afastei-me, amuado, para não ter de lhe responder torto.
Deixei-o a falar sozinho, literalmente a falar sozinho, porque ele continuou a comentar as notícias, caralho acima, quem os fodesse abaixo, aparentemente virado para mim, imaginando-me ao seu lado, mas eu estava a mais de quinze metros de distância e, confesso, a começar a sentir-me mal com a situação, comigo. Não se faz, deixar um cego a falar sozinho.

(Lembrei-me do "meu" cego das quartas-feiras em Fafe, lá longe na infância, o que cantava tragédias tão bonitas naquele ponto estratégico entre o tasco do Zé Manco e as portas enormes da velha loja das Turicas, na Rua Monsenhor Vieira de Castro, quase em frente ao Palacete. Funcionávamos a meias: ele cantava e eu ouvia. Eu era o seu melhor espectador, embora raramente contribuinte. Conversávamos às vezes, éramos quase amigos. Eu respeitava-o muito, admirava-o tanto! E tive vergonha de mim, do que estava a fazer a "este"...)

Reaproximei-me quando chegava mais um autocarro. Um rapazinho avisa o cego, "É o 523". O rapaz confundiu-se, era o 123, o 523 não existe, e o cego, que sabe os autocarros de cor e salteado, aproveita para dar uma desanda ao miúdo. Vem finalmente o 500 e o jovem, ainda cheio de boas intenções apesar do raspanete, alerta, satisfeitíssimo, "É o 500, é o 500". O autocarro pára e abre a porta. O cego pergunta lá para dentro, ao motorista, "É o 500?", "É o 500", confirma o motorista. Da paragem, corado de vergonha e tristeza, o rapazinho queixa-se ao cego, "Não acredita em mim?", e o cego responde, "Acreditar em quem, caralho, tu até inventas números..."
Não renego o meu fardo judaico-cristão, mas os remorsos passaram-me ali de repente. Sim, deixei o cego a falar sozinho - e, sabeis que mais, não me arrependo!

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Publicado originalmente no dia 6 de Julho de 2015. Hoje, 13 de Dezembro, é Dia Nacional do Cego. No Brasil.)

quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

E se fossem lamber sabão?...

Foto Hernâni Von Doellinger

A rede de carros eléctricos da STCP resume-se a três linhas e chama-se, hoje em dia, Porto Tram City Tour, está-se logo a ver porquê: é produto para camones. A STCP informa que o PTCT "é um ex-líbris incontornável da cidade do Porto". Do Porto - como o célebre vinho. E decerto por isso é que o eléctrico da Linha 18, ou Linha da Restauração, exibe garbosamente as cores do irlandíssimo uísque Jameson.
Que fique registado - eu não tenho nada contra o uísque Jameson, antes pelo contrário. Aliás, se o uísque em geral não soubesse a sabão e se eu gostasse de uísque, era Jameson que beberia. E bebi durante algum tempo, por armanço puro e sem gelo.
Aqui há coisa de 30 anos estive lá, na Old Jameson Distillery, em Dublin, ou na The Jameson Experience Midleton, em Cork - isso é que já não sei precisar, porque os ares da Irlanda, pelo que percebi daquela vez, para além de fazerem muito mal ao fígado, também não são grande coisa para a memória. Mas quase que posso jurar que estive lá, e fiquei convencido. O Jameson foi o único uísque que alguma vez pedi pelo nome, mais que não fosse para ex-pli-car ao resto do balcão que eu... estive lá. Depois cheguei à idade de ganhar juízo, e ganhei. Aprendi o vinho.

(Havia o sabão azul, o sabão rosa e o sabão amarelo. O sabão azul era o sabão macaco, para lavar roupa de barba rija, o sabão rosa já naquele tempo era para peças mais delicadas e o sabão amarelo era para lavar as escadas e os soalhos, que, em muitas casas, depois eram encerados. E havia também o sabão para lamber, que eu nunca soube de que cor era nem que sabor tinha, mas era o que a minha mãe me mandava fazer, - Vai lamber sabão!, quando eu andava à roda dela a arengar conversa sem assunto.)

Posto isto, permito-me continuar inclinado a afirmar, aguardando porém comprovação laboratorial, que é com sabão de lamber que se faz uísque. Anda portanto meio mundo a lamber sabão, e era também ao que se deveriam dedicar as cabeças da STCP que têm a distinta lata de deixar colar publicidade a uísque num "ex-líbris incontornável da cidade do Porto". Do Porto - como o célebre vinho. Nem que fosse o Três Velhotes...

P.S. - Publicado originalmente no dia 11 de Abril de 2014. A peça "Um Elétrico Chamado Desejo", de Tennessee Williams, estreou  na Broadway, Nova Iorque, no dia 3 de Dezembro de 1947. Já agora: o vinho chama-se apenas Velhotes, mas o povo, que percebe muito bem os desenhos, chama-lhe desde sempre Três Velhotes, e burro é quem não aproveita a abébia publicitária. Quanto a isso, porém, Cálem-te boca...

domingo, 25 de outubro de 2020

Podia acontecer

A madama tinha um cão ao colo e, entre as pernas mas ao nível dos sapatos de tacão altíssimo, uma bolsa em poliéster com rede e design. Era uma madama jovem, bela e produzida, esperável ao volante de um Porsche Cayenne e a lamber o telemóvel, e não ali, no banco do autocarro e a ser lambida pelo cão. O cão era a condizer: sucinto, peludo, de marca, transpirando pedigree por todos os poros. Uma fofura.
Sentia-se-lhes um orgulho mútuo, percebia-se uma relação muito bonita. Que ternura! A madama babada beijava o lingrinhas barbudo e o lingrinhas barbudo e babado beijava a madama babada. Beijavam-se na boca. Lambiam-se, se não me engano. A madama falava xi-qui-pi-ri-qui-ti-nhu-nhu-nhu-meu-querido-mais-beijinho-mais-beijinho-mais-beijinho-da-mamã e o xi-qui-pi-ri-qui-ti-nhu-nhu-nhu-meu-querido-mais-beijinho-mais-beijinho-mais-beijinho-da-mamã não dizia nada mas apenas por ser cão e por gostar de festas nos genitais e não querer interromper a coisa. Realmente só lhe faltava falar, ao cão, como muito bem observou o autocarro em coro, era o 500, e até eu me comovi, eu que, como sabem, mantenho um ancestral e desagradável contencioso com os canídeos de uma forma geral, e cuido que a culpa não é minha. A cena deu-me também um bocado de tesão.

A madama apeou-se na paragem de Matosinhos Praia, sempre com o cão ao colo, sempre xi-qui-pi-ri-qui-ti-nhu-nhu-nhu-meu-querido-mais-beijinho-mais-beijinho-mais-beijinho-da-mamã. Com a mão de vago, pousou no passeio a bolsa em poliéster com rede e design, abriu-a e retirou de lá de dentro um bebé de meses. Menino, vestia azul. Também era giro. 

Meio bilhete basta, como dizia o outro

Foto Hernâni Von Doellinger

domingo, 12 de fevereiro de 2017

Crónicas de Matosinhos (para rasgar antes de ler) 12

Foto Hernâni Von Doellinger

Podia acontecer
A madama tinha um cão ao colo e, entre as pernas mas ao nível dos sapatos de tacão altíssimo, uma bolsa com rede e design. Era uma madama jovem, bela e produzida, esperável ao volante de um Porsche Cayenne e a lamber o telemóvel, e não ali, no banco do autocarro e a ser lambida pelo cão. O cão era a condizer: sucinto, peludo, de marca, transpirando pedigree por todos os poros. Uma fofura.
Sentia-se-lhes um orgulho mútuo, percebia-se uma relação muito bonita. Que ternura! A madama babada beijava o lingrinhas barbudo e o lingrinhas barbudo e babado beijava a madama babada. Beijavam-se na boca. Lambiam-se, se não me engano. A madama falava xi-qui-pi-ri-qui-ti-nhu-nhu-nhu-meu-querido-mais-beijinho-mais-beijinho-mais-beijinho-da-mamã e o xi-qui-pi-ri-qui-ti-nhu-nhu-nhu-meu-querido-mais-beijinho-mais-beijinho-mais-beijinho-da-mamã não dizia nada mas apenas por ser cão e por gostar de festas nos genitais e não querer interromper a coisa. Realmente só lhe faltava falar, ao cão, como muito bem observou o autocarro em coro, era o 500, e até eu me comovi, eu que, como sabem, mantenho um ancestral e desagradável contencioso com os canídeos de uma forma geral, e cuido que a culpa não é minha. A cena deu-me também um bocado de tesão.
A madama apeou-se na paragem de Matosinhos Praia, sempre com o cão ao colo, sempre xi-qui-pi-ri-qui-ti-nhu-nhu-nhu-meu-querido-mais-beijinho-mais-beijinho-mais-beijinho-da-mamã. Com a mão de vago, pousou no passeio a bolsa com rede e design, abriu-a e retirou de lá de dentro um bebé de meses. Menino, vestia azul. Também era giro.

O motorista da STCP que era um número de circo
O motorista do 500 era um três-em-um: conduzia, falava ao telemóvel e comia uma sandes - tudo ao mesmo tempo. O que é extraordinário, praticamente número de circo. Eu, que até me tenho em boa conta, se como, não consigo falar ao telemóvel, e, se falo ao telemóvel, não consigo comer. Para além disso, não sei conduzir nem um carrinho de linhas, quanto mais um dúplex de três rodados. O 500 é, com efeito, o autocarro da STCP que faz bissextamente a ligação do Porto a Matosinhos (e vice-versa) pela marginal, e note-se que digo bissextamente porque, numa mesma manhã, um 500 passa pela tabela de Inverno, outro 500 passa pela tabela de Verão, e pelo meio há pelo menos dois ou três 500 que não passam por tabela nenhuma, pura e simplesmente não passam, o que significa mais de uma hora à espera e é para quem quer. Os horários da STCP afixados nas paragens e publicitados na Internet são uma anedota, e a boa disposição faz falta nos tempos que correm. Está certo.
Por definição, os motoristas da STCP conduzem e falam ao telemóvel. Ui, o que eles falam ao telemóvel! E quando raramente relapsam e não falam ao telemóvel, é porque estão à conversa com um estorvador profissional, amigo da corda, geralmente mirone de praia, que se lhes planta ao lado, atravancando a entrada dos passageiros e distraindo a condução. E blá blá, blá blá, blá blá, lá vão ambos todos contentes nos seus ofícios, gajas acima e gajas abaixo, como se não fosse nada com eles.
O meu motorista três-em-um conduzia, portanto, um 500 de rés-do-chão e 1.º andar - a bem dizer, um mil -, o que é ainda mais extraordinário. E, verdade seja dita, sem o estorvador da ordem, falava simplesmente ao telemóvel. E almoçava, o que até se compreende, uma vez que já eram quase duas da tarde.
Os trabalhadores da STCP entram assiduamente em greve e então não há 500 para ninguém. Quer-se dizer que nesses dias ando duas horas a pé, nada de grave e até me faz bem. Que fique registado, eu sou pelas greves. No meu tempo de grevista, grevei com reconhecida competência e indesmentível pertinácia - quem me conhece não me deixa mentir. Quantas vezes me disseram, uns e outros, mais outros do que uns: é pá, camarada, nunca vimos ninguém grevar com tanta categoria como tu! Eu, modesto, limitava-me a dar um jeito ao guarda-sol e a pedir mais um fininho, se faz favor. E ainda não tínhamos descoberto a comodidade das greves às segundas e sextas-feiras.
Confesso que tenho uma certa simpatia pelos motoristas da STCP e pelas suas greves tão dia sim, dia não. O que eles querem, o que eles querem mesmo, é que os deixem ficar no quentinho do "serviço público", porque trabalhar para o privado fia mais fino. Mas, à boleia da única verdadeira "reivindicação", fica-se também a saber que a STCP precisa de mais 150 motoristas e não os mete, que há motoristas que trabalham catorze horas por dia (daí a sandes, depreendo eu) e que realmente os utentes andam a levar um grandessíssimo baile.
Voltando ao meu motorista três-em-um, o tal que conduzia, falava ao telemóvel e comia uma sandes - tudo ao mesmo tempo. Poderão dizer-me que é homem pouco cuidadoso, ainda por cima ao volante de uma bisarma daquele tamanho. Não é essa, porém, a minha opinião. Pelo contrário. Dei-me ao trabalho de reparar: a sandes era de pão integral e tinha folhinha de alface...

P.S. - O episódio do motorista, do telemóvel e da sandes é verdadeiro. Mas não se passou no autocarro da fotografia, nem naquele dia, nem naquele sítio alternativo. O 500 do retrato é apenas um por exemplo.

terça-feira, 19 de maio de 2015

Algo está a mudar na STCP, não sei se para melhor

Foto Hernâni Von Doellinger

O motorista do 500 era um três-em-um: conduzia, falava ao telemóvel e comia uma sandes - tudo ao mesmo tempo. O que é extraordinário. Eu, que até me tenho em boa conta, se como, não consigo falar ao telemóvel, e, se falo ao telemóvel, não consigo comer. Para além disso, não sei conduzir nem um carrinho de linhas, quanto mais um dúplex de três rodados. O 500 é, com efeito, o autocarro da STCP que faz bissextamente a ligação do Porto a Matosinhos (e vice-versa) pela marginal, e note-se que digo bissextamente porque, numa mesma manhã, um 500 passa pela tabela de Inverno, outro 500 passa pela tabela de Verão, e pelo meio há pelo menos dois ou três 500 que não passam por tabela nenhuma, pura e simplesmente não passam, o que significa mais de uma hora à espera e é para quem quer. Os horários da STCP afixados nas paragens e publicitados na Internet são uma anedota, e a boa disposição faz falta nos tempos que correm. Está certo.
Por definição, os motoristas da STCP conduzem e falam ao telemóvel. Ui, o que eles falam ao telemóvel! E quando raramente relapsam e não falam ao telemóvel, é porque estão à conversa com um estorvador profissional, amigo da corda, geralmente mirone de praia, que se lhes planta ao lado, atravancando a entrada dos passageiros e distraindo a condução. E blá blá, blá blá, blá blá, lá vão ambos todos contentes nos seus ofícios, gajas acima e gajas abaixo, como se não fosse nada com eles.
O meu motorista três-em-um conduzia, portanto, um 500 de rés-do-chão e 1.º andar - a bem dizer, um mil -, o que é ainda mais extraordinário. E, verdade seja dita, sem o estorvador da ordem, falava simplesmente ao telemóvel. E almoçava, o que até se compreende, uma vez que já eram quase duas da tarde.
Ora bem: os trabalhadores da STCP entram hoje em greve. E não vai haver 500 para ninguém. Quer-se dizer que vou ter de andar duas horas a pé, nada de grave e até me faz bem. Que fique registado, eu sou pelas greves. No meu tempo de grevar, grevei com reconhecida competência e indesmentível pertinácia - quem me conhece não me deixa mentir. Quantas vezes me disseram, uns e outros, mais outros do que uns: é pá, camarada, nunca vimos ninguém grevar com tanta categoria como tu! Eu, modesto, limitava-me a dar um jeito ao guarda-sol e a pedir mais um fininho, se faz favor. E ainda não tínhamos descoberto a comodidade das greves às segundas e sextas-feiras.
Confesso que tenho uma certa simpatia pelos motoristas da STCP e pela sua greve. O que eles querem, o que eles querem mesmo, é que os deixem ficar no quentinho do "serviço público", porque trabalhar para o privado fia mais fino. Mas, à boleia da única verdadeira "reivindicação", ficámos também a saber que, pelas contas da Comissão de Trabalhadores, a STCP precisa de mais 150 motoristas e não os mete, que há motoristas que trabalham catorze horas por dia (daí a sandes, depreendo eu) e que realmente os utentes andam a levar um grandessíssimo baile.
Por falar em baile. Outro assunto é a greve dos pilotos da TAP. Que podem ir à merda, os pilotos grevistas, mais a administração da alegada transportadora aérea nacional e mais o Governo que não soube ter mão no caso. À merda, todos! Mas um momento: antes de se sentaram à mesa, gostaria que algum dos comensais me explicasse como é que uma empresa que tem 35 milhões de euros de prejuízo por causa de dez dias de greve não consegue ter mil e duzentos e quarenta e dois milhões e meio de euros de lucro nos outros 355 dias do ano.
Voltando ao meu motorista três-em-um, o tal que conduzia, falava ao telemóvel e comia uma sandes - tudo ao mesmo tempo. Poderão dizer-me que é homem pouco cuidadoso, ainda por cima ao volante de uma bisarma daquele tamanho. Não é essa, porém, a minha opinião. Pelo contrário. Dei-me ao trabalho de reparar: a sandes era de pão integral e tinha folhinha de alface.

(Este texto foi escrito e publicado há uma semana, no dia 11 de Maio. Hoje vi que alguma coisa mudou. O 500 continua a andar no horário que lhe apetece, suprime-se sem aviso prévio nem dó nem piedade do utente antecipadamente pagante, desaparece para parte incerta sobretudo no sentido Porto-Matosinhos, e esta não é, portanto, a novidade. A notícia é que o motorista do 500 vinha guardado por dois robustos seguranças - empresa nova, pareceu-me -, que, honra lhes seja feita, para além de outros préstimos que sinceramente não catrapisquei, estorvavam a entrada dos passageiros com assinalável competência.)

segunda-feira, 11 de maio de 2015

A minha homenagem aos pilotos da STCP

Foto Hernâni Von Doellinger

O motorista do 500 era um três-em-um: conduzia, falava ao telemóvel e comia uma sandes - tudo ao mesmo tempo. O que é extraordinário. Eu, que até me tenho em boa conta, se como, não consigo falar ao telemóvel, e, se falo ao telemóvel, não consigo comer. Para além disso, não sei conduzir nem um carrinho de linhas, quanto mais um dúplex de três rodados. O 500 é, com efeito, o autocarro da STCP que faz bissextamente a ligação do Porto a Matosinhos (e vice-versa) pela marginal, e note-se que digo bissextamente porque, numa mesma manhã, um 500 passa pela tabela de Inverno, outro 500 passa pela tabela de Verão, e pelo meio há pelo menos dois ou três 500 que não passam por tabela nenhuma, pura e simplesmente não passam, o que significa mais de uma hora à espera e é para quem quer. Os horários da STCP afixados nas paragens e publicitados na Internet são uma anedota, e a boa disposição faz falta nos tempos que correm. Está certo.
Por definição, os motoristas da STCP conduzem e falam ao telemóvel. Ui, o que eles falam ao telemóvel! E quando raramente relapsam e não falam ao telemóvel, é porque estão à conversa com um estorvador profissional, amigo da corda, geralmente mirone de praia, que se lhes planta ao lado, atravancando a entrada dos passageiros e distraindo a condução. E blá blá, blá blá, blá blá, lá vão ambos todos contentes nos seus ofícios, gajas acima e gajas abaixo, como se não fosse nada com eles.
O meu motorista três-em-um conduzia, portanto, um 500 de rés-do-chão e 1.º andar - a bem dizer, um mil -, o que é ainda mais extraordinário. E, verdade seja dita, sem o estorvador da ordem, falava simplesmente ao telemóvel. E almoçava, o que até se compreende, uma vez que já eram quase duas da tarde.
Ora bem: os trabalhadores da STCP entram hoje em greve. E não vai haver 500 para ninguém. Quer-se dizer que vou ter de andar duas horas a pé, nada de grave e até me faz bem. Que fique registado, eu sou pelas greves. No meu tempo de grevar, grevei com reconhecida competência e indesmentível pertinácia - quem me conhece não me deixa mentir. Quantas vezes me disseram, uns e outros, mais outros do que uns: é pá, camarada, nunca vimos ninguém grevar com tanta categoria como tu! Eu, modesto, limitava-me a dar um jeito ao guarda-sol e a pedir mais um fininho, se faz favor. E ainda não tínhamos descoberto a comodidade das greves às segundas e sextas-feiras.
Confesso que tenho uma certa simpatia pelos motoristas da STCP e pela sua greve. O que eles querem, o que eles querem mesmo, é que os deixem ficar no quentinho do "serviço público", porque trabalhar para o privado fia mais fino. Mas, à boleia da única verdadeira "reivindicação", ficámos também a saber que, pelas contas da Comissão de Trabalhadores, a STCP precisa de mais 150 motoristas e não os mete, que há motoristas que trabalham catorze horas por dia (daí a sandes, depreendo eu) e que realmente os utentes andam a levar um grandessíssimo baile.
Por falar em baile. Outro assunto é a greve dos pilotos da TAP. Que podem ir à merda, os pilotos grevistas, mais a administração da alegada transportadora aérea nacional e mais o Governo que não soube ter mão no caso. À merda, todos! Mas um momento: antes de se sentaram à mesa, gostaria que algum dos comensais me explicasse como é que uma empresa que tem 35 milhões de euros de prejuízo por causa de dez dias de greve não consegue ter mil e duzentos e quarenta e dois milhões e meio de euros de lucro nos outros 355 dias do ano.
Voltando ao meu motorista três-em-um, o tal que conduzia, falava ao telemóvel e comia uma sandes - tudo ao mesmo tempo. Poderão dizer-me que é homem pouco cuidadoso, ainda por cima ao volante de uma bisarma daquele tamanho. Não é essa, porém, a minha opinião. Pelo contrário. Dei-me ao trabalho de reparar: a sandes era de pão integral e tinha folhinha de alface.

(O episódio do motorista, do telemóvel e da sandes é verdadeiro. Mas não se passou no autocarro da fotografia, nem naquele dia, nem naquele sítio, nem sequer naquele sentido.)