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quarta-feira, 16 de março de 2022

As virgens e a bisnaga

Vosselências não andam de transportes públicos, pois não? Se calhar nem vão compreender o meu drama, mas eu vou tentar explicar:

Eu ando de transportes públicos e não sei o que deu agora ao raio do mulherio. Entram no autocarro ou no metro, alapam o traseiro e a primeira coisa que fazem é sacar da bisnaga. E esfregam, esfregam, esfregam. É a nova moda, aproveitar as viagens em transportes públicos para esfregar as mãos com creme amaciador, como se estivessem sentadas na sanita lá de casa. Mais do que uma moda, é uma epidemia: começa uma, aperta a bisnaga, faz aquele ruído viscoso que até lembra pecados velhos, e logo as outras todas lhe imitam o gesto, sacam também da bisnaga e nhanha, nhanha, nhanha. Sinto-me de repente no meio de um bacanal para o qual nem sequer fui convidado. Aquilo mete-me uns nervos!...
E depois estas gajas ainda se armam em virgens ofendidas quando eu me descalço e começo a cortar as unhas dos pés em cima do banco da frente...

P.S. - Publicado originalmente no dia 24 de Junho de 2011. Segundo reza a mitologia greco-romana, hoje, 16 de Março, é o primeiro dia do Bacanal - festival de Dionísio (Baco, para os Romanos), deus do vinho, dos grãos, da fertilidade e da alegria.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2022

O cãozinho da mamã

A madama tinha um cão ao colo e, entre as pernas mas ao nível dos sapatos de tacão altíssimo, uma bolsa em poliéster com rede e design italiano. Era uma madama jovem, bela e produzida, esperável ao volante de um Porsche Cayenne e a lamber o telemóvel, e não ali, no banco do autocarro e a ser lambida pelo cão. O cão era a condizer: sucinto, peludo, de marca, transpirando pedigree por todos os poros. Uma fofura.
Sentia-se-lhes um orgulho mútuo, percebia-se uma relação muito bonita. Que ternura! A madama babada beijava o lingrinhas barbudo e o lingrinhas barbudo e babado beijava a madama babada. Beijavam-se na boca. Lambiam-se, se não me engano. A madama falava xi-qui-pi-ri-qui-ti-nhu-nhu-nhu-meu-querido-mais-beijinho-mais-beijinho-mais-beijinho-da-mamã e o xi-qui-pi-ri-qui-ti-nhu-nhu-nhu-meu-querido-mais-beijinho-mais-beijinho-mais-beijinho-da-mamã não dizia nada mas apenas por ser cão e por gostar de festas nos genitais e não querer interromper a coisa. Realmente só lhe faltava falar, ao cão, como muito bem observou o autocarro em coro, era o 500, e até eu me comovi, eu que, como sabem, mantenho um ancestral e desagradável contencioso com os canídeos de uma forma geral, e cuido que a culpa não é minha. A cena deu-me também um bocado de tesão.

A madama apeou-se na paragem de Matosinhos Praia, sempre com o cão ao colo, sempre xi-qui-pi-ri-qui-ti-nhu-nhu-nhu-meu-querido-mais-beijinho-mais-beijinho-mais-beijinho-da-mamã. Com a mão de vago, a madama pousou no passeio a bolsa em poliéster com rede e design italiano, abriu-a e retirou de lá de dentro um bebé de meses. Menino, vestia azul. Também era giro. 

sexta-feira, 10 de dezembro de 2021

O cãozinho da mamã

A madama tinha um cão ao colo e, entre as pernas mas ao nível dos sapatos de tacão altíssimo, uma bolsa em poliéster com rede e design italiano. Era uma madama jovem, bela e produzida, esperável ao volante de um Porsche Cayenne e a lamber o telemóvel, e não ali, no banco do autocarro e a ser lambida pelo cão. O cão era a condizer: sucinto, peludo, de marca, transpirando pedigree por todos os poros. Uma fofura.
Sentia-se-lhes um orgulho mútuo, percebia-se uma relação muito bonita. Que ternura! A madama babada beijava o lingrinhas barbudo e o lingrinhas barbudo e babado beijava a madama babada. Beijavam-se na boca. Lambiam-se, se não me engano. A madama falava xi-qui-pi-ri-qui-ti-nhu-nhu-nhu-meu-querido-mais-beijinho-mais-beijinho-mais-beijinho-da-mamã e o xi-qui-pi-ri-qui-ti-nhu-nhu-nhu-meu-querido-mais-beijinho-mais-beijinho-mais-beijinho-da-mamã não dizia nada mas apenas por ser cão e por gostar de festas nos genitais e não querer interromper a coisa. Realmente só lhe faltava falar, ao cão, como muito bem observou o autocarro em coro, era o 500, e até eu me comovi, eu que, como sabem, mantenho um ancestral e desagradável contencioso com os canídeos de uma forma geral, e cuido que a culpa não é minha. A cena deu-me também um bocado de tesão.

A madama apeou-se na paragem de Matosinhos Praia, sempre com o cão ao colo, sempre xi-qui-pi-ri-qui-ti-nhu-nhu-nhu-meu-querido-mais-beijinho-mais-beijinho-mais-beijinho-da-mamã. Com a mão de vago, a madama pousou no passeio a bolsa em poliéster com rede e design italiano, abriu-a e retirou de lá de dentro um bebé de meses. Menino, vestia azul. Também era giro. 

P.S. - Publicado originalmente no dia 19 de Abril de 2015. Hoje, 10 de Dezembro, é Dia Internacional dos Direitos dos Animais. Ou dos Direitos Animais.

terça-feira, 16 de março de 2021

As virgens e a bisnaga

Vosselências não andam de transportes públicos, pois não? Se calhar nem vão compreender o meu drama, mas eu vou tentar explicar:
Eu ando de transportes públicos e não sei o que deu agora ao raio do mulherio. Entram no autocarro ou no metro, alapam o traseiro e a primeira coisa que fazem é sacar da bisnaga. E esfregam, esfregam, esfregam. É a nova moda, aproveitar as viagens em transportes públicos para esfregar as mãos com creme amaciador, como se estivessem sentadas na sanita lá de casa. Mais do que uma moda, é uma epidemia: começa uma, aperta a bisnaga, faz aquele ruído viscoso que até lembra pecados velhos, e logo as outras todas lhe imitam o gesto, sacam também da bisnaga e nhanha, nhanha, nhanha. Sinto-me de repente no meio de um bacanal para o qual nem sequer fui convidado. Aquilo mete-me uns nervos!...
E depois estas gajas ainda se armam em virgens ofendidas quando eu me descalço e começo a cortar as unhas dos pés em cima do banco da frente...

P.S. - Publicado originalmente no dia 24 de Junho de 2011. Segundo reza a mitologia greco-romana, hoje, 16 de Março, é o primeiro dia do Bacanal - festival de Dionísio (Baco, para os Romanos), deus do vinho, dos grãos, da fertilidade e da alegria.

domingo, 25 de outubro de 2020

Podia acontecer

A madama tinha um cão ao colo e, entre as pernas mas ao nível dos sapatos de tacão altíssimo, uma bolsa em poliéster com rede e design. Era uma madama jovem, bela e produzida, esperável ao volante de um Porsche Cayenne e a lamber o telemóvel, e não ali, no banco do autocarro e a ser lambida pelo cão. O cão era a condizer: sucinto, peludo, de marca, transpirando pedigree por todos os poros. Uma fofura.
Sentia-se-lhes um orgulho mútuo, percebia-se uma relação muito bonita. Que ternura! A madama babada beijava o lingrinhas barbudo e o lingrinhas barbudo e babado beijava a madama babada. Beijavam-se na boca. Lambiam-se, se não me engano. A madama falava xi-qui-pi-ri-qui-ti-nhu-nhu-nhu-meu-querido-mais-beijinho-mais-beijinho-mais-beijinho-da-mamã e o xi-qui-pi-ri-qui-ti-nhu-nhu-nhu-meu-querido-mais-beijinho-mais-beijinho-mais-beijinho-da-mamã não dizia nada mas apenas por ser cão e por gostar de festas nos genitais e não querer interromper a coisa. Realmente só lhe faltava falar, ao cão, como muito bem observou o autocarro em coro, era o 500, e até eu me comovi, eu que, como sabem, mantenho um ancestral e desagradável contencioso com os canídeos de uma forma geral, e cuido que a culpa não é minha. A cena deu-me também um bocado de tesão.

A madama apeou-se na paragem de Matosinhos Praia, sempre com o cão ao colo, sempre xi-qui-pi-ri-qui-ti-nhu-nhu-nhu-meu-querido-mais-beijinho-mais-beijinho-mais-beijinho-da-mamã. Com a mão de vago, pousou no passeio a bolsa em poliéster com rede e design, abriu-a e retirou de lá de dentro um bebé de meses. Menino, vestia azul. Também era giro. 

Meio bilhete basta, como dizia o outro

Foto Hernâni Von Doellinger

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

sexta-feira, 24 de junho de 2011

A puta da bisnaga

Vosselências não andam de transportes públicos, pois não? Se calhar nem vão compreender o meu drama, mas eu vou tentar explicar:
Eu ando de transportes públicos e não sei o que deu agora ao raio do mulherio. Entram no autocarro ou no metro, alapam o traseiro e a primeira coisa que fazem é sacar da bisnaga. E esfregam, esfregam, esfregam. É a nova moda, aproveitar as viagens em transportes públicos para esfregar as mãos com creme amaciador, como se estivessem sentadas na sanita lá de casa. Mais do que uma moda, é uma epidemia: começa uma, aperta a bisnaga, faz aquele ruído viscoso que até lembra pecados velhos, e logo as outras todas lhe imitam o gesto, sacam também da bisnaga e nhanha, nhanha, nhanha. Sinto-me de repente no meio de um bacanal para o qual nem sequer fui convidado. Aquilo mete-me uns nervos!
E depois estas gajas ainda se armam em virgens ofendidas quando eu me descalço e começo a cortar as unhas dos pés em cima do banco da frente...