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terça-feira, 8 de dezembro de 2020

Florbela Espanca 8

A mulher

Ó Mulher! Como és fraca e como és forte!
Como sabes ser doce e desgraçada!
Como sabes fingir quando em teu peito
A tua alma se estorce amargurada!

Quantas morrem saudosa duma imagem.
Adorada que amaram doidamente!
Quantas e quantas almas endoidecem
Enquanto a boca rir alegremente!

Quanta paixão e amor às vezes têm
Sem nunca o confessarem a ninguém
Doce alma de dor e sofrimento!

Paixão que faria a felicidade.
Dum rei; amor de sonho e de saudade,
Que se esvai e que foge num lamento!

Florbela Espanca

(Florbela Espanca nasceu no dia 8 de Dezembro de 1894. Morreu em 1930.)

domingo, 8 de dezembro de 2019

Florbela Espanca 7

Passeio ao campo

Meu Amor! meu Amante! Meu amigo!
Colhe a hora que passa, hora divina,
Bebe-a dentro de mim, bebe-a comigo!
Sinto-me alegre e forte! Sou menina!

Eu tenho, Amor, a cinta esbelta e fina...

Pele doirada de alabastro antigo...
Frágeis mãos de madona florentina...
- Vamos correr e rir por entre o trigo! -

Há rendas de gramíneas pelos montes...
Papoilas rubras nos trigais maduros...
Água azulada a cintilar nas fontes...

E à volta, Amor... tornemos, nas alfombras

Dos caminhos selvagens e escuros,
Num astro só as nossas duas sombras!...

"Charneca em Flor", Florbela Espanca

(Florbela Espanca nasceu no dia 8 de Dezembro de 1894. Morreu em 1930.)

sábado, 8 de dezembro de 2018

Florbela Espanca 6

A nossa casa

A nossa casa, Amor, a nossa casa!
Onde está ela, Amor, que não a vejo?
Na minha doida fantasia em brasa
Constrói-a, num instante, o meu desejo!

Onde está ela, Amor, a nossa casa,
O bem que neste mundo mais invejo?
O brando ninho aonde o nosso beijo
Será mais puro e doce que uma asa?

Sonho... que eu e tu, dois pobrezinhos,
Andamos de mãos dadas, nos caminhos
Duma terra de rosas, num jardim,

Num país de ilusão que nunca vi...
E que eu moro - tão bom! - dentro de ti
E tu, ó meu Amor, dentro de mim...


"Charneca em Flor", Florbela Espanca

(Florbela Espanca nasceu no dia 8 de Dezembro de 1894. Morreu em 1930.)

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Florbela Espanca 5

Amor que morre

O nosso amor morreu... Quem o diria!
Quem o pensara mesmo ao ver-me tonta,
Ceguinha de te ver, sem ver a conta
Do tempo que passava, que fugia!

Bem estava a sentir que ele morria...
E outro clarão, ao longe, já desponta!
Um engano que morre... e logo aponta
A luz doutra miragem fugidia...

Eu bem sei, meu Amor, que pra viver
São precisos amores, pra morrer,
E são precisos sonhos para partir.

E bem sei, meu Amor, que era preciso
Fazer do amor que parte o claro riso
De outro amor impossível que há-de vir!

"Reliquiae", Florbela Espanca

(Florbela Espanca nasceu no dia 8 de Dezembro de 1894. Morreu em 1930.)

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Florbela Espanca 4

Nervos de oiro

Meus nervos, guizos de oiro a tilintar,
Cantam-me na alma a estranha sinfonia
Da volúpia, da mágoa e da alegria,
Que me faz rir e que me faz chorar!


Em meu corpo fremente, sem cessar,
Agito os guizos de oiro da folia!
A Quimera, a Loucura, a Fantasia,
Num rubro turbilhão sinto-As passar!


O coração, numa imperial oferta,
Ergo-o ao alto! E, sobre a minha mão,
É uma rosa de púrpura, entreaberta!


E em mim, dentro de mim, vibram dispersos
Meus nervos de oiro, esplêndidos, que são
Toda a Arte suprema dos meus versos!


"Charneca em Flor", Florbela Espanca

(Florbela Espanca nasceu no dia 8 de Dezembro de 1894. Morreu em 1930.)

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Florbela Espanca 3

São mortos os que nunca acreditaram
Que esta vida é somente uma passagem,
Um atalho sombrio, uma paisagem
Onde os nossos sentidos se poisaram.

São mortos os que nunca alevantaram
De entre escombros a Torre de Menagem
Dos seus sonhos de orgulho e de coragem,
E os que não riram e os que não choraram.

Que Deus faça de mim, quando eu morrer,
Quando eu partir para o País da Luz,
A sombra calma de um entardecer,

Tombando, em doces pregas de mortalha,
Sobre o teu corpo heróico, posto em cruz,
Na solidão de um campo de batalha!


"Charneca em Flor", Florbela Espanca

(Florbela Espanca nasceu no dia 8 de Dezembro de 1894. Morreu em 1930.)

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Florbela Espanca 2

Volúpia

No divino impudor da mocidade,
Nesse êxtase pagão que vence a sorte,
Num frémito vibrante de ansiedade,
Dou-te o meu corpo prometido à morte!

A sombra entre a mentira e a verdade...
A nuvem que arrastou o vento norte...
- Meu corpo! Trago nele um vinho forte:
Meus beijos de volúpia e de maldade!

Trago dálias vermelhas no regaço...
São os dedos do sol quando te abraço,
Cravados no teu peito como lanças!

E do meu corpo os leves arabescos
Vão-te envolvendo em círculos dantescos
Felinamente, em voluptuosas danças...


"Charneca em Flor", Florbela Espanca


(Florbela Espanca nasceu no dia 8 de Dezembro de 1894. Morreu em 1930.)

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Cem poemas para salvar a nossa vida


Adolfo Luxúria Canibal, Capicua, Mário Cláudio, João Luís Barreto Guimarães, Daniel Jonas e Francisco José Viegas são algumas das presenças confirmadas para a décima edição da Festa da Poesia, evento que assinala a data do nascimento e da morte de Florbela Espanca. A inicitiva da Câmara Municipal de Matosinhos decorre de domingo a terça-feira - dias 7, 8 e 9 de Dezembro - e ficará certamente marcada pelo lançamento da antologia "Cem Poemas para Salvar a Nossa Vida". Mais informação e programa, aqui.

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Poemas para Salvar a Vida

 

Florbela Espanca volta a ser celebrada pela Câmara Municipal de Matosinhos com a Festa da Poesia, este ano sob o lema "Poemas para Salvar a Vida". Nos dias 7 e 8 de Dezembro, com a presença anunciada de, entre outros, Adolfo Luxúria Canibal, Capicua e Francisco José Viegas (que pede desculpa por ter um nome assim tão... normal). Mais informação, aqui.

domingo, 8 de dezembro de 2013

Florbela Espanca

In memoriam

Na cidade de Assis, Il Poverello
Santo, três vezes santo, andou pregando
Que o sol, a terra, a flor, o rocio brando,
Da pobreza o tristíssimo flagelo,


Tudo quanto há de vil, quanto há de belo,
Tudo era nosso irmão! - E assim sonhando,
Pelas estradas da Umbria foi forjando
Da cadeia do amor o maior elo!


"Olha o nosso irmão Sol, nossa irmã Água…"
Ah! Poverello! Em mim, essa lição
Perdeu-se como vela em mar de mágoa


Batida por furiosos vendavais!
- Eu fui na vida a irmã de um só Irmão,
E já não sou a irmã de ninguém mais!


"A Mensageira das Violetas", Florbela Espanca

(Florbela Espanca nasceu no dia 8 de Dezembro de 1894. Morreu em 1930.)

sábado, 8 de dezembro de 2012

Matosinhos e Florbela Espanca

A Biblioteca Municipal de Matosinhos encerra na próxima segunda-feira uma semana inteiramente dedicada à vida e obra de Florbela Espanca.
Ali a dois passos, na Rua Primeiro de Dezembro, continua à venda a casa onde a poetisa viveu, trabalhou e morreu.

                                                                                       Foto Hernâni Von Doellinger

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Florbela Espanca, vende-se

Eu não sou como muita gente: entusiasmada até à loucura no princípio das afeições e depois, passado um mês, completamente desinteressada delas. Eu sou ao contrário: o tempo passa e a afeição vai crescendo, morrendo apenas quando a ingratidão e a maldade a fizerem morrer.
Florbela Espanca

Florbela Espanca nasceu a 8 de Dezembro de 1894, em Vila Viçosa, e morreu a 8 de Dezembro de 1930, em Matosinhos. Tinha 36 anos. A casa onde a poetisa viveu, trabalhou e morreu, na matosinhense Rua 1.º de Dezembro, está à venda.

Foto Hernâni Von Doellinger