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domingo, 8 de dezembro de 2019

Florbela Espanca 7

Passeio ao campo

Meu Amor! meu Amante! Meu amigo!
Colhe a hora que passa, hora divina,
Bebe-a dentro de mim, bebe-a comigo!
Sinto-me alegre e forte! Sou menina!

Eu tenho, Amor, a cinta esbelta e fina...

Pele doirada de alabastro antigo...
Frágeis mãos de madona florentina...
- Vamos correr e rir por entre o trigo! -

Há rendas de gramíneas pelos montes...
Papoilas rubras nos trigais maduros...
Água azulada a cintilar nas fontes...

E à volta, Amor... tornemos, nas alfombras

Dos caminhos selvagens e escuros,
Num astro só as nossas duas sombras!...

"Charneca em Flor", Florbela Espanca

(Florbela Espanca nasceu no dia 8 de Dezembro de 1894. Morreu em 1930.)

sábado, 8 de dezembro de 2018

Florbela Espanca 6

A nossa casa

A nossa casa, Amor, a nossa casa!
Onde está ela, Amor, que não a vejo?
Na minha doida fantasia em brasa
Constrói-a, num instante, o meu desejo!

Onde está ela, Amor, a nossa casa,
O bem que neste mundo mais invejo?
O brando ninho aonde o nosso beijo
Será mais puro e doce que uma asa?

Sonho... que eu e tu, dois pobrezinhos,
Andamos de mãos dadas, nos caminhos
Duma terra de rosas, num jardim,

Num país de ilusão que nunca vi...
E que eu moro - tão bom! - dentro de ti
E tu, ó meu Amor, dentro de mim...


"Charneca em Flor", Florbela Espanca

(Florbela Espanca nasceu no dia 8 de Dezembro de 1894. Morreu em 1930.)

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Florbela Espanca 4

Nervos de oiro

Meus nervos, guizos de oiro a tilintar,
Cantam-me na alma a estranha sinfonia
Da volúpia, da mágoa e da alegria,
Que me faz rir e que me faz chorar!


Em meu corpo fremente, sem cessar,
Agito os guizos de oiro da folia!
A Quimera, a Loucura, a Fantasia,
Num rubro turbilhão sinto-As passar!


O coração, numa imperial oferta,
Ergo-o ao alto! E, sobre a minha mão,
É uma rosa de púrpura, entreaberta!


E em mim, dentro de mim, vibram dispersos
Meus nervos de oiro, esplêndidos, que são
Toda a Arte suprema dos meus versos!


"Charneca em Flor", Florbela Espanca

(Florbela Espanca nasceu no dia 8 de Dezembro de 1894. Morreu em 1930.)

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Florbela Espanca 3

São mortos os que nunca acreditaram
Que esta vida é somente uma passagem,
Um atalho sombrio, uma paisagem
Onde os nossos sentidos se poisaram.

São mortos os que nunca alevantaram
De entre escombros a Torre de Menagem
Dos seus sonhos de orgulho e de coragem,
E os que não riram e os que não choraram.

Que Deus faça de mim, quando eu morrer,
Quando eu partir para o País da Luz,
A sombra calma de um entardecer,

Tombando, em doces pregas de mortalha,
Sobre o teu corpo heróico, posto em cruz,
Na solidão de um campo de batalha!


"Charneca em Flor", Florbela Espanca

(Florbela Espanca nasceu no dia 8 de Dezembro de 1894. Morreu em 1930.)

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Florbela Espanca 2

Volúpia

No divino impudor da mocidade,
Nesse êxtase pagão que vence a sorte,
Num frémito vibrante de ansiedade,
Dou-te o meu corpo prometido à morte!

A sombra entre a mentira e a verdade...
A nuvem que arrastou o vento norte...
- Meu corpo! Trago nele um vinho forte:
Meus beijos de volúpia e de maldade!

Trago dálias vermelhas no regaço...
São os dedos do sol quando te abraço,
Cravados no teu peito como lanças!

E do meu corpo os leves arabescos
Vão-te envolvendo em círculos dantescos
Felinamente, em voluptuosas danças...


"Charneca em Flor", Florbela Espanca


(Florbela Espanca nasceu no dia 8 de Dezembro de 1894. Morreu em 1930.)