segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Severiano de Resende

Hipogrifo 

Resfolega o hipogrifo, indômito, batendo
no asfalto as patas de ouro; e os olhos de águia adusta,
sobre as nuvens e além dos sóis ovante erguendo,
já no azul a cabeça em fogo barafusta.

O éter transpõe, afiando as asas, belo e horrendo,
e haurindo a Vida e a Graça e a Idéia eterna e augusta,
ó como eu nesse arroubo insofrido compreendo
que ao estranho hipogrifo o gesto astral não custa.  

No solo os áureos pés, no empíreo em glória a fronte,
terras, mares e céus, de horizonte a horizonte,
mede, calcando o pó, e os pátamos transcende.  

Brotam fráguas de luz na poeira dos seus rastros
e nas landas glaciais e tristes, ermas de astros,
novas constelações o seu hálito acende.

"O Hipogrifo, São Sebastião e Outros Poemas e Prosa", Severiano de Resende

(Severiano de Resende nasceu no dia 23 de Janeiro de 1871. Morreu em 1931.)

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