Mar em fora
Deixa singrar o barco a onda revolta! Deixa
Que siga e no horizonte intérmino se suma
E entoe o nauta heróico esta saudosa endecha
Cujo eco esparso fica ainda a chorar na bruma.
Que importa o rumo ignoto à proa que se apruma
Contra o euro que na enxárcia ríspida se queixa,
Se o rastro vai perder-se enfim por entre a espuma
Onde a nereida ablui a mádida madeixa?
Eu não quero saber que rota ideou o esquife
Indolente que além pela amplidão balança,
Sem temer que a borrasca instantânea o espatife.
Avante' o sonho, o sonho é que nos dá confiança!
Cuidado! barra afora esconde-se o arrecife!
Embora! no meu bojo arde e anseia a esperança.
"Mistérios", Severiano de Resende
(Severiano de Resende nasceu no dia 23 de Janeiro de 1871. Morreu em 1931.)
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quarta-feira, 23 de janeiro de 2019
segunda-feira, 23 de janeiro de 2017
Severiano de Resende
Hipogrifo
Resfolega o hipogrifo, indômito, batendo
no asfalto as patas de ouro; e os olhos de águia adusta,
sobre as nuvens e além dos sóis ovante erguendo,
já no azul a cabeça em fogo barafusta.
O éter transpõe, afiando as asas, belo e horrendo,
e haurindo a Vida e a Graça e a Idéia eterna e augusta,
ó como eu nesse arroubo insofrido compreendo
que ao estranho hipogrifo o gesto astral não custa.
No solo os áureos pés, no empíreo em glória a fronte,
terras, mares e céus, de horizonte a horizonte,
mede, calcando o pó, e os pátamos transcende.
Brotam fráguas de luz na poeira dos seus rastros
e nas landas glaciais e tristes, ermas de astros,
novas constelações o seu hálito acende.
"O Hipogrifo, São Sebastião e Outros Poemas e Prosa", Severiano de Resende
(Severiano de Resende nasceu no dia 23 de Janeiro de 1871. Morreu em 1931.)
Resfolega o hipogrifo, indômito, batendo
no asfalto as patas de ouro; e os olhos de águia adusta,
sobre as nuvens e além dos sóis ovante erguendo,
já no azul a cabeça em fogo barafusta.
O éter transpõe, afiando as asas, belo e horrendo,
e haurindo a Vida e a Graça e a Idéia eterna e augusta,
ó como eu nesse arroubo insofrido compreendo
que ao estranho hipogrifo o gesto astral não custa.
No solo os áureos pés, no empíreo em glória a fronte,
terras, mares e céus, de horizonte a horizonte,
mede, calcando o pó, e os pátamos transcende.
Brotam fráguas de luz na poeira dos seus rastros
e nas landas glaciais e tristes, ermas de astros,
novas constelações o seu hálito acende.
"O Hipogrifo, São Sebastião e Outros Poemas e Prosa", Severiano de Resende
(Severiano de Resende nasceu no dia 23 de Janeiro de 1871. Morreu em 1931.)
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