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sexta-feira, 22 de maio de 2026

Quando a memória é de plástico

Tornei a Fafe e fui à minha procura. Queria revisitar e mostrar o sítio exacto de onde a extraordinária matriarca dos Summavielles me atirava o retrato de Salazar, que na verdade era o "burro" de um baralho de cartas, como já aqui contei. Queria registar a frontaria que sei de cor da casa principal da família rica, um belíssimo palácio brasileiro que eu conheci por dentro e de boca aberta numa Páscoa em que fiz calos com a sineta do compasso. (Leio num interessante texto do blogue Sala de Visitas do Minho que o edifício da Rua Monsenhor Vieira de Castro foi construído em 1862. Idade de respeito.)
A famosa sacada ainda lá está. O meu passeio também. O resto não. Não sei há quanto tempo nem porquê e não me interessa por culpa de quem, a casa-mãe dos Summavielles está tapada por duas telas pintadas ao mau gosto dos piores cenários de teatrinho de escola do século passado. E mesmo em frente à nova jóia da coroa cultural da autarquia, o renovado Teatro-Cinema.
Se pensam que é uma crítica, estão enganados. Até porque, repito, não sei o que se passa e os gostos são relativos, como os pronomes. Só tive pena. Também pena de não poder fazer o retrato. Fiz isto:

Foto Hernâni Von Doellinger

O textinho de abertura e a fotografia publiquei-os no meu blogue Tarrenego! no dia 20 de Abril de 2012. Há dez anos, portanto. Consegui saber nessa altura que haveria um projecto arquitectónico para salvar o histórico imóvel, mas os seus autores ou representantes deixaram-me sem mais informações. Dez anos passaram e leio hoje no Expresso de Fafe que a Casa de José Florêncio Soares, assim se denominará oficialmente o edifício, estará actualmente "num estado calamitoso de degradação" e que há um trabalho premiado contendo "propostas" para a sua "reabilitação e requalificação". Fico mais descansado.
Marcamos então encontro para daqui a mais dez anos. Entretanto, aos alegados responsáveis pelo património fafense, estimo-lhes as melhoras.

P.S. - Publicado, no meu blogue Fafismos, no dia 7 de Outubro de 2022. Acabo de saber, pelo jornal O Minho, que parte da casa histórica e simbólica, talvez até icónica porém abandonada, ruiu ontem e foi preciso chamar os bombeiros e a polícia. Evidentemente.

sexta-feira, 29 de dezembro de 2023

O jogo do pau de... Cabeceiras de Basto

Dizia eu: E não. O jogo do pau não é "uma das maiores tradições do concelho" de Fafe, ao contrário do que diz, por outro lado, a néscia propaganda autárquica. É tão tradição em Fafe como em Lisboa, em Trás-os-Montes, no Ribatejo, na Estremadura, no Algarve ou na Galiza. O jogo do pau é tão tradição em Fafe como a sueca, o futebol ou a malha, a petanca, o esconde-esconde ou o dominó, que se jogam em todo o lado.
Não. O jogo do pau não foi inventado em Fafe, não deriva da Justiça de Fafe. A Justiça de Fafe é outra coisa.

Dizia eu, no texto "À justiça o que é da justiça" com que, a 3 de Agosto de 2022, abri o meu blogue Fafismos, então ainda denominado "De Fafe com muito gosto". E que se segue? Soube-se anteontem, o "Jogo do Pau de Cabeceiras de Basto" acaba de ser classificado como património cultural imaterial. Exactamente, o jogo do pau de Cabeceiras de Basto.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

A problemática da telha. De vidro.

                                                                                        Foto Hernâni Von Doellinger

Na minha terra, telha diz-se têlha. Sou de Fafe. Na terra onde moro, que também é minha por usucapião, telha diz-se telha. Moro em Matosinhos e gosto. A doutora Edite Estrela, quando tinha a televisiva mania da gramática, chamava talha à telha e eu não gostava. Mas compreende-se a confusão linguística que lhe enrodilha a cabeça: a senhora nasceu em Carrazeda de Ansiães, foi presidente da Câmara de Sintra e, diz ela, é actualmente a "deputada mais famosa do Parlamento Europeu". O Parlamento Europeu, não é que interesse mas aqui fica, tem sede ainda que tremida em Estrasburgo, França. Em França, telha diz-se, por exemplo, tuile. A França é muito famosa por causa do René Artois e da telha francesa.
Quer-se dizer: telha é efectivamente assunto vário, pano para mangas e com delicadas implicações internacionais. Uma verdadeira problemática, como dizemos os inteligentes de hoje em dia.

Ora portanto: a Câmara de Matosinhos decidiu dar mais cinco meses para as obras de requalificação da Casa de Chá de Siza Vieira. Cinco meses, porque não há telhas que sirvam. Vão decerto ser feitas de encomenda, e está bem. Não critico nem comento - quem sou eu para elaborar sobre telhas, iabadubidubidubidubidom, ou deliberações autárquicas que obviamente não alcanço? Registo apenas. Limito-me à concomitância da telhal problemática. Dão-nos música, que mais queremos?

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

As castanhas são como o próprio nome indica

Foto Hernâni Von Doellinger

As castanhas. As castanhas têm pouco que se lhes diga. Chamam-se castanhas por causa da própria cor, acho eu, e estão a dois euros se forem 15 e a cinco euros se forem 40 - preços à saída do assador. As castanhas fazem-me gases e há cinco qualidades de castanhas: castanhas cruas, que sabem a infância e a dor de barriga, castanhas cozidas, que precisam de saber a funcho, castanhas piladas, que são uma pouca-vergonha, castanhas assadas, que são quentes e boas, e castanhas com bicho, que são uma merda. No Verão, as castanhas são tremoços.
As castanhas vêm dos ouriços, que antigamente tinham a mania de cair em cima das cabeças das pessoas. Os ouriços de Fafe eram os piores. Havia um castanheiro nas traseiras do tasco do senhor Augusto Paredes, encostado ao muro, mesmo em frente ao Palacete, e os ouriços caíam na rua como tordos. Mas esperavam por mim, matreiros e organizados, para me desabarem aos pares ou num indecente mènage à trois mesmo em cheio no cocuruto. E eu sem capacete. Era um cristo.
Para além dos filhos da puta dos ouriços e das castanhas que servem para a nossa alimentação, os castanheiros davam também uma tirinhas muito jeitosas para se fazerem grinaldas e óculos de brincar. Os castanheiros podem ter mais de mil anos, mas o do quintal do Paredes não. O quintal do Paredes era também o quintal do senhor Jerónimo Barbeiro e do senhor Lopes Agulheiro. O castanheiro do Paredes agora é um prédio de rés-do-chão e quatro andares. Mesmo em frente, centenário e ainda elegante e digno, agora é o Palacete que cai. Cai aos bocados, desgostoso com o abandono e a ignorância adjacente.
Derivado às castanhas existem também as castanhadas e as castanholas. As castanhadas quem as sabe explicar melhor é o Luisão do Benfica. E as castanholas fazem um papelão nas mãos de Lucero Tena.
Eu gosto muito de castanhas. E afinal as castanhas têm bastante que se lhes diga.

(Escrevi e publiquei este texto no dia 21 de Novembro de 2012. Repito-o hoje, porque estamos no tempo e para alimentar uma certa curiosidade fafense que de repente tropeçou neste pobre blogue. Se queriam mais "política", tomem lá castanhas. E façam-me um favor, que são dois: ouçam a Lucero Tena e não deixem morrer as nossas bandas.)

sábado, 25 de maio de 2013

De olho no Mercado de Matosinhos

O Mercado de Matosinhos foi classificado como monumento de interesse público, e mais valia estarem quietos. Agora temo que lhe aconteça o pior. Olhem para o Senhor do Padrão: é monumento nacional - isto é, joga na Liga dos Campeões destas coisas do património - e está num abandono que é uma dor de alma.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

As castanhas são como o próprio nome indica

Foto Hernâni Von Doellinger

As castanhas. As castanhas têm pouco que se lhes diga. Chamam-se castanhas por causa da própria cor, acho eu, e estão a dois euros se forem 15 e a cinco euros se forem 40 - preços à saída do assador. As castanhas fazem-me gases e há cinco qualidades de castanhas: castanhas cruas, que sabem a infância e a dor de barriga, castanhas cozidas, que precisam de saber a funcho, castanhas piladas, que são uma pouca-vergonha, castanhas assadas, que são quentes e boas, e castanhas com bicho, que são uma merda. No Verão, as castanhas são tremoços.
As castanhas vêm dos ouriços, que antigamente tinham a mania de cair em cima das cabeças das pessoas. Os ouriços de Fafe eram os piores. Havia um castanheiro nas traseiras do tasco do senhor Augusto Paredes, encostado ao muro, mesmo em frente ao Palacete, e os ouriços caíam na rua como tordos. Mas esperavam por mim, matreiros e organizados, para me desabarem aos pares ou num indecente mènage à trois mesmo em cheio no cocuruto. E eu sem capacete. Era um cristo.
Para além dos filhos da puta dos ouriços e das castanhas que servem para a nossa alimentação, os castanheiros davam também uma tirinhas muito jeitosas para se fazerem grinaldas e óculos de brincar. Os castanheiros podem ter mais de mil anos, mas o do quintal do Paredes não. O quintal do Paredes era também o quintal do senhor Jerónimo Barbeiro e do senhor Lopes Agulheiro. O castanheiro do Paredes agora é um prédio de rés-do-chão e quatro andares. Mesmo em frente, centenário e ainda elegante e digno, agora é o Palacete que cai. Cai aos bocados, desgostoso com o abandono e a ignorância adjacente.
Derivado às castanhas existem também as castanhadas e as castanholas. As castanhadas quem as sabe explicar melhor é o Luisão do Benfica. E as castanholas fazem um papelão nas mãos de Lucero Tena.
Eu gosto muito de castanhas. E afinal as castanhas têm bastante que se lhes diga.

domingo, 27 de maio de 2012

Matosinhos, os votos e os devotos

Foto Hernâni Von Doellinger

O Senhor do Padrão, em Matosinhos, é um monumento. Um monumento nacional ao desmazelo municipal. Um monumento à irresponsabilidade, à ignorância, à incultura, aos desrespeito, ao lixo, ao abandono, um convite descarado ao vandalismo. Obra da  autarquia e não só. A cretinagem não se fez rogada e destruiu a porta do belíssimo fontanário que encosta ao Porto de Leixões. Mostrei aqui o triste espectáculo que era no dia 13 de Março de 2012.

Foto Hernâni Von Doellinger

Mas a coisa não ficou assim. Aproveitando a noite de 24 para 25 de Março, alguém rebentou de vez o gradeamento que rodeia o conjunto monumental e roubou o aloquete que aparentemente também não servia para nada (cadeado que aparentemente também não servia para nada, se for lido em Lisboa). Denunciei.

Foto Hernâni Von Doellinger

Dois dias depois - e sinceramente não sei se o Tarrenego! ajudou -, a Câmara decidiu assumir responsabilidades e fazer alguma coisa. Foi competente e drástica: recolheu os destroços da porta do fontanário.

Foto Hernâni Von Doellinger

Fiquei à espera do restauro, do asseio, do interesse, da dignidade. Esperei sentado e de boné na cabeça, por causa do sol. Fiz bem. Passaram-se dois meses.
Ontem, finalmente, tudo estava mudado. Aleluia! Aleluia! Encontrei o Senhor do Padrão de cara lavada, ervas arrancadas, varrido, num brinco, e até tinha um aloquete novo (cadeado novo, se lido em Lisboa). Um aloquete made in China (cadeado made in China, se lido em Lisboa).

Foto Hernâni Von Doellinger

Melhor ainda: o problema da porta do fontanário foi resolvido de vez. Agora não há porta propriamente dita, mas os especialistas do património taparam o buraco com algo que pelo menos imita muito bem o cimento. De mestre!

Foto Hernâni Von Doellinger

Ah!, já me esquecia: hoje é dia da procissão do Senhor de Matosinhos, que, como manda a tradição, faz a sua visita anual ao Senhor do Padrão. Uma "grandiosa procissão", diz a autarquia, uma procissão habitualmente frequentada por milhares de votos. De devotos, queria eu dizer.