Em curto josezinho rebuçado,
Loiro peralta a rua passeava;
Seus votos pela adufa lhe aceitava
Com brando riso um rosto delicado;
O pai da moça, que era ginja honrado,
E o caso havia dias espreitava,
De membrudo caixeiro se escoltava,
Com bengala na mão, chambre traçado:
Fugira o moço, qual ligeira pela,
Se as fivelas, de marca agigantada,
Deixassem navegar a nau à vela;
Mas viu uma entre esquinas encalhada;
E, se ninguém comprou maior fivela,
Também ninguém levou maior maçada.
Nicolau Tolentino
(Nicolau Tolentino nasceu no dia 10 de Setembro de 1740. Morreu em 1811.)
Mostrar mensagens com a etiqueta Nicolau Tolentino. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Nicolau Tolentino. Mostrar todas as mensagens
quinta-feira, 10 de setembro de 2020
terça-feira, 10 de setembro de 2019
Nicolau Tolentino 7
Fofo colchão, as plumas bem erguidas,
E sobre os ombros nas jucundas frentes
De enrolado cabelo anéis pendentes,
Longos chorões, belezas estendidas,
Era esta das matronas presumidas
A moda, que traziam bem contentes;
Riam-se delas as modestas gentes
Vendo pequenas poupas esquecidas.
Nisto a gentil madama aperaltada,
Grande autora de trastes esquisitos,
Nova moda lhe inventa abandalhada.
Reprova-lhe áureos leques com mil ditos.
Eis senão quando (ó moda endiabrada!)
Abanam-se com asas de mosquito.
Nicolau Tolentino
(Nicolau Tolentino nasceu no dia 10 de Setembro de 1740. Morreu em 1811.)
E sobre os ombros nas jucundas frentes
De enrolado cabelo anéis pendentes,
Longos chorões, belezas estendidas,
Era esta das matronas presumidas
A moda, que traziam bem contentes;
Riam-se delas as modestas gentes
Vendo pequenas poupas esquecidas.
Nisto a gentil madama aperaltada,
Grande autora de trastes esquisitos,
Nova moda lhe inventa abandalhada.
Reprova-lhe áureos leques com mil ditos.
Eis senão quando (ó moda endiabrada!)
Abanam-se com asas de mosquito.
Nicolau Tolentino
(Nicolau Tolentino nasceu no dia 10 de Setembro de 1740. Morreu em 1811.)
segunda-feira, 10 de setembro de 2018
Nicolau Tolentino 6
A guerra
Musa, pois cuidas que é sal
o fel de autores perversos,
e o mundo levas a mal,
porque leste quatro versos
de Horácio e de Juvenal,
Agora os verás queimar,
já que em vão os fecho e os sumo;
e leve o volúvel ar,
de envolta como turvo fumo,
o teu furor de rimar.
Se tu de ferir não cessas,
que serve ser bom o intento?
Mais carapuças não teças;
que importa dá-las ao vento,
se podem achar cabeças?
[...]
"Obras Poéticas", Nicolau Tolentino
(Nicolau Tolentino nasceu no dia 10 de Setembro de 1740. Morreu em 1811.)
Musa, pois cuidas que é sal
o fel de autores perversos,
e o mundo levas a mal,
porque leste quatro versos
de Horácio e de Juvenal,
Agora os verás queimar,
já que em vão os fecho e os sumo;
e leve o volúvel ar,
de envolta como turvo fumo,
o teu furor de rimar.
Se tu de ferir não cessas,
que serve ser bom o intento?
Mais carapuças não teças;
que importa dá-las ao vento,
se podem achar cabeças?
[...]
"Obras Poéticas", Nicolau Tolentino
(Nicolau Tolentino nasceu no dia 10 de Setembro de 1740. Morreu em 1811.)
domingo, 10 de setembro de 2017
Nicolau Tolentino 5
Pintando uma bulha de dois bêbados
De descalços miqueletes rodeado,
Por escuro armazém da Boavista
Vinha saindo um trémulo chupista,
Em rota capa às canhas embuçado;
Outro que tal o traz desafiado,
Cachimbo no chapéu, calção de lista;
E fora o caso porque o tal copista
Pagou primeiro, sendo convidado;
Ambos errando uma infeliz punhada,
Consigo em terra os vis atletas deram
Ao som de vergonhosa surriada;
Famosos socos entre os dois se esperam;
Mas a gente ao redor ficou lograda,
Porque em vez de brigar adormeceram.
"Obras Poéticas", Nicolau Tolentino
(Nicolau Tolentino nasceu no dia 10 de Setembro de 1740. Morreu em 1811.)
De descalços miqueletes rodeado,
Por escuro armazém da Boavista
Vinha saindo um trémulo chupista,
Em rota capa às canhas embuçado;
Outro que tal o traz desafiado,
Cachimbo no chapéu, calção de lista;
E fora o caso porque o tal copista
Pagou primeiro, sendo convidado;
Ambos errando uma infeliz punhada,
Consigo em terra os vis atletas deram
Ao som de vergonhosa surriada;
Famosos socos entre os dois se esperam;
Mas a gente ao redor ficou lograda,
Porque em vez de brigar adormeceram.
"Obras Poéticas", Nicolau Tolentino
(Nicolau Tolentino nasceu no dia 10 de Setembro de 1740. Morreu em 1811.)
Etiquetas:
cultura,
literatura,
livros,
Nicolau Tolentino,
Obras Poéticas,
Pintando uma bulha de dois bêbados,
poesia,
poetas,
série Escritores
sábado, 10 de setembro de 2016
Nicolau Tolentino 4
Fiei-me nas promessas que afectavas,
Nas lágrimas fingidas que vertias,
Nas ternas expressões que me fazias,
Nessas mãos que as minhas apertavas.
Talvez, cruel, que, quando as animavas,
Que eram doutrem na ideia fingirias,
E que os olhos banhados mostrarias
De pranto, que por outrem derramavas.
Mas eu sou tal, ingrata, que, inda vendo
Os meus tristes amores mal seguros,
De amar-te nunca, nunca me arrependo.
Ainda adoro os olhos teus perjuros,
Ainda amo a quem me mata, ainda acendo,
Em aras falsas, holocaustos puros.
"Antologia Poética", Nicolau Tolentino
(Nicolau Tolentino nasceu no dia 10 de Setembro de 1740. Morreu em 1811.)
Nas lágrimas fingidas que vertias,
Nas ternas expressões que me fazias,
Nessas mãos que as minhas apertavas.
Talvez, cruel, que, quando as animavas,
Que eram doutrem na ideia fingirias,
E que os olhos banhados mostrarias
De pranto, que por outrem derramavas.
Mas eu sou tal, ingrata, que, inda vendo
Os meus tristes amores mal seguros,
De amar-te nunca, nunca me arrependo.
Ainda adoro os olhos teus perjuros,
Ainda amo a quem me mata, ainda acendo,
Em aras falsas, holocaustos puros.
"Antologia Poética", Nicolau Tolentino
(Nicolau Tolentino nasceu no dia 10 de Setembro de 1740. Morreu em 1811.)
quinta-feira, 10 de setembro de 2015
Nicolau Tolentino 3
Chaves na mão, melena desgrenhada,
Batendo o pé na casa, a mãe ordena
Que o furtado colchão, fofo e de penas,
A filha o ponha ali, ou a criada.
A filha, moça esbelta, e aperaltada,
Lhe diz coa doce voz, que o ar serena:
- "Sumiu-se-lhe um colchão? É forte pena;
Olhe não fique a casa arruinada..."
- "Tu respondes assim? Tu zombas disto?
Tu cuidas que, por ter pai embarcado,
Já a mãe não tem mãos?" E, dizendo isto,
Arremete-lhe à cara e ao penteado.
Eis senão quando (caso nunca visto!)
Sai-lhe o colchão de dentro do toucado!...
Nicolau Tolentino
(Nicolau Tolentino nasceu no dia 10 de Setembro de 1740. Morreu em 1811.)
Batendo o pé na casa, a mãe ordena
Que o furtado colchão, fofo e de penas,
A filha o ponha ali, ou a criada.
A filha, moça esbelta, e aperaltada,
Lhe diz coa doce voz, que o ar serena:
- "Sumiu-se-lhe um colchão? É forte pena;
Olhe não fique a casa arruinada..."
- "Tu respondes assim? Tu zombas disto?
Tu cuidas que, por ter pai embarcado,
Já a mãe não tem mãos?" E, dizendo isto,
Arremete-lhe à cara e ao penteado.
Eis senão quando (caso nunca visto!)
Sai-lhe o colchão de dentro do toucado!...
Nicolau Tolentino
(Nicolau Tolentino nasceu no dia 10 de Setembro de 1740. Morreu em 1811.)
quarta-feira, 10 de setembro de 2014
Nicolau Tolentino 2
A carnal tentação desenfreada,
Que ao sangue quente alta justiça pede,
Fez com que eu, embrulhando-me na rede,
Subisse de uma Puta a infame escada.
Ligeiras pulgas saltam de emboscada,
Fartando em mim de sangue humano a sede;
Arde a vela, pregada na parede,
Já de antigos morrões afogueada.
Saiu da alcova a desgrenhada Fúria,
Respirando venal sensualidade,
Vil desalinho, sórdida penúria.
Muito pode a pobreza e a porquidade!
Arriei as bandeiras à luxúria,
Jurei no altar de Vénus castidade.
Nicolau Tolentino
(Nicolau Tolentino nasceu no dia 10 de Setembro de 1740. Morreu em 1811.)
Que ao sangue quente alta justiça pede,
Fez com que eu, embrulhando-me na rede,
Subisse de uma Puta a infame escada.
Ligeiras pulgas saltam de emboscada,
Fartando em mim de sangue humano a sede;
Arde a vela, pregada na parede,
Já de antigos morrões afogueada.
Saiu da alcova a desgrenhada Fúria,
Respirando venal sensualidade,
Vil desalinho, sórdida penúria.
Muito pode a pobreza e a porquidade!
Arriei as bandeiras à luxúria,
Jurei no altar de Vénus castidade.
Nicolau Tolentino
(Nicolau Tolentino nasceu no dia 10 de Setembro de 1740. Morreu em 1811.)
terça-feira, 10 de setembro de 2013
Nicolau Tolentino
Deitando um cavalo à margem
Vai, mísero cavalo lazarento,
Vai, mísero cavalo lazarento,
Pastar longas campinas livremente;
Não percas tempo, enquanto to consente
De magros cães faminto ajuntamento.
Esta sela, teu único ornamento,
Para sinal da minha dor veemente,
De torto prego ficará pendente,
Despojo inútil do inconstante vento.
Morre em paz; que, em havendo algum dinheiro,
Hei-de mandar, em honra de teu nome,
Abrir em negra pedra este letreiro:
- "Aqui, piedoso entulho os ossos come
Do mais fiel, mais rápido sendeiro,
Que fora eterno a não morrer de fome".
"Obras Completas", Nicolau Tolentino
(Nicolau Tolentino de Almeida nasceu no dia 10 de Setembro de 1740. Morreu em 1811.)
Não percas tempo, enquanto to consente
De magros cães faminto ajuntamento.
Esta sela, teu único ornamento,
Para sinal da minha dor veemente,
De torto prego ficará pendente,
Despojo inútil do inconstante vento.
Morre em paz; que, em havendo algum dinheiro,
Hei-de mandar, em honra de teu nome,
Abrir em negra pedra este letreiro:
- "Aqui, piedoso entulho os ossos come
Do mais fiel, mais rápido sendeiro,
Que fora eterno a não morrer de fome".
"Obras Completas", Nicolau Tolentino
(Nicolau Tolentino de Almeida nasceu no dia 10 de Setembro de 1740. Morreu em 1811.)
Etiquetas:
cultura,
Deitando um cavalo à margem,
literatura,
livros,
Nicolau Tolentino,
Nova Arcádia,
Obras Completas,
poesia,
poetas,
sátira,
série Escritores
Subscrever:
Mensagens (Atom)