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terça-feira, 9 de março de 2021

José Bezerra Gomes 7

Lápis

Confesso-me
de assim
ter sido
Ainda que não fosse mais

"Antologia Poética", José Bezerra Gomes

(José Bezerra Gomes nasceu no dia 9 de Março de 1911. Morreu em 1982.)

terça-feira, 15 de dezembro de 2020

Marcos Konder Reis 5

Aparência

Cismo, numa tarde, entre esta tarde e a mor-
te, a verdade que nasce na minha carne:

Vivemos de beleza, de silêncio e beleza.
Trilhamos uma estrada incerta e traiçoeira,
A estrada perfumada por um crime.

Que para nós toda certeza surge, frágil e efé-
mera, como o desenho de um dedo nos vi-
dros embaçados de uma janela durante o
mês inverno. 

"Antologia Poética", Marcos Konder Reis

(Marcos Konder Reis nasceu no dia 15 de Dezembro de 1922. Morreu em 2001.)

segunda-feira, 9 de março de 2020

José Bezerra Gomes 6

Circo

O palhaço obrava prodígios
diante da plateia estupefata...

O domador de feras,
exibindo o peito medalhado,
administrava ao rei dos animais
os gestos da completa obediência...

O malabarista, engolindo labaredas,
monumentava o silêncio geral...

Os pródigos ofereciam mais bebida...
Os mais irreverentes segredavam boatos...
E os obscenos se compraziam anedóticos...

"Antologia Poética", José Bezerra Gomes

(José Bezerra Gomes nasceu no dia 9 de Março de 1911. Morreu em 1982.)

domingo, 26 de janeiro de 2020

Afonso Lopes Vieira 6

O segredo do mar

A "Flor do Mar" avançando
Navegava, navegava,
Lá para onde se via
O vulto que ela buscava.

Era tão grande, tão grande
Que a vista toda tapava.

E Bartolomeu erguido
Aos marinheiros bradava
Que ninguém tivesse medo
Do gigante que ali estava.

E mais perto agora estão
Do que procurando vão!

Bartolomeu que viu?
Que descobriu o valente?
- Que o gigante era um penedo
que tinha forma de gente?

Que era dantes o mar? Um quarto escuro
Onde os meninos tinham medo de ir.
Agora o mar é livre e é seguro
E foi um português que o foi abrir.


"Antologia Poética", Afonso Lopes Vieira

(Afonso Lopes Vieira nasceu no dia 26 de Janeiro de 1878. Morreu em 1946.)

sábado, 9 de março de 2019

José Bezerra Gomes 5

Com a melancolia, na minha rua

Senhor, cotidianizaram a vida,
com escassez geral da alegria.
Senhor, mercantilizaram a vida,
com integral renúncia da poesia.


As ruas estão repletas, Senhor,
repletas de Manelões,
seres cotidianos,
criaturas pluralizadas,
com total embrutecimento,
absoluta carência de verve.


Os cafés estão completos, Senhor,
completos de Manelões,
seres habituais,
criaturas comercializadas,
com grande dano para a discussão,
sensível falta de assunto.


As praças estão cheias, Senhor,
cheias de Manelões,
seres melancólicos,
criaturas cotidianizadas,
com notório prejuízo para o discurso,
rigorosa proibição do aparte.


Senhor, amanuelaram o mundo,
compadecei-vos Senhor, do vate,
de João, Pedro e Paulo, Senhor.

"Antologia Poética", José Bezerra Gomes

(José Bezerra Gomes nasceu no dia 9 de Março de 1911. Morreu em 1982.)

sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

Judith Teixeira 3

Mais beijos

Devagar...
outro beijo... ou ainda...
O teu olhar, misterioso e lento,
veio desgrenhar
a cálida tempestade
que me desvaira o pensamento!

Mais beijos!...
Deixa que eu, endoidecida,
incendeie a tua boca
e domine a tua vida!

Sim, amor...
deixa que se alongue mais
este momento breve!...
- que o meu desejo subindo
solte a rubra asa
que nos leve!


"Antologia Poética", Judith Teixeira

(Judith Teixeira nasceu no dia 25 de Janeiro de 1880. Morreu em 1959.)

sexta-feira, 19 de outubro de 2018

Vinicius de Moraes 7

Eu te amo, Maria, eu te amo tanto
Que o meu peito me dói como em doença
E quanto mais me seja a dor intensa
Mais cresce na minha alma teu encanto.


Como a criança que vagueia o canto
Ante o mistério da amplidão suspensa
Meu coração é um vago de acalanto
Berçando versos de saudade imensa.


Não é maior o coração que a alma
Nem melhor a presença que a saudade
Só te amar é divino, e sentir calma...


E é uma calma tão feita de humildade
Que tão mais te soubesse pertencida
Menos seria eterno em tua vida.


"Antologia Poética", Vinicius de Moraes

(Vinicius de Moraes nasceu no dia 19 de Outubro de 1913. Morreu em 1980.)

sexta-feira, 6 de julho de 2018

Tomaz de Figueiredo 4

Para quê me deste à vida?

Para que foi, ó Mãe, que me criaste?
Mas - antes! - para quê me deste à vida?
Emendando: porquê, de espavorida,
o pescoço me não estorcegaste?

Melhor andaras, Mãe, pois destinaste,
assim, a tua carne a ser perdida.
Ah! Mãe! Na tua gélida jazida,
saberás que, ao seres mãe, me assassinaste?

Se o sabes, no teu ventre, como cunhas,
deves cravar, em desespero, as unhas,
deves na campa estertorar aos ais.

Aqui estou, Mãe, agora, nestas ânsias.
Aqui estou, sem estar. Rojo em distâncias,
só e sem mim, - que é um só demais. 


"Antologia Poética", Tomaz de Figueiredo

(Tomaz de Figueiredo nasceu no dia 6 de Julho de 1902. Morreu em 1970.)

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

José Agostinho de Macedo

A cidade bela

Quanto é bela Ulisseia! E quanto é grata
Dos sete montes seus ao longe a vista!
Das altas torres, pórticos soberbos,
Quanto é grande, magnífico o prospecto!
Humilde e bonançoso o flavo Tejo,
Sobre areias auríferas correndo,
As praias lhe enriquece, as plantas beija.
Quão denso bosque de cavalos pinhos
Sobre a espádua sustenta! Do Oriente
Rubins acesos, fugidas safiras,
E da opulenta América os tesouros,
Cortando os mares líquidos, trouxeram.
Nela é mais puro o ar; e o Céu se esmalta
De mais sereno azul. O Sol brilhante,
Correndo o vasto Céu, se apraz de vê-la.
E quase se suspende, e, meigo, envia
Sobre ela o raio extremo, quando acaba
A lúcida carreira, a frente de ouro
No seio esconde das cerúleas ondas.


"Antologia Poética", José Agostinho de Macedo

(José Agostinho de Macedo nasceu no dia 11 de Serembro de 1761. Morreu em 1831.)

sábado, 12 de agosto de 2017

Miguel Torga 5

Prospecção

Não são pepitas de oiro que procuro.
Oiro dentro de mim, terra singela!
Busco apenas aquela
Universal riqueza
Do homem que revolve a solidão:
O tesoiro sagrado
De nenhuma certeza,
Soterrado
Por mil certezas de aluvião.
Cavo,
Lavo,
Peneiro,
Mas só quero a fortuna
De me encontrar.
Poeta antes dos versos
E sede antes da fonte.
Puro como um deserto.
Inteiramente nu e descoberto.


"Antologia Poética", Miguel Torga

(Miguel Torga nasceu no dia 12 de Agosto de 1907. Morreu em 1995.)

quarta-feira, 8 de março de 2017

Ruy Cinatti 3

Teus olhos

Teus olhos, Honorine, cruzaram oceanos,
longamente tristes, sequiosos,
como flor aberta nas sombras em busca do Sol.
Vieram com o vento e com as ondas,
através dos campos e bosques da beira-mar.
Vieram até mim, estudante triste,
dum país do Sul.

"Antologia Poética", Ruy Cinatti

(Ruy Cinatti nasceu no dia 8 de Março de 1915. Morreu em 1986.)

domingo, 29 de janeiro de 2017

Antônio Geraldo Ramos Jubé

Descrição do Araguaia

O tempo inexiste. Dia e noite
são faces da mesma eternidade.
A eternidade da areia construída
de pequeninas coisas acumuladas.


Em dois braços o rio nos envolve.
Move-se em suas entranhas
um ser de frágível armadura.
O aço o rouba a seu elemento.


Despojado de seus atributos
em postas claras jaz.
A barbatana chicoteava
o crespo pelo da água.


Exploramos os indícios da praia.
Alguma fome esconsa nos consome
como se nos escapasse, a todo instante,
a essência do homem.


A gaivota se equilibra
aflita
no arame do ar.

E a noite de Matacoirá
é um jaó, incessante.


"Antologia Poética", Antônio Geraldo Ramos Jubé

(Antônio Geraldo Ramos Jubé nasceu no dia 29 de Janeiro de 1927. Morreu em 2010.)

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

João Henrique Serra Azul

A um pássaro cativo

Cantas até os últimos minutos
Todas as melodias do teu seio,
Bem como a árvore amigo que deu frutos
Ao mesmo lenhador que a corta ao meio...


Da mágoa, ferem-te aguilhões hirsutos.
Contudo, cantas à tristeza alheio...
Se eu costumo chorar de olhos enxutos,
Tu costumas chorar com teu gorjeio.

Porém contigo como me pareço;
Sofres - e expandes melodias santas,
Sofro - e gargalho quanto mais padeço.

Não penses que enlouqueço e tresvario:
- Como tu, que soluças quando cantas,
Eu choro, passarinho, quando rio
.

  
"Antologia Poética", João Henrique Serra Azul

(João Henrique Serra Azul nasceu no dia 4 de Janeiro de 1936. Morreu em 2015.)

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Vinicius de Moraes 4

A mulher que passa

Meu Deus, eu quero a mulher que passa.
Seu dorso frio é um campo de lírios
Tem sete cores nos seus cabelos
Sete esperanças na boca fresca!

Oh! como és linda, mulher que passas
Que me sacias e suplicias
Dentro das noites, dentro dos dias!

Teus sentimentos são poesia
Teus sofrimentos, melancolia.
Teus pelos leves são relva boa
Fresca e macia.
Teus belos braços são cisnes mansos
Longe das vozes da ventania.

Meu Deus, eu quero a mulher que passa!

Como te adoro, mulher que passas
Que vens e passas, que me sacias
Dentro das noites, dentro dos dias!
Por que me faltas, se te procuro?
Por que me odeias quando te juro
Que te perdia se me encontravas
E me encontrava se te perdias?

Por que não voltas, mulher que passas?
Por que não enches a minha vida?
Por que não voltas, mulher querida
Sempre perdida, nunca encontrada?
Por que não voltas à minha vida?
Para o que sofro não ser desgraça?

Meu Deus, eu quero a mulher que passa!
Eu quero-a agora, sem mais demora
A minha amada mulher que passa!

No santo nome do teu martírio
Do teu martírio que nunca cessa
Meu Deus, eu quero, quero depressa
A minha amada mulher que passa!

Que fica e passa, que pacifica
Que é tanto pura como devassa
Que boia leve como a cortiça
E tem raízes como a fumaça
.

"Antologia Poética", Vinicius de Moraes

(Vinicius de Moraes nasceu no dia 19 de Outubro de 1913. Morreu em 1980.)

sábado, 10 de setembro de 2016

Nicolau Tolentino 4

Fiei-me nas promessas que afectavas,
Nas lágrimas fingidas que vertias,
Nas ternas expressões que me fazias,
Nessas mãos que as minhas apertavas.

Talvez, cruel, que, quando as animavas,
Que eram doutrem na ideia fingirias,
E que os olhos banhados mostrarias
De pranto, que por outrem derramavas.

Mas eu sou tal, ingrata, que, inda vendo
Os meus tristes amores mal seguros,
De amar-te nunca, nunca me arrependo.

Ainda adoro os olhos teus perjuros,
Ainda amo a quem me mata, ainda acendo,
Em aras falsas, holocaustos puros.


"Antologia Poética", Nicolau Tolentino

(Nicolau Tolentino nasceu no dia 10 de Setembro de 1740. Morreu em 1811.)

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Vinicius de Moraes 3

 Soneto de devoção

Essa mulher que se arremessa, fria
E lúbrica aos meus braços, e nos seios
Me arrebata e me beija e balbucia
Versos, votos de amor e nomes feios.


Essa mulher, flor de melancolia
Que se ri dos meus pálidos receios
A única entre todas a quem dei
Os carinhos que nunca a outra daria.


Essa mulher que a cada amor proclama
A miséria e a grandeza de quem ama
E guarda a marca dos meus dentes nela.


Essa mulher é um mundo! - uma cadela
Talvez… - mas na moldura de uma cama
Nunca mulher nenhuma foi tão bela!


"Antologia Poética", Vinicius de Moraes

(Vinicius de Moraes nasceu no dia 19 de Outubro de 1913. Morreu em 1980.)