Mostrar mensagens com a etiqueta Ruy Cinatti. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Ruy Cinatti. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 8 de março de 2021

Ruy Cinatti 7

Navios de vento

Fechei a minha janela
ao vento que vem do largo
que entra pela foz do rio
e declina pela cidade
silvando pelos telhados
que lhe servem de desvio.
No rio sobem navios
que apitam de quando em quando.
Oh mudo pranto fechado,
que se ouve no meu quarto!

Mas o vento força a porta
sublinha-se pelas frinchas
com denodado desígnio
que me fere de malícia.
Abro a janela fecho-a
e recebo-o em minha casa
com honras de visitante,
pé atrás, outro adiante,
como se fosse esperado.
Oh pranto desenganado!

Não converso, não me espanto
com o que o vento sussurra
quando entra de improviso.
O que se ouve no meu quarto
é um anjo apavorado
que me pretende assustar
com uma voz de além-túmulo
ouvida algures, além mar.
Oh lamento recordado
de uma criança a chorar!

Eu vejo cavalos brancos
galopando sobre as nuvens,
as crinas ao ar soltando
como um cardume assustado.
O vento que me percorre
rodopia sem cessar
enche-me o quarto todo
de furtivos sentimentos
difíceis de controlar.
Oh mudo pranto fechado
a sete chaves pelo vento!

Ruy Cinatti

(Ruy Cinatti nasceu no dia 8 de Março de 1915. Morreu em 1986.)

domingo, 8 de março de 2020

Ruy Cinatti 6

Entrei pelo mar

Entrei pelo mar mulher
açodado, a colher algas
Esqueci-me do meu mister
embalado pelas ondas.

O mar homem não se esquece
embalado pelas ondas.


Ruy Cinatti

(Ruy Cinatti nasceu no dia 8 de Março de 1915. Morreu em 1986.)

sexta-feira, 8 de março de 2019

Ruy Cinatti 5

Memória amada

Vinham de longe em bandos. Acorriam
Jubilosos. Fantasias
De parques pluviosos
E, descendo,
Os patos bravos lançados
Entre juncos, salgueiros e veados.
Tarde,
Muito tarde, uns olhos tais
Haviam de aparecer, sobressaltados
Entre enigmas e um floco de cabelos
Osculado pelo vento. Alegorias...
Do agora ou nunca e do momento
Definido. Trégua impensada,
Insuspeita, no perfume alado
Da página dobrada e abandonada
Dum livro interrompido. Sinto a dor fina,
Finamente atravessada e suave,
 

- Quase saudade.

"O Livro do Nómada Meu Amigo", Ruy Cinatti

(Ruy Cinatti nasceu no dia 8 de Março de 1915. Morreu em 1986.)

quinta-feira, 8 de março de 2018

Ruy Cinatti 4

[Perdi meu pai]

Perdi meu pai, minha mãe. Estou só,
ninguém me escuta,
senão quando querem dar
os restos que ninguém quer.

Pobre de pobre, só tenho
os restos que ninguém quer.

Ruy Cinatti

(Ruy Cinatti nasceu no dia 8 de Março de 1915. Morreu em 1986.)

quarta-feira, 8 de março de 2017

Ruy Cinatti 3

Teus olhos

Teus olhos, Honorine, cruzaram oceanos,
longamente tristes, sequiosos,
como flor aberta nas sombras em busca do Sol.
Vieram com o vento e com as ondas,
através dos campos e bosques da beira-mar.
Vieram até mim, estudante triste,
dum país do Sul.

"Antologia Poética", Ruy Cinatti

(Ruy Cinatti nasceu no dia 8 de Março de 1915. Morreu em 1986.)

terça-feira, 8 de março de 2016

Ruy Cinatti 2

Quando o amor morrer dentro de ti

Quando o amor morrer dentro de ti,
Caminha para o alto onde haja espaço,
E com o silêncio outrora pressentido
Molda em duas colunas os teus braços.
Relembra a confusão dos pensamentos,
E neles ateia o fogo adormecido
Que uma vez, sonho de amor, teu peito ferido
Espalhou generoso aos quatro ventos.
Aos que passarem dá-lhes o abrigo
E o nocturno calor que se debruça
Sobre as faces brilhantes de soluços.
E se ninguém vier, ergue o sudário
Que mil saudosas lágrimas velaram;
Desfralda na tua alma o inventário
Do templo onde a vida ora de bruços
A Deus e aos sonhos que gelaram.


"Obra Poética", Ruy Cinatti

(Ruy Cinatti nasceu no dia 8 de Março de 1915. Morreu em 1986.)

domingo, 8 de março de 2015

Ruy Cinatti

Fastio

Quem me faz descer desta mansarda já,
onde me icei?

Farto estou já de estar sozinho
a caçar moscas,
como se minha fosse a voz irada
que assim me mantém
divinizado.


"Tempo da Cidade", Ruy Cinatti

(Ruy Cinatti nasceu no dia 8 de Março de 1915. Morreu em 1986.)