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segunda-feira, 11 de maio de 2020

Uma questão de tamanho

No dia 11 de Maio de 1672, o rei de França Luís XIV, o Grande, invadiu os Países Baixos. Quando lá chegou, os holandeses perguntaram-lhe, indignados: - Porque é que não te metes com alguém do teu tamanho?...

segunda-feira, 16 de março de 2015

Je suis Ibrahimović

Os franceses são uns cómicos. Estão a ver o "Alô, Alô"? Exactamente - o "Alô, Alô" foi feito por ingleses. Quando não são cómicos, os franceses são perigosos. Que o diga a Maria Antonieta, se pudesse. Em França faz-se pouco de Maomé, por causa da liberdade, mas com a França não se brinca, por causa da blasfémia.
O jogador de futebol Zlatan Ibrahimović, do Paris Saint-Germain, disse que a França é um "país de merda". Dizer que a França é um "país de merda" é deitar mão a uma velha expressão idiomática francesa utilizada diariamente milhões de vezes por milhões de franceses. Mas Ibrahimović é sueco. Estrangeiro, portanto.
Uns franceses, dos perigosos, já mandaram Ibrahimović para casa. Eu, se fosse a ele, ia a correr. Antes que lhe cortem o pescoço. Fundamentalmente.

segunda-feira, 16 de junho de 2014

O Mundial tal qual ele é 6

Foto Hernâni Von Doellinger

O França-Honduras não teve hinos. Num Mundial em que os penáltis de encomenda até têm saído tão bem, esqueceram-se do principal: do gira-discos e dos velhos altifalantes. Só pode ser falta de informação, ou então qualquer coisinha contra Portugal, porque, se o Brasil queria um serviço como deve ser, profissional e a mandar ventarolas, que viesse ao lado de cá encomendá-lo. Os responsáveis pela empreitada deveriam saber, tinham de saber, que as "Amplificações sonoras de João Baptista Gonçalves, de Antime, Fafe, deslocam-se a qualquer localidade, haja ou não haja corrente eléctrica". Não tenho a menor dúvida, o Mundial do Brasil ficava muito bem servido com os altifalantes do Baptista. Com os altifalantes do Baptista, hinos... é de calcanhar.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Estilos. Ele há cada um!

Foto MANUEL FLÓRIDO
Foto MANUEL FLÓRIDO
Foto MANUEL FLÓRIDO
Foto MANUEL FLÓRIDO

Paris dita a moda. E eu, pelas amostras que o amigo Manuel Flórido acaba de me mandar, começo a ficar apreensivo.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Amor em cadeado ou bunga-bunga à la française?

Os franceses são uns exagerados. Os parisienses abusam. E se o assunto for o amor, l'amour, então é que ninguém os atura. Compreende-se: os parisienses são os únicos que realmente têm sempre Paris. "Casablanca" é omisso quanto a aloquetes (cadeados, se lido em Lisboa). Não se sabe, por isso, se Rick e Ilsa se juraram aferrolhadamente um ao outro numa qualquer ponte da Cidade Luz e deitaram a chave ao rio, como agora se usa, mas vamos admitir que sim. Era bonito ter começado dessa maneira, no Sena, a moda que por acaso até já chegou , graças a Deus temperada com recato e parcimónia, como convém a um país de brandos costumes.
Agora olhem-me estes parisienses (parisienses de todo o mundo) e vejam o que é que eles fizeram a uma pequena ponte pedonal, entre Notre-Dame e o Louvre. Isto já não é sexo em grupo para aloquetes. Isto é um pesadelo, bunga-bunga à la française, bacanal de cadeados em nome do amor eterno enquanto dura. Um dia a ponte vem abaixo e depois admiram-se com os divórcios...

Foto MANUEL FLÓRIDO
Foto MANUEL FLÓRIDO

domingo, 6 de maio de 2012

Vê-se logo que não têm família

"Passos e Seguro escrevem a Hollande". Passos é Pedro Passos Coelho, o alegado primeiro-ministro de Portugal, e Seguro é António José Seguro, o desautorizado líder da oposição em Portugal. Hollande, embora seja um nome que dá para os dois lados, é François Hollande, o novo presidente da República francês. Mal se soube da desfeita esperada que os franciús acabavam de fazer ao Sarkozy mai-là sua, os nossos dois apressaram-se a epistolarem vassalagem (não sei quem ganhou) ao próximo inquilino do Eliseu. Estou informado de que é da etiqueta diplomática, mas vê-se logo que não têm mais ninguém a quem escrever. E aos que cuidam que isto agora vai melhorar com Hollande, só peço que se lembrem de José Sócrates, que está lá fora a lutar pela vida e também era socialista. Alegadamente.

sábado, 24 de dezembro de 2011

Quero denunciar o meu pai


Penso rápido
Pensei sobre o assunto. Eu penso muito, mas penso pouco. A minha é vida é feita de muitos assuntos, mas pequenos assuntos. Os meus assuntos sucedem-se uns atrás dos outros, breves, infindáveis. Por isso estou sempre a pensar, mas pouquinho de cada vez, com pensamentos curtos, instantâneos, diferentes, um para cada assunto. Isto é: penso muito, penso pouco, penso rápido.

Quero fazer uma denúncia: o meu pai era benfiquista e morreu quando eu tinha onze anos. Isso faz-se? Tem algum jeito? Não sei se a CMTV e a TVI vão pegar no caso, mas justificava-se. Porque desgraça tamanha é para dar na televisão. Há que tempos que eu sou mais velho do que o meu pai, e acho isso muito mal. E o meu pai ainda me faz falta, e tenho essa grande razão de queixa. E às vezes sinto-me órfão, como por exemplo hoje, e já não tenho idade para estas coisas. Na minha ideia, minhas senhoras e meus senhores, a Procuradoria-Geral da República, o SIS e a Polícia Judiciária também deviam andar da perna enquanto a têm. E o Chega tem obrigação de exigir e berrar e espernear e patear por uma comissão parlamentar de inquérito, dê por onde der, contra tudo e contra todos. Comissão Parlamentar de Inquérito à Morte do Pai Que Era Benfiquista e Morreu Quando o Filho Tinha Onze Anos. Gosto do nome, assim simples, parece-me bem.
O meu pai era portanto benfiquista e penso que só isso é mais do que suficiente para abrir um processo. Era benfiquista e, ao fim do dia de trabalho, levava-me a ver os treinos do Fafe no Campo da Granja, que também já não existe. O meu pai, apesar de breve, ensinou-me o futebol e outras coisas boas da vida, como, por exemplo, os pastéis. Uma vez levou-me às Festas Gualterianas a Guimarães, fomos a um tasco e eu pedi-lhe para comer feijão com tripas, que vi e nunca tinha provado, e gostei que eu sei lá. Se calhar por isso é que ainda hoje gosto tanto e faço tão bem. Outra vez trouxe-me de presente uma pistola Luger P08 de brincar, pesada e igualzinha às dos nazis dos filmes, e gostei que eu sei lá. Não sei o que me deu na cabeça, mas cresci e não gosto de armas. Continuo a gostar do meu pai.
Para além de benfiquista - repito, benfiquista -, o meu pai era também novo, malandro, bonito e bom, mas suponho que isso não interesse para os autos, e era excelente operário tecelão, músico, bombeiro e jogador de dominó. De bombeiro, levava-me ao cinema e ao circo à borliú, debaixo do braço, porque a pagantes seria impossível. E contava-se que no dominó, jogado na mesa do canto direito para quem entrava na sala das traseiras do café Peludo, o meu pai até escondia pedras na boca para enganar parceiros e ganhar mais uns tostões para casa. Eu ia chamá-lo, bem ensaiado pela minha mãe para que ele não ficasse malvisto perante os amigos. "A mãe manda dizer que a comida está pronta", era o que eu dizia, uma e só uma vez, baixinho, e ficava ao lado dele todo contente, à espera.
É preciso que se note: o meu pai, também conhecido como Lando Bomba ou Lando da Bomba, não era só dominó. Nas festas onde a Banda de Revelhe ia tocar, o meu pai, que tocava saxofone, tinha também sociedade com o homem da roleta de feira, artesanal e viciada. Nos intervalos dos concertos, fartava-se de ganhar canivetes, cintos, saca-rolhas, tesouras, baralhos de cartas e gaitas de beiços. O meu pai era o engodo. "Mais uma para o senhor músico. Está em dia de sorte, o raisparta o músico!", gritava o homem da roleta, feitos um com o outro, a chamar o povo. E o povo caía, ontem como hoje. No final, o meu pai devolvia tudo a troco de umas coroas ou de mais uma navalha para oferecer.
Calhava-me, de vez em quando, levar o almoço do meu pai à fábrica. Estando sol, o meu pai e outros operários da Fábrica do Ferro comiam num terreno muito jeitoso para o efeito, a caminho do rio. Do Comporte, e por favor não confundir com Comporta. Sentávamo-nos numas pedras à sombra de pinheiros geralmente mansos e eu adorava estar ali com o meu pai aquela meia hora. Era como se fosse um piquenique, mas eu ainda não conhecia a palavra.
O meu pai dizia "Lá estara?". "Lá estara?" era cumprimento, saudação tirada de ouvido entre amigos e compinchas, da rua, do café, da fábrica, dos bombeiros, da bola e da banda. "Lá estara?" queria dizer mais ou menos "Olá, tudo bem?" ou "Viva, como é que vai isso?". O meu pai fazia também questão (que se dizia "questã") de reinventar os nomes das pessoas, e por isso o nosso bom Berto Dantas era o Berteira, o monossilábico Augusto da esquina era o Gustaveira, e assim sucessivamente. O Berto Dantas foi certamente o melhor jogador de futebol de todos os tempos nascido em Fafe, e era um ser humano maravilhoso, uma verdadeira jóia, um coração que se dava.
O meu pai gostava muito de fazer rir a minha mãe e, de malandrice, lia-lhe o jornal metendo as expressões "pelo cu acima" e "pelo cu abaixo" entre as palavras das notícias. Se fosse hoje, ficaria, por exemplo, assim: "A atriz pornográfica, pelo cu acima, Stormy Daniels, pelo cu abaixo, descreveu, pelo cu acima, o pénis, pelo cu abaixo, do presidente, pelo cu acima, dos Estados Unidos, pelo cu abaixo, Donald Trump, pelo cu acima, comparando-o, pelo cu abaixo, a um cogumelo, pelo cu acima." Eu e os meus irmãos, que arranjávamos sempre maneira de ouvirmos aquela comédia, escangalhávamo-nos a rir. A minha mãe repreendia o meu pai, tentava tirar-lhe o jornal das mãos, pareciam dos filmes do Charlot mas a cores, e nós ainda nos ríamos mais. Éramos pobres, mas tínhamos o riso. E o riso é muito bom, é uma riqueza alternativa. Éramos, então, remediadamente felizes.
Como habilitações literárias, o meu pai tinha o "Exame do 2.º Grau do Ensino Primário Elementar (4.º Grupo), isto é, tinha o "Exame da 4.ª Classe" ou apenas "o Exame", como se dizia. O meu pai gostava de ler, o que não era muito normal no seu círculo de confianças conhecidas. Talvez fosse um homem culto à sua própria custa, sub-reptício, não sei. Sei é que tinha livros, seis ou sete, escondidos em cima do guarda-vestidos, alguns deles ainda com páginas intonsas, como se usava naquela altura. "Por Quem os Sinos Dobram", de Ernest Hemingway, da velhinha Coleção Dois Mundos, Livros do Brasil, lembro-me dele. Li-o precocemente. Os outros, quando os descobri, ainda miúdo, fiquei com a ideia de que não seriam romances, aventuras, mas coisa mais séria, chatices. O meu pai tinha discos de música clássica da Deutsche Grammophon, sete ou oito, dos maiores compositores, com grandes orquestras, os melhores intérpretes, peças imortais, a "Abertura 1812", de Tchaikovski, a "Gazza Ladra", de Rossini, a "Tannhäuser", de Wagner, sinfonias de Beethoven e uma extraordinária pianada que eu apreciava especialmente, mas de que agora não consigo desencravar o nome, que vergonha. Os discos também estavam escondidos e eram ouvidos pela calada, muito raramente, quase clandestinamente, num robusto gira-discos pedido emprestado não sei a quem. Haveríamos de ter um, nosso, pequeno, mais tarde, por desgraçada herança. Não sei se o meu pai era "comunista", não tive tempo de saber.
O meu pai foi para França, Belfort, resvés com a Suíça, e escrevia-nos cartas numa letra muito perfeitinha em papel quadriculado que nós líamos à nossa mãe. Cartas bonitas, cheias de "espero que ao receberes esta", "que eu bem graças a Deus", cartas contidas, subentendidas, cartas tristes. Nós também íamos para França, estávamos já de malas feitas, o "reagrupamento familiar" já tinha sido aprovado, mas acabámos por não ir, porque entretanto o nosso pai morreu à última da hora, meia dúzia de dias antes da viagem programada, e a minha vida deu então esta volta que só vista. O meu pai morreu, acredito que de saudades, numa gelada véspera de Natal. Em França. Sozinho. Não chegou a cumprir os 37 anos de idade. No dia seguinte nasceu o Menino Jesus, disseram-me que de propósito para tomar conta na minha mãe, de mim e dos meus três irmãos, todos crianças. Que Deus me perdoe, mas o velhote, que nunca pôde ser, ter-nos-ia dado muito mais jeito...

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Primeira versão escrita a publicada aqui no dia 6 de Dezembro de 2011.
)

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Belas e perigosas

As mamas. As mamas falsas. Pior: as mamas da candonga. Há que ter cuidado com elas e o melhor é mesmo deitá-las fora. O ministro francês da Saúde, Xavier Bertrand, acaba de recomendar, "a título preventivo e sem carácter de urgência", que as mulheres que têm implantes mamários da marca Poly Implant Prothese (PIP) os removam, mesmo que estes não apresentem qualquer sinal de deterioração. Em França há 30 mil mulheres com este tipo de implantes da PIP, que foram feitos com silicone industrial, dez vezes mais barato e não apropriado para produtos clínicos, tendo revelado uma taxa de ruptura de dez por cento, muito superior ao normal, que não costuma ultrapassar os quatro por cento.
Em Portugal, ontem, a Direcção-Geral da Saúde (DGS) também aconselhou as mulheres portuguesas "a consultarem o cirurgião ou médico assistente na unidade onde lhes foi colocado o implante, a fim de poderem ser submetidas a exames de vigilância". De acordo com a DGS, no nosso país apenas cerca de três por cento de todas as próteses mamárias implantadas são da marca PIP, "estimando-se que 1.500 a 2.000 portuguesas tenham estas próteses implantadas".
Moral da história: a vaidade tem um preço e não é preço de saldo. Para a próxima, caras amigas, exijam que eles abram os cordões à bolsa e paguem umas mamas em condições, de qualidade clinicamente comprovada. Estas, sim, só em quatro por cento dos casos é que rebentam e, quem sabe, matam. Não é bom?