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quarta-feira, 1 de abril de 2026

Aldrabons e aldramaus

Mal agradecidos
O homem-estátua foi despedido. Por falta de produtividade. Logo ele que tinha sido contratado para não mexer uma palha.

Por que razão medram tanto os aldrabões em Portugal? Por que razão vamos a votos e mandamos para o poleiro os aldrabões, de variada cor, como se por acaso acreditássemos neles, regra geral? Os aldrabões que antes e/ou depois estão nos bancos, nas edepês, nas caixas, nas renes, nas cepês, nas referes, nas misericórdias, nos metros, nos centímetros, nas construtoras, nas destrutoras, nos superescritórios de advogados, nos supermercados de escravos, nas fundações, nas afundações, nas jotas, nas motas, nas assessorias, nas tias, nas televisões e nos jornais, no parlamento, no barlavento e no sotavento, e têm do povo uma vaga ideia. Por que razão, se nos queixamos tanto deles?
Andava com esta dúvida fisgada nem sei há que tempos, mas no outro dia tive a inesperada revelação, quase sem querer, ao ouvir um minhoto retinto a falar. Um minhoto de Fafe, evidentemente, dos nossos. O homem antigo falava de não sei quem e chamava-lhe aldrabom. Isso, aldrabom. Os minhotos de cá de baixo agarramo-nos ao pouco que já nos resta do galego purinho e falamos assim, trocamos o excêntrico ão pelo ancestral om, daí a confusom, e se calhar acreditamo-nos: ora aí está um aldra que é bom, pensamos na melhor das nossas intenções e caímos na esparrela. Porque "eles" não são aldrabons. São aldramaus.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia das Mentiras.)

Era, era!

E o que é que eu estava dizer, que não era mentira?...

P.S. - Hoje é Dia das Mentiras.

Sinceramente

"Mente-me, que eu gosto", disse ela. "Por isso é que te amo tanto", disse ele.

P.S. - Hoje é Dia das Mentiras.

Arreganha a tacha!

Era um mentiroso compulsivo. E mentia com quantos dentes tinha. Exactamente trinta e dois simetricamente divididos por duas falsas gengivas enfiadas de tacha arreganhada num copo de água choca em cima da mesinha-de-cabeceira.

P.S. - Hoje é Dia das Mentiras.

sábado, 1 de abril de 2023

Os dias do engano

Parecendo que não, hoje é Dia dos Enganos, como antigamente se chamava em Fafe ao Dia das Mentiras. Mas é assim: com isto da política e da guerra, da TAP e do Alojamento Local, das redes sociais, dos jornais e das televisões sensacionalistas, que são todos e todas, a mentira foi sorrateiramente metida a cotio, normalizada, e agora todos os dias são dia das mentiras, embora se chamem fake news para não darem muito nas vistas. Resultado: com tanta mentira e tanto mentiroso, quase passa despercebida a velhinha efeméride residente do primeiro de Abril. Mas querem saber?
Fafe daquele tempo celebrava entusiasticamente datas assim importantes, como o Dia dos Enganos. Datas patrióticas e etnográficas, civilizacionais. Havia respeito pela História e pela tradição. Brincavam-se brincadeiras educativas, nacionalistas e saudáveis, muito bem aprendidas, éramos a mocidade que passa...
Pregavam-se partidas tão engraçadas! No Dia dos Enganos saíamos para a rua, ali no nosso Santo Velho, estrategicamente colocados entre os tascos do Paredes e do Zé Manco, e dizíamos a quem passava: - Ó senhor, olhe o que lhe caiu!...
E o senhor, que podia muito bem ser uma senhora, mas geralmente era um moço ou uma rapariga mais ou menos da nossa idade, o senhor respondia, rimando: - Foi um peido que me fugiu...
Quer-se dizer: olhe o que lhe caiu - foi um peido que me fugiu. Estão a ver a piada? Estão a ver a categoria? Aquilo é que era, antigamente! Era assim todos os anos, à esquina, que bem que passávamos o Dia dos Enganos! Era de rir. Ríamo-nos muito com divertimentos assim de peidos, biológicos ou sintéticos, ali no nosso cantinho, para que é que precisávamos de brinquedos e de mundo?
Para além disso, tínhamos a velha nota de vinte escudos largada no passeio como que perdida e presa por uma invisível sediela que, escondidos, puxávamos repentinamente e às prestações mal algum transeunte ensaiava o gesto para apanhá-la, em frente à porta envidraçada do novíssimo Café Chinês. Ele a baixar-se e a nota a fugir-lhe à frente dos pés, parava, a baixar-se outra vez e ela a fugir-lhe outra vez, aos saltinhos, como se fosse viva, e outra vez, e outra vez, como num filme do Charlot ou do Pamplinas mas ao vivo e a cores. Ai, era realmente de rir! Claro que também era um risco: os vinte paus deviam ser devolvidos a casa, de onde alguém os desencaminhara como quem não quer a coisa, e às vezes nunca se sabe. Vinte escudos era a nota mais pequena e significavam muito dinheiro para quem não tinha nada. Vintes escudos desaparecidos eram como hoje um desfalque de milhões, davam para muito pão, havia fome e a pobreza morava com a gente.
Era de rir, sim senhor. Bons tempos, coisas bonitas. E ainda há quem diga mal do fascismo...

sexta-feira, 1 de abril de 2022

Uma lufada de ar fresco

Parecendo que não, hoje é Dia dos Enganos. Dia das Mentiras. Mas é assim: com isto da política, da guerra, das tomadas de posse, das redes sociais, dos jornais e das televisões sensacionalistas, que são todos e todas, a mentira foi sorrateiramente metida a cotio, normalizada, e agora todos os dias são dia das mentiras, embora se chamem fake news para não darem muito nas vistas. Resultado: com tanta mentira e tanto mentiroso, quase passa despercebida a velhinha efeméride residente do primeiro de Abril. Mas querem saber?
O Dia dos Enganos era celebrado em Fafe com pompa e circunstância. Era uma tradição, um acto cultural, uma devoção, uma espécie de feriado ou dia santo. Na minha terra, naquele tempo, festas assim familiares como por exemplo o Entrudo tinham as suas normas, liturgia própria. Pelo Entrudo, se me dão licença, eram os peidos-engarrafados no Cinema. Uma lixeira de confetes e serpentinas, mas sobretudo peidos-engarrafados, um fedor que eu sei lá mas uma grande risota, ou se calhar um grande risoto, como hoje em dia será mais fino dizer. Durante o resto do ano, no Cinema, só peidos biológicos, caseiros, que, não desfazendo, também eram uma categoria. Eram peidos subversivos, contra o governo, que nos alimentava a couves e tínhamos de as comprar, porque nem os ricos as davam - vendiam-nas como se precisassem ou preferiam deitá-las aos porcos, que infelizmente não éramos nós, os pobres, no caso em apreço. Mas o Dia dos Enganos, que foi ao que vim, e ia-me perdendo: no Dia dos Enganos saíamos para a rua, ali no Santo Velho, estrategicamente colocados entre os tascos do Paredes e do Zé Manco, e dizíamos a quem passava: - Ó senhor, olhe o que lhe caiu!...
- Foi um peido que me fugiu... - levávamos logo de resposta, que também fazia parte, e ficávamos todos contentes.
É, bons tempos: pobretes mas alegretes. Os peidos eram o nosso escape natural, o epítome do divertimento que se podia...


E por falar em mentira. O peido é uma insofismável verdade da vida, tal como a morte e dois mais dois serem quatro, e quem disser o contrário é néscio. Ou mentiroso. Ou néscio e mentiroso. Ou mentiroso e néscio. E sobretudo infeliz.
Infelizes, sim, os que nunca ouviram o Moisés a peidar-se pelo soleno da noite, ali para os lados da Feira das Galinhas, que hoje parece-me que é um parque de estacionamento e chama-se Praceta Egas Moniz. Aquilo é que era um artista, um verdadeiro predestinado, o exímio executante em pessoa. O Moisés. Os peidos do Moisés, impõe-se que aqui se diga, eram acutilantes, poderosos como pragas, abriam mares, incendiavam sarças, esculpiam lei na pedra, abanavam os alicerces da Igreja Nova, levantada mesmo em frente, Deus nos perdoe, não sei como é que o Moisés nunca se aleijou. Os peidos do Moisés seriam hoje considerados e explorados e exportados como energia alternativa. Mas também eram mansos, melodiosos, trinados, sin-co-pa-dos, contidos, meditabundos, quase confidenciais. O Moisés solfista trabalhava, com efeito, em vários registos, um dos quais, de interpretação particularmente exigente, mezzo piano, chamava-se "rasgar chita" e costumava encerrar o concerto, com mais dois ou três encores. Os peidos do Moisés, que aceitava pedidos como crooner que se preze, eram um tremendo êxito. Faltou-lhe talvez entrar em estúdio e gravar um disco, provavelmente de janelas abertas, e não sei se isso seria tecnicamente possível. Em todo o caso, ficou a perder a posteridade, que realmente hoje em dia não sabe o que era bom.
Para rematar, é preciso que se note que o sintetizador, instrumento musical electrónico tal como actualmente o conhecemos, ainda não tinha sido inventado. Moisés era o seu próprio instrumento. No seu tempo, e no panorama artístico nacional, Moisés foi profético, vanguardista, pioneiro, radical, fracturante. Uma autêntica pedrada no charco. Uma indesmentível lufada de ar fresco, por assim dizer...

quinta-feira, 1 de abril de 2021

Mente-me que eu gosto!

Parece que não, mas hoje é Dia dos Enganos. Dia das Mentiras. Com isto da política, das redes sociais, dos jornais à rasca e das televisões sensacionalistas, que são todas, todos os dias são dia das mentiras, que agora se dizem em estrangeiro fake news, e quase passa despercebida a velhinha efeméride residente do primeiro de Abril. 

Aldrabons e aldramaus

Por que razão medram tanto os aldrabões em Portugal? Por que razão vamos a votos e damos a mama aos aldrabões, de variada cor, e há mais de quarenta anos, como se por acaso acreditássemos neles - nos aldrabões? Os aldrabões que antes e/ou depois estão nos bancos, nas edepês, nas caixas, nas renes, nas cepês, nas referes, nas misericórdias, nos metros, nos centímetros, nas construtoras, nas destrutoras, nos superescritórios de advogados, nos supermercados de escravos, nas fundações, nas afundações, nas jotas, nas motas, nas assessorias, nas tias, nas televisões e nos jornais, no parlamento, na moinice enfim, e têm do povo uma vaga ideia. Por que razão?
Andava com esta dúvida fisgada nem sei há que tempos, mas ontem tive a inesperada revelação, quase sem querer, ao ouvir um minhoto retinto a falar. O homem antigo falava de não sei quem e chamava-lhe aldrabom. Aldrabom. Os minhotos de cá de baixo falamos assim (e eu até tenho uma certa vaidade na nossa maneira de falar), trocamos o ão pelo om, daí a confusom, e se calhar acreditamo-nos: ora aí está um aldra que é bom, pensamos na melhor das intenções e caímos na esparrela. Porque aí é que a porca torce o rabo: eles não são aldrabons - são aldramaus.

Com papas e bolos

- O senhor é um bocado mentiroso, não é?
- Minto com quantos dentes tenho...
- E são assim tantos?...

As mulheres e a idade (quiz)

Quantos anos terá uma mulher que diz que tem cinquenta?...

Eu morra aqui

"Eu morra aqui se não é verdade", disse. E morreu. E era verdade. A vida às vezes parece parva...  

Eu seja ceguinho!, disse o cego

Na política não há mentirosos. Há inverdadeiros. Porque os políticos não dizem mentiras - declaram inverdades. Porque os políticos não mentem - faltam à verdade. Mas justificam a falta. Porque, na política, a verdade é alternativa tal qual a corrente pode ser alternada. Porque na política moderna há narrativas e há desenhos, quer-se dizer: há ficção, fingimento, dissimulação, invenção, sugestão, engodo, engano. Mentira, não. 

Mais depressa se apanha um nariz

Foto Hernâni Von Doellinger

terça-feira, 7 de abril de 2020

Eu seja ceguinho!, disse o cego

Na política não há mentirosos. Há inverdadeiros. Porque os políticos não dizem mentiras - declaram inverdades. Porque os políticos não mentem - faltam à verdade. Mas justificam a falta. Porque, na política, a verdade é alternativa tal qual a corrente pode ser alternada. Porque na política moderna há narrativas e há desenhos, quer-se dizer: há ficção, fingimento, dissimulação, invenção, sugestão, engodo, engano. Mentira, não.

quarta-feira, 1 de abril de 2020

Um pinóquio, dois pinóquios, três pinóquios

Uma vez eu fui a Itália e trouxe um Pinóquio ao meu filho. O Kiko cresceu e uma vez foi a Itália e trouxe-me dois Pinóquios. Eu nunca mais fui a Itália e, é claro, sinto-me em dívida...

Pode o peido ser mentira?

Foto Hernâni Von Doellinger

Quando o flato era uma acto cultural
Parece que não, mas hoje é Dia dos Enganos. Dia das Mentiras. Com isto da política, das redes sociais, dos jornais à rasca e das televisões sensacionalistas, que são todas, todos os dias são dia das mentiras, que agora se dizem em estrangeiro fake news, e quase passa despercebida a velhinha efeméride residente do primeiro de Abril. E olhem:
O Dia dos Enganos era celebrado em Fafe com pompa e circunstância. Era uma tradição, um acto manifestamente cultural. Na minha terra, naquele tempo, festas assim familiares como por exemplo o Entrudo tinham as suas normas, liturgia própria. Pelo Entrudo, se me dão licença, eram os peidos-engarrafados no Cinema. Uma lixeira de confetes e serpentinas, mas sobretudo peidos-engarrafados, um fedor que eu sei lá mas uma grande risota, ou se calhar um grande risoto, como hoje em dia será mais fino dizer. Durante o resto do ano, no Cinema, só peidos biológicos, caseiros, que, não desfazendo, também eram uma categoria. Eram peidos subversivos, contra o governo, que nos alimentava a couves e tínhamos de as comprar, porque nem os ricos as davam - vendiam-nas como se precisassem ou preferiam deitá-las aos porcos, que infelizmente não éramos nós, os pobres, no caso em apreço. Mas o Dia dos Enganos, que foi ao que vim, e ia-me perdendo: no Dia dos Enganos saíamos para a rua, ali no Santo Velho, estrategicamente colocados entre os tascos do Paredes e do Zé Manco, e dizíamos a quem passava: - Ó senhor, olhe o que lhe caiu!...
- Foi um peido que me fugiu... - levávamos logo de resposta, que também fazia parte, e ficávamos todos contentes.
É, bons tempos: pobretes mas alegretes. Os peidos eram o nosso escape natural, o epítome do divertimento que se podia...


O peido é uma insofismável verdade da vida, tal como a morte e dois mais dois serem quatro, e quem disser o contrário é néscio. Ou mentiroso. Ou néscio e mentiroso. Ou mentiroso e néscio. E infeliz.
Infelizes, sim, os que nunca ouviram o Moisés a peidar-se pelo soleno da noite, ali para os lados da Feira das Galinhas, hoje parece-me que parque de estacionamento e Praceta Egas Moniz. Aquilo é que era um artista, um verdadeiro predestinado. O Moisés. Os peidos do Moisés, impõe-se que aqui se diga, eram poderosos como pragas, abriam mares, incendiavam sarças, escreviam lei na pedra, abanavam os alicerces da Igreja Nova, mesmo em frente, Deus nos perdoe. Os peidos do Moisés seriam hoje considerados e explorados e exportados como energia alternativa. Mas também eram mansos, melodiosos, trinados, sin-co-pa-dos, contidos, meditabundos, quase confidenciais. O Moisés solfista trabalhava, com efeito, em vários registos, um dos quais, de execução particularmente exigente, mezzo piano, chamava-se "rasgar chita" e costumava encerrar o concerto, com mais dois ou três encores. (O Moisés aceitava pedidos.) Os peidos do Moisés eram um tremendo êxito, embora infelizmente nunca tenha gravado e apenas actuasse para plateias restritas e altamente seleccionadas. Cumpre-me finalmente fazer notar que o sintetizador, tal como actualmente o conhecemos, ainda não tinha sido inventado...

Sinceramente 
"Mente-me, que eu gosto", disse ela. "Por isso é que te amo tanto", disse ele.

Arreganha a tacha!
Era um mentiroso compulsivo. E mentia com quantos dentes tinha. Exactamente trinta e dois simetricamente divididos por duas falsas gengivas enfiadas de tacha arreganhada num copo de água choca em cima da mesinha-de-cabeceira.

Tectos falsos genuínos
- Estes tectos são mesmo falsos?
- Como judas...

Eu seja ceguinho!, disse o cego
Na política não há mentirosos. Há inverdadeiros. Porque os políticos não dizem mentiras - declaram inverdades. Porque os políticos não mentem - faltam à verdade. Mas justificam a falta. Porque, na política, a verdade é alternativa tal qual a corrente pode ser alternada. Porque na política moderna há narrativas e há desenhos, quer-se dizer: há ficção, fingimento, dissimulação, invenção, sugestão, engodo, engano. Mentira, não.

domingo, 1 de abril de 2018

Foi um peido que me fugiu...

Foto Hernâni Von Doellinger

Parece que não, mas hoje é Dia dos Enganos. Dia das Mentiras. Com isto da Páscoa, e nem sei se foi de propósito, quase passa despercebida a efeméride residente do primeiro de Abril. E olhem:
O Dia dos Enganos era celebrado em Fafe com pompa e circunstância. Era uma tradição. Na minha terra, naquele tempo, festas assim familiares como por exemplo o Entrudo tinham as suas normas, liturgia própria. Pelo Entrudo, se me dão licença, eram os peidos-engarrafados no Cinema, um fedor que eu sei lá mas uma risota, ou se calhar um risoto, como hoje será mais fino. Durante o resto do ano, no Cinema, só peidos biológicos, caseiros, que, não desfazendo, também eram uma categoria. Eram peidos subversivos, contra o governo, que nos alimentava a couves e tínhamos de as comprar. Mas o Dia dos Enganos, que foi ao que vim: no Dia dos Enganos saíamos para a rua, ali no Santo Velho, estrategicamente colocados entre os tascos do Paredes e do Zé Manco, e dizíamos a quem passava: - Ó senhor, olhe o que lhe caiu!...
- Foi um peido que me fugiu... - levávamos de resposta, que também fazia parte. Um sucesso!
É, bons tempos: pobretes mas alegretes. Os peidos eram o nosso escape natural, o epítome do divertimento que se podia...

sexta-feira, 1 de abril de 2016

Olhe o que lhe caiu

O Dia dos Enganos era celebrado em Fafe com pompa e circunstância. Era uma tradição. Na minha terra, naquele tempo, festas assim familiares como por exemplo o Entrudo tinham as suas normas, liturgia própria. Pelo Entrudo, se me dão licença, eram os peidos-engarrafados no Cinema, um fedor que eu sei lá mas uma risota, ou um risoto, como hoje é mais fino. Durante o resto do ano, no Cinema, só peidos biológicos, caseiros, que, não desfazendo, também eram uma categoria. Eram peidos subversivos, contra o governo, que só nos dava couves e tínhamos de as comprar. Mas o Dia dos Enganos, que foi ao que vim: no Dia dos Enganos saíamos para a rua, ali no Santo Velho, estrategicamente colocados entre os tascos do Paredes e do Zé Manco, e dizíamos a quem passava: - Olhe o que lhe caiu!...
- Foi um peido que me fugiu... - levávamos de resposta, que também fazia parte. Um sucesso!
É, bons tempos: pobretes mas alegretes. Os peidos eram naturalmente o nosso escape, o epítome do nosso divertimento...