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sábado, 30 de maio de 2026

Quando o telefone toca

Sem pé
Tinha um medo terrível de andar de avião. E se o aparelho caísse ao mar? Ele não sabia nadar...

O telefone toca, a gente atende num susto, e o que é que faz? A gente, quero dizer nós todos, fafenses e portugueses em geral. Posto isto - então o que é que a gente faz? A gente agarra-se ao telefone com as duas mãos numa aflição que Deus me livre, e pergunta para o outro lado, aos gritos e falta de ar: - Estou?! Estou??!! Estou???!!! A gente tem medo de não estar. Precisamos de confirmação. Ó insegurança! Ó angústia existencial! Ó compinchas caguinchas! Que é das armas e dos barões assinalados? Que é dos heróis do mar, nobre pobre, nação valente? Que é do com Fafe ninguém fanfe?...
E nisto estamos. Ou não estaremos?

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Nacional do Agente de Viagens.)

sexta-feira, 7 de novembro de 2025

De vaquinha

De vaquinha para o emprego? No campo, isto é, na lavoura, estou como o outro, faz algum sentido, é a ordem natural das coisas. Agora, na cidade não me parece nada prático. Nem higiénico, verdade seja dita.

sexta-feira, 30 de junho de 2023

Batman, o de trazer por casa

Batman apareceu pela primeira vez no dia 30 de Março de 1939, no número 27 da revista americana de histórias aos quadradinhos Detective Comics. Era um desenho, um boneco. Anos mais tarde, lá pelos finais da década de 1980, depois de uma obscura passagem pela Redacção de O Primeiro de Janeiro, e eu por lá, foi eleito deputado à Assembleia da República pelo círculo Fora da Europa, pelo PSD, e tornou-se famoso derivado às viagens que não fez. Tantas foram as viagens, pelas contas que apresentou no Parlamento, que podia ter dado uma volta ao mundo. Mas não deu. Digamos que não foi a lado nenhum. O dinheiro era para distribuir pela família, o que só lhe fica bem.
Por outro lado. Posso estar enganado, mas acho que me cruzei com o nosso Batman, há dois ou três meses, na loja da Via Verde no Porto. O que, convenhamos, não deixa de ser irónico.

P.S. - Hoje é Dia Internacional do Parlamentarismo.

domingo, 24 de abril de 2022

Quando se perdia a mondinense

Há muitas maneiras de o dizer, deste e do outro lado do mar: beber, alcoolizar-se, emborrachar-se, embriagar-se, inebriar-se, tachar, tomar, encharcar, chumbar-se, avinhar-se, enfrascar-se, ficar de pileque, alto, grosso, mamado, tomar um porre, praticar desporto líquido, molhar os pés, ficar como um escalo, como uma nabo, como um cacho, como um avião, ficar doente, indisposto, apanhar uma ramada, uma piela, uma perua, uma bebedeira, uma carraspana, uma borracheira, uma cardina, um pifo, uma tosga, uma touca. Mas: perder a mondinense, suponho que só em Fafe se dirá. Ou dizia. Perder a mondinense.
A Mondinense disputava então com a João Carlos Soares o negócio do transporte rodoviário colectivo de passageiros entre Porto e Fafe e vice-versa. Eu era passageiro. Sou passageiro. Os asmáticos autocarros da Mondinense, que, se não me engano, faziam a viagem pela serra da Agrela, via Santo Tirso, numa espécie de breve apresentação turística à Rota da Prostituição de Baixa Montanha, tinham escritório numa obscura garagem à beira do desabamento e tresandando explosivamente a mijo, vomitado, fumo e gasóleo, ali para os lados do portuense Jardim de São Lázaro. A Mondinense era isso. E a João Carlos Soares é Arriva.
Mas a explicação da expressão nossa? Perder a mondinense. Quer-se dizer: bebia-se e perdia-se a memória e esqueciam-se as horas. Esqueciam-se as horas e bebia-se e perdia-se a memória. Perdia-se a memória e esqueciam-se as horas e bebia-se. E assim se perdia a mondinense.

P.S. - Publicado originalmente no dia 10 de Fevereiro de 2019. Hoje é Dia do Agente de Viagens. No Brasil.

Vou-me lá que são que horas!...

Foto Hernâni Von Doellinger

quinta-feira, 9 de maio de 2019

LeV-Literatura em Viagem 2019, em Matosinhos


Mais de duas dezenas de autores, entre os quais Alan Hollinghurst (vencedor do Man Booker Prize), Michael Cunningham (vencedor do Prémio Pulitzer) e Frederico Lourenço (vencedor do Prémio Pessoa). Este fim-de-semana, em Matosinhos, 13.ª edição do festival Literatura em Viagem (LeV). Conferências, residência dramatúrgica, oficina de escrita criativa, apresentação de livros, LEVzinho, encontro com escritores nas escolas.
Artur Santos Silva é o orador convidado para a conferência inaugural, amanhã, sexta-feira, pelas 21h30, no Salão Nobre dos Paços do Concelho. O festival, este ano sob o lema "A última viagem", muda-se depois de armas e bagagens para o Teatro Municipal de Matosinhos - Constantino Nery, onde decorrerão as restantes sessões.

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Eduardo Prado

Houve um dia um bispo que se achava detido na ilha das Cobras.
O caso é conhecido: sabe-se quem foi o bispo e sabe-se o que então houve e também se lembram todos de que a notícia de estar s. exc. em prisão tão mal nominada encheu de horror o beatério europeu, que então ouviu falar, ao que parece, pela primeira vez, deste ignorado Brasil.
As devotas damas, as pálidas monjas, os adocicados pregadores imaginaram logo o príncipe da Igreja atacado de todos os lados por centenas de víboras terríveis e horrorosas, de que s. exc. se defendia a golpes de virtudes evangélicas e, talvez, com o auxílio de um bom báculo de piúva.

"Viagens", Eduardo Prado

(Eduardo Prado nasceu no dia 27 de Fevereiro de 1860. Morreu no dia 30 de Agosto de 1901.)

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Está bem, abelha

Os nossos deputados vão passar a voar em classe económica nas viagens com duração inferior ou igual a quatro horas, sendo-lhes permitido viajar em executiva apenas em deslocações de duração superior. Esta medida entra em vigor a 1 de Janeiro de 2012, segundo uma resolução assinada pela presidente do Parlamento, Assunção Esteves, publicada hoje no Diário da República.
A anterior legislação, de 2004, determinava que as viagens dos deputados eram feitas "em avião, na classe mais elevada praticada ou, na impossibilidade do recurso a avião, na classe mais elevada do meio de transporte utilizado, incluindo taxas".
A notícia está dada. E depois? O que é que isto me interessa? O que é que isto interessa ao País? É mais um exemplo de treta, tipo comam merda aí em baixo ou morram de fome, que nós cá em cima também só andamos em económica? É isso? E em Lisboa os nossos deputados só vão deslocar-se em carrinhos de rolamentos? E vêm ao Porto no expresso da Resende?
A mim tanto se me dá como se me deu que os deputados da Nação voem alto ou voem baixinho, em económica ou executiva, consoante o passeio dura mais ou menos do que quatro horas. O que eu queria era que eles trabalhassem (para merecerem o que ganham e passeiam) pelo menos, digamos, quatro horas. Por semana. É pedir muito?

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Bifanamente falando

Vamos lá corrigir dois gravíssimos equívocos a propósito da passagem por Lisboa do viajante e ex-chef Anthony Bourdain. Primeiro: apresentaram o americano como "estrela da cozinha" e ele não é nada disso. É uma estrela de televisão e, eventualmente, da edição livreira. Estrela da cozinha sou eu. Segundo: a eterna problemática da bifana. Então o homem esteve há coisa de dez anos no Porto e vai agora comer bifanas à capital? Só pode estar mal informado.
É mesmo verdade. Muito antes desta tão badalada visita a Lisboa, Bourdain já tinha vindo ao Porto e aos Açores. E é claro que tinha que começar pelo Porto. Creio que foi no ano de 2001, era ele ainda um grande maluco de argola na orelha e keffiyeh à volta do pescoço. Desse tempo só sobrou o grande maluco. Que comeu castanhas assadas em Santa Catarina, foi ao Majestic, passeou pela Ribeira e pelo Mercado do Bolhão, visitou a Mercearia do Bolhão e almoçou no Rogério do Redondo: sardinha pequena frita, cabeça de pescada cozida com todos e as sacramentais tripas à moda do Porto.
Depois levaram-no ao Aleixo. Provou a salada de polvo e os bolinhos de bacalhau com feijão-fradinho, para ganhar embalo até aos filetes de polvo com arroz do mesmo que dão fama e proveito à casa. O excelente programa televisivo de Anthony Bourdain chamava-se então A Cook's Tour e ainda procurava naquela altura a fórmula de sucesso que veio a afinar um pouco mais tarde, provavelmente já em No Reservations. Receita simples: uma mistura bem temperada de viagem e gastronomia, um estilo de apresentação irreverente e politicamente incorrecto que cativa e, por estranho que pareça, ensina.
Na sua estada pelo Norte, Bourdain deu também um salto aos vales do Douro e do Tâmega, comeu bacalhau com natas, lombo de porco e cabrito assado em forno de lenha. Teve ainda o privilégio e o incómodo de assistir a uma matança de porco e às litúrgicas operações de desmancho e salga, acabando o dia a jogar à bola com a bexiga do bicho, como mandava a tradição.
E depois foi-se embora. Atenção: foi-se embora sem antes ir à Conga comer uma bifana. Mas comeu bifanas agora em Lisboa. Isto cabe na cabeça de alguém? As bifanas da capital sempre me mereceram as maiores reservas e, francamente, a equipa do No Reservations deveria estar na posse desta importante informação.
Bourdain disse que gostou muito das nossas "sanduíches gordurosas de porco", com carne "imunda e cortada em fatias finas". É uma definição elegante e que se aceita. Mas havia de ter provado as do Porto!  E não me venham dizer que as bifanas são iguais em todo o lado. Porque não são. E não me venham dizer que é só temperar com vinho branco e mais não sei quê (o resto fica cá comigo). Porque não é. É com o vinho (e com o resto), mas também com cerveja, ou para onde é que vocês cuidam que vão as sobras dos barris e a espuma que esborda dos finos (ou imperiais) mal tirados? Vai tudo lá para dentro, para o caldeirão da molhanga, e aqui é que bate o ponto. Aqui é que a porca torce o rabo. É que as bifanas do Porto chafurdam em Super Bock. E isso faz toda a diferença.

(Mais em Anthony Bourdain deixou-me ficar mal.)