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sábado, 20 de fevereiro de 2021

Chove. E não é dia de Natal.

E para a semana?
- Para a semana eles dão chuva.
- E que se coma, nada?... 

O meteorologista
- O que tu querias era sol na eira e chuva no nabal...
- E o que é que tu tens contra os microclimas?...  
 
O astrólogo
- E aqui chove sempre assim?
- Quer-se dizer, é de luas...  
 
O lavrador
- Quem semeia ventos, colhe tempestades...
- E o que é que tu percebes de agricultura?... 
 
O objector de consciência
- Chuva civil não molha militar!
- E bala militar não mata civil?...
  
O mal-agradecido
- Chove que Deus a dá!
- Escusava era de dar tanta...
 
O analfabeto
- Eu chovo, tu choves, ele chove...
 
O aferidor de pesos e medidas
- Esta noite choveu a cântaros!
- A almudes, se faz favor...  
 
O previdente
- Nem que chova canivetes?
- Exactamente.
- Abertos?
- Não há problema...
- E se forem picaretas?
- Fechadas?... 
 
O pragmático
- Ui, o que chove!...
- Mas é lá fora...  
 
O respondão
- Vai chover...
- Vai tu!
 
O distraído
- Olhe que está a chover...
- Estou?

Esta janela não é de fiar
O meu espertíssimo telemóvel garante-me que lá fora, a esta hora, faz um rico dia de sol. Olho agora mesmo pela janela e chove copiosamente. Quando apanhar uma sombrinha, vou mandar arranjar a janela.

Perspicácia
Aquilo ontem é que foi chover. Será do tempo? 

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

António Feliciano de Castilho 6

Exclamou certo avarento
a um que se ia enforcar:
" - Feliz homem, que três dias
pôde comer sem gastar."

"Poesias", António Feliciano de Castilho

(António Feliciano de Castilho nasceu no dia 28 de Janeiro de 1800. Morreu em 1875.)

sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

Deolindo Tavares 3

[Estamos irremediavelmente perdidos]

Estamos irremediavelmente perdidos,
e só nos resta esperarmos o fim de tudo
neste mundo onde ninguém se compreende
apesar de todos falarem a mesma língua,
sofrerem as mesmas dores,
viverem os mesmos segundos, sob um mesmo céu.
Estamos irremediavelmente perdidos,
olhando os campos que já não nos pertencem mais,
olhando um céu insensível
que apesar de tudo ainda é nosso e ninguém nos tomará.
Enquanto não vem o fim,
pensemos no princípio, tragicamente imóveis nesta planície 
onde todos vêem e estão miseramente cegos,
onde todos ouvem e estão miseramente surdos,
onde todos falam e estão miseramente mudos.
Estamos irremediavelmente perdidos.

Só as mãos e os olhos ainda se compreendem mas se calam.

Deolindo Tavares

(Deolindo Tavares nasceu no dia 21 de Dezembro de 1918. Morreu em 1942.)

sábado, 17 de fevereiro de 2018

Múcio Leão 3

As luas

Sobre a população desta amarga cidade
Pairam, longínquas, as sombras de duas grandes luas.

Elas velam o sono de Deus.
Uma está posta sobre os olhos de Deus,
E é por seu intermédio que os divinos olhos
Penetram os pensamentos e as dores
Do coração aflitíssimo dos homens.

A outra lua está colocada sobre o cérebro de Deus;
- E é a música, e é o sonho, e é o maravilhamento
De novas artes puras e perfeitas,
Que os homens jamais hão de conhecer.

"Poesias", Múcio Leão

(Múcio Leão nasceu no dia 17 de Fevereiro de 1898. Morreu em 1969.)

domingo, 13 de agosto de 2017

Gonçalves de Magalhães 2

Soneto à vista dos belos quadros do Sr. Manuel de Araújo Porto-Alegre
 
Que mágico pincel, mimo de Apolo,
Com muda locução, com vivas cores,
Faz da Pátria passar os Defensores
Desde o pólo do Sul do Norte ao pólo?

Quem tanto esmalta o Brasileiro solo?
Estes belos painéis, tão faladores
Mais encantos possuem que os Amores
Quando da terna mãe se erguem do colo.

Rafael do Brasil, eu te saúdo.
Tu serás entre nós das Belas Artes
Um novo vingador, um forte escudo.

Honra à Pátria não dão feroces Martes,
Mas Artistas quais tu! Elmano, eis tudo
Porque atroam do mundo as quatro partes.

"Poesias", Gonçalves de Magalhães

(Gonçalves de Magalhães nasceu no dia 13 de Agosto de 1811. Morreu em 1882.) 

domingo, 6 de agosto de 2017

Narciso Araújo

Tardes

Quando a tarde vem vindo e o crepúsculo desce
como uma ampla asa, e atrista os horizontes quedos,
eu creio ouvir, pelo ar, turturinos de prece,
uns murmúrios de amor, um frufruar de segredos.

Um sino badalando, aos poucos, esmorece;
a tristeza do bronze acorda na alma medos,
e a alma sente frio - um frio que parece
vir o pólo da morte, através de degredos.

Há também tardes na alma. Há mudez. Crepuscula.
O sino da saudade acorda e abre o passado
- livro que se fechou, sonho que não arrula.

E ansiamos reviver as esperanças mortas!
E ansiamos reentrar nesse templo doirado!
E - ai de nós! - um nevoeiro esconde-nos as portas...

"Poesias", Narciso Araújo

(Narciso Araújo nasceu no dia 6 de Agosto de 1877. Morreu em 1944.)

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Luís Edmundo

Risum teneatis
 
Teus olhos claros me disseram,
Como se fossem tua voz:
Ama-me... Os olhos também falam;
E quando os nossos lábios calam
O gesto e o olhar falam por nós.
Quando os teus dedos se encontraram
Nos dedos meus cheios de ardor,
Tua alma cálida fremia;
A tua mão nervosa e fria
Disse-me todo o teu amor.
Sorrias tu como uma estátua;
Lívida e cheia de emoção
Tu não falaste... a boca mente,
Tu foste minha inteiramente,
Foi meu teu virgem coração.
Passou no entanto aquele dia
Em que com febre e embriaguez
As nossas almas amorosas
Se uniram, trêmulas, ansiosas,
Pela primeira e última vez!
A boca mente... tu falaste...
Sem pressentir a minha dor...
Tu me negaste o amor ardente
Que em ti vibrava... a boca mente...
E tu mentiste, meu amor!

"Poesias", Luís Edmundo

(Luís Edmundo nasceu no dia 26 de Junho de 1878. Morreu em 1961.)

terça-feira, 7 de março de 2017

Artur de Sales 3

Lúcia

Lúcia chegou, quando do inverno o tredo
Vento agitava o coqueiral vetusto.
Vinha ofegante, e pálida de susto,
E trêmula de medo...

Ah! quanto beijo e quanto riso ledo
Deu-me o seu lábio, rúbido e venusto!
Quanto divino sentimento augusto,
Quanto infantil segredo!

Lúcia partiu... E aquele riso doce
Lúcia levou! A casa transformou-se
Num sepulcral degredo.

Se o vento agita o coqueiral vetusto,
Inda a recordo: pálida de susto
E trêmula de medo...

"Poesias", Artur de Sales

(Artur de Sales nasceu no dia 7 de Março de 1879. Morreu em 1952.)

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Múcio Leão 2

Contrição

Eu não te mereci. Eras bela e eras pura.
Havia na tua alma um secreto esplendor,
Misto de suavidade, emoção e ternura.
E essa luz era o amor!

Um dia, meigamente, amada peregrina,
Vieste pousar, sorrindo, o teu olhar no meu.
E havia no teu ser uma graça divina,
Um encanto imortal, que logo me prendeu.

Eu pude acreditar, quando chegaste, linda,
Para mim descerrando a mais clara manhã,
Que em tua luz feliz, que em tua luz infinda
Se me abria Canaã.

Perdoa, se eu, que sou imperfeito, um momento
Ousei volver o olhar à tua perfeição,
Implorando um sorriso ao teu recolhimento,
Implorando um carinho à tua solidão.

"Poesias", Múcio Leão

(Múcio Leão nasceu no dia 17 de Fevereiro de 1898. Morreu em 1969.)

domingo, 6 de novembro de 2016

Amadeu Amaral

Soneto

A terra é dura, o sol é bravo; a geada
destruidora; aves más e más formigas
assolam tudo, e a planta acarinhada
mal resiste a essas forças inimigas.

Que importa! Lavra sempre. Não maldigas
a terra ingrata. Não maldigas nada.
Talvez um dia o preço das fadigas
brote do sulco da robusta enxada.

Mas, quanto mais a terra é ingrata, e bravo
o sol e as aves são cruéis, e o resto,
mais valor mostrarás em continuar.

Que é gentileza não viver escravo
da ganância, e plantar só pelo gesto
religioso e sereno de plantar!

"Poesias", Amadeu Amaral

(Amadeu Amaral nasceu no dia 6 de Novembro de 1875. Morreu em 1929.)

segunda-feira, 4 de julho de 2016

Emílio de Meneses 2

A chegada

Noite de chuva tétrica e pressaga.
Da natureza ao íntimo recesso
Gritos de augúrio vão, praga por praga,
Cortando a treva e o matagal espesso.


Montes e vales, que a torrente alaga,
Venço e à alimária o incerto passo apresso.
Da última estrela à réstia ínfima e vaga
Ínvios caminhos, trêmulo, atravesso.


Tudo me envolve em tenebroso cerco
- D' alma a vida me foge, sonho a sonho,
E a esperança de vê-la quase perco.


Mas numa volta, súbito, da estrada
Surge, em auréola, o seu perfil risonho,
Ao clarão da varanda iluminada!


"Poesias", Emílio de Meneses

(Emílio de Meneses nasceu no dia 4 de Julho de 1866. Morreu em 1918.)

quinta-feira, 16 de junho de 2016

Dante Milano 4

Paragem


Com os meus bois,
Os meus bois que mugem e comem o chão,
Os meus bois parados,
De olhos parados,
Chorando,
Olhando...
O boi da minha solidão,
O boi da minha tristeza,
O boi do meu cansaço,
O boi da minha humilhação.

E esta calma, esta canga, esta obediência.

"Poesias", Dante Milano

(Dante Milano nasceu no dia 16 de Junho de 1899. Morreu em 1991.)

domingo, 20 de março de 2016

Menotti del Picchia 2

Chuva de pedra

O granizo salpica o chão como se as mãos das nuvens
quebrassem com estrondo um pedaço de gelo
para a salada de fruta dos pomares...

O cafezal, numa carreira alucinada,
grimpa as lombas de ocre
apedrejada matilha de cães verdes...

fremem, gotejam eriçadas suas copas
como pêlos de um animal todo molhado.

O céu é uma pedreira cor de zinco
onde estoura dinamite dos coriscos.

Rola de fraga em fraga a lasca retumbante
de um trovão.

Os riachos
correm com seus pés invisíveis e líquidos
para o abrigo das furnas. No terreiro,
as roupas penduradas nos varais
dançam, funambulescas, com as pedradas,
numa fila macabra de enforcados!


"Chuva de Pedra", Menotti del Picchia

(Menotti del Picchia nasceu no dia 20 de Março de 1892. Morreu em 1988.)

sábado, 4 de julho de 2015

Emílio de Meneses

Noite de insônia

Este leito que é o meu, que é o teu, que é o nosso leito,
Onde este grande amor floriu, sincero e justo,
E unimos, ambos nós, o peito contra o peito.
Ambos cheios de anelo e ambos cheios de susto;


Este leito que aí está revolto assim, desfeito,
Onde humilde beijei teus pés, as mãos, o busto,
Na ausência do teu corpo a que ele estava afeito,
Mudou-se, para mim, num leito de Procusto!...


Louco e só! Desvairado! A noite vai sem termo
E, estendendo, lá fora, as sombras augurais,
Envolve a Natureza e penetra o meu ermo.


E mal julgas talvez, quando, acaso, te vais,
Quanto me punge e corta o coração enfermo
Este horrível temor de que não voltes mais!.
..


"Poesias", Emílio de Meneses

(Emílio de Meneses nasceu no dia 4 de Julho de 1866. Morreu em 1918.)

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Soares dos Passos 2

O noivado do sepulcro

Vai alta a lua! Na mansão da morte
Já meia-noite com vagar soou;
Que paz tranquila! Dos vaivéns da sorte
Só tem descanso quem ali baixou.

Que paz tranquila!... Mas eis longe, ao longe,
Funérea campa com fragor rangeu;
Branco fantasma semelhante a um monge,
Dentre os sepulcros a cabeça ergueu.

Ergueu-se, ergueu-se!... Na amplidão celeste
Campeia a lua com sinistra luz;
O vento geme no feral cipreste,
O mocho pia na marmórea cruz.

Ergueu-se, ergueu-se!... Com sombrio espanto
Olhou em roda... não achou ninguém...
Por entre as campas, arrastando o manto,
Com lentos passos caminhou além.

Chegando perto duma cruz alçada,
Que, entre os ciprestes, alvejava ao fim,
Parou, sentou-se, e com a voz magoada
Os ecos tristes acordou assim:

"Mulher formosa, que adorei na vida,
"E que na tumba não cessei de amar,
"Porque atraiçoas, desleal, mentida,
"O amor eterno que te ouvi jurar?

"Amor! Engano que na campa finda,
"Que a morte despe da ilusão falaz:
"Quem de entre os vivos se lembrará ainda
"Do pobre morto que na terra jaz!

"Abandonado neste chão repousa
"Há já três dias, e não vens aqui...
"Ai quão pesada me tem sido a lousa
"Sobre este peito que bateu por ti!

"Ai, quão pesada me tem sido!" E, em meio,
A fronte exausta lhe pendeu na mão,
E entre soluços arrancou do seio
Fundo suspiro de cruel paixão.

"Talvez que, rindo dos protestos nossos,
"Gozes com outro de infernal prazer;
"E o olvido, o olvido cobrirá meus ossos
"Na fria terra, sem vingança ter!

- "Oh nunca, nunca!" de saudade infinda,
Responde um eco, suspirando, além...
- "Oh nunca, nunca!" repetiu ainda
Formosa virgem que em seus braços tem.

Cobrem-lhe as formas divinais, airosas,
Longas roupagens de nevada cor;
Singela coroa de virgínias rosas
Lhe cerca a fronte dum mortal palor.

"Não, não perdeste meu amor jurado:
"Vês este peito? Reina a morte aqui...
"É já sem forças, ai de mim, gelado,
"Mas ainda pulsa com amor por ti.

"Feliz que pude acompanhar-te ao fundo
"Da sepultura, sucumbindo à dor:
"Deixei a vida... que importava o mundo,
"O mundo em trevas, sem a luz do amor?

"Saudosa, ao longe, vês no céu a lua?"
- "Oh vejo, sim... recordação fatal!"
- "Foi à luz dela que jurei ser tua
Durante a vida, e na mansão final.

"Oh vem! Se nunca te cingi ao peito,
"Hoje o sepulcro nos reúne enfim...
"Quero o repouso de teu frio leito,
"Quero-te unido para sempre a mim!"

E ao som dos pios do cantor funéreo
E à luz da lua de sinistro alvor,
Junto ao cruzeiro, sepulcral mistério
Foi celebrado, de infeliz amor.

Quando risonho despontava o dia,
Já desse drama nada havia então,
Mais que uma tumba funeral vazia,
Quebrada a lousa por ignota mão.

Porém, mais tarde, quando foi volvido
Das sepulturas o gelado pó,
Dois esqueletos, um ao outro unido,
Foram achados num sepulcro só
.


"Poesias", Soares dos Passos

(Soares dos Passos nasceu no dia 27 de Novembro de 1826. Morreu em 1860.)

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Soares dos Passos

Num álbum

Do sofrimento o arcanjo lamentoso
Sobre a face do mundo estende o braço:
Um diadema ofertava, e pavoroso:
"Para o que mais sofreu!" gritou no espaço.

Eis logo imensa turba se atropela,
Todos querem ganhar a prenda infausta;
Mas nenhum dos que chegam por obtê-la
Mostrava a taça da amargura exausta.

"Afastai-vos!" lhes brada o génio esquivo,
"Nenhum tocou do sofrimento a meta:
"Tu, só tu mereceste o prémio altivo;
"Ergue a fronte, coroa-te, poeta!"

"Poesias", Soares dos Passos

(Soares dos Passos nasceu no dia 27 de Novembro de 1826. Morreu em 1860.)