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sábado, 20 de março de 2021

Menotti del Picchia 7

Tarde fazendeira

Tarde cabocla
com banzo de pretos nas sombras,
carícias de escravas mulatas
nas palmas dos longos coqueiros.
Um rouco ribombo de bombo
nos ecos; um trilo de estrídulos grilos
nas moitas; tarde cabocla
com um sol de miçangas, de gangas vermelhas
nos flancos das serras,
com um hálito fresco de folhas pisadas, de verdes pomares
pejados de frutas-de-conde, de mangas maduras,
com aros de lua nascente nos céus e nas águas,
tarde cabocla
com vagas preguiças de redes nas ramas,
com longos bocejos de luz nas encostas,
foi numa tarde como esta
que vieram ao mundo
os mestiços da raça...

Menotti del Picchia

(Menotti del Picchia nasceu no dia 20 de Março de 1892. Morreu em 1988.)

sexta-feira, 20 de março de 2020

Menotti del Picchia 6

Soneto

Soneto! Mal de ti falem perversos
que eu te amo e te ergo no ar como uma taça.
Canta dentro de ti a ave da graça
na gaiola dos teus quatorze versos.

Quantos sonhos de amor jazem imersos
em ti que és dor, temor, glória e desgraça?
Foste a expressão sentimental da raça
de um povo que viveu fazendo versos.

Teu lirismo é a nostálgica tristeza
dessa saudade atávica e fagueira
que no fundo da raça nos verteu

a primeira guitarra portuguesa
gemendo numa praia brasileira
naquela noite em que o Brasil nasceu...


Menotti del Picchia

(Menotti del Picchia nasceu no dia 20 de Março de 1892. Morreu em 1988.)

quarta-feira, 20 de março de 2019

Menotti del Picchia 5

Noite

As casas fecham as pálpebras das janelas e dormem.
Todos os rumores são postos em surdina,
todas as luzes se apagam.

Há um grande aparato de câmara funerária
na paisagem do mundo.

Os homens ficam rígidos,
tomam a posição horizontal
e ensaiam o próprio cadáver.

Cada leito é a maquete de um túmulo.
Cada sono em ensaio de morte.

No cemitério da treva
tudo morre provisoriamente.


Menotti del Picchia

(Menotti del Picchia nasceu no dia 20 de Março de 1892. Morreu em 1988.)

terça-feira, 20 de março de 2018

Menotti del Picchia 4

Banzo

E por que deixou na areia do Congo
a aldeia de palmas;
e porque seus ídolos negros
não fazem mais feitiços;
e porque o homem branco o enganou com missangas
e atulhou o porão do navio negreiro
com seu desespero covarde;
e porque não vê mais de ânfora ao ombro
a imagem do conga nas águas do Kuango,
ele fica na porta da senzala
de mão no queixo e cachimbo na boca,
varado de angústia,
olhando o horizonte,
calado, dormente,
pensando,
sofrendo,
chorando.
morrendo.

Menotti del Picchia

(Menotti del Picchia nasceu no dia 20 de Março de 1892. Morreu em 1988.)

segunda-feira, 20 de março de 2017

Menotti del Picchia 3

Beleza

A beleza das coisas te devasta
como o sol que fascina mas te cega.
Delas contundo a luminosa entrega
nunca se dá, melhor, nunca te basta.

E a imensa paz que para além te arrasta
quanto mais se te esquiva ou te renega...
Paz tão do alto e paz dessa macega
que nos campos esplende à luz mais casta.

A beleza te fere e todavia
afaga, uma emoção (sempre a primeira e nunca
repetida) que conduz

o teu deslumbramento para um dia
à noite misturado, na clareira
em que te sentes noite em plena luz.


Menotti del Picchia

(Menotti del Picchia nasceu no dia 20 de Março de 1892. Morreu em 1988.)

domingo, 20 de março de 2016

Menotti del Picchia 2

Chuva de pedra

O granizo salpica o chão como se as mãos das nuvens
quebrassem com estrondo um pedaço de gelo
para a salada de fruta dos pomares...

O cafezal, numa carreira alucinada,
grimpa as lombas de ocre
apedrejada matilha de cães verdes...

fremem, gotejam eriçadas suas copas
como pêlos de um animal todo molhado.

O céu é uma pedreira cor de zinco
onde estoura dinamite dos coriscos.

Rola de fraga em fraga a lasca retumbante
de um trovão.

Os riachos
correm com seus pés invisíveis e líquidos
para o abrigo das furnas. No terreiro,
as roupas penduradas nos varais
dançam, funambulescas, com as pedradas,
numa fila macabra de enforcados!


"Chuva de Pedra", Menotti del Picchia

(Menotti del Picchia nasceu no dia 20 de Março de 1892. Morreu em 1988.)

sexta-feira, 20 de março de 2015

Menotti del Picchia

O problema, agora, era aquele: desfazer-se dos cachorrinhos. Para o Padre Nazareno o caso assumia proporções graves. Não. Não podiam continuar aí. Brigavam a dentadas como se, em lugar de irmãos, fossem três bandidos. Negrinha não possuía nenhuma força moral perante suas crias. Seus latidos disciplinares, longe de pacificá-los, atiçavam-nos, fazendo-os retesar as patas dianteiras e fuzilar as pupilas. A barulheira exasperava os vizinhos. Chovia reclamações de toda a parte. Padre Nazareno andava zonzo.
Nelo, certa vez, botara a cabeça na cerca:
Olhe, padre, se você não acaba com essa ninhada, eu acabo jogando nela um cadinho de bronze fervendo.
Agora era procurar quem ficasse com eles.
Isso doía o coração de Nazareno. Chegara a amá-los como se fossem filhos. Suas preferências iam todas para um cotó, meio capenga, mas esperto e afetivo. Mal via o padre, corria aos pinotes abanando o toquinho de rabo, ganindo de contente.
Quieto, Sulfato!
Batizara-o com o nome de Sulfato. Não sabia por quê. Tinha o focinho rosado e úmido, um olhar de gente. Manifestava uma precocidade alarmante. Compreendia as mínimas palavras.
Olhe, Sulfato, se você me rasgar outra vez a batina, entrego você ao Tinoco. O Tinoco era o "homem do saco". Um pobre-diabo que vendia espigas de milho num saco de estopa. As mães, para assustar os filhos peraltas, afiançavam que ele raptava e carregava as crianças desobedientes naquele saco. À palavra "Tinoco", Sulfato, esperto e compreensivo, fugia e ia esconder-se debaixo do tanque. Duro, depois, para desentocá-lo.

"Salomé", Menotti del Picchia

(Menotti del Picchia nasceu no dia 20 de Março de 1892. Morreu em 1988.)