Mostrar mensagens com a etiqueta peixe. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta peixe. Mostrar todas as mensagens

sábado, 2 de maio de 2026

É preciso ter lata

O confinamento imposto pela pandemia fez dele um verdadeiro especialista em atum, preparando-o para toda a espécie de apagões. Bom Petisco à segunda, Ramirez à terça, Tenório à quarta, Minerva à quinta, Pitéu à sexta e Inês ao sábado. Ao domingo, sardinha em tomate, evidentemente.

P.S. - Hoje é Dia Mundial do Atum.

sexta-feira, 17 de abril de 2026

Os rabilhos, sem menosprezo pelos outros

O mercado de peixe
Quem é que ainda se lembra de ver a funcionar o velho Mercado de Peixe de Fafe, na Feira Velha, o nosso pequeno "Ferreira Borges"? A funcionar e a cheirar, isto é, a feder e a exabundar de moscas, que aquilo era um pivete que não se podia. Talvez por isso o povo o tenha adoptado como latrina pública, mesmo ali nas barbas da Câmara, durante a sua longa temporada de abandono.

Rabilhos. Os japoneses são malucos por rabilhos. E as notícias dão conta disso, de vez em quando. É um assunto que me interessa sobremaneira, isto dos rabilhos japoneses. Aqui atrasado, um atum com 278 quilos foi comprado por dois vírgula sete milhões de euros, em Tóquio evidentemente, no mercado de Toyosu, que substitui o famoso mercado de Tsukiji, que era o maior mercado de peixe do mundo e uma das principais atracções turísticas da capital japonesa. O atum em questão foi a grande estrela do sempre muito aguardado primeiro leilão de Ano Novo, e bateu, sem culpa nenhuma, todos os recordes. Sei disto tudo porque o jornal Público mo contou na altura. E o Público, por favor não confundir com o Correio da Manhã, conta muito bem estas e outras extraordinarices. Para além disso, o Correio da Manhã é em vermelho.
Meses antes, um atum com 162 quilos tinha sido vendido por 4,3 milhões de ienes (quase 33 mil euros), ainda no velho Tsukiji, no seu último leilão, a uma escassa semana de fechar portas. Um atum praticamente dado, em boa verdade. Com efeito, em Janeiro de 2013, sempre contado pelo jornal Público, atentíssimo a estas coisas até mais não, um atum gigante fora comprado, no mesmo mercado, pelo então preço recorde de 1,38 milhões de euros. O peixão pesava 222 quilos, ficando por isso a cerca de quatro mil e setecentos euros cada quilo, é só fazer as contas. O outro, o tal do Ano Novo, custou mais de dez mil euros o quilo. Ora passa-se o seguinte: aqui atrasado comprei um atum anão, cá em Matosinhos, na peixaria da Dona Augusta, por pouco mais de euro e meio, eu seja ceguinho, e mais fresco era impossível. Pesava quase três quilos, saiu-me a rondar os 50 cêntimos o quilo.
As notícias afirmam que o atum gigante japonês era "rabilho". O meu atum anão, sinceramente não sei. Mas também foi comido. Em bifinhos. De cebolada. E que bem que nos soube.

Não percebo se é a fartura que os desorienta, mas a verdade é que os japoneses são mesmo um bocado tolos nisto de compras. Em Julho de 2014 soube-se que um cacho com 34 uvas, cada bago a pesar cerca de 30 gramas, foi vendido pelo simbólico preço de quatro mil euros. As uvas eram da raríssima casta ruby roman. E eu? Ainda ontem comprei na frutaria aqui da rua um bom gaipelo com 15 bagos e dois pequeninos, e não paguei mais do que cinquenta e três cêntimos. Evidentemente não eram ruby roman, muitíssimo longíssimo disso. As minhas uvas eram colhão-de-galo e, se quereis que vos diga, fiquei muito bem servido...

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Mundial da Malbec. A Malbec, nascida em França, é a casta de uvas que melhor representa a alma vinícola da Argentina, dizem os entendidos.)

sábado, 2 de agosto de 2025

Ah, fanecas!

O sedutor
Ele era um sedutor de mão cheia. Adorava apalpar rabos.

Bem boas que elas andam, as fanecas. Gosto delas fritas. Temperadas só com sal e passadas por farinha milha, à tasco, isto é, à Fafe, ou então mais à minha moda, tratadas também com um pouco de pimenta e bastante limão e depois envolvidas com farinha triga e ovo. Sem outros truques ou invenções. Há derivas que aceito e consumo, mas estão longe de me satisfazer. Insisto: a faneca só me enche as medidas quando na sua pureza original. Frita.
Peixe, em Fafe, era uma trilogia, uma santíssima trindade: sardinha, faneca e chicharro, que se dizia chucharro, carregando generosamente nos "ches" como se fossem tempero, azeite do bom. Era o peixe que se podia, peixinho de pobres. Às vezes lá apareciam também uns verdinhos, umas marmotinhas para enfiar o rabo na boca, e claro que ouvíamos falar de pescada, sabíamos que a pescada existia, que antes de ser já o era, mas que era só para os ricos, ou para os pobres oferecerem aos ricos, como peita, os tolos. O peixinho andadeiro, o nosso, comprava-se à Mocha e à D. Filomena, marralhando com todo o afinco, à face da estrada, no Santo Velho, sítio estratégico por onde passava o povo das fábricas. A pescada, quem lhe pudesse chegar, amiúde para acudir à aflição de uma doença e satisfazer a recomendação médica, só vinha por encomenda, de um dia para o outro. E era como se fosse à farmácia.
Uma vez há muitos anos, pela madrugada, eu já no Porto, deixei que me metessem num barco nevoento e fui à pesca da faneca com o bando do saudoso Adélio Santos, velho repórter-fotográfico com quem acamaradei no Janeiro e noutras lides mais ou menos profissionais. Quer-se dizer: eles foram à pesca, à linha, e eu fui lançar ao mar os restos de uma noitada sem passagem pela cama. Não sei se servi de engodo, mas o certo é que apanhámos peixe até dar com um pau. Seríamos uns seis ou sete naquela companha de ocasião, e toda a gente teve direito a um ou dois baldes cheios de fanecas e cavalas, até eu, que, pelos vistos, também tinha feito a minha parte e não sabia. Estava na idade da toléria e tão tolo era que desprezei então as cavalas, hoje em dia com lugar cativo, ainda que bissexto, na minha exigente lista de pitéus.
Mas voltemos às fanecas. O meu amigo Lopes, que é tão fanequeiro como eu, afirma, no seu mar de sabedoria, que "a faneca é um peixe muito honesto". E é. Em diversos sentidos e apesar de já ter andado por aí na boca da malandragem armada em carapau de corrida. A este respeito (ou a respeito da falta dele), torno a Fafe, à década de setenta do século vinte: quem é desse tempo e não se lembra dos rapazolas ou velhos tarados que, aproveitando a barafunda das quartas-feiras, passavam por elas, pelas moças, em Cima da Arcada, roçando-lhes o cotovelo pelas mamas, como quem não quer a coisa, atirando-lhes, entredentes, "Ah, faneca, comia-te toda!", broeiros, e levando de resposta um lampeiro estalo na cara, que acabava logo ali com todos os tesões? Realmente, quem não se lembra?...
Entretanto o piropo foi criminalizado em Portugal, e até poder dar cadeia. E os apalpões, já se sabe, dão artigos de jornal, o que ainda é pior. A mim, por acaso, não me faz diferença. Gosto muito de fanecas e de mamas, confesso, mas seduzo apenas por telepatia.
O Lopes tem razão: a faneca é um peixe honesto. Depois, evidentemente, como em tudo na vida, há fanecas mais honestas do que outras. Na minha cozinha, por exemplo, só entram fanecas do alvor, pescadas já dentro da manhãzinha, como daquela vez extraordinária com o Adélio, mas agora sacadas do mar por mãos que sabem. Um luxo. Mordomia matosinhense, reservada a quem mora ao pé da doca e conhece um bocadinho. São fanecas do mar que eu vejo da minha varanda, "do nosso mar". Madrugo também, compro-as vivinhas da silva, ainda sem terem passado pelo castigo do gelo e isentas de outras burocracias normalizadoras e estragativas, trago-as íntegras para casa, amanho-as eu, eu é que sei como é que as quero. Não menos importante: comemo-las no próprio dia. Exactamente. Elas andam bem boas, isso nem se discute, mas é preciso saber dar-lhes as voltas...

(Versão revista e aumentada, publicada no meu blogue Mistérios de Fafe)

segunda-feira, 23 de dezembro de 2024

Nem tanto ao mar nem tanto à terra

Foto Hernâni Von Doellinger

O meu sogro, que estaria agora nos 95 anos se não me tivesse morrido nos braços num fim de tarde do fim de Novembro de 2015, declarava, na sua infinita simplicidade: - Se me derem bacalhau todos os dias, para mim está muito bem e até agradeço.
E o meu sogro só sabia de meia dúzia das mil e uma maneiras de cozinhar bacalhau. Mas não era esquisito, estava servido. E, mesmo no Natal, preferia a parte da asa.
Já a minha sogra, que vai a caminho dos 93 e continua sem razões de queixa do apetite, tem um visão mais ampla do universo, outra sabedoria. E defende que a vida é composta por três qualidades. Costuma filosofar, aliás, a esse propósito: - Nem sempre carne e nem sempre peixe. De vez em quando também é preciso comer um bocadinho de bacalhau.
Exactamente. Carne, peixe e bacalhau, as três espécies sobreviventes após a liquidação dos dinossauros. A minha sogra, que nunca na vida deixou o meu sogro ter razão, é que está certa. Este mundo não é só bacalhau. Ainda por cima, ao preço a que ele está.

P.S. - Viva o bacalhau! Viva o Natal!

terça-feira, 30 de julho de 2024

O escalador

Os expertos apontavam-no como o grande escalador para esta Volta a Portugal. Mas a verdade é só uma: passaram-lhe para as mãos um robalo, e ele nada, entregaram-lhe um rodovalho, e ele nicles, deram-lhe até um chicharro, e ele sem saber que volta dar-lhe. A montanha parira um rato. Ele, disse ele, afinal era mais douradinhos da Iglo... 

domingo, 13 de agosto de 2023

A vida não é só bacalhau. Mas podia ser!

Américo Tomás, o Culto, costumava dizer de improviso, mal iniciava uma das suas benfazejas visitas às sucessivas terras de Portugal: - Esta é a primeira vez que estou cá, desde a última vez que cá estive...
Pois bem. Creio que este também é o primeiro fim-de-semana, depois dos dois últimos fins-de semana, em que eu não escrevo sobre bacalhau. Isso, bacalhau. E não escrevo sobre bacalhau, embora ontem tenhamos ido comer mais uma vez o melhor bacalhau assado na brasa do mundo aí a um sítio, mas não escrevo sobre bacalhau, dizia eu, porque recebi certas e determinadas críticas alegando que estou sempre a falar de bacalhau e que tanto bacalhau até enjoa e que há mais vida para além do bacalhau e não sei que mais...
A crítica é livre e serve geralmente para limpar o cu, mas devo dizer que o meu sogro tinha uma máxima a respeito de bacalhau que talvez não seja de deitar fora. O meu sogro, que faria 93 anos na passada sexta-feira se não me tivesse morrido nos braços num fim de tarde do fim de Novembro de 2015, declarava, na sua infinita simplicidade: - Se me derem bacalhau todos os dias, para mim está muito bem e até agradeço.
E o meu sogro só sabia de meia dúzia das mil e uma maneiras de cozinhar bacalhau. Mas não era esquisito, estava servido. E ontem fez-nos falta à mesa.
Já a minha sogra, que vai a caminho dos 92 e continua sem razões de queixa do apetite, tem um visão mais ampla do universo, outra sabedoria. E defende que a vida é composta por três qualidades. Costuma filosofar, aliás, a esse propósito: - Nem sempre carne e nem sempre peixe. De vez em quando também é preciso comer um bocadinho de bacalhau.
Exactamente. Carne, peixe e bacalhau, as três espécies sobreviventes após a liquidação dos dinossauros. A minha sogra, que nunca na vida deixou o meu sogro ter razão, é que está certa. Este mundo não é só bacalhau. Ainda por cima ao preço a que ele está.

Seja como for, já disse, sobre bacalhau, hoje, da minha boca, nada!

sábado, 6 de maio de 2023

Era Bouças e fez-se Matosinhos

Matosinhos cheira mal. Faz parte. E aos sábados e domingos mete nojo. Num dia como o de hoje, isto é, dia 6 de Maio, mas de 1909, o velho concelho de Bouças passou a chamar-se Matosinhos e pode portanto dizer-se que Matosinhos faz hoje anos, siga a rusga, siga a rusga, siga a nossa reinação. Os restaurantes de peixe rebentam pelas costuras e pelas esplanadas, e isso é bom para o IVA, mas fedem e fumegam num alucinante aviso de como será decerto o fim do mundo de um modo geral. Aos sábados e domingos, Matosinhos cheira a sardinhas mal descongeladas e a grelhas que não vêem água desde a grande seca de 1948. Cheira também a lixo deitado alegremente à rua sem norma nem excepção. Cheira também aos escapes bronquíticos dos incendiários autocarros da Resende. Quer-se dizer: Matosinhos cheira mal, fede ao natural e ao gasóleo, tresanda a Matosinhos.
Com vista para o mar se me puser de lado, moro há mais de trinta anos ao dobrar da esquina da restaurantíssima e concorridíssima Rua Heróis de França, no epicentro exacto dos vapores e malinas gastronómicas matosinhenses. Por estes dias a Rua Heróis de França está praticamente impraticável, pelo menos desde Tomás Ribeiro até às funduras da Lota, mas suponho que depois da Lota continua. Ecopontos e contentores tresandam perigosamente, mesmo à distância: nauseabundam a comida estragada, a peixe podre, a vomitado, a fermentado, a ranço, a lavadura para porcos, a ácido, a tóxico, a bagaço, a estrume, a bosta. Matosinhos World’s Best Fish, iniciativa da Câmara Municipal para inglês ver, só pode ser um equívoco, uma piada. E o fedor corre pela rua e entranha-se nas casas e nas roupas. Nos pulmões.
O Senhor Varredor que se ocupava de Heróis de França e fazia um trabalho impecável, e com quem eu dava, sempre que podíamos, dois dedos de conversa, pediu-me uma vez que eu fosse deitando os olhos ali às redondezas dos ecopontos novinhos em folha, porque se calhar um dia qualquer lá estaria ele estendido ao comprido, evidentemente gaseado por aquele fedor que não se aguenta, e muito grato ficaria se eu chamasse o INEM...

Moro em Matosinhos e gosto de pensar que também sou de Matosinhos. Moro à beira-mar. E como eu gosto do mar! Levei com o fedor da fábrica da tripa, habituei-me ao chulé da estilha e gramo com os saralhotos de cão que abrilhantam metro sim metro não os passeios da cidade. Gosto do sítio onde moro e gosto das pessoas a quem digo e que me dizem bom-dia, todos os dias, na lota, na peixaria, na padaria, no mercado, na praia, no passeio marginal, nas portas dos cafés e lojas. Gosto dos pescadores, gosto das peixeiras, gosto do peixe fresco que me vendem por especial atenção, gosto da franqueza e da valentia deste povo, gosto do cheiro da sardinha assada que me entra pela casa dentro nem que eu não queira, gosto das esplanadas que no Verão estorvam ruas e pessoas e quem estiver mal que se mude, gosto do Leixões e gosto dos leixonenses apesar de eles odiarem visceralmente o meu FC Porto.
No prédio onde eu moro, o meu apartamento é o único que não tem marquise ou paramarquise na varanda. Dá nas vistas, é verdade, destoa, incomoda os vizinhos, aliás condóminos, e todos os dias tenho a caixa de correio assediada por uns quantos panfletos em quadricromia e papel couché que me oferecem o sufoco a xis euros o metro quadrado. Muito agradecido, mas passo: a varanda faz-me falta tal qual está.
Gosto de correntes de ar, que hei-de fazer? Gosto de terra e gosto de mar. E gosto de levar com a terra e com o mar nas ventas. Gosto dos cheiros. Gosto de pensar (ou de pensar que penso), gosto de refrescar ideias. A minha varanda é o meu retiro. O meu castelo. E é o meu quintal, a minha esplanada, o meu posto de vigia. Gosto de semear, de regar os vasos, de espreitar o nanocrescimento dos coentros, do alecrim, da salsa e do tomilho, e até tenho um loureiro e um carvalho, gostava de fumar a minha cachimbada e de beber o meu CRF "em balão previamente aquecido", que já não fumo e bissextamente bebo, gosto de ver passar navios. Condenaram-me a isso há uns anos, a ver navios, mas eu gosto. Sou um gajo cheio de sorte.
Estão a ver a cabeça daquele cromo assamarrado e de chapéu enfiado até às orelhas, sentado na varanda, ignorante da chuva e do frio, de braço de fora e olhando o mar? A cabeça é minha, o cromo sou eu. Não podem ver, mas tenho uma manta a agasalhar-me as pernas. Estou muito bem, não se preocupem. E estão a ver a gaivota belíssima, empoleirada no parapeito e quase em cima de mim? Ela não me larga. A gaivota também sabe que ali é santuário, lugar de pensamento e liberdade. Somos cúmplices, almas gémeas praticamente. Mas a gaivota abusa, caga na varanda e borra a roupa do estendal, o que enfurece sobremaneira a minha mulher, quase tanto como a cinza de cigarro da vizinha de cima. Eu, no que me diz respeito, tomo nota de mais um barco que entra no Porto de Leixões.

Claro que Matosinhos não tem o melhor peixe do mundo, como reclama a autarquia. Tem um peixe honestinho, com que me vou regalando cá em casa, e não é peixe de restaurante. É outro peixe, de que a publicidade não sabe, e ainda bem para mim. Por outro lado, Matosinhos terá provavelmente o melhor pior fedor do mundo. Entre o peixinho e o fedor, às tantas nem me queixo. Na verdade, confesso, gosto de Matosinhos assim.

sábado, 1 de outubro de 2022

Espanto gastrointestinal

Era vegetariano e cagava postas de pescada. A ciência nunca soube explicar o fenómeno.

P.S. - Hoje é Dia Mundial do Vegetarianismo.

sexta-feira, 1 de outubro de 2021

Espanto gastrointestinal

Era vegetariano e cagava postas de pescada. A ciência nunca soube explicar o fenómeno.

P.S. - Hoje, 1 de Outubro, é Dia Mundial do Vegetarianismo.

sábado, 5 de junho de 2021

Matosinhos tresanda a Matosinhos

Matosinhos cheira mal. Faz parte. E aos domingos mete nojo. Os restaurantes de peixe rebentam pelas costuras e pelas esplanadas, e isso é bom para o IVA, mas fedem e fumegam num alucinante aviso do que decerto será o fim do mundo de um modo geral. Aos domingos, Matosinhos cheira a sardinhas mal descongeladas e a grelhas que não vêem água desde a grande seca de 1948. Cheira também a lixo deitado alegremente à rua sem norma nem excepção. Cheira também aos escapes bronquíticos dos incendiários autocarros da Resende. Quer-se dizer: Matosinhos cheira mal, fede ao natural e ao gasóleo, tresanda a Matosinhos.
Com vista para o mar se me puser de lado, moro há mais de trinta anos ao dobrar da esquina da restaurantíssima e concorridíssima Rua Heróis de França, no epicentro exacto dos vapores e malinas gastronómicas matosinhenses. Por estes dias a Rua Heróis de França está praticamente impraticável, pelo menos desde Tomás Ribeiro até às funduras da Lota, mas suponho que depois da Lota continua. Ecopontos e contentores tresandam perigosamente, mesmo à distância: nauseabundam a comida estragada, a peixe podre, a vomitado, a fermentado, a ranço, a lavadura para porcos, a ácido, a tóxico, a bagaço, a estrume, a bosta. Matosinhos World’s Best Fish, iniciativa da Câmara Municipal para inglês ver, só pode ser um equívoco, uma piada. E o fedor corre pela rua e entranha-se nas casas e nas roupas. Nos pulmões.
O Senhor Varredor que se ocupa de Heróis de França e faz um trabalho impecável, e com quem dou, sempre que podemos, dois dedos de conversa, pediu-me que eu fosse deitando os olhos ali às redondezas dos ecopontos novinhos em folha, porque se calhar um destes dias lá estará ele estendido ao comprido, evidentemente gaseado por aquele fedor que não se aguenta.
Claro que Matosinhos não tem o melhor peixe do mundo. Tem um peixe honestinho, com que me vou regalando cá em casa, e não é peixe de restaurante. É outro peixe, de que a publicidade não sabe, e ainda bem para mim. Por outro lado, Matosinhos terá provavelmente o melhor pior fedor do mundo. Entre o peixinho e o fedor, às tantas nem me queixo. Na verdade, confesso, gosto de Matosinhos assim.

P.S. - Publicado originalmente no dia 9 de Agosto de 2015, e o fedor continua. Hoje, 5 de Junho, é Dia Mundial do Ambiente. É também Dia Internacional da Luta Contra a Pesca Ilegal, Não Declarada e Não Regulamentada.

segunda-feira, 31 de maio de 2021

Fanecamente falando

Bem boas que elas andam, as fanecas. Já repararam? Se calhar a mãe Natureza resolveu chamar à razão a nem sempre atinada lei das compensações, mas a verdade é que durante a quase década baixa da sardinha, uma desgraça, a faneca comportou-se sempre com uma categoria de que eu já nem me lembrava. Regalei-me.
Gosto delas fritas. Só com sal e passadas por farinha milha, à tasco, ou então mais à minha moda, tratadas também com pimenta e limão e depois envolvidas com farinha triga e ovo. Sem outros truques ou invenções. Há derivas que aceito e como, mas estão longe de me satisfazer. Insisto: a faneca só me enche as medidas quando na sua pureza original. Frita.
Uma vez há muitos anos, pela madrugada, deixei que me metessem num barco e fui à pesca da faneca com o grupo do meu saudoso amigo Adélio Santos. Quer-se dizer: eles foram à pesca e eu fui vomitar uma noite de copos e sem passagem pela cama. Não sei se a nojeira serviu de engodo, mas o certo é que aquilo era peixe até dar com um pau. Seríamos uns seis ou sete naquela companha de ocasião e toda a gente teve direito a um ou dois baldes cheios de fanecas e cavalas, até eu, que pelos vistos também tinha feito a minha parte e não sabia. Estava na idade da toléria e tão tolo era que desprezei então as cavalas, hoje em dia com lugar cativo na minha lista de pitéus.
Mas voltemos às fanecas. O meu amigo Lopes, que é tão fanequeiro como eu, diz, no seu mar de sabedoria, que "a faneca é um peixe muito honesto". E é. Em diversos sentidos e apesar de já ter andado por aí na boca da malandragem armada em carapau de corrida. A este respeito (ou a respeito da falta dele), torno a Fafe, à década de setenta do século vinte: quem é desse tempo e não se lembra de aproveitar a barafunda das quartas-feiras para passar por elas, pelas gajas, em Cima da Arcada, roçar-lhes o cotovelo pelas mamas como quem não quer a coisa, dizer-lhes entredentes "Ah, faneca, comia-te toda!" e levar um estalo na cara que acabava logo ali com todos os tesões? Quem não se lembra, nem era homem nem era nada. Ou então sofre de Alzheimer e está desculpado.
O Lopes tem razão: a faneca é um peixe muito honesto. Depois, há fanecas mais honestas do que outras. Em minha casa, por exemplo, só entram fanecas do alvor, pescadas já dentro da manhãzinha, como daquela vez com o Adélio mas agora por mãos que sabem. Um luxo. Mordomia matosinhense. São fanecas do mar que eu vejo da minha varanda. Madrugo também, compro-as vivinhas da silva, ainda sem terem passado pelo castigo do gelo e isentas de outras burocracias normalizadoras e estragativas, amanho-as eu, eu é que sei. Não menos importante: comemo-las no próprio dia. Exactamente. Elas andaram e andam bem boas, mas é preciso saber dar-lhes as voltas.

P.S. - Hoje, 31 de Maio, é Dia Nacional do Pescador. 

Sardinhamente falando

Foi um bom ano. Óptimo! Em tempo de balanço, há que dizer com toda a frontalidade que as sardinhas da época 2020 foram excelentíssimas, e sei de prova tirada que as de 2021 também prometem. Abençoada proibição. Finalmente, ao fim de quase dez anos, enfrentei-me com sardinhas competentes, maiores ou menores, sabendo e cheirando a mar e pingando no pão, como manda a tradição.
Por acaso eu às tradições até nem ligo. Cá em casa só começamos a assar sardinhas depois de passados os santos populares e tenho um contrato assinado com os meus amigos pescadores e com a minha querida peixeira que me proíbe de explicar porquê. Mas em 2020 comemos sardinhas assadas do nosso mar todas as sextas-feiras após o São João e até aos princípios de Novembro, com Setembro e Outubro em grande forma, apesar de serem meses que sardinhamente falando, padecem de "r".
É. A sabedoria popular ensina, e genericamente bem, que Maio, Junho, Julho e Agosto são os melhores meses para comer sardinha assada. Mas a Dona Dina, que Deus tem, dizia-me que de Junho a Dezembro eu podia comer as suas sardinhas à confiança, e eu comia e ela tinha razão. A Dona Dina era uma pessoa muito boa e a melhor assadeira de sardinhas do mundo. As sardinhas assadas da Dona Dina eram não mais do que douradas e traziam sempre o mar dentro.
Eu ando lá perto...

Uma vez, na peixaria da Dona Augusta, seria mês de Abril, uma senhora perguntava se "As sardinhas..." e foi logo interrompida pela minha peixeira, que lhe respondeu "Estão muito boas, as sardinhas ainda estão boas". É claro que não estavam, e logo em ano de colheita medíocre, mas a peixeira tem de fazer pela vida. Eu trouxe biqueirão.
Já experimentaram, decerto já, tirar a cabeça aos biqueirões, abri-los pela barriga retirando-lhes a espinha, que sai muito facilmente, temperar estas "costeletas" com sal, pimenta preta moída na hora, limão e um quase-nada de alho picado, e deixá-los neste preparo aí umas quatro horas, duas para cada lado? E depois passá-los por ovo e pão ralado e fritá-los sem deixar queimar? E fazer entretanto um arrozinho de bacalhau com trocinhos de tronchuda? Arroz carolino, já se sabe, que se transforma com o peixinho num verdadeiro manjar de deuses. Mas decerto já experimentaram.
Dica: as espinhas saem ainda mais facilmente se os biqueirões forem do dia anterior. Mas, para mim, peixe ou é do dia ou já não é peixe. Em miúdo, muito gostava eu de ouvir às peixeiras de Fafe o pregão "É da biba, olha a bibinha", e ficava-se logo também a saber que as sardinhas nesse dia seriam mais caras. Mas eram "como prata". Hoje tenho a sorte de morar em Matosinhos, a dois passos do porto de pesca e da lota. O mais das vezes trago para casa peixe vivo, literalmente vivo, que os pescadores dos barcos pequenos estão a acabar de entregar. O que me levanta alguns problemas, operacionais e... de consciência. Um dia tive com uma solha uma luta cujos pormenores não conto nem quero lembrar. Ganhei, mas portei-me mal. E só à mesa é que me perdoei.

segunda-feira, 7 de setembro de 2020

O falso escalador

Está na Volta à França e os expertos dizem que é um grande escalador. Mas a verdade é esta: passaram-lhe para as mãos um robalo e ele nada, entregaram-lhe um rodovalho e ele nicles, deram-lhe até um chicharro e ele sem saber que volta dar-lhe. A montanha parira um rato. Ele, disse ele, afinal era mais douradinhos da Iglo...

terça-feira, 5 de maio de 2020

Agora temos duas padarias

Notícias do des-con-fi-na-men-to. Como já aqui contei, a nossa padaria fechou nos princípios de Março por causa do coronavírus. A nossa padaria era o sítio onde todos os dias comprávamos o pão que nos alimentava há mais de trinta anos, e era como se fôssemos da casa. Mas o pão é essencial e, que remédio, começámos a frequentar outra padaria, igualmente aqui à beira, que fez o favor de nos farturar a mesa nestes dias mais complicados. Que se segue. A nossa velha padaria reabriu ontem e estão todos de saúde, graças a Deus, fui lá saber com os próprios olhos e comprar com as próprias mãos. E máscara.
Mas e a nossa nova padaria? Que nos serviu tão satisfatoriamente em tempos de crise, bem sei que apenas durante menos de dois meses. Vamos agora voltar-lhe costas, muitíssimo obrigadíssimo, estava tudo muito bem mas já não precisamos, e façam favor de desculpar?
Não somos capazes de semelhante. Passámos a ter duas padarias. Desde ontem. A minha mulher e eu dividimo-nos nas visitas. Porque a memória é fundamental mas a gratidão também.

Outra boa nova: a minha peixaria reabriu hoje. E era o que me fazia mais falta. Mais até do que o pão. Agora toda a gente faz pão em casa, um pão que não presta para nada, mas é moda e dá na televisão. Até a namorado do meu filho faz pão e traz, e por acaso, excepção que confirma a regra, até é um pãozinho que nos tem sabido muito bem. Infelizmente ainda não há máquinas para inventar peixes em casa. Que eu saiba.

Melhor: fui esta manhã à minha farmácia, à hora da abertura, e já se pode entrar. Dois de cada vez, mascarados e de mãos previamente desinfectadas, e eu cheguei em segundo. Estava a contar com uma medalha mas as cerimónias protocolares foram suspensas derivado à pandemia. Entregaram-me o Losartan com todos os cuidados e na maior das confidencialidades, e isto que não saia daqui...

E tenho o mar. Não sei o que seria da minha quarentena, que já vai em quase dois anos e meio, se não tivesse o mar todos os dias. Seguramente estaria ainda mais avariado da cabeça e do resto. O mar, gosto de o ouvir, gosto de lhe sentir o silêncio, gosto de o ver, gosto de o cheirar, mesmo que cheire mal, gosto de o pensar, gosto de o adivinhar. Gosto do mar com sol, com chuva, com nevoeiro, com vento, sem vento, gosto do mar com todos como o bacalhau. Gosto do mar azul, às vezes verde e sobretudo azul e branco. Gosto do mar bravo, gosto do mar manso, gosto do marasmo. Gosto do mar salgado e ainda que fosse insosso. Gosto do mar. E tenho sorte, na minha rua passa o mar, atracam-me navios à porta. Tenho o mar se for à varanda, de caras. Escuto-o no quarto de dormir, e sossega-me a alma, ajuda-me ao sono cada vez mais difícil. Continuo a passear-lhe as bordas todas todas as manhãzinhas, cada vez mais cedo, cada vez mais cedo, só eu e o mar, porque preciso do resto do dia para tomar conta das horas e porque, como diz o Bininho Referta, o povo é muito burro, e cuida que esta merda já passou, e não passou nada.

Portanto: tenho duas padarias, tenho uma peixaria, tenho uma farmácia e tenho um mar. Isto é: tenho um pequeno império, e praticamente livre de impostos. Não digam que estou mal de vida...

domingo, 9 de agosto de 2015

O típico domingo de Verão em Matosinhos

Foto Hernâni Von Doellinger

É um dos tais domingos. Matosinhos fumega e cheira que até mete nojo. Os restaurantes rebentam pelas costuras e pelas esplanadas, e isso é bom, mas fedem como peido podre, enevoam a rua e arredores à espera do tal sebastião que come tudo, tudo, tudo. Peido podre, disse eu bem. Peido e podre, estão a ver a terrível combinação? Conseguem snifar o desastre?
A campanha publicitária World’s Best Fish está muito bem caçada, mas evidentemente que Matosinhos não tem o melhor peixe do mundo. Tem um peixe honestinho, com que me regalo agora apenas bissextamente, e não é peixe de restaurante. É outro peixe, de que a publicidade não sabe, e ainda bem para mim.
A campanha da Câmara Municipal, para ser tão honesta como o peixe que tão bem apregoa, devia também avisar todos os camones e sabás e outros simpatizantes de que ao domingo não há sardinha fresca. Não há! E que o calor faz mal à sardinha ressessa, e que a sardinha descongelado, no Verão, é uma bosta - embora a correctíssima campanha possa explicar esta última parte por outras palavras. E que depois, aos domingos - porque ninguém me liga -, com a sardinha embalsamada a penar na brasa, é este smoke, este smell, enfim, cette merde.
A minha sorte é que gosto de Matosinhos assim.

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Os japoneses andam manifestamente atolambados

Esta contei-a aqui no dia 5 de Janeiro de 2013: Um atum gigante foi vendido no Japão pelo preço recorde de 1,38 milhões de euros. Diz que pesava 222 quilos. No outro dia comprei um atum anão, aqui em Matosinhos, por pouco mais de euro e meio, e mais fresco era impossível. Pesava quase três quilos.
As notícias afirmam que o atum gigante japonês era "rabilho". O meu atum anão, não sei. Mas também foi comido. Em bifinhos. De cebolada. E que bem que soube.

Agora contam-me que um "cacho com 34 uvas, cada uma a pesar cerca de 30 gramas", foi vendido, evidentemente no Japão, pelo simbólico preço de quatro mil euros. As uvas eram da raríssima casta ruby roman. Ainda ontem comprei um bom gaipelo com 15 bagos e dois pequeninos, e não paguei mais do que cinquenta e três cêntimos. As minhas uvas eram colhão-de-galo e fiquei muito bem servido.

sábado, 5 de janeiro de 2013

Estes japoneses são um bocado tolos

Um atum gigante foi vendido no Japão pelo preço recorde de 1,38 milhões de euros. Diz que pesava 222 quilos. No outro dia comprei um atum anão, aqui em Matosinhos, por pouco mais de euro e meio, e mais fresco era impossível. Pesava quase três quilos.
As notícias afirmam que o atum gigante japonês era "rabilho". O meu atum anão, não sei. Mas também foi comido. Em bifinhos. De cebolada. E que bem que soube.