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terça-feira, 20 de abril de 2021

Rosa Lobato de Faria 9

A culpa é toda sua. Não me diga que não, que eu bem lhe leio o subtexto erótico na forma dançada como você passa por ele, inundando-o do seu charme, do seu perfume e da sua respiração rumorejante. Faz que não vê, mas vê. Faz que não quer, mas quer. O homem fica tonto e você gosta. Traça a perna diante dele daquela forma insólita, mostrando dessous que deixaram de o ser, tilinta coisinhas de metal quando lhe dá o perfil e o recorte esplêndido da sua pequena orelha e o botão da blusa, não me diga que o perdeu, anda desabotoada três dedos abaixo do ponto de viragem, viragem da cabeça dele, entenda-se.

"Pedra Rara - Dispersos e Inéditos", Rosa Lobato de Faria 

(Rosa Lobato de Faria nasceu no dia 20 de Abril de 1932. Morreu em 2010.)

segunda-feira, 20 de abril de 2020

Rosa Lobato de Faria 9

A tua boca é uva sol e mosto 
vinho luar setembro tangerina 
Tens o cabelo solto sobre a testa 
dois olhos transviados de assassino 
e dizes-me lençol lago floresta 
pássaro sangue cântaro destino 

Devoras os meus braços os meus ombros 
os seios resplandecem de saliva 
e descobres na gruta dos assombros 
a vaga a lava o lume o sumo a vida 

Há algo teatral nas tuas coxas 
nas tuas mãos abertas de profeta 
a rosa do teu corpo quase murcha
insinua a fragrância mais secreta 

Por fim há gritos facas e segredos 
mastros erguidos sob um céu profano 
e a tua nau vencidos mares e medos
navega no meu corpo a todo o pano 

Desvendamos o rasto dos cometas 
a rota secretíssima das aves 
Só me falta a palavra dos poetas
para dizer amor como tu sabes.

Rosa Lobato de Faria 

(Rosa Lobato de Faria nasceu no dia 20 de Abril de 1932. Morreu em 2010.)

sábado, 20 de abril de 2019

Rosa Lobato de Faria 8

Quimera

Eu quis um violino no telhado
e uma arara exótica no banho.
Eu quis uma toalha de brocado
e um pavão real do meu tamanho.
Eu quis todos os cheiros do pecado
e toda a santidade que não tenho.
Eu quis uma pintura aos pés da cama
infinita de azul e perspectiva.
Eu quis ouvir ouvir a história de Mira Burana
na hora da orgia prometida.
Eu quis uma opulência de sultana
e a miséria amarga da mendiga.
Eu quis um vinho feito de medronho
de veneno, de beijos, de suspiros.
Eu quis a morte de viver dum sonho
eu quis a sorte de morrer dum tiro.
Eu quis chorar por ti durante o sono
eu quis ao acordar fugir contigo.
Mas tudo o que é excessivo é muito pouco.
Por isso fiquei só, com o meu corpo.

Rosa Lobato de Faria 

(Rosa Lobato de Faria nasceu no dia 20 de Abril de 1932. Morreu em 2010.)

sábado, 2 de fevereiro de 2019

Rosa Lobato de Faria 7

As pequenas palavras

De todas as palavras escolhi água,
porque lágrima, chuva, porque mar
porque saliva, bátega, nascente
porque rio, porque sede, porque fonte.
De todas as palavras escolhi dar.

De todas as palavras escolhi flor
porque terra, papoila, cor, semente
porque rosa, recado, porque pele
porque pétala, pólen, porque vento.
De todas as palavras escolhi mel.

De todas as palavras escolhi voz
porque cantiga, riso, porque amor
porque partilha, boca, porque nós
porque segredo, água, mel e flor.

E porque poesia e porque adeus
de todas as palavras escolhi dor.

Rosa Lobato de Faria 

(Rosa Lobato de Faria nasceu no dia 20 de Abril de 1932. Morreu no dia 2 de Fevereiro de 2010.)

sexta-feira, 20 de abril de 2018

Rosa Lobato de Faria 6

Conheço esse sentimento 

Conheço esse sentimento
que é como a cerejeira
quando está carregada de frutos:
excessivo peso para os ramos da alma.


Conheço esse sentimento
que é o da orla da praia
lambida pela espuma da maré:
quando o mar se retira
as conchas são pequenas saudades
que doem no coração da areia.


Conheço esse sentimento
que é o dos cabelos do salgueiro
revoltos pelas mãos ágeis da tempestade:
na hora quieta do amanhecer
pendem-lhe tristemente os braços
vazios do amado corpo do vento.


Conheço esse sentimento
que passa nos teus olhos e nos meus
quando de mãos dadas
ouvimos o Requiem de Mozart
ou visitamos a nave de Alcobaça.


Pedro e Inês
a praia e a maré
o salgueiro e o vento
a verdade e o sonho
o amor e a morte
o pó das cerejeiras
tu.
e eu.

"Dispersos", Rosa Lobato de Faria

(Rosa Lobato de Faria nasceu no dia 20 de Abril de 1932. Morreu em 2010.)

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Rosa Lobato de Faria 5

Soneto de abertura

Outra coisa que o corpo há quem conheça.
Eu não. Somente nele me cumpro viva.
Poema, beijo, estrela, afago, intriga 
só no corpo me são pés e cabeça.

E coração também que às vezes teça
razão de me saber mais que a medida
nessa trágica trama tão antiga
a que chamam ficar de amor possessa.

E é de novo poema, beijo, afago.
É de novo no corpo que te trago
a exótica festa da nudez.

E tudo quanto sinto e quanto penso
toma corpo no corpo a que pertenço.
E aqui estou: de barro, como vês.

"Memória do Corpo", Rosa Lobato de Faria

(Rosa Lobato de Faria nasceu no dia 20 de Abril de 1932. Morreu em 2010.)

quarta-feira, 20 de abril de 2016

Rosa Lobato de Faria 4

Se eu morrer de manhã

Se eu morrer de manhã
abre a janela devagar
e olha com rigor o dia que não tenho.


Não me lamentes. Eu não me entristeço:
ter tido a morte é mais do que mereço
se nem conheço a noite de que venho.


Deixa entrar pela casa um pouco de ar
e um pedaço de céu
- o único que sei.


Talvez um pássaro me estenda a asa
que não saber voar
foi sempre a minha lei.


Não busques o meu hálito no espelho.
Não chames o meu nome que eu não venho
e do mistério nada te direi.


Diz que não estou se alguém bater à porta.
Deixa que eu faça o meu papel de morta
pois não estar é da morte quanto sei.


"Poemas Escolhidos e Dispersos", Rosa Lobato de Faria

(Rosa Lobato de Faria nasceu no dia 20 de Abril de 1932. Morreu em 2010.)

segunda-feira, 20 de abril de 2015

Rosa Lobato de Faria 3

Um dia virá

Um dia virá
em que a minha porta
permanecerá fechada
em que não atenderei o telefone
em que não perguntarei
se querem comer alguma coisa
em que não recomendarei
que levem os casacos
porque a noite se adivinha fresca.

Só nos meus versos poderão encontrar
a minha promessa de amor eterno.

Não chorem; eu não morri
apenas me embriaguei
de luz e de silêncio.


"A Noite Inteira Já Não Chega", Rosa Lobato de Faria

(Rosa Lobato de Faria nasceu no dia 20 de Abril de 1932. Morreu em 2010.)

domingo, 20 de abril de 2014

Rosa Lobato de Faria 2

E de novo a armadilha dos abraços

E de novo a armadilha dos abraços.
E de novo o enredo das delícias.
O rouco da garganta, os pés descalços
a pele alucinada de carícias.
As preces, os segredos, as risadas
no altar esplendoroso das ofertas.
De novo beijo a beijo as madrugadas
de novo seio a seio as descobertas.
Alcandorada no teu corpo imenso
teço um colar de gritos e silêncios
a ecoar no som dos precipícios.
E tudo o que me dás eu te devolvo.
E fazemos de novo, sempre novo
o amor total dos deuses e dos bichos.


"Poemas Escolhidos e Dispersos", Rosa Lobato de Faria

(Rosa Lobato de Faria nasceu no dia 20 de Abril de 1932. Morreu em 2010.)

sábado, 20 de abril de 2013

Rosa Lobato de Faria

Primeiro a tua mão

Primeiro a tua mão sobre o meu seio.
Depois o pé – o meu – sobre o teu pé.
Logo o roçar urgente do joelho
e o ventre mais à frente na maré.


É a onda do ombro que se instala
É a linha do dorso que se inscreve.
A mão agora impõe, já não embala
mas o beijo é carícia, de tão leve.


O corpo roda: quer mais pele, mais quente.
A boca exige: quer mais sal, mais morno.
Já não há gesto que se não invente,
ímpeto que não ache um abandono.


Então já a maré subiu de vez.
É todo o mar que inunda a nossa cama.
Afogados de amor e de nudez
Somos a maré alta de quem ama.


Por fim o sono calmo, que não é
senão ternura, intimidade, enleio:
o meu pé descansando no teu pé,
a tua mão dormindo no meu seio.


"Poemas Escolhidos e Dispersos", Rosa Lobato de Faria 

(Rosa Lobato de Faria nasceu no dia 20 de Abril de 1932. Morreu em 2010.)