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quarta-feira, 20 de abril de 2016

Rosa Lobato de Faria 4

Se eu morrer de manhã

Se eu morrer de manhã
abre a janela devagar
e olha com rigor o dia que não tenho.


Não me lamentes. Eu não me entristeço:
ter tido a morte é mais do que mereço
se nem conheço a noite de que venho.


Deixa entrar pela casa um pouco de ar
e um pedaço de céu
- o único que sei.


Talvez um pássaro me estenda a asa
que não saber voar
foi sempre a minha lei.


Não busques o meu hálito no espelho.
Não chames o meu nome que eu não venho
e do mistério nada te direi.


Diz que não estou se alguém bater à porta.
Deixa que eu faça o meu papel de morta
pois não estar é da morte quanto sei.


"Poemas Escolhidos e Dispersos", Rosa Lobato de Faria

(Rosa Lobato de Faria nasceu no dia 20 de Abril de 1932. Morreu em 2010.)

domingo, 20 de abril de 2014

Rosa Lobato de Faria 2

E de novo a armadilha dos abraços

E de novo a armadilha dos abraços.
E de novo o enredo das delícias.
O rouco da garganta, os pés descalços
a pele alucinada de carícias.
As preces, os segredos, as risadas
no altar esplendoroso das ofertas.
De novo beijo a beijo as madrugadas
de novo seio a seio as descobertas.
Alcandorada no teu corpo imenso
teço um colar de gritos e silêncios
a ecoar no som dos precipícios.
E tudo o que me dás eu te devolvo.
E fazemos de novo, sempre novo
o amor total dos deuses e dos bichos.


"Poemas Escolhidos e Dispersos", Rosa Lobato de Faria

(Rosa Lobato de Faria nasceu no dia 20 de Abril de 1932. Morreu em 2010.)

sábado, 20 de abril de 2013

Rosa Lobato de Faria

Primeiro a tua mão

Primeiro a tua mão sobre o meu seio.
Depois o pé – o meu – sobre o teu pé.
Logo o roçar urgente do joelho
e o ventre mais à frente na maré.


É a onda do ombro que se instala
É a linha do dorso que se inscreve.
A mão agora impõe, já não embala
mas o beijo é carícia, de tão leve.


O corpo roda: quer mais pele, mais quente.
A boca exige: quer mais sal, mais morno.
Já não há gesto que se não invente,
ímpeto que não ache um abandono.


Então já a maré subiu de vez.
É todo o mar que inunda a nossa cama.
Afogados de amor e de nudez
Somos a maré alta de quem ama.


Por fim o sono calmo, que não é
senão ternura, intimidade, enleio:
o meu pé descansando no teu pé,
a tua mão dormindo no meu seio.


"Poemas Escolhidos e Dispersos", Rosa Lobato de Faria 

(Rosa Lobato de Faria nasceu no dia 20 de Abril de 1932. Morreu em 2010.)