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terça-feira, 6 de maio de 2025
sexta-feira, 20 de agosto de 2021
sábado, 18 de abril de 2020
quinta-feira, 15 de março de 2018
terça-feira, 21 de novembro de 2017
Os meus cromos 37
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sexta-feira, 1 de setembro de 2017
Bolinhos de bacalhau no Tarrenego! 10
| Foto Hernâni Von Doellinger |
Aquilino, o das trutas do Coura
A Associação Portuguesa de Escritores (APE) vai recordar Aquilino Ribeiro (1885-1963), assinalando de uma só cajadada os cinquenta anos da morte do autor de "Terras do Demo" e o centenário da publicação do seu primeiro livro, "Jardim das Tormentas". Faz muito bem a APE, que propõe um interessante programa de conferências, tertúlias e percursos inspirados na vida e nos livros de Aquilino. As comemorações começam já na próxima segunda-feira, dia 25, e prolongam-se até 27 de Maio. A ideia final: divulgar a obra deste homem livre.
É, de facto, uma belíssima oportunidade para tentar explicar aos portugueses de hoje em dia que escritor não quer dizer pivô ou comentador de telejornal. Uma coisa não implica a outra e vice-versa. E que se pode ser escritor, verdadeiramente escritor, e escrever bem. Não há contradição nisso.
Pronto, está dito.
E depois temos a gastronomia aquiliniana, que também vai ser assunto e não é de menos. Aquilino Ribeiro gostava do que era bom e sabia o que era bom. Perdia-se por bolinhos de bacalhau (pastéis de bacalhau, se lido em Lisboa), adorava carne de porco em vinha-d'alhos, conhecia tudo sobre as "dez" maneiras de cozinhar truta e fazia questão de explicar como tudo se devia ajeitar.
Ora, há um sítio e um homem em Portugal que guardam e servem a cozinha e as palavras de Aquilino como se lhes tivesse sido encomendado, e não foi. Podem crer: a gastronomia aquiliniana de carne e osso foi inventada por outro, muitos anos depois da morte de Aquilino. E o outro é Manuel Vilaça Pinto, o homem extraordinário que leva tanto povo a Paredes de Coura como o festival do Taboão - e a terra não o reconhece. O sítio é o seu Restaurante Conselheiro, mesmo em frente à Câmara.
O restaurante chama-se Conselheiro devido a outro figuraço local (Conselheiro Miguel Dantas), com nome de rua, estátua e tudo, mas toda a gente pensa que é por causa do Sr. Vilaça propriamente dito. O Sr. Vilaça é, com efeito, Conselheiro para todo o serviço. Peçam a panela de cozido e ele explicará porquê...
No Conselheiro restaurante, inimitável santuário gastronómico do Alto Minho interior, é que nasceu a cozinha tradicional de Paredes de Coura. E o Conselheiro é único até nisto: promove Aquilino Ribeiro todos os dias, sem subvenções e sem esperar por cinquentenários ou outros aniversários. Estão lá o caldo-verde, os bolinhos, o porco avinhado em tinto, as trutas assim e assado. "Trutas que pediam boca que as soubesse apreciar", no dizer do mestre. E o Sr. Vilaça encarrega-se de ensinar Aquilino em cada um dos seus pratos. E oferece aos seus clientes um livrinho cheio de citações, a propósito, do autor de "A Casa Grande de Romarigães". E é tudo tão bom - a comida e as palavras...
A viagem vale a pena e é mais perto e bom caminho do que pode parecer à primeira vista. Coura é um oásis e uma festa, à mesa ou na redondeza: há o cozido e a truta, mas também a feijoada, o bacalhau ou o cabrito. As pataniscas. Para gentios que não gostem de comer, há bombos e concertinas, sorrisos e beijinhos. Para os ouvidos mais delicados, recomendo dois passos ao lado, não são precisos mais, estamos já no monte, e que se ouça esse silêncio, e que se sinta esse ar, e que se feche os olhos e se veja o paraíso inteiro à nossa volta. Depois guarde-se tudo na mala do carro - o silêncio, o ar e o paraíso -, com cuidado para não partir, e traga-se para casa. As autoridades não costumam implicar e a mala atestada costuma dar para uma semana...
P.S. - Roupa-velha de dois textos, publicados originalmente nos dias 22 de Fevereiro de 2013 e 5 de Maio de 2014. Entretanto o Conselheiro do meu querido amigo Manuel Vilaça Pinto fechou. Se soubessem o que se perdeu!...
O almocinho de domingo, graças a Deus
Um dominguinho como de costume e Deus manda. Missinha das onze, homiliazinha com palavrinhas a abater e um que outro puxãozinho de orelhas para temperar, uns acenozinhos ao rebanho, umas lambidelas recebidas na mão santa, a do cachucho, e depois... o almocinho. O almocinho de dominguinho: três pratos, tal qual a Santíssima Trindade e o outro assunto que não vem ao caso. Duas horas à mesa e sempre a dar-lhe, como se fosse castigo, penitência. "Ui! Comi que nem um abade" - desabafou, num arroto final. "Nada de modéstias, Eminentíssimo e Reverendíssimo, afinal de contas sois Cardeal, Cardeal" - acudiu o solícito secretário, jovem presbítero, com as maiúsculas numa mão e o bicarbonato de sódio na outra.
P.S. - Publicado originalmente no dia 8 de Julho de 2015.
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quinta-feira, 31 de agosto de 2017
Bolinhos de bacalhau no Tarrenego! 9
| Foto Hernâni Von Doellinger |
Não instagrem isto, por favor!
O jornal Público ensinou-nos ontem o que se deve fazer quando "um prato absolutamente fenomenal (ou não tão fenomenal assim) chega à mesa." E então o que é que se faz? "Come-se? Não, primeiro fotografa-se." E coloca-se no Instagram. Depois, suponho, pede-se a continha, sai-se de casa ou do restaurante chique, "mete-se" o cachecol e vai-se deglutir duas ou três bifanas e uma avestruz à Conga.
Eu não sei o que é o Instagram (aliás cuidava que se chamava Instragam e só mudei de ideias ainda agora depois do computador me corrigir dezasseis vezes), e nem me aquece nem me arrefece que pensem que estou a mangar. Sei é de cozinha e de jornalismo também não.
Quem escreve sobre gastronómicas matérias no jornal da Sonae vê-se que tem inúmeros mestrados e consideráveis doutoramentos em Técnicas de Titulagem, mas também se percebe que é gente que só entra na cozinha para perguntar à mãezinha "o que é o comer". Não nego à partida que estas senhoras e estes senhores jornalistas sejam experts em lasanha pré-cozinhada do Lidl ou em rissóis e alegados bolinhos de bacalhau congelados do Pingo Doce, posto que fazem das tripas coração para que o patrão não saiba. Falta-lhes é o resto, a basezinha, como diria o nosso Eça, que, esse sim, sabia de mesa.
Vamos supor: um prato realmente "absolutamente fenomenal" como, não vamos mais longe, um arrozinho de grelos com fanequinhas fritas. Chega à mesa e tira-se-lhe fotografias em vez de se lhe garfar com toda a galhardia? Então vou explicar o que se passa entretanto: o malandro do arroz coalha, fica arroz de hospital, argamassa de atirar às paredes, e as fanecas, esse peixinho tão honesto, esfriam, nem que não seja neste Inverno de gelo, perdem a graça, afeiam-se, desapetitam-nos. Uma tragédia...
E atenção que as fanequinhas frias ainda vá lá, mas no tasco e no Verão. E verão que tenho razão (esta veia poética que não me larga...), quando um dia perderem a cabeça e experimentarem, o Verão e o tasco. Já o arroz segue directamente para o balde do lixo, tamanha dor de alma ainda por cima nestes tempos de incerta TSU.
Também é verdade: há pratos que são como a vingança, devem ser servidos frios, e por isso até se chamam pratos frios. E estes podem ser fotografados à moda das sessões de casamento, quero dizer: entre as oito da manhã e as seis da madrugada do dia seguinte. Quanto ao resto, por amor de Deus, escrevam do Trump, não me fodam, não fodam isto. Creio que posso dizer melhor: respeitosamente, comam fotografias à vontade se, tipo, lhes souber bem, mas, por favor, não me instagrem a comidinha a sério (à séria, se lido em Lisboa)...
Já agora: um tasco é um tasco. Uma tasca ou uma tasquinha são outra coisa...
P.S. - Publicado originalmente no passado dia 22 de Janeiro.
O dilema do almoço de domingo
Os domingos têm este problema, e quem seja fafense sabe do que falo: tripas ou vitela assada? Mais difícil ainda: tripas e vitela assada? Essa é a verdadeira questão, o dilema do almoço dominical. No último domingo fiz massa à lavrador e estava bem boa...
E, já agora, outro já agora: onde escrevi "tripas ou vitela assada", deve falar-se tripasss... ou bitela assada. À moda de Fafe.
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domingo, 20 de dezembro de 2015
Cada um tem as epifanias que merece
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| Foto Hernâni Von Doellinger |
Uma vez eu fui à bola e tive uma revelação que até hoje. Uma epifania, como agora muito bem diz quem é mais fino do que eu, tarefa sem espinhas. Eram outros tempos, sobras de vacas gordas que ainda me davam para subir até à prazenteira companhia e insubstituível comida do Sr. Vilaça, no Conselheiro, em Paredes de Coura. Mas o jogo: no campo à borda da estrada, era um Castanheira-Paçô, prélio que eu prognosticava sem história, coisa para zero-zero ou menos, mas estava esfericamente enganado. Foram três secos em dia de chuva, frio e nevoeiro. Nevoeiríssimo. Nem um palmo eu via à frente do nariz, literalmente, e peço que, por favor, não se escandalizem com tanta literalidade: com uma mão a segurar o chuço e a outra enfiada no bolso das calças, a gozar o quentinho da ferramenta, não tinha um terceiro palmo à mão, só mesmo se pedisse um palmo emprestado ao parceiro do lado, e eu não estava para aí virado. Portanto, não via um palmo à frente do nariz, que fique assente. O nevoeiro, nevoeiríssimo, era tanto que às vezes, junto à outra baliza, eu seja ceguinho se não era capaz de jurar que os atletas de ambos os conjuntos, uma e outra equipa, cada qual por sua banda, estavam a jogar em braille. Ao árbitro já não chegava essa coisa nova que é a sinalética, apitava de megafone, marcava faltas por sms, e fosse o que Deus quisesse. E eu sem saber se o bloco era baixo e se a pressão era alta, matérias que me interessam sobremaneira. E o último terço do terreno, onde estaria o último terço do terreno?
Lá no alto da serra, o tecto de nevoeiro era tão denso, quase sólido, que aquilo já não era um campo de futebol, parecia mais um pavilhão gimnodesportivo, e eu ali dentro, compactado, com falta de ar, estou aqui estou a ligar para o 112. E cá está: como, ainda por cima, éramos apenas 19 pessoas e quatro gê-nê-erres a ouver o jogo, não se via mas ouvia-se tudo o que se passava dentro das quatro linhas. Foi assim que de repente, entra o primeiro, entra o segundo, as minhas enregeladas porém atentíssimas orelhas começaram a captar: "Vai, Caralho!", "Sobe, Caralho!", "Entra, Caralho!", "Sai, Caralho!", "Dá-lhe, Caralho!", "Força, Caralho!"... E eu cá para os meus botões, mais admirado era impossível: - Ai que caralho, queres tu ver, Hernâni, que o Caralho joga no Castanheira? Mas quem caralho será?
Estava, é preciso que se diga, admirado mas também intrigado, trabalho a dobrar e sem pagamento, ainda por cima ao domingo. A minha sorte foi que, aproveitando um bocanho, lá acabou por entrar o terceiro dos da casa, marcado pelo 10, imediatamente abraçado pela sua equipa em peso, a aberta deu para ver. "Golo, Caralho!", "Boa, Caralho!", "É assim mesmo, Caralho!", "És o maior, Caralho!", gritavam-lhe os eufóricos colegas, pendurando-se-lhe no pescoço. Com o árbitro a dizer que eram que horas e a festa a terminar, como manda a tradição, com calduços e palmadinhas no rabo, embora toda a gente saiba que não há gays no futebol, eu percebi finalmente: o número 10 é que é o Caralho.
P.S. - O Conselheiro do meu querido amigo D. Vilaça fechou no princípio do ano. É assunto sério, que não quero misturar com esta brincadeira. Pode ser que fale dele um destes dias.
segunda-feira, 5 de maio de 2014
Cozido à moda de Coura
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| Foto FERNANDO VELUDO/NFACTOS |
Aviso com tempo. O próximo é fim-de-semana gastronómico em Paredes de Coura. Sexta, sábado e domingo - dias 9, 10 e 11 de Maio. Depois da truta, este ano é o cozido que vai ao altar. A viagem vale a pena e é mais perto e bom caminho do que pode parecer à primeira vista. Coura é um oásis e uma festa, à mesa ou na redondeza: há o cozido e a truta, mas também a feijoada, o bacalhau ou o cabrito. As pataniscas. Para gentios que não gostem de comer, há bombos e concertinas, sorrisos e beijinhos. Para os ouvidos mais delicados, recomendo dois passos ao lado, não são precisos mais, estamos já no monte, e que se ouça esse silêncio, e que se sinta esse ar, e que se feche os olhos e se veja o paraíso inteiro à nossa volta. Depois guarde-se tudo na mala do carro - o silêncio, o ar e o paraíso -, com cuidado para não partir, e traga-se para casa. As autoridades não costumam implicar e a mala atestada costuma dar para uma semana.
Ainda por cima há Aquilino. Aquilino Ribeiro, o das "Terras do Demo", que gostava do que era bom e sabia o que era bom. Pelava-se por bolinhos de bacalhau (pastéis de bacalhau, se lido em Lisboa), adorava carne de porco em vinha-d'alhos, conhecia as "dez" maneiras de cozinhar truta e fazia questão de explicar como tudo se arranjava. Por isso se fala de uma gastronomia aquiliniana. E é em Coura que ela está.
No entanto, a cozinha tradicional de Paredes de Coura, a gastronomia aquiliniana de carne e osso, foi inventada por outro, muitos anos depois da morte de Aquilino. E o outro é Manuel Vilaça Pinto (foto), o homem extraordinário que leva tanto povo a Coura como o festival do Taboão - e a terra não o reconhece.
Vilaça Pinto tem um restaurante, mesmo em frente à Câmara. O restaurante chama-se Conselheiro devido a outro figuraço local (Conselheiro Miguel Dantas), com nome de rua e tudo, mas toda a gente pensa que é por causa do Sr. Vilaça propriamente dito. O Sr. Vilaça é, com efeito, Conselheiro para todo o serviço. Peçam a panela de cozido e ele explicará porquê...
No Conselheiro restaurante, inimitável santuário gastronómico do Alto Minho interior, guardam-se e servem-se a cozinha e as palavras de Aquilino. O Conselheiro é único até nisto: promove Aquilino Ribeiro todos os dias, sem subvenções e sem esperar por cinquentenários ou outros aniversários. Estão lá o caldo-verde, os bolinhos, o porco avinhado em tinto, as trutas assim e assado. "Trutas que pediam boca que as soubesse apreciar", no dizer do mestre. E o Sr. Vilaça encarrega-se de ensinar Aquilino em cada um dos seus pratos. E oferece aos seus clientes um livrinho cheio de citações, a propósito, do autor de "A Casa Grande de Romarigães". E é tudo tão bom - a comida e as palavras.
Sobre o Fim-de-Semana Gastronómico, mais informação e programa aqui. Eu não posso ir, derivado a um problema nos bolsos. Digam que vão da minha parte e que mando cumprimentos.
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quinta-feira, 9 de maio de 2013
De volta à truta do Coura
| Foto Hernâni Von Doellinger |
Vale a pena a viagem. Já a partir de amanhã. Sexta, sábado e domingo - Fim-de-Semana Gastronómico em Paredes de Coura e a truta é a rainha. Memórias de Aquilino e muito mais, a não perder por quem (ainda) puder. Programa e toda a informação, aqui.
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quarta-feira, 10 de abril de 2013
Comida, carros e gajas
terça-feira, 5 de março de 2013
Os bolinhos da Albertininha da Lameira
Os melhores bolinhos de bacalhau do mundo eram os da Albertininha da Lameira, em Fafe. Contava a lenda que eram moldados no sovaco da prendada cozinheira, o que lhes emprestaria aquele gosto tão peculiar. A vila antiga dava-se muito a estas lendas: dizia-se também, por exemplo, que os tremoços da Marrequinha da Recta eram a especialidade que eram porque a boa senhora lhes mijava.
A verdade é esta: ainda cheguei a ver a Albertininha, numa tarde de sábado, a fazer a massa dos famosos bolinhos, de alguidar entre as pernas, junto ao fogo da lareira, mas a história do sovaco enformador era uma treta - isso posso jurar, e tive pena.
Os bolinhos do Manel do Campo também eram de se lhes tirar o chapéu. E, de um modo geral, as pensões e os tascos de Fafe faziam gala de confeccionar e servir um produto, como agora se diz, fiel às origens e de altíssima qualidade. Esta tradição local mantém-se, em sítios como, veio-me agora a ideia à boca, o Fernando da Sede (Adega Popular). Os bolinhos de bacalhau com salada de feijão-fradinho e arroz do Fernando surpreendem e encantam os visitantes, e, para os da terra, são uma esplêndida entrada para a vitelinha que há-de vir. Mas isso, nos tempos que correm, é já refeição a pedir uma segunda hipoteca da casa.
É. Os bolinhos "de morrer por mais" são no Minho - bem o sabia mestre Aquilino. Em Fafe, é claro, mas também no Manuel Padeiro e no Gaio, em Ponte de Lima e em dias sim, ou no Conselheiro, em Paredes de Coura, sempre. Em sítios assim, que os há bons e tantos.
Parece-me tolice, portanto, criar uma task force de "especialistas" e simpatizantes, como fez o jornal Público, para provar bolinhos de bacalhau comprados em pastelarias e cafés de Lisboa e do Porto. Ainda por cima, os lisboetas chamam "pastéis de bacalhau" aos bolinhos de bacalhau. (É como os franceses chamarem "fromage" a uma coisa que toda a gente sabe que é queijo). Só podia dar merda e deu. Já se sabia. Já deviam saber. Qual era a ideia? E tomem nota os doutos paineleiros: o resultado seria o mesmo se mandassem vir arroz de grelos, pastelões de petinga, pataniscas ou caldo de nabos. Os cafés e as pastelarias do Porto e de Lisboa não são para esses preparos, estão a perceber? Vá lá, o caldo de nabos... talvez.
A verdade é esta: ainda cheguei a ver a Albertininha, numa tarde de sábado, a fazer a massa dos famosos bolinhos, de alguidar entre as pernas, junto ao fogo da lareira, mas a história do sovaco enformador era uma treta - isso posso jurar, e tive pena.
Os bolinhos do Manel do Campo também eram de se lhes tirar o chapéu. E, de um modo geral, as pensões e os tascos de Fafe faziam gala de confeccionar e servir um produto, como agora se diz, fiel às origens e de altíssima qualidade. Esta tradição local mantém-se, em sítios como, veio-me agora a ideia à boca, o Fernando da Sede (Adega Popular). Os bolinhos de bacalhau com salada de feijão-fradinho e arroz do Fernando surpreendem e encantam os visitantes, e, para os da terra, são uma esplêndida entrada para a vitelinha que há-de vir. Mas isso, nos tempos que correm, é já refeição a pedir uma segunda hipoteca da casa.
É. Os bolinhos "de morrer por mais" são no Minho - bem o sabia mestre Aquilino. Em Fafe, é claro, mas também no Manuel Padeiro e no Gaio, em Ponte de Lima e em dias sim, ou no Conselheiro, em Paredes de Coura, sempre. Em sítios assim, que os há bons e tantos.
Parece-me tolice, portanto, criar uma task force de "especialistas" e simpatizantes, como fez o jornal Público, para provar bolinhos de bacalhau comprados em pastelarias e cafés de Lisboa e do Porto. Ainda por cima, os lisboetas chamam "pastéis de bacalhau" aos bolinhos de bacalhau. (É como os franceses chamarem "fromage" a uma coisa que toda a gente sabe que é queijo). Só podia dar merda e deu. Já se sabia. Já deviam saber. Qual era a ideia? E tomem nota os doutos paineleiros: o resultado seria o mesmo se mandassem vir arroz de grelos, pastelões de petinga, pataniscas ou caldo de nabos. Os cafés e as pastelarias do Porto e de Lisboa não são para esses preparos, estão a perceber? Vá lá, o caldo de nabos... talvez.
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sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013
Aquilino, o das trutas do rio Coura
| Foto Hernâni Von Doellinger |
A Associação Portuguesa de Escritores (APE) vai recordar Aquilino Ribeiro (1885-1963), assinalando de uma só cajadada os cinquenta anos da morte do autor de "Terras do Demo" e o centenário da publicação do seu primeiro livro, "Jardim das Tormentas". Faz muito bem a APE, que propõe um interessante programa de conferências, tertúlias e percursos inspirados na vida e nos livros de Aquilino. As comemorações começam já na próxima segunda-feira, dia 25, e prolongam-se até 27 de Maio. A ideia final: divulgar a obra deste homem livre.
É, de facto, uma belíssima oportunidade para tentar explicar aos portugueses de hoje em dia que escritor não quer dizer pivô ou comentador de telejornal. Uma coisa não implica a outra e vice-versa. E que se pode ser escritor, verdadeiramente escritor, e escrever bem. Não há contradição nisso.
Pronto, está dito.
E depois temos a gastronomia aquiliniana, que também vai ser assunto e não é de menos. Aquilino Ribeiro gostava do que era bom e sabia o que era bom. Perdia-se por bolinhos de bacalhau (pastéis de bacalhau, se lido em Lisboa), adorava carne de porco em vinha-d'alhos, conhecia tudo sobre as "dez" maneiras de cozinhar truta. E explicava, fazia questão.
Ora, há um sítio em Portugal que guarda e serve a cozinha e as palavras de Aquilino. Um santuário gastronómico que certamente não ficará de fora do percurso minhoto agendado pela APE para o dia 21 de Abril e que até será guiado pelo escritor Mário Cláudio, habitual freguês da casa. É o Conselheiro, em Paredes de Coura, restaurante único até nisto: promove Aquilino Ribeiro todos os dias, sem subvenções e sem esperar por cinquentenários ou outros aniversários. Estão lá o caldo-verde, os bolinhos, o porco avinhado em tinto, as trutas assim e assado (foto). "Trutas que pediam boca que as soubesse apreciar", no dizer do mestre. E o Sr. Vilaça encarrega-se de explicar Aquilino em cada um dos seus pratos. E oferece aos seus clientes um opusculozinho cheio de citações, a propósito, do autor de "A Casa Grande de Romarigães". E é tudo tão bom - a comida e as palavras.
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quinta-feira, 10 de maio de 2012
Já pensou no próximo fim-de-semana?
Deixo-lhe uma dica final, e esta é como quem me arranca os dentes: procure o Restaurante Conselheiro, mesmo em frente à Câmara, ouça com atenção o Sr. Vilaça, dono da casa, aproveite e aprenda, coma e delicie-se, beba mas não abuse. Boa viagem e bom proveito!
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