E diz o repórter: "As urnas fecharam e a contagem dos votos começou há cerca de dois minutos atrás". Ah!, sim, o rigor na informação! "Há cerca de dois minutos" não chegava. É que a contagem dos votos podia ter começado "há cerca de dois minutos à frente". E não era a mesma coisa.
De resto, dos "agentes da PJ à paisana" aos "carros da PJ descaracterizados", passando pelos suspeitos que "tapam a cara com o rosto" e pelo "corpo do morto que já se encontrava cadáver", tem sido um fartote. E o que sente neste momento?...
P.S. - Hoje é Dia do Repórter. No Brasil.
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sexta-feira, 16 de fevereiro de 2024
Tempo e resultado
Na sacramental ronda pelos vários campos, o pivô da emissão pergunta ao repórter de serviço: - Tempo e resultado? O repórter de serviço informa, conciso e preciso: - O tempo está bom e o resultado mantém-se.
Era duas vezes...
Era um velho contador de histórias, agarrado ao código deontológico e inflexível praticante do princípio do contraditório. Começava sempre assim: "Era duas vezes..."
quinta-feira, 25 de maio de 2023
A "pequena Maddie" e o negócio das notícias
Madeleine McCann desapareceu. E o desaparecimento da "pequena Maddie" foi o melhor que aconteceu ao meu jornal naquele ano de 2007. As notícias saíam que nem pãezinhos quentes, para delícia de um público ávido de drama, coscuvilhice e sangue cor-de-rosa. E se não havia notícias, "inventavam-se" notícias. O monstro precisava de ser alimentado e as vendas iam de vento em popa.
Uma vez o chefe mandou-me ligar ao Presidente da República, a todos os antigos presidentes da República vivos, ao primeiro-ministro, a todos os ex-primeiros-ministros vivos, ao presidente da Federação Portuguesa de Futebol, ao seleccionador nacional, que era o Scolari, aos presidentes e treinadores de FC Porto, Benfica e Sporting, ao Freitas do Amaral (já não me lembro como é que este apareceu na lista, mas ele aparecia sempre), ao cardeal-patriarca de Lisboa e... ao Papa. "Ao Papa?", perguntei eu, só para ter a certeza. "Sim, pá! Liga ao Papa! Queremos um depoimento do Papa sobre o desaparecimento da Maddie". Foi assim, palavra de honra, que o chefe me respondeu.
Portanto tinha de ligar ao Papa, que era Bento XVI. O resto era fácil, era como se já estivesse feito. Pelo prestígio, pelo rigor e seriedade, pela sua inatacável ética editorial, o jornal onde eu trabalhava, e que só fazia merda, tinha praticamente linha directa com aquela gente toda. Agora Sua Santidade, isso, sim, era um desafio, e ainda por cima eu estava muito mal visto no Vaticano, pelo menos desde 1987. Claro que eu podia enfiar-me no bar o dia inteiro a "tentar ligar ao Papa" e à hora do fecho avisava o chefe, em Lisboa, de que "Não consegui, pá, desculpa, o gajo armou-se em difícil, não fala, eu ainda disse que ia da tua parte, mas nem assim o tipo se descoseu, sabes como são os alemães, teimosos do caralho". Porém eu não frequentava o bar.
Pensei então: o que é que há de mais parecido com o Papa e a que eu possa realmente chegar? E lembrei-me: o cardeal português D. José Saraiva Martins, que também estava em Roma como o outro e creio que ainda era prefeito da Congregação para as Causas dos Santos. Meti as mãos ao caminho, fiz chamada atrás de chamada e ao fim da tarde consegui enfim falar com ele. Atendeu-me cheio de bondade e essessss nassss palavrassss. Conhecia o caso e deu-me a sua opinião numa conversa de quase um quarto de hora. Falou-me da menina desaparecida, disse-me que rezava por ela, mas lembrou, com lucidez e sabedoria, que é fundamental que os pais não se ponham a jeito (a expressão é minha) para que semelhantes tragédias aconteçam. Vocês também percebem, tal como eu percebi, para quem é que o nosso cardeal enviava este recado. Sim, para os estranhíssimos paizinhos da "pequena Maddie". E estranhíssimos sou eu que digo.
No fim, D. José Saraiva Martins fez-me um pedido: "Olhe, depois mande-me o jornal, se faz favor". E eu mandei. O meu jornal era o 24horas. Exactamente. O jornal com as gajas todas boas e as mamas ao léu. Deve ter sido um sucesso no Vaticano.
Hoje é Dia Internacional das Crianças Desaparecidas. Este textinho, publiquei-o aqui pela primeira vez, mais ou menos nestes termos, em Fevereiro de 2012. O jornal 24horas nasceu em 1998 e morreu oficialmente em 2010, um ano depois de os seus alegados responsáveis terem liquidado a sangue frio a Redacção do Porto. Podem limpar as mãos à parede. Mas tinha piada o pasquim, que até chegou a ser bem feito, e é a bíblia do jornalismo que hoje se faz em Portugal.
Uma vez o chefe mandou-me ligar ao Presidente da República, a todos os antigos presidentes da República vivos, ao primeiro-ministro, a todos os ex-primeiros-ministros vivos, ao presidente da Federação Portuguesa de Futebol, ao seleccionador nacional, que era o Scolari, aos presidentes e treinadores de FC Porto, Benfica e Sporting, ao Freitas do Amaral (já não me lembro como é que este apareceu na lista, mas ele aparecia sempre), ao cardeal-patriarca de Lisboa e... ao Papa. "Ao Papa?", perguntei eu, só para ter a certeza. "Sim, pá! Liga ao Papa! Queremos um depoimento do Papa sobre o desaparecimento da Maddie". Foi assim, palavra de honra, que o chefe me respondeu.
Portanto tinha de ligar ao Papa, que era Bento XVI. O resto era fácil, era como se já estivesse feito. Pelo prestígio, pelo rigor e seriedade, pela sua inatacável ética editorial, o jornal onde eu trabalhava, e que só fazia merda, tinha praticamente linha directa com aquela gente toda. Agora Sua Santidade, isso, sim, era um desafio, e ainda por cima eu estava muito mal visto no Vaticano, pelo menos desde 1987. Claro que eu podia enfiar-me no bar o dia inteiro a "tentar ligar ao Papa" e à hora do fecho avisava o chefe, em Lisboa, de que "Não consegui, pá, desculpa, o gajo armou-se em difícil, não fala, eu ainda disse que ia da tua parte, mas nem assim o tipo se descoseu, sabes como são os alemães, teimosos do caralho". Porém eu não frequentava o bar.
Pensei então: o que é que há de mais parecido com o Papa e a que eu possa realmente chegar? E lembrei-me: o cardeal português D. José Saraiva Martins, que também estava em Roma como o outro e creio que ainda era prefeito da Congregação para as Causas dos Santos. Meti as mãos ao caminho, fiz chamada atrás de chamada e ao fim da tarde consegui enfim falar com ele. Atendeu-me cheio de bondade e essessss nassss palavrassss. Conhecia o caso e deu-me a sua opinião numa conversa de quase um quarto de hora. Falou-me da menina desaparecida, disse-me que rezava por ela, mas lembrou, com lucidez e sabedoria, que é fundamental que os pais não se ponham a jeito (a expressão é minha) para que semelhantes tragédias aconteçam. Vocês também percebem, tal como eu percebi, para quem é que o nosso cardeal enviava este recado. Sim, para os estranhíssimos paizinhos da "pequena Maddie". E estranhíssimos sou eu que digo.
No fim, D. José Saraiva Martins fez-me um pedido: "Olhe, depois mande-me o jornal, se faz favor". E eu mandei. O meu jornal era o 24horas. Exactamente. O jornal com as gajas todas boas e as mamas ao léu. Deve ter sido um sucesso no Vaticano.
Entretanto, a "pequena Maddie" tornou a bulir e continua a render, seja lá à pala do que for, recensões disparatadas, notícias a martelo, falsas maddies ou novas buscas, e só é pena o 24horas ter falecido de vez. Safar-se-ia agora. Como o Correio da Manhã e respectiva TV, que não se cansam de bombar. E de facturar...
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sábado, 26 de novembro de 2022
O retrato do falecido
Manifestamente incomodado, o morto levantou-se e disse: - Mas quem caralho deu a minha fotografia ao Correio da Manhã?...
quarta-feira, 16 de fevereiro de 2022
O retrato do falecido
Manifestamente incomodado, o morto levantou-se e disse: - Mas quem caralho deu a minha fotografia ao Correio da Manhã?...
sexta-feira, 1 de dezembro de 2017
quarta-feira, 29 de novembro de 2017
sábado, 25 de novembro de 2017
quarta-feira, 22 de novembro de 2017
terça-feira, 21 de novembro de 2017
Os meus cromos 37
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sábado, 19 de maio de 2012
Ó pra mim todo admirado! 2
Escreve a Direcção Editorial do Público: "Num telefonema à editora de política do jornal, na quarta-feira, [o ministro] Miguel Relvas ameaçou fazer um blackout noticioso do Governo contra o jornal e divulgar detalhes da vida privada da jornalista Maria José Oliveira, de quem tinha recebido nesses dias um conjunto de perguntas relativas a contradições nas declarações que prestara, no dia anterior, na Comissão de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias."
Parece impossível! O nosso Miguel Relvas? Quem havia de dizer? Estou varado. Nem sei se deva acreditar. O ministro Miguel Relvas entalado e a fazer ameaças? Não, acho que não. Há aqui uma confusão qualquer.
Parece impossível! O nosso Miguel Relvas? Quem havia de dizer? Estou varado. Nem sei se deva acreditar. O ministro Miguel Relvas entalado e a fazer ameaças? Não, acho que não. Há aqui uma confusão qualquer.
quinta-feira, 1 de março de 2012
Adélio Santos
sábado, 19 de novembro de 2011
Eles, os políticos
O jornalista André Macedo escreveu uma crónica no Diário de Notícias, creio que anteontem, na qual, depois das voltinhas que fazem parte,
acabou criticando "aquelas crónicas de jornal que tratam os
políticos por "eles"? Desdenhosamente "eles", por oposição a "nós", os
justos e bons". O jornalista André Macedo é um jornalista competente
e deve ser uma excelente pessoa. Digo isto da excelente pessoa,
e tenho quase a certeza, por causa de uma coisa que uma vez tratei com ele. Mas vê-se que é novo,
que a vida lhe corre, Nosso Senhor o proteja e guarde, e que não faz a mínima ideia do que se
passa cá em baixo. Senão já teria percebido que o defeito não é das crónicas, que há realmente "eles", os
políticos filhos da puta e seus eunucos abanadores, políticos que regra geral se
servem de "nós" mas não querem saber de "nós". E há realmente "nós", que
não nos deixam ser mais do que isso: "nós". Mas "nós" um de cada vez, porque
"nós" todos juntos éramos capazes de escangalhar a ordem estabelecida por "eles", e "eles" sabem disso e sabem que isso não lhes convém. E por isso mandam dizer que não é bem assim. E mandam apartarem-nos "uns" dos "outros".
O André Macedo parece que não sabe, mas "eles" é que dizem de nós que nós somos "eles". Somos uma coisa que não é bem coisa nem é nada e que tanto se lhes dá como se lhes deu. A "eles". Esta, caro André, é a verdade da vida. Se nas suas crónicas de jornal tem contas a ajustar com os que escrevem crónicas de jornal, seja homenzinho, baptize os bovinos, não o faça à custa de "nós".
O André Macedo parece que não sabe, mas "eles" é que dizem de nós que nós somos "eles". Somos uma coisa que não é bem coisa nem é nada e que tanto se lhes dá como se lhes deu. A "eles". Esta, caro André, é a verdade da vida. Se nas suas crónicas de jornal tem contas a ajustar com os que escrevem crónicas de jornal, seja homenzinho, baptize os bovinos, não o faça à custa de "nós".
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