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sábado, 30 de agosto de 2025

Para a Lagoa, rapidamente e em força

Esconjuro
Disseram-lhe - Vá de metro, Satanás! E o Diabo, que até tinha passe, foi.

Fanico. Isto é, migalha, pedaço muito pequeno, lucros insignificantes, ganhos mínimos e obtidos a custo. Ou por outra, chilique, desmaio, perda momentânea dos sentidos, ataque nervoso. E ainda, prostituição.
Fanicar: andar ao fanico, andar em busca de pequenos lucros, andar na má vida, fazer da prostituição modo de vida, biscatar, perder os sentidos, desmaiar, entrar em crise, por assim dizer, histérica.
Fanicar ou fazer em fanicos era também lascar, esbotenar, partir em bocados, pôr em fanicos, cá está. No jogo do pião, havia o pião das nicas, sem real utilidade desportiva, diga-se, porque já velho e eventualmente mutilado, mas era o que servia para apanhar as penalizações da ordem, dadas geralmente com uns piões gigantes, gorilas, com bico grosso ou bico de lança. Eram fanicos aquelas pancadas, porque o pião sofredor ficava nicado, ferido, picado, quer dizer, fanicado. Era o desgraçado de serviço. Em sentido figurado, humanizado, o pião das nicas é o indivíduo em quem todos mandam e a quem todos responsabilizam, o chamado bode expiatório - e assim explicado é fácil perceber porquê.

Ora bem. Por alturas da Lagoa, quero dizer, da romaria da Senhora das Neves, na última sexta-feira antes do último sábado de Agosto, o povo de Fafe subia à serra para pôr a santa na cabeça e tirar o diabo, está lá um funcionário com essa incumbência. Do centro de Fafe ao santuário da Lagoa são pouco mais de 12 quilómetros, pelo Passadouro. O povo é tolo, mas não ia a pé. Os automóveis ainda eram um luxo em Fafe e portanto ia-se na carreira da "Empresa", que saía de uma grande garagem à beira da Igreja Matriz, mesmo em frente à Rua do Assento, do outro lado do então posto da GNR e de umas bombas de gasolina, que também lhe pertenciam, à garagem. Nessa enorme garagem, lá para os seus fundos e talvez anexos, construíram-se gloriosos carros para a Marcha Luminosa das Festas da Vila, "um espectáculo de luz, cor e som", mas isso é assunto que não vem ao caso. Era desengonçada e cinzenta a carreira, camionetas velhas e malcheirosas que, no dia da festa, faziam fanico para a Lagoa e vice-versa.
Isso, andavam ao fanico, faziam fanico, era assim que se dizia, e estamos de volta ao nosso tema, à nossa palavra antiga. Fazer fanico, para os autocarros, significava trabalhar sem horário avisado ou pré-estabelecido. As camionetas arrancavam, numa ou na outra direcção, quando estivessem cheias, a esbordar sempre que possível. Saíam da "Empresa" carregadas de gente mais ou menos sóbria, largavam a carga na Lagoa, esperavam pelo enchimento seguinte num terreiro aparelhado à pressão no meio do monte, à torreira impiedosa do sol, e regressavam a Fafe quando calhasse e a rebentar de gente regularmente bêbada da cabeça aos pés.
Era um ramerrame combinado. Iam e vinham, iam e vinham, os autocarros. Iam e vinho, iam e vinho, os passageiros.
Ao fim do dia, no desmanchar da feira, com o sol a pôr-se lá para os lados de Guimarães, o descampado enchia-se de pancadaria da grossa, famílias inteiras umas contra as outras, na batalha sanguinolenta pela entrada na camioneta prestes a sair para Fafe, às vezes a última, a derradeira sem apelo nem agravo, e depois era mesmo só a pé.
Atacava-se com tudo o que se tivesse à mão. Navalhas, pedras, chibatas, bengalas, muletas, colheres de pau, joelhos, tachos e panelas, socos e galochas, melões e melancias, garrafões vazios, açafates, quadros do anjo da guarda comprados apenas há minutos, concertinas, reco-recos, bombos e ferrinhos, num desconcerto sem dó nem piedade, e lá no meio, aproveitando a abençoada confusão, feliz da vida, o meu avô de Basto, que por acaso até ia a pé para Passos, via Várzea Cova, com a minha avó atrás, e não precisava da camioneta para nada, o meu querido Bô de Basto, estava a dizer, varria o ambiente com o varapau de lódão girando por cima da cabeça como ventoinha de helicóptero, partindo queixos em catadupa, tenteando o vinho para não cair de cangalhas e lançando aos céus o seu famoso grito de guerra - Olraitecamoniésse!
Ó meus amigos! Aquilo era um alcácer-quibir em cuecas, uma poça de sangue digna de ser vista e constada, que pena mas ainda não havia CMTV. A nossa Lagoa, juro-vos, era uma festa muito bonita! E, ainda por cima, ia-se ao fanico.

P.S. - Versão revista e aumentada, publicada no meu blogue Mistérios de Fafe. Ontem foi a última sexta-feira antes do último sábado de Agosto, portanto foi Dia da Lagoa. Se o caro leitor fosse regularmente ao blogue Mistérios de Fafe, que é o meu actual centro de operações, o sítio onde Fafe antigo é contado diariamente como se fosse novidade, escusava de ficar surpreendido com estas repetições. E sim, é mesmo consigo que falo, caro leitor. Não tenho outro.

O melão do Bô da Bomba

Como os melões
Os anos são como os melões. Mas ao contrário. Só depois de fechados é que se sabe se foram bons.

O melão era um acontecimento. Celebrava-se uma vez por ano, por alturas da Lagoa, se não estou em erro, e o mestre-de-cerimónias era o meu avô da Bomba, um adivinhador de melões como decerto não haveria outro de semelhante calibre nas redondezas, e quando por acaso não acertava, o que acontecia com lamentável frequência, a culpa era evidentemente do melão. Os melões, é que o têm, só se sabe se são bons depois de abertos: o meu avô nunca se enganava, os melões às vezes é que não correspondiam.
Ia-se à Lagoa por tudo e mais alguma coisa. Ia-se para pôr a santa na cabeça, para fazer a barba e cortar o cabelo nos barbeiros abancados debaixo das árvores do largo em frente ao santuário, ia-se para ver o ambiente, para apanhar icónicas borracheiras, para fazer compras escusadas, para ouvir as bandas de música, para ver a procissão, para dar um pezinho de dança, para cantar ao desafio, ia-se para empernar e apalpar rabos e mamas, ia-se por ir ou simplesmente para andar à pancada, ia-se apenas para apartar um melão, numa fugida, e era esse, enfim, o caso do Bô da Bomba.
Em casa, nos Bombeiros, eram chamados os maiores especialistas em melão de Fafe, isto é, os três ou quatro melhores amigos do meu avô, os do costume, os mesmos que também eram os maiores especialistas em canários e pintassilgos de Fafe. A avó punha a mesa como um altar, só para homens. O melão ao meio, resplandecente e prometedor, qual sacrário por revelar.
Fazia-se silêncio. Sentia-se uma certa comoção na sala. Como seria este ano? O avô tomava a faca num gesto largo, teatral, levantava-se, suspirava e abria o melão. Oh!... Havia uma primeira reacção, ao som, à cor, ao sumo, ao cheiro, eram peritos realmente, abanavam a cabeça, reviravam os olhos, trocavam monossílabos lá de entendidos, e seguiam para a prova propriamente dita, da boca para dentro, e que sim senhor, e que nem mais cedo nem mais tarde, maduro no ponto, apimentado, uma especialidade, um assombre, uma primeirinha, abençoadas mãos que o souberam escolher.
O meu avô ficava num sino, agradecia os encómios, explicava a técnica, desvendava o segredo, exultava de falsa modéstia e, sem mais nem menos, aproveitava para contar as suas duas anedotas. Era sagradinho. Desde que não soubesse descaradamente a botefa, o melão do Bô da Bomba era sempre um sucesso, os elogios dos velhos expertos estavam garantidos e todos os anos o melão deste ano era ainda melhor do que o melão do ano passado.
O único problema era a despesa. O meu avô passava a merenda inteira a chorar os quinze merréis que dera pelo estupor do melão, a ver se alguém se chegava à frente com qualquer coisinha para a ajuda, ou então buscando pé para cobrar aos amigos pelo menos a pinga de vinho que acabara de lhes oferecer...

P.S. - Versão revista e aumentada, publicada no meu blogue Mistérios de Fafe. Ontem foi a última sexta-feira antes do último sábado de Agosto, portanto foi Dia da Lagoa. Se o caro leitor fosse regularmente ao blogue Mistérios de Fafe, que é o meu actual centro de operações, o sítio onde Fafe antigo é contado diariamente como se fosse novidade, escusava de ficar surpreendido com estas repetições. E sim, é mesmo consigo que falo, caro leitor. Não tenho outro.

sexta-feira, 30 de agosto de 2024

Para a Lagoa, rapidamente e em força

Foto Município de Fafe

Fanico. Isto é, migalha, pedaço muito pequeno, lucros insignificantes, ganhos mínimos e obtidos a custo. Ou por outra, chilique, desmaio, perda momentânea dos sentidos, ataque nervoso. E ainda, prostituição.
Fanicar: andar ao fanico, andar em busca de pequenos lucros, andar na má vida, fazer da prostituição modo de vida, biscatar, perder os sentidos, desmaiar, entrar em crise, por assim dizer, histérica.
Fanicar ou fazer em fanicos era também lascar, esbotenar, partir em bocados, pôr em fanicos, cá está. No jogo do pião, havia o pião das nicas, sem real utilidade desportiva, diga-se, porque já velho e eventualmente mutilado, mas era o que servia para apanhar as penalizações da ordem, dadas geralmente com uns piões gigantes, gorilas, com bico grosso ou bico de lança. Eram fanicos aquelas pancadas, porque o pião sofredor ficava nicado, ferido, picado, quer dizer, fanicado. Era o desgraçado de serviço. Em sentido figurado, humanizado, o pião das nicas é o indivíduo em quem todos mandam e a quem todos responsabilizam, o chamado bode expiatório - e assim explicado é fácil perceber porquê.

Ora bem. Por alturas da Lagoa, quero dizer, da romaria da Senhora das Neves, na última sexta-feira antes do último sábado de Agosto, o povo de Fafe subia à serra para pôr a santa na cabeça e tirar o diabo, está lá um funcionário com essa incumbência. Do centro de Fafe ao santuário da Lagoa são pouco mais de 12 quilómetros, pelo Passadouro. O povo é tolo, mas não ia a pé. Os automóveis ainda eram um luxo em Fafe e portanto ia-se na carreira da "Empresa", que saía de uma grande garagem à beira da Igreja Matriz, mesmo em frente à Rua do Assento, do outro lado do então posto da GNR e de umas bombas de gasolina, que também lhe pertenciam, à garagem. Nessa enorme garagem, lá para os seus fundos e talvez anexos, construíram-se gloriosos carros para a Marcha Luminosa das Festas da Vila, "um espectáculo de luz, cor e som", mas isso é assunto que não vem ao caso. Era desengonçada e cinzenta a carreira, camionetas velhas e malcheirosas que, no dia da festa, faziam fanico para a Lagoa e vice-versa.
Isso, andavam ao fanico, faziam fanico, era assim que se dizia, e estamos de volta ao nosso assunto. Fazer fanico, para os autocarros, significava trabalhar sem horário avisado ou pré-estabelecido. As camionetas arrancavam, numa ou na outra direcção, quando estivessem cheias, a esbordar sempre que possível. Saíam da "Empresa" carregadas de gente mais ou menos sóbria, largavam a carga na Lagoa, esperavam pelo enchimento seguinte num terreiro aparelhado à pressão no meio do monte, à torreira impiedosa do sol, e regressavam a Fafe quando calhasse e a rebentar de gente regularmente bêbada da cabeça aos pés.
Era um ramerrame combinado. Iam e vinham, iam e vinham, os autocarros. Iam e vinho, iam e vinho, os passageiros.
Ao fim do dia, no desmanchar da feira, com o sol a pôr-se lá para os lados de Guimarães, o descampado enchia-se de pancadaria da grossa, famílias inteiras umas contra as outras, na batalha sanguinolenta pela entrada na camioneta prestes a sair para Fafe, às vezes a última, a derradeira sem apelo nem agravo, e depois era mesmo só a pé.
Atacava-se com tudo o que se tivesse à mão. Navalhas, pedras, chibatas, bengalas, muletas, colheres de pau, joelhos, tachos e panelas, socos e galochas, melões e melancias, garrafões vazios, açafates, quadros do anjo da guarda comprados apenas há minutos, concertinas, reco-recos, bombos e ferrinhos, num desconcerto sem dó nem piedade, e lá no meio, aproveitando a abençoada confusão, feliz da vida, o meu avô de Basto, que por acaso até ia a pé para Passos, via Várzea Cova, com a minha avó atrás, e não precisava da camioneta para nada, o meu querido avô de Basto, estava a dizer, varria o ambiente com o varapau de lódão girando por cima da cabeça como ventoinha de helicóptero, tenteando o vinho para não cair de cangalhas e lançando aos céus o seu famoso grito de guerra - Olraitecamoniésse!

Ó meus amigos! Taylor Swift, que eu na verdade não sei muito bem em que é que consiste, há-de ser certamente uma coisa importante, mas a nossa Lagoa, juro-vos, também era uma festa muito bonita. E, ainda por cima, ia-se ao fanico...

P.S. - Publicado originalmente no meu blogue Fafismos, quando Taylor Swift andava por aí a atolambar o povo. Hoje, última sexta-feira antes do último sábado de Agosto, é dia da grande peregrinação à Lagoa.

O melão do meu avô da Bomba

O melão era um acontecimento. Celebrava-se uma vez por ano, por alturas da Lagoa, se não estou em erro, e o mestre-de-cerimónias era o meu avô da Bomba, um adivinhador de melões como decerto não haveria outro de semelhante calibre nas redondezas, e quando por acaso não acertava, o que acontecia com lamentável frequência, a culpa era evidentemente do melão. Os melões, é que o têm, só se sabe se são bons depois de abertos: o meu avô nunca se enganava, os melões às vezes é que não correspondiam...
Ia-se à Lagoa por tudo e mais alguma coisa. Ia-se para pôr a santa na cabeça, para fazer a barba e cortar o cabelo nos barbeiros abancados debaixo das árvores do largo em frente ao santuário, ia-se para ver o ambiente, para apanhar icónicas borracheiras, para fazer compras escusadas, para ouvir as bandas de música, para ver a procissão, para dar um pezinho de dança, para cantar ao desafio, ia-se para empernar e apalpar rabos e mamas, ia-se por ir ou simplesmente para andar à pancada, ia-se apenas para apartar um melão, numa fugida, e era esse, enfim, o caso do meu avô da Bomba.
Em casa, nos Bombeiros, eram chamados os maiores especialistas em melão de Fafe, isto é, os três ou quatro melhores amigos do meu avô, os do costume, os mesmos que também eram os maiores especialistas em canários e pintassilgos de Fafe. A minha avó punha a mesa como um altar, só para homens. O melão ao meio, resplandecente e prometedor, qual sacrário por revelar.
Fazia-se silêncio. Sentia-se uma certa comoção na sala. Como seria este ano? O meu avô tomava a faca num gesto largo, teatral, levantava-se, suspirava e abria o melão. Oh!... Havia uma primeira reacção, à cor, ao sumo, ao cheiro, eram peritos realmente, abanavam a cabeça, reviravam os olhos, trocavam monossílabos lá de entendidos, e seguiam para a prova propriamente dita, da boca para dentro, e que sim senhor, e que nem mais cedo nem mais tarde, maduro no ponto, apimentado, uma especialidade, um assombre, uma primeirinha, abençoadas mãos que o souberam escolher.
O meu avô ficava num sino, agradecia os encómios, explicava a técnica, desvendava o segredo, exultava de falsa modéstia e, sem mais nem menos, aproveitava para contar as suas duas anedotas. Era sagradinho. Desde que não soubesse descaradamente a botefa, o melão do meu avô da Bomba era sempre um sucesso, os elogios dos velhos expertos estavam garantidos e todos os anos o melão deste ano era ainda melhor do que o melão do ano passado.
O único problema era a despesa. O meu avô passava a merenda inteira a chorar os quinze merréis que dera pelo estupor do melão, a ver se alguém se chegava à frente com qualquer coisinha para a ajuda ou então para ter pé para cobrar aos amigos pelo menos a pinga de vinho que acabara de lhes oferecer...

P.S. - Hoje, última sexta-feira antes do último sábado de Agosto, é dia da grande peregrinação à Lagoa.

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Deixem a Lagoa em paz. O povo que diga.

Foto Hernâni Von Doellinger

Leio no jornal da minha terra que a "Lagoa foi discutida no Parlamento". Ainda bem. Não foi nada "discutida", mas façamos de conta: as senhoras deputadas e os senhores deputados da Nação sabem muito de Lagoa (sobretudo se for no Algarve) e dali, da Assembleia do Parlapié, Praça de São Bento 1249-068 Lisboa, há-de sair certamente decisão sábia, dentro de 30 ou de 300 dias, consoante e se não chover. Os zeros são à direita como se fossem à esquerda.
Se quiserem uma opinião palerma e rápida sobre a Lagoa de cá de cima, a nossa Lagoa, a Lagoa de verdade e que nos interessa, perguntem-me a mim que não sou doutor. Ou, vá lá, perguntem ao povo do lugar, mas desta vez sem jigajogas partidárias. E, já agora, deixem-se de merdas, entendam-se: custa assim tanto ser pessoa honrada?
A Lagoa como pretexto para a chicana política, estou em crer, nem ao diabo lembraria...

terça-feira, 16 de julho de 2013

De vaquinha para o desemprego

Foto Hernâni Von Doellinger

Os transportes públicos voltaram a perder mais de 11 por cento dos passageiros no primeiro trimestre deste ano - dizem as notícias. Treze milhões de validações que foram à vida, sobretudo no comboio e no metro, que são o carro a cotio dos portugueses do rés-do-chão. Compreendo: as viagens de casa para o desemprego e do desemprego para casa custam os olhos da cara. O pessoal vai e vem de vaquinha. Para e do desemprego. É difícil de perceber, ó inteligências?! Dasse...
Depois parece que há os aviões. Mas essa parte ignoro.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Fredinho Bastos

Eu ia ver o Rali com o Fredinho Bastos. O Rali assim com merecida maiúscula inicial era um acontecimento emocionante pelo qual esperávamos ansiosamente durante um ano inteiro e que se dividia em três partes, como jogo e meio de futebol: a viagem até à Lagoa, sempre em modo de rali a partir de Medelo, a passagem do rali propriamente dito, que para nós os dois acabava logo após o sétimo ou oitavo carro, e a merenda que se seguia, nem que chovessem canivetes, pelo menos se os canivetes chovessem fechados. Eu, por mim, ficava ali a ver o resto dos concorrentes até ao fim, mas o Fredinho fazia questão de me ensinar a relatividade das coisas e a prioridade de umas sobre outras. "O rali já acabou, isto agora não é nada. Vamos mas é comer", dizia todos os anos, sem querer saber sequer a minha opinião. E lá íamos atacar o farnel, preparado com todo o carinho pela sua mulher - uma Senhora a quem devo muito mais do que apenas bolinhos de bacalhau e panados, aliás de categoria.
Eram outros tempos. Fazíamos o caminho de regresso até ao carro pela estrada do troço de competição, encostando à berma quando se aproximava o roncar de mais um motor, mas (o Fredinho tinha razão) aquilo era só bazófia, muito roncar e pouco motor. Dava tempo para tudo. Até para cumprimentar pilotos e penduras da segunda metade da tabela, que estavam no largo do famoso Santuário de Nossa Senhora das Neves ainda à espera da ordem de saída. O Fredinho conhecia aquela malta toda. Ele, Alfredo Bastos, também tinha sido corredor de ralis.

(Fafe, já aqui contei, era uma terra de partidos, de rivalidades tolas, de antagonismos pascácios. Era uma mania, como uma doença, uns por uns e outros por outros. Havia que ateimar por alguma coisa. Tínhamos os dois grupos de futebol - o Sporting Clube de Fafe e o Futebol Clube de Fafe -, que já não são do meu tempo, tínhamos e temos as duas bandas de música - Revelhe e Golães - e respectivos bandos de apaixonantes, tínhamos a Escola Industrial contra o Colégio, tínhamos o PS de Fafe pim e o PS de Fafe pam e o PS de Fafe pum, tínhamos a Rua de Baixo e a Ponte de Ranha, que de vez em quando também faziam faísca e, noblesse oblige, andavam à coiada, até tínhamos o Foto Victor e o Foto Jóia e as suas clientelas rivais, portanto a coisa mais natural do mundo era que a população fafense também se dividisse entre os dois fângios locais, o Fredinho e o Tangerina, embora só o Fredinho tenha feito carreira oficial, primeiro com o NSU creio que TTS e depois com o famoso Vauxhall Viva GT, marcando habitualmente presença em ralis, rampas e não me lembro se na velocidade de Vila do Conde. Para além disso, dava também uma mão como motorista dos Bombeiros, e aí, meus amigos, de sirene ligada, então é que era sempre a abrir. Desse tempo e dessas lides, do que eu mais gostava era do rali chamado Rali à Lampreia, pronto, já disse, achava e acho um piadão ao nome.)

Portanto o Fredinho sabia que, depois de Jean-Luc Thérier, Rafaello Pinto, Markku Alen, Hannu Mikkola (navegado por Jean Todt, o ex-chefe da Ferrari na F1 e ex-presidente da FIA), Ove Andersson, Sandro Munari, Bjorn Waldegaard, Jean Pierre Nicolas, Walter Röhrl ou Michèlle Mouton, pouco mais havia que realmente interessasse ver. As bombas já tinham passado: os Alpine Renault, os Fiat 124 Abarth, os belíssimos Lancia Stratos, os Fiat 131 Abarth, os Audi Quattro e até o Opel Ascona, que em Portugal, antes do 25 de Abril, se chamava Opel 1904 SR por causa da moral e dos bons costumes. Isto que não saia daqui, mas os que vinham a seguir a estes andavam menos em quatro rodas do que nós os dois, o Fredinho e eu, com uma perna às costas...
Nós íamos no Vauxhall verde e cinza que o Fredinho levara à Rampa da Penha, e eu fui lá a pé para ver, uns anos antes, no reinado do estupendo Chevrolet Camaro de Ernesto Neves. O icónico Vauxhall, preparado pelo próprio Fredinho e pelo avinhadíssimo Valdemar Mecânico, ou "Paredes", ainda mantinha as barras de protecção e os assentos e volante de competição. Era de uma incomodidade dolorosa, porque andávamos sempre nas horas, e de lado, mas extremamente seguro. Diziam ao Fredinho que ele conduzia muito bem. Ele respondia: "Toda a gente conduz bem até bater. Eu também."
O Rali em Fafe era a Lagoa e era um mundo. Só anos depois é que foram inventadas as outras classificativas, as que agora chamam milhares e dão nas televisões com saltos e tudo, ideia e obra original de Parcídio Summavielle, o pai, presidente da Câmara entre 1979 e 1997, uma sorte que nos aconteceu felizmente no tempo certo, e muito para além das corridas de automóveis.