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domingo, 25 de março de 2012

Deitemos abaixo o Senhor do Padrão

                                                                                       Foto Hernâni Von Doellinger

O grande dia aproxima-se a passos largos e Matosinhos está cada vez mais na linha da frente para limpar com toda a justiça o primeiro prémio das Sete Maravilhosas Arrenúncias Culturais de Portugal. O monumento ao Senhor do Padrão apresenta-se pior do que nunca, alagando de orgulho os corações embebecidos de todos os matosinhenses. A porta do fontanário há que tempos que estava em pantanas e dentro do zimbório aquilo já era uma magnífica lixeira, cheia de sacos plásticos com restos de comida ou rezas, erva das duas qualidades e garrafas de vinho. Mas faltava o empurrão final. Deram-lho ontem, graças a Deus: alma caridosa encarregou-se de arrombar de vez o gradeamento e abarbatar-se ao aloquete (cadeado, para o júri do concurso, em Lisboa), quem sabe se com o ternurento fito de o pendurar como promessa de amor eterno na Ponte de Luís I, no Porto.
A Câmara de Guilherme Pinto - há que aplaudi-la a pés ambos - está inexcedível de desmazelo e ignorância. Se o prémio vier, como todos esperamos, sobretudo a ela o deveremos. A esta Câmara injustamente conhecida por esse mundo fora derivado a uma certa e determinada reparação da monumental porta dos Paços do Concelho, mas que aqui, sendo o assunto também portas, soube avaliar correctamente o que está em jogo e canalizou todo o seu esforço no sentido de não fazer absolutamente nada. Esta corajosa aposta no abandono demonstra, para além do mais, a apurada visão da autarquia. O abandono acicata o vandalismo e isto é meio caminho andado para o sucesso num certame desta natureza. É esta singular interacção social que a Câmara tão competentemente promove e consegue.
Se o Senhor do Padrão ganhar, Matosinhos já tem um hino de vitória. Foi apresentado e ensaiado pelo primeira vez na última reunião entre a Câmara Municipal, a Junta de Freguesia, o Porto de Leixões, o IGESPAR, a paróquia e o próprio Jesus Cristo, que desceu à Terra com o celestial lamiré. É um hino sem letra, apenas assobiado, e para o lado, inspirado na música da canção "No pasa nada".
Só um grande azar e um pequeno pormenor nos podem roubar o título que todos nós, matosinhenses, desejamos e merecemos. O azar é incontrolável e o pormenor é o simples facto de o Senhor do Padrão, Monumento Nacional, ainda estar de pé. Pelo menos estava há coisa de cinco minutos. Mas isso também se resolve. Podíamos até combinar para uma destas noites. Alguém tem uma retroescavadora em casa?

quarta-feira, 14 de março de 2012

Matosinhos: o último a sair que feche a porta!

1. O Senhor do Padrão, "datado do século XVIII e conhecido também por Senhor do Espinheiro ou Senhor da Areia, assinala o local onde, segundo a lenda, apareceu a imagem do Bom Jesus de Bouças, mais tarde conhecida por Senhor de Matosinhos". Quer-se dizer: o Senhor de Matosinhos nasceu no Senhor do Padrão.
2. De acordo com a educativa e internética informação da Câmara Municipal, que estive e vou continuar a citar, o Senhor do Padrão era um "monumento de fortíssimo impacto visual até inícios do século XX, [...] sendo visível a muitos quilómetros de distância quer do lado da terra quer do lado do mar". Depois vieram o Narciso Miranda e Matosinhos Sul. E eu também.
3. A autarquia assegura que, não obstante estas três pragas dos tempos modernos, o Senhor do Padrão "continua a ser uma importante referência para a cidade e para a comunidade piscatória".
4. O sítio do Senhor do Padrão é uma das saídas da camonagem transatlântica que atraca em Leixões. E até tem uma paragem do Yellow Bus.
5. O Senhor do Padrão é o motivo dominante da heráldica da freguesia de Matosinhos.
6. O Senhor do Padrão está classificado como Monumento Nacional desde 1977 (Decreto-Lei n.º 129/77, de 29 de Setembro).

Isto à conclusão: o monumento do Senhor do Padrão, que vem do século XVIII e que nos regalou a boa-vai-ela da romaria do Senhor de Matosinhos, que tinha um "fortíssimo impacto visual" mas já não tem, que é uma "referência" da cidade e da comunidade piscatória, que dá as boas-vindas a turistas e a outros curiosos, que é uma das jóias da coroa patrimonial do concelho, que é a bandeira da freguesia, que pertence à Câmara, que pertence à Junta, que pertence ao Porto de Leixões, que pertence a todos os matosinhenses e ao País e que até pertence ao IGESPAR, está nesta triste figura:

Foto Hernâni Von Doellinger