terça-feira, 28 de novembro de 2017

Antero de Figueiredo 4

Ei-lo diante de mim: Leonardo tem a alma inteira na mansidão do olhar ingénuo - na fisionomia aberta do seu rosto queimado e barbado de homem do mar, forte, franco e simples. Seus cabelos negros, onde há os fios brancos dos cinquenta anos, descem ondados na testa morena e plácida, quase sem rugas; e sob as plebeias sobrancelhas travadas, em bico, na raiz do nariz forte, os olhos
redondos, pestanudos e castanhos (quase sempre anuviados por um véu de tristeza mansa) tomam o ar do espanto, rústico e tímido, no sorriso bom. Estende-se até os lóbulos das orelhas e sobe até as faces, boleadas como seixos e envernizadas como camoesas de tons quentes, a barba preta, crespa, curta e quadrada. O pequeno bigode, modestamente curvo nos cantos, deixa ver todo o desenho perfeito da boca larga, grossa, leal e afável. Espadaúdo, peito abaulado, braços musculosos e arqueados de carregador, mãos grossas de pedreiro - tal é este homem hercúleo, em cujo rude arcaboiço floresce uma frágil alma de criança.
 

"O Último Olhar de Jesus", Antero de Figueiredo

(Antero de Figueiredo nasceu no dia 28 de Novembro de 1866. Morreu em 1953.)

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