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sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

Manuel Lopes

Soneto à liberdade

Primeiro tu virás, depois a tarde
com terras, mares, algas, vento, peixes.
trarás, no ventre, a marca das idades
e a inquietude dos pássaros libertos.

virás para o enorme do silêncio
- flor boiando na órbita das águas -
tu não verás o fúnebre das horas
nem o canto final do sol poente.

primeiro tu virás, depois a tarde
sem desejos e amor. virás sozinha
como o nome saudade. virás única.

eu não terei a posse do teu corpo
nem me batizarei na tua essência,

mas tu virás primeiro e eu morro livre.

Manuel Lopes

(Manuel Lopes nasceu no dia 23 de Dezembro de 1907. Morreu no dia 25 de Janeiro de 2005.)

terça-feira, 1 de novembro de 2016

Andrada Machado

Soneto à liberdade

Sagrada emanação da divindade,
Aqui do cadafalso eu te saúdo;
Nem em tormentos, com reveses mudo,
Fui teu voário e sou, ó liberdade!

Pode a vida brutal ferocidade
Arrancar-me em tormento mais agudo;
Mas das fúrias do déspota sanhudo
Zomba da alma a nativa dignidade.

Livre nasci, vivi, e livre espero
Encerrar-me na fria sepultura
Onde império não tem mando severo.

Nem da morte a medonha catadura
Incutir pode horror a um peito fero,
Que aos fracos tão-somente a morte é dura.

Andrada Machado

(António Carlos Ribeiro de Andrada Machado e Silva nasceu no dia 1 de Novembro de 1773. Morreu em 1845.)