De manhã, quando os silvos das fábricas sobressaltavam todos os lares, Madalena ia encostar-se ao postigo, no beco do Mirante.
Era um beco triste que assustava o sol. Subia em socalcos a encosta pedregosa, ladeada por paredes que vestiam luto e portas baixas que semelhavam buracos. Silencioso e sombrio, tinha ao alto, sobre rochas tisnadas, uma velha oliveira que manchava de cinzento o azul do céu. Naquele beco a vida estiolava.
Madalena via passar, ao fundo, as antigas companheiras, que lhe acenavam de fugida e seguiam caminho a lamentá-la:
- Tão magra que está!
- Coitada. Aquela não deita fora o Inverno.
E ela ficava a ouvir-lhes o sussurro das vozes e a recordar o tempo em que também era tecedeira. Depois, dava os bons-dias à velhota sua amiga, que, manca-não-manca, passava sempre atrasada.
- Tás melhor?
- Obrigada, Ti Rosa. Prà semana talvez já vá consigo.
Assim dizia há muito tempo, desde que o primeiro escarro lhe avermelhara o lenço. Mas os dias somavam meses − e as melhoras eram como o sol de Inverno.
"Esteiros", Soeiro Pereira Gomes
(Soeiro Pereira Gomes nasceu no dia 14 de Abril de 1909. Morreu e 1949.)
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domingo, 14 de abril de 2019
quarta-feira, 5 de dezembro de 2018
Soeiro Pereira Gomes 6
- Não sei ler, mas faço coisas - repontava, mostrando carros e barcos toscos de madeira.
Despeitados, os outros desvalorizavam-lhe o engenho precoce, em que ele confiava, mais do que nos livros.
- Quando eu trabalhar com as máquinas... - E de tanto falar em máquinas, chamaram-lhe Maquineta.
João era o Gaitinhas, porque gostava de imitar os instrumentos da banda musical. Nos domingos de concerto, postava-se junto do coreto, atrás do regente, de olhos postos nos saxofones e clarinetes reluzentes, indeciso na escolha. Um dia, a mãe perguntou-lhe:
- Para que queres estudar, João?
- Pra músico - respondeu de pronto.
Mas entrou para a escola e quis ser doutor. Seguia a vontade do pai, nas cartas que tantas vezes lera. Páginas recheadas de sonhos e projectos envelhecidos, dobrados no baú, como relíquia inútil.
Agora estava ali na praça, desolado e sem destino. Crianças maltrapilhas corriam atrás dos carros e escondiam-se nos pára-choques; outras, endomingadas, junto dos pais, esperavam lugar nas camionetas. Via-se em todos os rostos a alegria das horas livres que iam gozar, esquecidos do lar falto do pão e do telhal farto de trabalhos. Só o Gaitinhas estava triste. Não arranjou boleia nos carros, nem se misturou com o povo. Seguiu para casa, isolado, a meditar no mundo dos rapazes descalços e analfabetos como o Maquineta, ao qual em breve iria pertencer.
"Esteiros", Soeiro Pereira Gomes
"Esteiros", Soeiro Pereira Gomes
(Soeiro Pereira Gomes nasceu no dia 14 de Abril de 1909. Morreu no dia 5 de Dezembro de 1949.)
sábado, 14 de abril de 2018
Soeiro Pereira Gomes 5
Mas era preciso dinheiro, e então ficara no telhal. E, como um homem, vendeu os braços para que o dinheiro tilintasse agora no bolso das calças. Gineto sentia-se tão feliz que não se lembrou das lágrimas que a mãe havia de chorar por ele e pela féria da semana. Subiu o beco do Mirante a assobiar. As quintas estavam ali em frente a retalhar os vales e a seduzir olhares. O sol, ainda alto, tomava mais branco o branco dos muros e revivescia com reflexos doirados as folhas estioladas das videiras. Mas Gineto não receava a luz da tarde. Tinha a certeza que os caseiros não estariam de atalaia, entre os pomares, porque a melhor fruta já fora apanhada. O moço do telhal sabia de colheitas. Todavia, chegado à estrada, hesitou. Pela primeira vez as suas quintas - suas, como ele dizia - não o atraíram. A Feira afagava-lhe o pensamento; o dinheiro tilintava no bolso... Era livre, sem a perseguição dos caseiros e cães de guarda... Não iria às uvas.
"Esteiros", Soeiro Pereira Gomes
"Esteiros", Soeiro Pereira Gomes
(Soeiro Pereira Gomes nasceu no dia 14 de Abril de 1909. Morreu em 1949.)
sexta-feira, 14 de abril de 2017
Soeiro Pereira Gomes 4
No último sábado, os moços do Telhal Grande receberam a féria com gritos de contentamento. As moedas não tapavam o fundo das algibeiras; mas os projectos transbordavam dos cérebros infantis. No dia seguinte abria a Feira; ia haver esperas de toiros e toiradas, circos e cavalinhos. Por isso, a
alegria dos rapazes punha em apuros o mestre, à hora do pagamento.
- Se não se calam, racho um! - vociferou ele, avançando para a porta da barraca.
Fez-se silêncio. Os que estavam mais próximos recuaram, temerosos. Mas logo Gineto gritou de longe: - O melhor é matar-nos!
- Para quê, pá? Só levava ossos... - comentou Sagui, indicando o corpo enfezado.
- Ou calam-se, ou paro com isto!
Calaram-se. Ficar sem féria seria perder a Feira. E a Feira era a verdadeira festa de despedida dos moços dos telhais. Cinco dias de pândega, entre um Verão de canseiras que findava e um Inverno de miséria que surgia. O pagamento prosseguiu.
"Esteiros", Soeiro Pereira Gomes
(Soeiro Pereira Gomes nasceu no dia 14 de Abril de 1909. Morreu em 1949.)
alegria dos rapazes punha em apuros o mestre, à hora do pagamento.
- Se não se calam, racho um! - vociferou ele, avançando para a porta da barraca.
Fez-se silêncio. Os que estavam mais próximos recuaram, temerosos. Mas logo Gineto gritou de longe: - O melhor é matar-nos!
- Para quê, pá? Só levava ossos... - comentou Sagui, indicando o corpo enfezado.
- Ou calam-se, ou paro com isto!
Calaram-se. Ficar sem féria seria perder a Feira. E a Feira era a verdadeira festa de despedida dos moços dos telhais. Cinco dias de pândega, entre um Verão de canseiras que findava e um Inverno de miséria que surgia. O pagamento prosseguiu.
"Esteiros", Soeiro Pereira Gomes
(Soeiro Pereira Gomes nasceu no dia 14 de Abril de 1909. Morreu em 1949.)
quinta-feira, 14 de abril de 2016
Soeiro Pereira Gomes 3
Os homens baixaram a cabeça, em anuência. Ti Paulino parou de limpar o tampo do balcão; mas nada disse. A fraqueza do negócio e os fiados, que nunca recusava, tinham-lhe amortecido a antiga tagarelice. Envelhecera muito. Apenas à hora da BBC vibrava ainda fiel às ideias e aos homens cujos retratos ornamentavam as paredes.
Zé Lérias continuou: - Razão tinha eu, desde o princípio; mas ninguém quis seguir os meus conselhos... Agora, em vez de terras, tendes aquela sombra negra para sempre. Estão ali milhares de contos à ferrugem. - E pôs-se a marralhar em certa ideia.
- O mal não é da fábrica, mas da guerra, que consome as matérias-primas e o carvão - objectou Fariseu.
- Pois sim. Mas se cada qual amanhasse uma courela, tinha pão com fartura, pelo menos. Além disso trabalhava por sua conta, que é o melhor.
- Ora, o que faz o progresso são as máquinas. Há lá coisa mais bela que um motor a trabalhar!
- Isso diz você, que nunca viu nascer um pé de trigo. Progresso! Você e os mais devem ter a barriga cheia dele.
Foi estendendo a mão à esquerda e à direita, em despedida, indiferente aos argumentos do operário, e, da porta, chacoteou:
- Adeusinho. Avenham-se com o progresso. "Engrenagem", Soeiro Pereira Gomes
(Soeiro Pereira Gomes nasceu no dia 14 de Abril de 1909. Morreu em 1949.)
terça-feira, 14 de abril de 2015
Soeiro Pereira Gomes 2
Quando entrou no quarto, o seu refúgio, atirou-se para cima da cama, satisfeito. Ainda desta vez, escapara! Apesar de haver perdido a noite anterior, não tinha sono; apenas lhe doíam os pés, com certeza cheios de bolhas rebentadas sob as meias coladas à carne, como de costume. Há três meses naquela tarefa - ir buscar o material de propaganda, distribuí-lo -, ainda não calejara os pés, como os outros camaradas, que aguentavam muitos quilómetros. É verdade. Há três meses que mergulhara na vida clandestina! Noventa dias de luta, fugido aos esbirros fascistas, partilhando dum lar estranho, embora amigo, ali no quarto estreito que era todo o seu mundo de repouso, de estudo e de sonho, às vezes. Gostava bem daquele quarto de tecto baixo e paredes manchadas pela humidade, com a cama de ferro a um lado, sem colcha; uma mesa tosca, no outro, além da mala; e uma janela que dava para as traseiras dos prédios, mas da qual se via, ao fundo, uma nesga do rio.
De tarde, quando o sol emprestava reflexos de espelho aos vidros sujos ou partidos das traseiras, à hora em que os inquilinos regressavam do trabalho, pejando as ruas da cidade, Abel encostava-se ao peitoril da sua janela e ficava-se a partilhar da vida alegre ou triste dos vizinhos. Os homens, em mangas de camisa, entretinham-se a consertar velhas capoeiras, ou regavam com desvelo uma nespereira raquítica que nunca daria frutos, enquanto as mulheres punham a mesa nas estreitas varandas, se havia bom tempo, e os cachopos saltitavam como pássaros famintos.
"Contos Vermelhos e Outros Escritos", "Refúgio Perdido", Soeiro Pereira Gomes
(Soeiro Pereira Gomes nasceu no dia 14 de Abril de 1909. Morreu em 1949.)
De tarde, quando o sol emprestava reflexos de espelho aos vidros sujos ou partidos das traseiras, à hora em que os inquilinos regressavam do trabalho, pejando as ruas da cidade, Abel encostava-se ao peitoril da sua janela e ficava-se a partilhar da vida alegre ou triste dos vizinhos. Os homens, em mangas de camisa, entretinham-se a consertar velhas capoeiras, ou regavam com desvelo uma nespereira raquítica que nunca daria frutos, enquanto as mulheres punham a mesa nas estreitas varandas, se havia bom tempo, e os cachopos saltitavam como pássaros famintos.
"Contos Vermelhos e Outros Escritos", "Refúgio Perdido", Soeiro Pereira Gomes
(Soeiro Pereira Gomes nasceu no dia 14 de Abril de 1909. Morreu em 1949.)
segunda-feira, 14 de abril de 2014
Soeiro Pereira Gomes
Fecharam os telhais. Com os prenúncios de Outono, as primeiras chuvas encheram de frémitos o lodaçal negro dos esteiros, e o vento agreste abriu buracos nos trapos dos garotos, num arrepio de águas e de corpos. Também sobre os fornos e engenhos perpassou lufada desoladora, que não deixava o fumo erguer-se para o alto. Que indústria como aquela queria vento, é certo; mas sol também. Vento para enxugar e sol para calcinar - sentenciavam os mestres. Mas o sol andava baixo: não calcinava o tijolo, nem as carnes juvenis da malta.
Menos por isso que pela fraqueza das vendas, os patrões não quiseram arriscar mais dinheiro nas fornadas. - Ano mau... Todos os anos se dizia o mesmo. Desde que apareceu a telha francesa, e o bloco de cimento levou tudo de mal a pior.
- Indústria pobre, Sr. Castro - chorava-se Zé Vicente ao pagar a renda do terreno. - Indústria pobre...
E era. Desde os garotos maltrapilhos aos valadores que vinham de muito longe - sete horas de comboio, a sonhar jornas impossíveis. Por isso, agora, o dia 7 de Setembro passava despercebido, sem festa. Dantes, era sagrado. Recebia-se a féria, pagava-se os fiados de três meses e festejava-se a despedida. Os moços queimavam o resto das energias na ornamentação do telhal; arranjavam instrumental de latas e cegarregas; desfilavam em cortejo. E, enquanto o caniço verde dos esteiros ondulava no alto dos fornos, as canas secas dos foguetes subiam ao céu. Patrões e mestres sorriam, seguros da conciliação; moços e valadores cantavam, ansiosos de melhor vida.
Bons tempos, aqueles! Os mestres ainda berravam, como dantes: - Eh, gente! Vamos ligeiro, que esta fornada é o resto. - Mas a cadência dos passos não se alterava, porque o pessoal já sabia que ia pagar o descanso com sete meses de privações.
Assim ficaram as eiras desertas. Apenas no Telhal Grande havia ainda algumas dezenas de tijolos que o mestre mandara pôr em fio, por causa do tempo ruim. E, mesmo esses, depressa iriam engrossar as arrumas, bem cobertas de telha, e mais volumosas que quaisquer duas moradias da malta dos telhais.
Ali se guardava o suor de um Verão de fadigas. Vento e sol; fadigas e suor - era o que os telhais queriam.
"Esteiros", Soeiro Pereira Gomes
(Soeiro Pereira Gomes nasceu no dia 14 de Abril de 1909. Morreu em 1949.)
Menos por isso que pela fraqueza das vendas, os patrões não quiseram arriscar mais dinheiro nas fornadas. - Ano mau... Todos os anos se dizia o mesmo. Desde que apareceu a telha francesa, e o bloco de cimento levou tudo de mal a pior.
- Indústria pobre, Sr. Castro - chorava-se Zé Vicente ao pagar a renda do terreno. - Indústria pobre...
E era. Desde os garotos maltrapilhos aos valadores que vinham de muito longe - sete horas de comboio, a sonhar jornas impossíveis. Por isso, agora, o dia 7 de Setembro passava despercebido, sem festa. Dantes, era sagrado. Recebia-se a féria, pagava-se os fiados de três meses e festejava-se a despedida. Os moços queimavam o resto das energias na ornamentação do telhal; arranjavam instrumental de latas e cegarregas; desfilavam em cortejo. E, enquanto o caniço verde dos esteiros ondulava no alto dos fornos, as canas secas dos foguetes subiam ao céu. Patrões e mestres sorriam, seguros da conciliação; moços e valadores cantavam, ansiosos de melhor vida.
Bons tempos, aqueles! Os mestres ainda berravam, como dantes: - Eh, gente! Vamos ligeiro, que esta fornada é o resto. - Mas a cadência dos passos não se alterava, porque o pessoal já sabia que ia pagar o descanso com sete meses de privações.
Assim ficaram as eiras desertas. Apenas no Telhal Grande havia ainda algumas dezenas de tijolos que o mestre mandara pôr em fio, por causa do tempo ruim. E, mesmo esses, depressa iriam engrossar as arrumas, bem cobertas de telha, e mais volumosas que quaisquer duas moradias da malta dos telhais.
Ali se guardava o suor de um Verão de fadigas. Vento e sol; fadigas e suor - era o que os telhais queriam.
"Esteiros", Soeiro Pereira Gomes
(Soeiro Pereira Gomes nasceu no dia 14 de Abril de 1909. Morreu em 1949.)
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