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domingo, 14 de abril de 2019

Soeiro Pereira Gomes 7

De manhã, quando os silvos das fábricas sobressaltavam todos os lares, Madalena ia encostar-se ao postigo, no beco do Mirante.
Era um beco triste que assustava o sol. Subia em socalcos a encosta pedregosa, ladeada por paredes que vestiam luto e portas baixas que semelhavam buracos. Silencioso e sombrio, tinha ao alto, sobre rochas tisnadas, uma velha oliveira que manchava de cinzento o azul do céu. Naquele beco a vida estiolava. 
Madalena via passar, ao fundo, as antigas companheiras, que lhe acenavam de fugida e seguiam caminho a lamentá-la:
- Tão magra que está!
- Coitada. Aquela não deita fora o Inverno. 
E ela ficava a ouvir-lhes o sussurro das vozes e a recordar o tempo em que também era tecedeira. Depois, dava os bons-dias à velhota sua amiga, que, manca-não-manca, passava sempre atrasada.
- Tás melhor?
- Obrigada, Ti Rosa. Prà semana talvez já vá consigo. 
Assim dizia há muito tempo, desde que o primeiro escarro lhe avermelhara o lenço. Mas os dias somavam meses − e as melhoras eram como o sol de Inverno.

"Esteiros", Soeiro Pereira Gomes

(Soeiro Pereira Gomes nasceu no dia 14 de Abril de 1909. Morreu e 1949.)

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

Soeiro Pereira Gomes 6

- Não sei ler, mas faço coisas - repontava, mostrando carros e barcos toscos de madeira.
Despeitados, os outros desvalorizavam-lhe o engenho precoce, em que ele confiava, mais do que nos livros.
- Quando eu trabalhar com as máquinas... - E de tanto falar em máquinas, chamaram-lhe Maquineta.
João era o Gaitinhas, porque gostava de imitar os instrumentos da banda musical. Nos domingos de concerto, postava-se junto do coreto, atrás do regente, de olhos postos nos saxofones e clarinetes reluzentes, indeciso na escolha. Um dia, a mãe perguntou-lhe:
- Para que queres estudar, João?
- Pra músico - respondeu de pronto.
Mas entrou para a escola e quis ser doutor. Seguia a vontade do pai, nas cartas que tantas vezes lera. Páginas recheadas de sonhos e projectos envelhecidos, dobrados no baú, como relíquia inútil.
Agora estava ali na praça, desolado e sem destino. Crianças maltrapilhas corriam atrás dos carros e escondiam-se nos pára-choques; outras, endomingadas, junto dos pais, esperavam lugar nas camionetas. Via-se em todos os rostos a alegria das horas livres que iam gozar, esquecidos do lar falto do pão e do telhal farto de trabalhos. Só o Gaitinhas estava triste. Não arranjou boleia nos carros, nem se misturou com o povo. Seguiu para casa, isolado, a meditar no mundo dos rapazes descalços e analfabetos como o Maquineta, ao qual em breve iria pertencer.

"Esteiros", Soeiro Pereira Gomes

(Soeiro Pereira Gomes nasceu no dia 14 de Abril de 1909. Morreu no dia 5 de Dezembro de 1949.)

sábado, 14 de abril de 2018

Soeiro Pereira Gomes 5

Mas era preciso dinheiro, e então ficara no telhal. E, como um homem, vendeu os braços para que o dinheiro tilintasse agora no bolso das calças. Gineto sentia-se tão feliz que não se lembrou das lágrimas que a mãe havia de chorar por ele e pela féria da semana. Subiu o beco do Mirante a assobiar. As quintas estavam ali em frente a retalhar os vales e a seduzir olhares. O sol, ainda alto, tomava mais branco o branco dos muros e revivescia com reflexos doirados as folhas estioladas das videiras. Mas Gineto não receava a luz da tarde. Tinha a certeza que os caseiros não estariam de atalaia, entre os pomares, porque a melhor fruta já fora apanhada. O moço do telhal sabia de colheitas. Todavia, chegado à estrada, hesitou. Pela primeira vez as suas quintas - suas, como ele dizia - não o atraíram. A Feira afagava-lhe o pensamento; o dinheiro tilintava no bolso... Era livre, sem a perseguição dos caseiros e cães de guarda... Não iria às uvas. 

"Esteiros", Soeiro Pereira Gomes 

(Soeiro Pereira Gomes nasceu no dia 14 de Abril de 1909. Morreu em 1949.)

sexta-feira, 14 de abril de 2017

Soeiro Pereira Gomes 4

No último sábado, os moços do Telhal Grande receberam a féria com gritos de contentamento. As moedas não tapavam o fundo das algibeiras; mas os projectos transbordavam dos cérebros infantis. No dia seguinte abria a Feira; ia haver esperas de toiros e toiradas, circos e cavalinhos. Por isso, a
alegria dos rapazes punha em apuros o mestre, à hora do pagamento.
- Se não se calam, racho um! - vociferou ele, avançando para a porta da barraca.
Fez-se silêncio. Os que estavam mais próximos recuaram, temerosos. Mas logo Gineto gritou de longe: - O melhor é matar-nos!
- Para quê, pá? Só levava ossos... - comentou Sagui, indicando o corpo enfezado.
- Ou calam-se, ou paro com isto!
Calaram-se. Ficar sem féria seria perder a Feira. E a Feira era a verdadeira festa de despedida dos moços dos telhais. Cinco dias de pândega, entre um Verão de canseiras que findava e um Inverno de miséria que surgia. O pagamento prosseguiu.
 

"Esteiros", Soeiro Pereira Gomes

(Soeiro Pereira Gomes nasceu no dia 14 de Abril de 1909. Morreu em 1949.)

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Soeiro Pereira Gomes

Fecharam os telhais. Com os prenúncios de Outono, as primeiras chuvas encheram de frémitos o lodaçal negro dos esteiros, e o vento agreste abriu buracos nos trapos dos garotos, num arrepio de águas e de corpos. Também sobre os fornos e engenhos perpassou lufada desoladora, que não deixava o fumo erguer-se para o alto. Que indústria como aquela queria vento, é certo; mas sol também. Vento para enxugar e sol para calcinar - sentenciavam os mestres. Mas o sol andava baixo: não calcinava o tijolo, nem as carnes juvenis da malta.
Menos por isso que pela fraqueza das vendas, os patrões não quiseram arriscar mais dinheiro nas fornadas. - Ano mau... Todos os anos se dizia o mesmo. Desde que apareceu a telha francesa, e o bloco de cimento levou tudo de mal a pior.
- Indústria pobre, Sr. Castro - chorava-se Zé Vicente ao pagar a renda do terreno. - Indústria pobre...

E era. Desde os garotos maltrapilhos aos valadores que vinham de muito longe - sete horas de comboio, a sonhar jornas impossíveis. Por isso, agora, o dia 7 de Setembro passava despercebido, sem festa. Dantes, era sagrado. Recebia-se a féria, pagava-se os fiados de três meses e festejava-se a despedida. Os moços queimavam o resto das energias na ornamentação do telhal; arranjavam instrumental de latas e cegarregas; desfilavam em cortejo. E, enquanto o caniço verde dos esteiros ondulava no alto dos fornos, as canas secas dos foguetes subiam ao céu. Patrões e mestres sorriam, seguros da conciliação; moços e valadores cantavam, ansiosos de melhor vida.
Bons tempos, aqueles! Os mestres ainda berravam, como dantes: - Eh, gente! Vamos ligeiro, que esta fornada é o resto. - Mas a cadência dos passos não se alterava, porque o pessoal já sabia que ia pagar o descanso com sete meses de privações.
Assim ficaram as eiras desertas. Apenas no Telhal Grande havia ainda algumas dezenas de tijolos que o mestre mandara pôr em fio, por causa do tempo ruim. E, mesmo esses, depressa iriam engrossar as arrumas, bem cobertas de telha, e mais volumosas que quaisquer duas moradias da malta dos telhais.

Ali se guardava o suor de um Verão de fadigas. Vento e sol; fadigas e suor - era o que os telhais queriam.

"Esteiros", Soeiro Pereira Gomes

(Soeiro Pereira Gomes nasceu no dia 14 de Abril de 1909. Morreu em 1949.)