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domingo, 5 de fevereiro de 2012

Um cavaquista pouco anónimo

António Capucho, ex-conselheiro de Estado, cavaquista indesmentido e histórico do PSD, criticou ontem a decisão do Governo de acabar com a tolerância de ponto no Carnaval, especialmente numa altura de austeridade."É uma decisão extremamente contraproducente, negativa, injusta, precipitada e em cima do acontecimento", disse o ex-presidente da Câmara de Cascais, à rádio TSF. "Numa altura em que as pessoas estão relativamente deprimidas por força dos problemas económicos que atravessam e da austeridade que estão a sofrer, acho um disparate completo cortar-lhes a possibilidade de, num dia por ano, darem largas à sua alegria, vir para a rua e comemorar o Carnaval", frisou.
Por acaso, acerca deste assunto, estou como o tolo no meio da ponte. Mas não deixa de ter piada que, uma semana depois da primeira ofensiva dos Cavaquistas Anónimos (como lhes chamou, com o veneno do costume, Marcelo Rebelo de Sousa), Capucho, exactamente Capucho, se agarre a isto para manter a guerrinha em banho-maria.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Revolucionários de caca

Uns palermóides quaisquer pretenderam abrilhantar a greve geral de ontem atirando cocktails molotov contra instalações das Finanças em Lisboa. Como se sabe, os palermóides são criaturas sem cabeça, o que, desde logo, obsta a que se lhes pergunte o que é que lhes passou pela dita. Mas façamos nós por eles esse exercício: estes mentacaptos terão agido apenas por prazer vândalo? Serão energúmenos armados em anarquistas ou em neocarbonários, nascidos com atraso para a História? Estarão zangados com o Tavares que trabalha na repartição do Campo Grande, aquilo foi só um aviso e a seguir chegam lume ao cão? Ou, pelo dia que escolheram, um dia de protesto nacional, a cisma deles é mesmo contra quem manda no País e contra a política de austeridade?
Cuidarão então que são revolucionários! Mas, se cuidam, são revolucionários marca roscofe. Se visavam afrontar o "Poder" e atacaram repartições de Finanças, certamente que se perderam pelo caminho. Em vez de andarem a brincar com o fogo, era de homem terem ido cagar à porta de quem nos empobrece. Que diabo, estes revolucionários de carregar pela boca não sabem onde são os palácios de Belém e de São Bento? Ou, para além de não terem cabeça, também não têm tomates?

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Comer com os olhos

Eram dois homens, já na segunda metade da idade. Um deles fica à porta, enquanto o outro entra no restaurante. O proprietário, que o recebe no hall, pergunta-lhe "É para almoçar?" e o homem responde "É para dar uma vista de olhos". O dono do estabelecimento, embora lhe apeteça, não disparata: "Faça favor. Isto não é nenhum museu, mas não paga nada".
Um ou dois minutos depois, o homem sai. Olha para o amigo que o espera, não falam, e desandam dali no mesmo passo descomprometido com que tinham chegado. Deixo de os ver. Fico a imaginar que vão a outro restaurante, fazem a mesma cena mas trocam de papéis. Assim, à vez, vão comendo com os olhos e já ficam almoçados. Melhor do que ir mastigar o papo seco de nariz amarrotado contra a montra do talho.
Em Belém e São Bento se calhar não sabem. Comer com a boca está a sair dos hábitos de cada vez mais portugueses.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

O ET de Belém

A Casa Branca precipitou-se quanto declarou, ontem, que os EUA nunca contactaram com extraterrestres. Bastava-lhe esperar pelo dia de amanhã e já podia afirmar o contrário, depois de Barack Obama receber Cavaco Silva na Sala Oval, num encontro imediato de terceiro grau com a duração prevista de meia hora. Prepara-te, América: o ET de Belém vai fazer sensação!
Recém-chegado ao nosso mundo e por isso sem culpa nenhuma do monte de merda em que nós, os portugueses do rés-do-chão, estamos enterrados, Cavaco é tão infalível como o Papa e mais sério do que toda a gente. Muito provavelmente nasceu duas vezes. Todos os amigos próximos que foram por ele tocados ficaram subitamente ricos. Podres de ricos! Ele é o político profissional que tem o dom de não ser político. Ele é o homem que não é igual aos outros homens. Também não é a reencarnação de Jesus Cristo, senão já teria avisado os seus seguidores no Facebook. Cavaco Silva é um extraterrestre.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Aníbal Passos Coelho

A ver se nos entendemos. Não há crise nenhuma entre Belém e São Bento por causa das medidas de austeridade. Nem há sequer "uma tempestade num copo de água" nas relações do Presidente da República com o primeiro-ministro, como ardilosamente sugere o professor Marcelo Rebelo de Sousa, que sabe disto mais do que o Papa. Não há nada, nem podia haver. Porque Cavaco Silva e Pedro Passos Coelho são uma única e mesma pessoa em dois cargos diferentes: Aníbal Pedro António Manuel Cavaco Mamede Silva Passos Coelho, omnipresente e omnipotente, porém não omnisciente, nas chefias do Estado e do Governo. São uma espécie de Santíssima Trindade, mas em versão para dois, laica e republicana.
O falso diferendo entre ambos, que são um só, é um serviço combinado. É uma farsa para distrair o País. Ou uma fábula, com monstros e tudo. Embora denotando evidente falta de jeito, Passos Coelho e Cavaco Silva representam a cena do polícia mau e do polícia bom. Por caminhos tortuosamente diferentes - um oferecendo pancada, o outro oferecendo colo -, têm o mesmo objectivo: sacar tudo o que puderem aos suspeitos do costume. E os suspeitos do costume somos nós.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

E diz o inteligente que acabaram as ilusões

A esfinge de Belém decidiu ontem matar de vez os sonhos dos portugueses. "Acabaram os tempos de ilusões", decretou Cavaco Silva, ignorante como é seu timbre, sem sequer suspeitar o lado bom da palavra ilusão, o lado que nos mantém vivos e esperançados. Porque as palavras, ao contrário do Presidente da República, não têm apenas o lado mau.
Cavaco quer que os portugueses "redescubram o valor republicano da austeridade digna". Ele que vá explicar tão elevado conceito aos quase 700 mil desempregados, aos milhares de sem-abrigo que se multiplicam pelas ruas como cogumelos envenenados, às filas sem fim nas sopas dos pobres, às mães que se desfazem dos filhos recém-nascidos.
Cavaco quer que os portugueses - sem emprego, sem subsídio de desemprego, sem reforma, sem casa, tendencialmente sem direito à saúde, sem dinheiro, sem pão e finalmente sem ilusões - "cultivem estilos de vida baseados na poupança". Só se pouparem no ar que respiram e que ainda não paga imposto. Mas aqui Cavaco sabe do que fala: foram os seus amigos que inventaram o BPN, a maior burla da história de Portugal, e ainda lhe deram algum a ganhar.
"Perdemos muitos anos na letargia do consumo fácil e na ilusão do despesismo público e privado", diz Cavaco. A esfinge de Belém esfinge muito mal. Parece que não teve nada a ver com a merda que nos fizeram e nós deixámos fazer. Onde é que ele estava nesses anos todos, nesses tempos de regabofe? A tomar conta, sempre a tomar conta. No poder ou na sombra do poder, mas sempre a tomar conta. E agora finge que não é nada com ele. E nem tão-pouco esboça um pedido de desculpas aos portugueses.
Este país é uma tourada. Estamos entregues aos bichos. E diz o inteligente que acabaram as ilusões?

O 5 de Outubro deste ano só me deu desgostos. Que raio de língua é que estava a falar António Costa, presidente da Câmara de Lisboa, quando, no seu discurso, meteu a palavra perzeverança? Isto não é perzeguição, palavra de honra, mas em que gramática é que o edil lisboeta descobriu que um s a seguir a um r se lê z? Lá em casa tem perzianas? E será que vai perzistir no erro? É bem capaz, ele é um tipo muito perzistente.