Casámos de branco, os dois, ou cuidavas que eu me ficava? Tu parecias
uma princesa de conto de fadas e eu parecia o Américo Tomás a inaugurar
um chafariz. Mas que belo par de jarras - diziam os convidados -, serão da
Vista Alegre? E os néscios dos teus progenitores inchados de orgulho,
"Vista Alegre, estás a ver António, estou farta de te dizer, não há nada
como o branco", rejubilava a tua mãe, e o teu pai, "Fresquinho, se for
fresquinho não digo que não, Maria"...
Vinte anos, como
tão redondamente disse o tal Patxi Andión. Dávamo-nos bem, Glória,
parecíamos mesmo um casal: eu não me metia contigo e tu não te metias
comigo. O cuidado que eu tinha com o estore, de manhã, para não te
incomodar. Os vagares com que eu andava pela casa, em pezinhos de lã,
porque dizias que a minha presença te fazia corrente de ar. Fui ou não
fui ao workshop de reeducação para mijadores sem ponto de mira
que tanto me recomendaste? Íamos ou não íamos todos os anos aquele
domingo de Agosto à
Póvoa de Varzim fazer as nossas ricas férias? Tu sabes, devias saber
que eu nunca te enganei, Glória, palavríssima de honríssima,
desculpa-me o superlativo absoluto sintético em dose dupla, mas já estou
por tudo. Fui-te fiel como só um bacalhau seco e posteriormente
demolhado
pode ser. Dei-te vinte anos da minha vida e tu recambias-mos resumidos e
empacotados em dezassete sacos de plástico que me obrigaste a pagar e
colocaste na parte de fora da porta de casa. Dezassete? Não mereço
vinte, para ser conta certa? Eu sei que as coisas já não estavam como
antigamente, esfriaram, mas não será essa a evolução natural de vida de
casados? O amor funciona a coração e não a gás, Glória, o amor não é
chama eterna, vai arrefecendo como o jantar, e deixa-me tomar nota
desta, que é muito boa...
Vinte anos de uso e nem me levaste à
troca. E isso é o que mais me magoa, Glória. Dizes que me mandas embora
porque eu não presto e não porque encontraste melhor. Não faças assim,
Glória, ao menos põe-me os cornos, ainda estás a tempo, faz-me esse
favor, dá-me essa alegria, põe-me os cornos. Se não for por mim, que
seja pelos nossos queridos filhos, coitadinhos, que vamos desgraçar para
o resto da vida deles com esta tão unilateral quanto politraumatizante
separação. O
quê? Não temos filhos? Pois não, desculpa lá, Glória, às vezes
entusiasmo-me um bocadinho.
Mostrar mensagens com a etiqueta O Homem Que Era Topo de Gama. Mostrar todas as mensagens
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sexta-feira, 20 de agosto de 2021
segunda-feira, 17 de junho de 2019
O amor é como o jantar, arrefece
Casámos de branco, os dois, ou cuidavas que eu me ficava? Tu parecias
uma princesa de conto de fadas e eu parecia o Américo Tomás a inaugurar
um chafariz. Mas que belo par de jarras - diziam os convidados -, serão da
Vista Alegre? E os néscios dos teus progenitores inchados de orgulho,
"Vista Alegre, estás a ver António, estou farta de te dizer, não há nada
como o branco", rejubilava a tua mãe, e o teu pai, "Fresquinho, se for
fresquinho não digo que não, Maria"...
Vinte anos, como tão redondamente disse o tal Patxi Andión. Dávamo-nos bem, Glória, parecíamos mesmo um casal: eu não me metia contigo e tu não te metias comigo. O cuidado que eu tinha com o estore, de manhã, para não te incomodar. Os vagares com que eu andava pela casa, em pezinhos de lã, porque dizias que a minha presença te fazia corrente de ar. Fui ou não fui ao workshop de reeducação para mijadores sem ponto de mira que tanto me recomendaste? Íamos ou não íamos todos os anos aquele domingo de Agosto à Póvoa de Varzim fazer as nossas ricas férias? Tu sabes, devias saber que eu nunca te enganei, Glória, palavríssima de honríssima, desculpa-me o superlativo absoluto sintético em dose dupla, mas já estou por tudo. Fui-te fiel como só um bacalhau seco e posteriormente demolhado pode ser. Dei-te vinte anos da minha vida e tu recambias-mos resumidos e empacotados em dezassete sacos de plástico que me obrigaste a pagar e colocaste na parte de fora da porta de casa. Dezassete? Não mereço vinte, para ser conta certa? Eu sei que as coisas já não estavam como antigamente, esfriaram, mas não será essa a evolução natural de vida de casados? O amor funciona a coração e não a gás, Glória, o amor não é chama eterna, vai arrefecendo como o jantar, e deixa-me tomar nota desta, que é muito boa...
Vinte anos de uso e nem me levaste à troca. E isso é o que mais me magoa, Glória. Dizes que me mandas embora porque eu não presto e não porque encontraste melhor. Não faças assim, Glória, ao menos põe-me os cornos, ainda estás a tempo, faz-me esse favor, dá-me essa alegria, põe-me os cornos. Se não for por mim, que seja pelos nossos queridos filhos, coitadinhos, que vamos desgraçar para o resto da vida deles com esta tão unilateral quanto politraumatizante separação. O quê? Não temos filhos? Pois não, desculpa lá, Glória, às vezes entusiasmo-me um bocadinho.
Vinte anos, como tão redondamente disse o tal Patxi Andión. Dávamo-nos bem, Glória, parecíamos mesmo um casal: eu não me metia contigo e tu não te metias comigo. O cuidado que eu tinha com o estore, de manhã, para não te incomodar. Os vagares com que eu andava pela casa, em pezinhos de lã, porque dizias que a minha presença te fazia corrente de ar. Fui ou não fui ao workshop de reeducação para mijadores sem ponto de mira que tanto me recomendaste? Íamos ou não íamos todos os anos aquele domingo de Agosto à Póvoa de Varzim fazer as nossas ricas férias? Tu sabes, devias saber que eu nunca te enganei, Glória, palavríssima de honríssima, desculpa-me o superlativo absoluto sintético em dose dupla, mas já estou por tudo. Fui-te fiel como só um bacalhau seco e posteriormente demolhado pode ser. Dei-te vinte anos da minha vida e tu recambias-mos resumidos e empacotados em dezassete sacos de plástico que me obrigaste a pagar e colocaste na parte de fora da porta de casa. Dezassete? Não mereço vinte, para ser conta certa? Eu sei que as coisas já não estavam como antigamente, esfriaram, mas não será essa a evolução natural de vida de casados? O amor funciona a coração e não a gás, Glória, o amor não é chama eterna, vai arrefecendo como o jantar, e deixa-me tomar nota desta, que é muito boa...
Vinte anos de uso e nem me levaste à troca. E isso é o que mais me magoa, Glória. Dizes que me mandas embora porque eu não presto e não porque encontraste melhor. Não faças assim, Glória, ao menos põe-me os cornos, ainda estás a tempo, faz-me esse favor, dá-me essa alegria, põe-me os cornos. Se não for por mim, que seja pelos nossos queridos filhos, coitadinhos, que vamos desgraçar para o resto da vida deles com esta tão unilateral quanto politraumatizante separação. O quê? Não temos filhos? Pois não, desculpa lá, Glória, às vezes entusiasmo-me um bocadinho.
terça-feira, 5 de fevereiro de 2019
O velho pescador e a máquina de flippers
Naquele tempo, Quitério chegou-se um pouco mais, encostou a perninha como quem não quer a coisa, e disse:
- Se me dá licença, Luisinha, vou contar-lhe uma pequena história a propósito. Uma parábola, que também as sei. Era uma vez um velho pescador muito pobre, muito pobre, tão pobre que nem tinha moscas em casa. A sua amantíssima esposa era muito velhinha, muito velhinha, tão velhinha que sentia a falta das moscas. E não tinham filhos. Certo dia, quando andava na faina à faneca, o paupérrimo pescador foi surpreendido por uma violenta tempestade. Uma tempestade dir-se-ia talvez que dantesca, se não fosse asneira dizê-lo. As ondas eram adamastores, o barco uma casca de noz, uma esfera desgovernada numa máquina de flippers de gás a fundo. É hoje que me afogo, é hoje que me afogo, pensou o homem e calçou as galochas, sem fazer ideia do que é uma máquina de flippers. A aflição do velhíssimo pescador era do tamanho da borrasca: medonha. Graças a Deus, lembrou-se do Mártir São Sebastião e fez uma solene promessa: se Nossa Senhora do Leite e do Bom Parto lhe mandasse um filho, meteria imediatamente os sogros num asilo, livrando-os da fome de cão que passavam lá em casa, assim São Pedro o permitisse. Nessa noite de milagre, quando voltou são e salvo ao porto de abrigo do seu modesto porém honrado lar, a sua velhíssima e amantíssima esposa tinha-lhe guardado no borralho mortiço o fundo de uma malga com farinha-de-pau. O pescador despejou as galochas na pia de lavar a louça, para aproveitar, e ceou. Assim se passaram as coisas...
De braços teatralmente abertos, com a mão direita segurando a chávena do café e a esquerda agarrada ao pires, abanando compenetradamente a cabeça, em movimentos curtos, ritmados, de cima para baixo ou vice-versa a partir de uma certa altura, confirmando em absoluto a profundez da mensagem supra, Quitério fixava, inquiridor, num silêncio eloquente, uma estranha Luisinha que o olhava de boca aberta. Cansado de estar calado e de abanar a cabeça, Quitério perguntou finalmente: - Percebeu? - Olhe que não sei bem... - defendeu-se Luisinha, mais confusa era impossível. - Pois aí tem, exactamente a esse ponto é que eu queria chegar - sentenciou Quitério, dando por encerrada a sessão.
- Se me dá licença, Luisinha, vou contar-lhe uma pequena história a propósito. Uma parábola, que também as sei. Era uma vez um velho pescador muito pobre, muito pobre, tão pobre que nem tinha moscas em casa. A sua amantíssima esposa era muito velhinha, muito velhinha, tão velhinha que sentia a falta das moscas. E não tinham filhos. Certo dia, quando andava na faina à faneca, o paupérrimo pescador foi surpreendido por uma violenta tempestade. Uma tempestade dir-se-ia talvez que dantesca, se não fosse asneira dizê-lo. As ondas eram adamastores, o barco uma casca de noz, uma esfera desgovernada numa máquina de flippers de gás a fundo. É hoje que me afogo, é hoje que me afogo, pensou o homem e calçou as galochas, sem fazer ideia do que é uma máquina de flippers. A aflição do velhíssimo pescador era do tamanho da borrasca: medonha. Graças a Deus, lembrou-se do Mártir São Sebastião e fez uma solene promessa: se Nossa Senhora do Leite e do Bom Parto lhe mandasse um filho, meteria imediatamente os sogros num asilo, livrando-os da fome de cão que passavam lá em casa, assim São Pedro o permitisse. Nessa noite de milagre, quando voltou são e salvo ao porto de abrigo do seu modesto porém honrado lar, a sua velhíssima e amantíssima esposa tinha-lhe guardado no borralho mortiço o fundo de uma malga com farinha-de-pau. O pescador despejou as galochas na pia de lavar a louça, para aproveitar, e ceou. Assim se passaram as coisas...
De braços teatralmente abertos, com a mão direita segurando a chávena do café e a esquerda agarrada ao pires, abanando compenetradamente a cabeça, em movimentos curtos, ritmados, de cima para baixo ou vice-versa a partir de uma certa altura, confirmando em absoluto a profundez da mensagem supra, Quitério fixava, inquiridor, num silêncio eloquente, uma estranha Luisinha que o olhava de boca aberta. Cansado de estar calado e de abanar a cabeça, Quitério perguntou finalmente: - Percebeu? - Olhe que não sei bem... - defendeu-se Luisinha, mais confusa era impossível. - Pois aí tem, exactamente a esse ponto é que eu queria chegar - sentenciou Quitério, dando por encerrada a sessão.
sábado, 5 de março de 2016
Follow me ou o fado do desgraçadinho 4
Chamas-me adúltero, traidor, infiel, se calhar mouro, acusas-me de ir às putas nas tuas costas, e isso é uma calúnia muito grande, uma injustiça que eu não mereço, estou aqui que não me deixo mentir. Às meretrizes, querias tu dizer, Glória, às meretrizes, e foi apenas uma vez e não valeu. Eu conto-te, já que fazes questão:
Fui levado ao engano pelo Sarafim, que me telefonou para uma merenda na Baixa, disse-me que íamos comer uma coisinha boa num sítio da Rua de Coelho Neto, sabes como eu sou por petiscos. Fomos. Juro-te que entrei atrás dele e só comecei a desconfiar porque, lá dentro, em vez de me cheirar a bifanas, que era o que me apetecia, cheirava-me a outra coisa. E o balcão era um divã de molas ao léu. Mas a verdade é esta: já lá estávamos, não quis fazer feio nem deixar o Sarafim pendurado, tu é que me estavas sempre a dizer bem dele. Não, não estou a dizer que a culpa é tua, não destroças as minhas palavras.
Que se segue: sentei-me ao balcão, quero dizer, no divã, uma mola ainda tentou fazer-me uma colonoscopia a sangue frio, mas desviei-me a tempo, e dispus-me a ficar ali à espera, porque, já que não havia bifanas, eu não queria nada. Mas o Sarafim, o teu amigo Sarafim - tens razão, desculpa, não é para te ofender -, o Sarafim desata a insistir comigo para eu escolher entre a Aninhas Mijona e a Lela Moncosa, era o que havia na lista. Sim, dizes bem, ricos nomes, não haja dúvidas. Ainda por cima, ter de escolher, já sabes como eu sou, deste o exame de admissão ao Liceu que entrei em modo automático, deixo as minhas decisões nas mãos dos outros. Roí uma tarde inteira de angústia, introspectando o cruel dilema: "Ana, ina, não, bate china, bate cão, fica a Mijona, a Moncosa não. Não vale, não vale, que me enganei outra vez. Ana, ina, não, bate china, bate cão, fica a Moncosa, a Mijona não"...
O Sarafim, de tesão no ponto, a perder a paciência comigo e com medo de que a braguilha se lhe desmobilizasse, insistia ainda mais na insistência, desculpa-me a insistência neste ponto. Eu, farto de o aturar, estava para dizer, aliás sem convicção, que queria a Moncosa, quando ele me empurrou para os braços da Mijona. Sim, empurrou, Glória. Eu sei que ele não está aqui para o confirmar, mas isto é pela luz que me alumia. Por falar nisso, já veio a factura da EDP? Não, não estou a mudar de assunto...
Ora bem, onde é que eu ia? Já sei: assim que entrei no quarto, e aquilo era um quarto de um quarto, uma espécie de último terço do terreno mas em quarto, fui barbaramente agredido por um fedor a mictório público que era um ser vivo e tentacular, de ficção científica, um cheirete tamanho que fiquei logo a perceber por que razão é que a menina se chamava Aninhas. O ambiente era de cortar à faca e embrulhar em papel costaneira para venda a retalho. Cada vez que a feminil criatura se abanava, o ar, coalhado, avançava em vagas compactas e sucessivas estatelando-me contra os tabiques do chiqueiro. Não te rias, Glória, que isto é a sério, ainda tenho aqui as marcas nas costelas. E, para piorar o impossível, a menina era a cara escarrada da minha avó que eu nunca conheci nem por fotografia, mas são as coisas que nos vêm à cabeça nestas alturas. Não sejas assim Glória, à cabeça da cabeça, é o que eu quero dizer...
Conheces-me como as palmas da minha mão, Glória. Sabes que em ocasiões assim, quando me sinto inapelavelmente entalado, o meu vocabulário, de costume tão cumprimenteiro, não desfazendo, acaba por descambar-me para a javardice, desculpa-me a expressão. E foi nesses termos que introspectei, apreensivo, "Ó que caralho, que não há caralho para ninguém. Não vou conseguir galvanizar-me".
Diz-me a Mijona: - Anda cá, filhinho, chega-te ao bom. Não tenhas medo, que eu não te como.
Digo-lhe eu, com o polegar e o indicador da minha mão direita esganando-me o nariz e a voz a sair-me na afinação perfeita da Luísa Sobral: - Faça a fineza de desculpar, excelentíssima senhora. Nem me custa acreditar que não padeça felizmente de tendências canibalescas, o que é agradával sobretudo para a minha pessoa, mas a verdade é que eu estou ligeiramente um bocadinho indisposto...
E ela: - Deixa lá isso. Eu ameigo-te aqui umas festinhas, filho... Hã?, hã?, que tal? Gostas? Então? Nada?
Nada!
Nada.
E eu: - Faça-me o obséquio de desculpar, ilustríssima senhora, mas entendo por melhor retirar-me...
E ela: - Como é que queres? Diz lá, não te acanhes, que eu já desvirgulei muito homem feito. Vamos embora, meneia-te, rapaz, ou vieste só para gozar as vistas? Olha que isto está a contar e ainda há muito freguês à porta. Não sejas o meu prejuízo, diz lá: queres vir-te nas minhas mamas?
E eu: - Muitíssimo obrigadíssimo pela especial deferência, minha riquíssima senhora, mas isto não é má vontade, eu seja ceguinho. Eu, por mim, bem gostava de vir-me de qualquer maneira, a geografia, nestas circunstâncias, acaba por ser irrelevante, mas, faça a fineza de desculpar, não me encontro nas melhores condições. Sempre a considerá-la...
Ao tempo que isto vai. Falso alarme e, para todos os efeitos, já prescreveu. Não olhes para mim com essa cara, Glória, as coisas são como são, não faças pouco. Pareces o Sarafim, o Sarafim também se riu. Mas à conclusão: saí do sítio de Coelho Neto envergonhadíssimo pela momentânea inoperância, de rastos, cheio de fome, sem fôlego que fosse para acrescentar um fingido "Fica para outro dia", e só então troquei o ar dos pulmões. Lado positivo do infausto evento: tinha acabado de bater um dos meus primeiros recordes - cinco minutos sem respirar por cima de água. Ó Glória, podíamos era ir à Conga comer uma bifaninha? Não? Tens a certeza? Pronto, também não é preciso arreliares-te. Mas marchava...
Fui levado ao engano pelo Sarafim, que me telefonou para uma merenda na Baixa, disse-me que íamos comer uma coisinha boa num sítio da Rua de Coelho Neto, sabes como eu sou por petiscos. Fomos. Juro-te que entrei atrás dele e só comecei a desconfiar porque, lá dentro, em vez de me cheirar a bifanas, que era o que me apetecia, cheirava-me a outra coisa. E o balcão era um divã de molas ao léu. Mas a verdade é esta: já lá estávamos, não quis fazer feio nem deixar o Sarafim pendurado, tu é que me estavas sempre a dizer bem dele. Não, não estou a dizer que a culpa é tua, não destroças as minhas palavras.
Que se segue: sentei-me ao balcão, quero dizer, no divã, uma mola ainda tentou fazer-me uma colonoscopia a sangue frio, mas desviei-me a tempo, e dispus-me a ficar ali à espera, porque, já que não havia bifanas, eu não queria nada. Mas o Sarafim, o teu amigo Sarafim - tens razão, desculpa, não é para te ofender -, o Sarafim desata a insistir comigo para eu escolher entre a Aninhas Mijona e a Lela Moncosa, era o que havia na lista. Sim, dizes bem, ricos nomes, não haja dúvidas. Ainda por cima, ter de escolher, já sabes como eu sou, deste o exame de admissão ao Liceu que entrei em modo automático, deixo as minhas decisões nas mãos dos outros. Roí uma tarde inteira de angústia, introspectando o cruel dilema: "Ana, ina, não, bate china, bate cão, fica a Mijona, a Moncosa não. Não vale, não vale, que me enganei outra vez. Ana, ina, não, bate china, bate cão, fica a Moncosa, a Mijona não"...
O Sarafim, de tesão no ponto, a perder a paciência comigo e com medo de que a braguilha se lhe desmobilizasse, insistia ainda mais na insistência, desculpa-me a insistência neste ponto. Eu, farto de o aturar, estava para dizer, aliás sem convicção, que queria a Moncosa, quando ele me empurrou para os braços da Mijona. Sim, empurrou, Glória. Eu sei que ele não está aqui para o confirmar, mas isto é pela luz que me alumia. Por falar nisso, já veio a factura da EDP? Não, não estou a mudar de assunto...
Ora bem, onde é que eu ia? Já sei: assim que entrei no quarto, e aquilo era um quarto de um quarto, uma espécie de último terço do terreno mas em quarto, fui barbaramente agredido por um fedor a mictório público que era um ser vivo e tentacular, de ficção científica, um cheirete tamanho que fiquei logo a perceber por que razão é que a menina se chamava Aninhas. O ambiente era de cortar à faca e embrulhar em papel costaneira para venda a retalho. Cada vez que a feminil criatura se abanava, o ar, coalhado, avançava em vagas compactas e sucessivas estatelando-me contra os tabiques do chiqueiro. Não te rias, Glória, que isto é a sério, ainda tenho aqui as marcas nas costelas. E, para piorar o impossível, a menina era a cara escarrada da minha avó que eu nunca conheci nem por fotografia, mas são as coisas que nos vêm à cabeça nestas alturas. Não sejas assim Glória, à cabeça da cabeça, é o que eu quero dizer...
Conheces-me como as palmas da minha mão, Glória. Sabes que em ocasiões assim, quando me sinto inapelavelmente entalado, o meu vocabulário, de costume tão cumprimenteiro, não desfazendo, acaba por descambar-me para a javardice, desculpa-me a expressão. E foi nesses termos que introspectei, apreensivo, "Ó que caralho, que não há caralho para ninguém. Não vou conseguir galvanizar-me".
Diz-me a Mijona: - Anda cá, filhinho, chega-te ao bom. Não tenhas medo, que eu não te como.
Digo-lhe eu, com o polegar e o indicador da minha mão direita esganando-me o nariz e a voz a sair-me na afinação perfeita da Luísa Sobral: - Faça a fineza de desculpar, excelentíssima senhora. Nem me custa acreditar que não padeça felizmente de tendências canibalescas, o que é agradával sobretudo para a minha pessoa, mas a verdade é que eu estou ligeiramente um bocadinho indisposto...
E ela: - Deixa lá isso. Eu ameigo-te aqui umas festinhas, filho... Hã?, hã?, que tal? Gostas? Então? Nada?
Nada!
Nada.
E eu: - Faça-me o obséquio de desculpar, ilustríssima senhora, mas entendo por melhor retirar-me...
E ela: - Como é que queres? Diz lá, não te acanhes, que eu já desvirgulei muito homem feito. Vamos embora, meneia-te, rapaz, ou vieste só para gozar as vistas? Olha que isto está a contar e ainda há muito freguês à porta. Não sejas o meu prejuízo, diz lá: queres vir-te nas minhas mamas?
E eu: - Muitíssimo obrigadíssimo pela especial deferência, minha riquíssima senhora, mas isto não é má vontade, eu seja ceguinho. Eu, por mim, bem gostava de vir-me de qualquer maneira, a geografia, nestas circunstâncias, acaba por ser irrelevante, mas, faça a fineza de desculpar, não me encontro nas melhores condições. Sempre a considerá-la...
Ao tempo que isto vai. Falso alarme e, para todos os efeitos, já prescreveu. Não olhes para mim com essa cara, Glória, as coisas são como são, não faças pouco. Pareces o Sarafim, o Sarafim também se riu. Mas à conclusão: saí do sítio de Coelho Neto envergonhadíssimo pela momentânea inoperância, de rastos, cheio de fome, sem fôlego que fosse para acrescentar um fingido "Fica para outro dia", e só então troquei o ar dos pulmões. Lado positivo do infausto evento: tinha acabado de bater um dos meus primeiros recordes - cinco minutos sem respirar por cima de água. Ó Glória, podíamos era ir à Conga comer uma bifaninha? Não? Tens a certeza? Pronto, também não é preciso arreliares-te. Mas marchava...
segunda-feira, 13 de julho de 2015
Follow me ou o fado do desgraçadinho 3
| Foto Hernâni Von Doellinger |
Casámos de branco, os dois, ou cuidavas que eu me ficava? Tu parecias uma princesa de conto de fadas e eu parecia o Américo Tomás a inaugurar um chafariz. Mas que belo par de jarras, diziam os convidados, serão da Vista Alegre? E os néscios dos teus progenitores inchados de orgulho, "Vista Alegre, estás a ver António, estou farta de te dizer, não há nada como o branco", rejubilava a tua mãe, e o teu pai, "Fresquinho, se for fresquinho não digo que não, Maria"...
Vinte anos, como tão redondamente disse o tal Patxi Andión. Dávamo-nos bem, Glória, parecíamos mesmo um casal: eu não me metia contigo e tu não te metias comigo. O cuidado que eu tinha com o estore, de manhã, para não te incomodar. Os vagares com que eu andava pela casa, em pezinhos de lã, porque dizias que a minha presença te fazia corrente de ar. Fui ou não fui ao workshop de reeducação para mijadores sem ponto de mira que tanto me recomendaste? Íamos ou não íamos aquele domingo de Agosto à Póvoa de Varzim fazer as nossas ricas férias? Tu sabes, devias saber que eu nunca te enganei, Glória, palavrísssima de honríssima, desculpa-me o superlativo absoluto sintéctico, mas é mesmo assim, com cê e tudo. Fui-te fiel como só um bacalhau seco e posteriormente demolhado pode ser. Dei-te vinte anos da minha vida e tu recambias-mos resumidos e empacotados em dezassete sacos de plástico que me obrigaste a pagar e colocaste na parte de fora da porta de casa. Dezassete? Não mereço vinte, para ser conta certa? Eu sei que as coisas já não estavam como antigamente, esfriaram, mas não será essa a evolução natural de vida de casados? O amor funciona a coração e não a gás, Glória, o amor não é chama eterna, vai arrefecendo como a comida, e deixa-me tomar nota desta, que é muito boa...
Vinte anos de uso e nem me levaste à troca. E isso é o que mais me magoa, Glória. Dizes que me mandas embora porque eu não presto e não porque encontraste melhor. Não faças assim, Glória, ao menos põe-me os cornos, ainda estás a tempo, faz-me esse favor, dá-me essa alegria, põe-me os cornos. Se não for por mim, que seja pelos nossos queridos filhos, coitadinhos, que vamos desgraçar para toda a vida com esta tão injusta quanto politraumatizante separação. O quê? Não temos filhos? Pois não, desculpa lá, Glória, às vezes entusiasmo-me um bocadinho...
(Repito hoje o apontamento que escrevi e publiquei no passado sábado. Repito para acrescentar a foto que ontem apanhei em Fafe e que eu acho que lhe fica muito bem.)
sábado, 11 de julho de 2015
Follow me ou o fado do desgraçadinho 3
Casámos de branco, os dois, ou cuidavas que eu me ficava? Tu parecias uma princesa de conto de fadas e eu parecia o Américo Tomás a inaugurar um chafariz. Mas que belo par de jarras, diziam os convidados, serão da Vista Alegre? E os néscios dos teus progenitores inchados de orgulho, "Vista Alegre, estás a ver António, estou farta de te dizer, não há nada como o branco", rejubilava a tua mãe, e o teu pai, "Fresquinho, se for fresquinho não digo que não, Maria"...
Vinte anos, como tão redondamente disse o tal Patxi Andión. Dávamo-nos bem, Glória, parecíamos mesmo um casal: eu não me metia contigo e tu não te metias comigo. O cuidado que eu tinha com o estore, de manhã, para não te incomodar. Os vagares com que eu andava pela casa, em pezinhos de lã, porque dizias que a minha presença te fazia corrente de ar. Fui ou não fui ao workshop de reeducação para mijadores sem ponto de mira que tanto me recomendaste? Íamos ou não íamos aquele domingo de Agosto à Póvoa de Varzim fazer as nossas ricas férias? Tu sabes, devias saber que eu nunca te enganei, Glória, palavrísssima de honríssima, desculpa-me o superlativo absoluto sintéctico, mas é mesmo assim, com cê e tudo. Fui-te fiel como só um bacalhau seco e posteriormente demolhado pode ser. Dei-te vinte anos da minha vida e tu recambias-mos resumidos e empacotados em dezassete sacos de plástico que me obrigaste a pagar e colocaste na parte de fora da porta de casa. Dezassete? Não mereço vinte, para ser conta certa? Eu sei que as coisas já não estavam como antigamente, esfriaram, mas não será essa a evolução natural de vida de casados? O amor funciona a coração e não a gás, Glória, o amor não é chama eterna, vai arrefecendo como a comida, e deixa-me tomar nota desta, que é muito boa...
Vinte anos de uso e nem me levaste à troca. E isso é o que mais me magoa, Glória. Dizes que me mandas embora porque eu não presto e não porque encontraste melhor. Não faças assim, Glória, ao menos põe-me os cornos, ainda estás a tempo, faz-me esse favor, dá-me essa alegria, põe-me os cornos. Se não for por mim, que seja pelos nossos queridos filhos, coitadinhos, que vamos desgraçar para toda a vida com esta tão injusta quanto politraumatizante separação. O quê? Não temos filhos? Pois não, desculpa lá, Glória, às vezes entusiasmo-me um bocadinho...
Vinte anos, como tão redondamente disse o tal Patxi Andión. Dávamo-nos bem, Glória, parecíamos mesmo um casal: eu não me metia contigo e tu não te metias comigo. O cuidado que eu tinha com o estore, de manhã, para não te incomodar. Os vagares com que eu andava pela casa, em pezinhos de lã, porque dizias que a minha presença te fazia corrente de ar. Fui ou não fui ao workshop de reeducação para mijadores sem ponto de mira que tanto me recomendaste? Íamos ou não íamos aquele domingo de Agosto à Póvoa de Varzim fazer as nossas ricas férias? Tu sabes, devias saber que eu nunca te enganei, Glória, palavrísssima de honríssima, desculpa-me o superlativo absoluto sintéctico, mas é mesmo assim, com cê e tudo. Fui-te fiel como só um bacalhau seco e posteriormente demolhado pode ser. Dei-te vinte anos da minha vida e tu recambias-mos resumidos e empacotados em dezassete sacos de plástico que me obrigaste a pagar e colocaste na parte de fora da porta de casa. Dezassete? Não mereço vinte, para ser conta certa? Eu sei que as coisas já não estavam como antigamente, esfriaram, mas não será essa a evolução natural de vida de casados? O amor funciona a coração e não a gás, Glória, o amor não é chama eterna, vai arrefecendo como a comida, e deixa-me tomar nota desta, que é muito boa...
Vinte anos de uso e nem me levaste à troca. E isso é o que mais me magoa, Glória. Dizes que me mandas embora porque eu não presto e não porque encontraste melhor. Não faças assim, Glória, ao menos põe-me os cornos, ainda estás a tempo, faz-me esse favor, dá-me essa alegria, põe-me os cornos. Se não for por mim, que seja pelos nossos queridos filhos, coitadinhos, que vamos desgraçar para toda a vida com esta tão injusta quanto politraumatizante separação. O quê? Não temos filhos? Pois não, desculpa lá, Glória, às vezes entusiasmo-me um bocadinho...
quinta-feira, 9 de julho de 2015
Follow me ou o fado do desgraçadinho 2
Tu eras uma jovem professora primária em princípio de carreira, eu vendia rifas, preservativos e canetas de tinta permanente. Estávamos tão bem um para o outro, que mais haveríamos de querer? Ainda por cima, eras a primeira que fazia de conta a esta minha peculiaridade, ao facto de eu dar um jeitinho nesta perna, a direita, que, por ironia do destino, me nasceu dez centímetros mais comprida do que a esquerda. As outras chamavam-me manquinho, as cagonas, gozavam-me, oh!, quem me dera que me gozassem, fosse de que maneira fosse, mas não, faziam era pouco de mim, chamavam-me deficiente motor, "Olha o Sobe-e-desce", diziam que eu lhes a arrastava a asa. E arrastava, que remédio. Por infelizmências assim é que, no que toca a mulheres, ando sempre de pé atrás...
Mas tua eras diferente, Glória.
Passei a ser visita dos Sousas, em Ermesinde, aos sábados à tarde, e a gramar o aeroporto, todos ao molho, aos domingos. Como quem não quer a coisa, tu sempre a mandar, metemos o namoro a cotio. Durante a semana, no final do vosso jantar, eu aparecia e namorávamos em família na sala de estar, eu, tu, o teu pai e a tua mãe, enquanto comíamos bolachinhas de sortido molhadas em vinho fino e discutíamos a telenovela brasileira. Com o andar do tempo, os teus velhotes atreveram-se a irem sozinhos ver pousar os aviões, o FC Porto lá aprendeu a desenrascar-se sem a minha presença, e nós ficávamos, eu, tu e mais ninguém, a tomar conta da casa, por assim dizer. Parafraseando o grande poeta norte-americano Bruce Springsteen, eram então os meus dias de Glória, como gostava de cocegar-te ao ouvido. Numa ânsia, num sufoco, com a cabeça à roda, voando, voando, "Ai professorinha, professorinha, ensina-me mais coisas", e tu de repente em contraciclo, a espernear aflita, "Tá queto, tira a mão, tira daí", não passávamos das primeiras letras. Querias casar de branco.
Mas tua eras diferente, Glória.
Passei a ser visita dos Sousas, em Ermesinde, aos sábados à tarde, e a gramar o aeroporto, todos ao molho, aos domingos. Como quem não quer a coisa, tu sempre a mandar, metemos o namoro a cotio. Durante a semana, no final do vosso jantar, eu aparecia e namorávamos em família na sala de estar, eu, tu, o teu pai e a tua mãe, enquanto comíamos bolachinhas de sortido molhadas em vinho fino e discutíamos a telenovela brasileira. Com o andar do tempo, os teus velhotes atreveram-se a irem sozinhos ver pousar os aviões, o FC Porto lá aprendeu a desenrascar-se sem a minha presença, e nós ficávamos, eu, tu e mais ninguém, a tomar conta da casa, por assim dizer. Parafraseando o grande poeta norte-americano Bruce Springsteen, eram então os meus dias de Glória, como gostava de cocegar-te ao ouvido. Numa ânsia, num sufoco, com a cabeça à roda, voando, voando, "Ai professorinha, professorinha, ensina-me mais coisas", e tu de repente em contraciclo, a espernear aflita, "Tá queto, tira a mão, tira daí", não passávamos das primeiras letras. Querias casar de branco.
sexta-feira, 3 de julho de 2015
Uma boa parábola deve ser à prova de água
| Foto Hernâni Von Doellinger |
- Se me dá licença, Luisinha, vou contar-lhe uma pequena história a propósito. Uma parábola, que também as conto bem. Era uma vez um velho pescador muito pobre, muito pobre, tão pobre que nem tinha moscas em casa. A sua amantíssima esposa era muito velhinha, muito velhinha, tão velhinha que sentia a falta das moscas. E não tinham filhos. Certo dia, quando andava na faina à faneca, o paupérrimo pescador foi surpreendido por uma violenta tempestade. Uma tempestade dantesca, se não fosse asneira dizê-lo. As ondas eram adamastores, o barco uma casca de noz (como se fosse possível...), uma esfera desgovernada numa máquina de flippers de gás a fundo. É hoje que me afogo, é hoje que me afogo, pensou o homem e calçou as galochas, sem fazer ideia do que é uma máquina de flippers. A aflição do velhíssimo pescador era do tamanho da borrasca: medonha. Graças a Deus, lembrou-se do Mártir São Sebastião e fez uma solene promessa: se Nossa Senhora do Leite e do Bom Parto lhe mandasse um filho, meteria imediatamente os sogros num asilo, livrando-os da fome de cão que passavam lá em casa, assim São Pedro o permitisse. Nessa noite de milagre, quando voltou são e salvo ao porto de abrigo do seu modesto porém honrado lar, a sua velhíssima e amantíssima esposa tinha-lhe guardado no borralho mortiço o fundo de uma malga com farinha-de-pau. O pescador despejou as galochas na pia de lavar a louça, para aproveitar, e ceou...
De braços teatralmente abertos, com a mão direita segurando a chávena do café e a esquerda agarrada ao pires, abanando compenetradamente a cabeça, em movimentos curtos, ritmados, de cima para baixo ou vice-versa a partir de uma certa altura, confirmando em absoluto a profundez da mensagem supra, Quitério fixava, inquiridor, num silêncio eloquente, uma estranha Luisinha que o olhava de boca aberta. Cansado de estar calado e de abanar a cabeça, Quitério perguntou finalmente:
- Percebeu?
- Olhe que não sei bem... - defendeu-se Luisinha, mais confusa era impossível.
- Pois aí tem, exactamente a esse ponto é que eu queria chegar - sentenciou Quitério, dando por encerrada a sessão.
quarta-feira, 1 de julho de 2015
Follow me ou o fado do desgraçadinho
| Foto Hernâni Von Doellinger |
Foi em Setembro que te conheci, òs anos, quando o aeroporto de Pedras Rubras ainda nem se chamava aeroporto Praça Velásquez. Não havia chopingues como agora, o FC Porto jogava na Madeira, com o Marétimo, e a gente, eu mais o Sarafim, íamos passar um domingo de categoria a ouvir o relato no tijolo do Sarafim e a esgravatar engate nas Departures e Arrivals ou no terraço das excursões de nariz para o ar a verem aterrar e levantar aviões. Tu também lá ias com os parolos dos teus pais, que por acaso até me resultaram boas pessoas, e trazias a tua inseparável amiga Benilde, em quem o Sarafim se pôs numa fervurinha e como quem não quer a coisa. Adiante. Foi lá que te vi pela primeira vez em toda a tua excelsa Glória - Glória da minha terra, Glória de Sousa, Glória efémera -, no bar do aeroporto, que era só um e parecia um tasco. Foi tiro e queda: entrei caçador e saí caçado, apanhadinho de todo. Se calhar foi amor aquilo. Lembro-me como se fosse hoje: eras linda, num vestido justinho de chita às ramagens verdes estampadas, com umas sandálias rasas, pois, talvez estivesses de calças de ganga e botas de cano alto, mas toda coradinha e tão fresquinha. Tinhas uns olhos, uns olhos cor de, de que cor são os teus olhos, Glória? Eu bebia uma Super Bock e tu olhaste para mim mas eu não tive a certeza. Confirmaste-mo oito dias depois, eu sozinho, o Sarafim nas Antas e ver o jogo contra o Beira Mar e com a mão enfiada na parreca da Benilde, e eu para ali, aos caídos, abandonado como um cãozito sarnento, à espreita de um sinal, de um sorriso, perdoa-me a poesia. Deste-me ambos os dois, e confirmaste-mo. Mas nada de avanços, parte a parte, o respeito é muito bonito e os parolos dos teus pais, sem ofensa, gostavam muito, atenta e vigilantemente. Levava eu já perdida quase toda a primeira volta do campeonato, confortado pelos relatos do tijolo do Sarafim, "alô, Nuno!", quando te dignaste, muito dissimulada, num aceno de cabeça, dar-me sinal de Follow me. Alvorocei-me para vos levar as gasosas à mesa, a ti, minha riqueza, e aos parolos dos teus pais, não desfazendo.
Perguntaste-me o meu nome e eu disse-te a verdade, mostrando-te o cartão de sócio do FC Porto: Joaquim Maria dos Passos Eleutério, isto é, Quitério. Admiraste-te: Joaquim Maria dos Passos Eleutério, isto é, Quitério, que nome tão esquisito? E eu expliquei: quer-se dizer, o meu pai era Eleutério, minha mãe era dos Passos, o padrinho Joaquim e a madrinha Maria. Resulta realmente um nome de merda, desculpa-me a expressão, e confesso que tentei esconder o enxovalho nominal assinando Joaquim Eleutério, tinha esse direito, mas nem assim me convenci. Que se segue, agarrei no Joaquim e no Eleutério, espremi-os a ver o que davam, experimentei todas as combinações possíveis e imaginárias, e optei pela criação, inventei-me: aproveitei as sobras, casei-as e rebaptizei-me Quitério, que sempre é um nome assim mais coisa e tal. Mas chama-me Quim e beija-me na boca. Não, não ligues, é uma brincadeiras cá das minhas. Quê? O Sarafim e a Benilde, nunca mais os vi. Sim, fiquei com o tijolo do Sarafim, e o que é que essa merda interessa para a nossa conversa?...
terça-feira, 1 de julho de 2014
É assim que eu gosto da minha rua
| Foto Hernâni Von Doellinger |
O dia apresentou-se-me com cara de boa pessoa. Acordei à pala do relógio de sala do vizinho, que me madruga pela casa dentro sem pedir licença, e fui à varanda com vista para o mar se me puser de lado. Pontual, pendurado no sítio do costume, o Sol brilhava que era uma categoria. Navegando num céu perfeito, desanuviado, gaivotas de torna-viagem exibiam credenciais, cagando de alto. Nas funduras da rua eternamente em obras, desviando-se em ziguezagues milagrosos a cada nova vaga do merdoso ataque aéreo, um barulhento gangue de cães vadios tentava organizar-se para a sessão de boas-vindas ao novo elemento. Como é do conhecimento geral, os cãos organizam-se sobretudo cheirando o cu uns aos outros e ganindo, tal qual como na política. O novo elemento era um velho cão-polícia reformado da Brigada de Combate ao Narcotráfico e acabado de sair do canil municipal após prolongada cura de desintoxicação segundo o Modelo Minnesota.
Em respeito pelo ritual iniciático, a canzoada alçava a perna uma vez atrás da outra em pneus de estimação marcados de véspera, aliviando-se com evidente prazer dos excessos de uma noitada de copos e cadelas. Percebe-se: agora que lhes gamaram as árvores, é para aquilo que os cães precisam dos pneus dos automóveis, para a ancestral cerimónia. Uma espécie de baptismo mas ao contrário.
Mesmo por baixo do meu nariz, um casal de gatos gordos e somíticos barafustava contra um bando de jovens pardais por causa do esqueleto de um carapau encravado entre os paralelipípedos levantados da rua recém-requalificada. Não era arqueologia, era fome. Mandei um berro cá de cima e prevaleceu o bom senso: gatos e pardais resolveram-se enfim pela partilha, ordens minhas, a metade da cabeça para os pardais, que têm melhores dentes.
É assim que eu gosto da minha rua, madrugadora, límpida, cheia sem gente, barcos no quintal. Todos nos entendemos a estas horas temporãs - eu, os pardais, os gatos, as gaivotas, os barcos, ainda que espanhóis, os cães, mesmo que ex-polícias. Olho-nos de fora de mim e vejo um comovente quadro de harmonia irracional. E o mar de Matosinhos fede como não há memória. Que mais se pode desejar como alento matinal?
Depois venho aqui ao computador, varejo as notícias e leio que Paulo Bento ainda fala como se fosse seleccionador nacional. Pronto, já me estragaram o dia.
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