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sexta-feira, 20 de agosto de 2021

O amor é como o jantar, arrefece

Casámos de branco, os dois, ou cuidavas que eu me ficava? Tu parecias uma princesa de conto de fadas e eu parecia o Américo Tomás a inaugurar um chafariz. Mas que belo par de jarras - diziam os convidados -, serão da Vista Alegre? E os néscios dos teus progenitores inchados de orgulho, "Vista Alegre, estás a ver António, estou farta de te dizer, não há nada como o branco", rejubilava a tua mãe, e o teu pai, "Fresquinho, se for fresquinho não digo que não, Maria"...
Vinte anos, como tão redondamente disse o tal Patxi Andión. Dávamo-nos bem, Glória, parecíamos mesmo um casal: eu não me metia contigo e tu não te metias comigo. O cuidado que eu tinha com o estore, de manhã, para não te incomodar. Os vagares com que eu andava pela casa, em pezinhos de lã, porque dizias que a minha presença te fazia corrente de ar. Fui ou não fui ao workshop de reeducação para mijadores sem ponto de mira que tanto me recomendaste? Íamos ou não íamos todos os anos aquele domingo de Agosto à Póvoa de Varzim fazer as nossas ricas férias? Tu sabes, devias saber que eu nunca te enganei, Glória, palavríssima de honríssima, desculpa-me o superlativo absoluto sintético em dose dupla, mas já estou por tudo. Fui-te fiel como só um bacalhau seco e posteriormente demolhado pode ser. Dei-te vinte anos da minha vida e tu recambias-mos resumidos e empacotados em dezassete sacos de plástico que me obrigaste a pagar e colocaste na parte de fora da porta de casa. Dezassete? Não mereço vinte, para ser conta certa? Eu sei que as coisas já não estavam como antigamente, esfriaram, mas não será essa a evolução natural de vida de casados? O amor funciona a coração e não a gás, Glória, o amor não é chama eterna, vai arrefecendo como o jantar, e deixa-me tomar nota desta, que é muito boa...
Vinte anos de uso e nem me levaste à troca. E isso é o que mais me magoa, Glória. Dizes que me mandas embora porque eu não presto e não porque encontraste melhor. Não faças assim, Glória, ao menos põe-me os cornos, ainda estás a tempo, faz-me esse favor, dá-me essa alegria, põe-me os cornos. Se não for por mim, que seja pelos nossos queridos filhos, coitadinhos, que vamos desgraçar para o resto da vida deles com esta tão unilateral quanto politraumatizante separação. O quê? Não temos filhos? Pois não, desculpa lá, Glória, às vezes entusiasmo-me um bocadinho. 

sábado, 31 de julho de 2021

Atento e vigilante

Quitério, que também não tem emprego, já estava farto de armazenar cotão nos bolsos e de jogar à sueca no Jardim do Marquês. Portanto resolveu começar a contar coelhos no Parque da Cidade. Uma actividade por certo ainda não remunerado, é preciso que se note, mas que o nosso homem tem uma enorme fezada de que virá a sê-lo a breve trecho, na sequência do projecto que conta apresentar antes do Natal ao Dr. Rui Moreira, presidente da Câmara do Porto, e que, no âmbito do Quadro Comunitário de Apoio Portugal 2020, vai enviar sem falta às primeiras horas do próximo dia 1 de Janeiro ao ministro da Economia, Pedro Siza Vieira, a ver se já apanha também o Quadro Comunitário de Apoio Portugal 2021 e o Quadro Comunitário de Apoio de Portugal 2022, que isto é preciso marcar lugar. Entretanto mandou o currículo para a National Geographic. Se nem sequer acusarem a recepção, é sinal de que a conceituada revista já passou para as mãos de patrões e editores portuguesa, o que é bom para o País, embora péssimo para os trabalhadores. 

Todas as manhãs, depois de espreitar a primeira página de O Jogo, Quitério arranca para o Parque da Cidade, bloco de notas, lápis e maçã em punho. A maçã é muito importante, porque às vezes dá-lhe fome.
Quitério olha e vê com olho clínico, hospitalar, regista, compara, assinala as diferenças e as similitudes, escreve sessenta vezes a palavra similitudes porque gosta muito dela, desenha gráficos e tabelas, depois deita tudo fora e remata com a inconfidência da notazinha pessoal. E sempre em horário completo. Por isso, ele é hoje em dia e sem favor a voz mais autorizada para dissertar sobre a problemática do coelho nacional, ao qual (fruto de uma lamentável confusão fonético-etimológia) atribuiu o nome científico de Cunnilingus Lusitannus, exactamente para o diferenciar do chamado coelho comum, que os especialistas denominam de Laparus Normallissimus. Os especialistas são ele.

Mas não se cuide que é tarefa fácil, ofício para paisanos: "Com os coelhos, como em tudo na vida, há dias e dias". A frase não é minha, saiu da sábia pena de Quitério, que às vezes fecha a loja sem ter visto um coelho que seja, ou uma coelha, vá lá, para na vez seguinte ter que se desunhar com os verbetes de mais de vinte avistamentos no breve espaço de um quarto de hora.
"A ciência tudo explica", costuma dizer Quitério, que costuma dizer o que lhe apetece, batendo com o lápis no bloco de apontamentos. "E está aqui tudo"...
Segundo Quitério, aos sábados de manhã ninguém põe a vista em cima do CL - passemos a chamar-lhe CL, afrontando embora o rigor da ciência, mas precatando compreensíveis susceptibilidades. O especialista defende que "esta é a prova provada de que o coelho nacional costuma passar a noite de sexta-feira nos copos e/ou no sexo". E sexo, com os coelhos, já se sabe como é.
Outro resultado do estudo, ainda segundo Quitério: "O coelho nacional almoça em casa. Entre o meio-dia e a hora e meia da tarde, não há nem um para amostra em campo aberto. O Lusitannus, como também é tratado entre amigos, está à mesa com a família, não tem graveto para mais. Ou então foi para a praia, que é de borla e ali ao pé".
Interessante curiosidade: com mau tempo, chuva principalmente, o coelhame vem todo cá para fora. "Conclusão a tirar: as casas metem água". Um reparo que Quitério já antecipou em pré-relatório enviado há coisa de três semanas aos serviços municipais de habitação.
Quitério tem tudo registado. Ele conhece-lhe os hábitos, as suas idiossincrasias (e escreve idiossincrasias mais cinquenta e nove vezes), ele até já traçou o perfil psicológico do CL, bicho assustadiço e campeão de atletismo. E no entanto não há dia em que o nosso cientista não se apanhe surpreendido por um novo ângulo, pelo nunca visto ou cogitado.
Ainda anteontem, por exemplo: estava Quitério analisando, de perto, o comportamento de um belo exemplar, preto e branco, malhadinho, quando...

(o melhor é ser o próprio Quitério a contar)

... "a minha atenção se desfocou por uns milésimos de segundo na pista de um par de mamas que passava por mim todo saltitão. Foi coisa de milésimos de segundos, palavra de honra! Quando torno à procura do láparo, já ele lá não está. Bateu asas e voou"...

(Ora bem: impõe-se aqui um novo entre parênteses, desde logo para pedir desculpa ao leitor acidental por esta contumaz fraqueza de Quitério pelos feminis seios, a que o autor do texto é obviamente alheio, mas também para dar nota da camada de cepticismo com que esta inesperada revelação foi acolhida na mesa de café onde ele costuma calistar. Foi um torcer de nariz geral e o mete-nojo do Silveira ainda torceu um tornozelo, só para dar nas vistas.)

E Quitério, ofendidíssimo: - Mas estão a pôr em dúvida a seriedade do meu trabalho? Eu lido com as hipóteses, eu verifico as evidências. Então como é que explicam o desaparecimento do coelho? O coelho evaporou-se, não? Ridículo! Toda a gente sabe que os coelhos não se evaporam. Bateu asas e voou, foi o que foi.
 
P.S. - Publicado originalmente no dia 1 de Julho de 2011. Hoje, 31 de Julho, é Dia Mundial do Vigilante da Natureza.

segunda-feira, 24 de maio de 2021

Bateu asas e voou. O coelho.

Quitério, que também não tem emprego, já estava farto de armazenar cotão nos bolsos e de jogar à sueca no Jardim do Marquês. Portanto resolveu começar a contar coelhos no Parque da Cidade. Uma actividade por certo ainda não remunerado, é preciso que se note, mas que o nosso homem tem uma enorme fezada de que virá a sê-lo a breve trecho, na sequência do projecto que conta apresentar antes do Natal ao Dr. Rui Moreira, presidente da Câmara do Porto, e que, no âmbito do Quadro Comunitário de Apoio Portugal 2020, vai enviar sem falta às primeiras horas do próximo dia 1 de Janeiro ao ministro da Economia, Pedro Siza Vieira, a ver se já apanha também o Quadro Comunitário de Apoio Portugal 2021, que isto é preciso marcar lugar. Entretanto mandou o currículo para a National Geographic. Se nem sequer acusarem a recepção, é sinal de que a conceituada revista já passou para as mãos de patrões e editores portuguesa, o que é bom para o País. 

Todas as manhãs, depois de espreitar a primeira página de O Jogo, Quitério arranca para o Parque da Cidade, bloco de notas, lápis e maçã em punho. A maçã é muito importante, porque às vezes dá-lhe fome.
Quitério olha e vê com olho clínico, hospitalar, regista, compara, assinala as diferenças e as similitudes, escreve sessenta vezes a palavra similitudes porque gosta muito dela, desenha gráficos e tabelas, depois deita tudo fora e remata com a inconfidência da notazinha pessoal. E sempre em horário completo. Por isso, ele é hoje em dia e sem favor a voz mais autorizada para dissertar sobre a problemática do coelho nacional, ao qual (fruto de uma lamentável confusão fonético-etimológia) atribuiu o nome científico de Cunnilingus Lusitannus, exactamente para o diferenciar do chamado coelho comum, que os especialistas denominam de Laparus Normallissimus. Os especialistas são ele.


Mas não se cuide que é tarefa fácil, ofício para paisanos: "Com os coelhos, como em tudo na vida, há dias e dias". A frase não é minha, saiu da sábia pena de Quitério, que às vezes fecha a loja sem ter visto um coelho que seja, ou uma coelha, vá lá, para na vez seguinte ter que se desunhar com os verbetes de mais de vinte avistamentos no breve espaço de um quarto de hora.
"A ciência tudo explica", costuma dizer Quitério, que costuma dizer o que lhe apetece, batendo com o lápis no bloco de apontamentos. "E está aqui tudo"...
Segundo Quitério, aos sábados de manhã ninguém põe a vista em cima do CL - passemos a chamar-lhe CL, afrontando embora o rigor da ciência, mas precatando compreensíveis susceptibilidades. O especialista defende que "esta é a prova provada de que o coelho nacional costuma passar a noite de sexta-feira nos copos e/ou no sexo". E sexo, com os coelhos, já se sabe como é.
Outro resultado do estudo, ainda segundo Quitério: "O coelho nacional almoça em casa. Entre o meio-dia e a hora e meia da tarde, não há nem um para amostra em campo aberto. O Lusitannus, como também é tratado entre amigos, está à mesa com a família, não tem graveto para mais. Ou então foi para a praia, que é de borla e ali ao pé".
Interessante curiosidade: com mau tempo, chuva principalmente, o coelhame vem todo cá para fora. "Conclusão a tirar: as casas metem água". Um reparo que Quitério já antecipou em pré-relatório enviado há coisa de três semanas aos serviços municipais de habitação.
Quitério tem tudo registado. Ele conhece-lhe os hábitos, as suas idiossincrasias (e escreve idiossincrasias mais cinquenta e nove vezes), ele até já traçou o perfil psicológico do CL, bicho assustadiço e campeão de atletismo. E no entanto não há dia em que o nosso cientista não se apanhe surpreendido por um novo ângulo, pelo nunca visto ou cogitado.
Ainda anteontem, por exemplo: estava Quitério analisando, de perto, o comportamento de um belo exemplar, preto e branco, malhadinho, quando...

(o melhor é ser o próprio Quitério a contar)

... "a minha atenção se desfocou por uns milésimos de segundo na pista de um par de mamas que passava por mim todo saltitão. Foi coisa de milésimos de segundos, palavra de honra! Quando torno à procura do láparo, já ele lá não está. Bateu asas e voou"...

(Ora bem: impõe-se aqui um novo entre parênteses, desde logo para pedir desculpa ao leitor acidental por esta contumaz fraqueza de Quitério pelos feminis seios, a que o autor do texto é obviamente alheio, mas também para dar nota da camada de cepticismo com que esta inesperada revelação foi acolhida na mesa de café onde ele costuma calistar. Foi um torcer de nariz geral e o mete-nojo do Silveira ainda torceu um tornozelo, só para dar nas vistas.)

E Quitério, ofendidíssimo: - Mas estão a pôr em dúvida a seriedade do meu trabalho? Eu lido com as hipóteses, eu verifico as evidências. Então como é que explicam o desaparecimento do coelho? O coelho evaporou-se, não? Ridículo! Toda a gente sabe que os coelhos não se evaporam. Bateu asas e voou, foi o que foi.
 
P.S. - Publicado originalmente no dia 1 de Julho de 2011. Hoje, 24 de Maio, é Dia Europeu dos Parques Naturais. O Parque da Cidade do Porto é naturalmente artificial, mas, assim de repente, é o que tenho mais à mão.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

Follow me ou o fado do desgraçadinho

Foi em Setembro que te conheci, òs anos, quando o aeroporto de Pedras Rubras ainda nem se chamava aeroporto Praça Velásquez. Não havia chopingues como agora, o FC Porto jogava na Madeira, com o Marétmo, e a gente, eu mais o Sarafim, íamos passar um domingo de categoria a ouvir o relato no tijolo do Sarafim e a esgravatar engate nas Departures e Arrivals ou no terraço das excursões de nariz para o ar a verem aterrar e levantar aviões, coisa linda. Tu também lá ias com os parolos dos teus pais, que por acaso até me resultaram boas pessoas, e trazias a tua inseparável amiga Benilde, em quem o Sarafim se pôs logo à primeira. Adiante. Foi lá que te vi pela primeira vez em toda a tua excelsa Glória - Glória da minha terra, Glória de Sousa, Glória efémera -, no bar do aeroporto, que era só um e parecia um tasco. Foi tiro e queda: entrei caçador e saí caçado, apanhadinho de todo. Se calhar foi amor aquilo. Lembro-me como se fosse hoje: eras linda, num vestido justinho de chita às ramagens verdes estampadas, com umas sandálias rasas, pois, talvez estivesses de calças de ganga e botas de cano alto, mas toda coradinha e tão fresquinha. Tinhas uns olhos, uns olhos cor de, de que cor são os teus olhos, Glória? Eu bebia uma Super Bock e tu olhaste para mim mas eu não tive a certeza. Confirmaste-mo oito dias depois, eu sozinho, o Sarafim nas Antas e ver o jogo contra o Beira Mar e com a mão enfiada no quentinho gelatinoso da parreca da Benilde, e eu para ali, aos caídos, abandonado como um cãozito sarnento, à espreita de um sinal, de um sorriso, perdoa-me a poesia. Deste-me ambos os dois, e confirmaste-mo. Passaram portanto a ser ambos os três. Mas nada de avanços ou arrojos de parte a parte, o respeito é muito bonito e os parolos dos teus pais, sem ofensa, gostavam muito, atenta e vigilantemente. Levava eu já perdida quase toda a primeira volta do campeonato, confortado pelos relatos do tijolo do Sarafim, "alô, Nuno!", quando te dignaste, muito dissimulada, num aceno de cabeça, dar-me sinal de Follow me. Alvorocei-me para vos levar as gasosas à mesa, a ti, minha riqueza, e aos parolos dos teus pais, não desfazendo.

Perguntaste-me o meu nome e eu disse-te a verdade, mostrando-te o cartão de sócio do FC Porto: Joaquim Maria dos Passos Eleutério, isto é, Quitério. Admiraste-te: Joaquim Maria dos Passos Eleutério, isto é, Quitério, que nome tão esquisito? E eu expliquei-te: quer-se dizer, o meu pai era Eleutério, minha mãe era dos Passos, o padrinho Joaquim e a madrinha Maria. Resulta realmente um nome desgraçado, desculpa-me a expressão, e confesso que tentei esconder o enxovalho nominal assinando Joaquim Eleutério, tinha esse direito, é de lei, mas nem assim me convenci. Que se segue, agarrei no Joaquim e no Eleutério, meti-os na bimbe, depois na centrifugadora, espremi-os a ver o que davam, passei-os a ferro, meti-os no computador, simulei todas as combinações possíveis e imaginárias, e optei pela criação, inventei-me: aproveitei as sobras, casei-as e rebaptizei-me Quitério, que sempre é um nome assim mais coisa e tal. Mas chama-me Quim e beija-me na boca. Não, não ligues, é uma brincadeiras cá das minhas. Quê? O Sarafim e a Benilde, nunca mais os vi. Sim, fiquei com o tijolo do Sarafim, e o que é que essa merda interessa para o nosso assunto?...

P.S. - O Aeroporto Francisco Sá Carneiro ou Aeroporto de Pedras Rubras ou Aeroporto do Porto foi inaugurado no dia 2 de Dezembro de 1945. Chamaram-lhe Aeroporto Internacional do Porto.

terça-feira, 15 de setembro de 2020

Dupla penetração

Quitério tinha 51 anos quando, pela primeira vez, foi clinicamente submetido ao famigerado toque rectal. Nesse mesmo dia soube também que ia perder o emprego. Somou um mais um e pensou: "Então é a isto que eles chamam dupla penetração"...

P.S. - Publicado originalmente no dia 9 de Julho de 2011. Hoje, 15 de Setembro, é Dia Europeu das Doenças da Próstata.

domingo, 24 de maio de 2020

O extraordinário poder de observação dos barmen

Armado em parvo, o que lhe sucedia regularmente todas as primeiras sextas-feiras de cada mês, cerca das quatro e meia da matina, Quitério entrou no Bar Àluzdasvelas pendurado nuns óculos de sol Ray Ban de lentes enormes e escuríssimas que lhe tapavam cerca de 75 por cento da cara. Tacteou um lugar ao balcão e assim ficou. O homem do bar atentou e disse: - Boa noite, senhor Quitério. Está diferente, hoje. O que é? Cortou o cabelo?...

P.S. - A 24 de Maio o Brasil celebra o Dia do Barista.

domingo, 23 de junho de 2019

Parábola das galochas e da máquina de flippers

Naquele tempo, Quitério chegou-se um pouco mais, encostou a perninha como quem não quer a coisa, e disse: 
"Se me dá licença, Luisinha, vou contar-lhe uma pequena história a propósito. Uma parábola, que também as sei. Era uma vez um velho pescador muito pobre, muito pobre, tão pobre que nem tinha moscas em casa. A sua amantíssima esposa era muito velhinha, muito velhinha, tão velhinha que sentia a falta das moscas. E não tinham filhos. Certo dia, quando andava na faina à faneca, o paupérrimo pescador foi surpreendido por uma violenta tempestade. Uma tempestade dir-se-ia talvez que dantesca, se não fosse asneira dizê-lo. As ondas eram adamastores, o barco uma casca de noz, uma esfera desgovernada numa máquina de flippers de gás a fundo. É hoje que me afogo, é hoje que me afogo, pensou o homem e calçou as galochas, sem fazer ideia do que é uma máquina de flippers. A aflição do velhíssimo pescador era do tamanho da borrasca: medonha. Graças a Deus, lembrou-se do Mártir São Sebastião e fez uma solene promessa: se Nossa Senhora do Leite e do Bom Parto lhe mandasse um filho, meteria imediatamente os sogros num asilo, livrando-os da fome de cão que passavam lá em casa, assim São Pedro o permitisse. Nessa noite de milagre, quando voltou são e salvo ao porto de abrigo do seu modesto porém honrado lar, a sua velhíssima e amantíssima esposa tinha-lhe guardado no borralho mortiço o fundo de uma malga com farinha-de-pau. O pescador despejou as galochas na pia de lavar a louça, para aproveitar, e ceou. Assim se passaram as coisas." 
De braços teatralmente abertos, com a mão direita segurando a chávena do café e a esquerda agarrada ao pires, abanando compenetradamente a cabeça, em movimentos curtos, ritmados, de cima para baixo ou vice-versa a partir de uma certa altura, confirmando em absoluto a profundez da mensagem supra, Quitério fixava, inquiridor, num silêncio eloquente, uma estranha Luisinha que o olhava de boca aberta. Cansado de estar calado e de abanar a cabeça, Quitério perguntou finalmente: - Percebeu? - Olhe que não sei bem... - defendeu-se Luisinha, mais confusa era impossível. - Pois aí tem, exactamente a esse ponto é que eu queria chegar - sentenciou Quitério, dando por encerrada a sessão.

segunda-feira, 17 de junho de 2019

O amor é como o jantar, arrefece

Casámos de branco, os dois, ou cuidavas que eu me ficava? Tu parecias uma princesa de conto de fadas e eu parecia o Américo Tomás a inaugurar um chafariz. Mas que belo par de jarras - diziam os convidados -, serão da Vista Alegre? E os néscios dos teus progenitores inchados de orgulho, "Vista Alegre, estás a ver António, estou farta de te dizer, não há nada como o branco", rejubilava a tua mãe, e o teu pai, "Fresquinho, se for fresquinho não digo que não, Maria"...
Vinte anos, como tão redondamente disse o tal Patxi Andión. Dávamo-nos bem, Glória, parecíamos mesmo um casal: eu não me metia contigo e tu não te metias comigo. O cuidado que eu tinha com o estore, de manhã, para não te incomodar. Os vagares com que eu andava pela casa, em pezinhos de lã, porque dizias que a minha presença te fazia corrente de ar. Fui ou não fui ao workshop de reeducação para mijadores sem ponto de mira que tanto me recomendaste? Íamos ou não íamos todos os anos aquele domingo de Agosto à Póvoa de Varzim fazer as nossas ricas férias? Tu sabes, devias saber que eu nunca te enganei, Glória, palavríssima de honríssima, desculpa-me o superlativo absoluto sintético em dose dupla, mas já estou por tudo. Fui-te fiel como só um bacalhau seco e posteriormente demolhado pode ser. Dei-te vinte anos da minha vida e tu recambias-mos resumidos e empacotados em dezassete sacos de plástico que me obrigaste a pagar e colocaste na parte de fora da porta de casa. Dezassete? Não mereço vinte, para ser conta certa? Eu sei que as coisas já não estavam como antigamente, esfriaram, mas não será essa a evolução natural de vida de casados? O amor funciona a coração e não a gás, Glória, o amor não é chama eterna, vai arrefecendo como o jantar, e deixa-me tomar nota desta, que é muito boa...
Vinte anos de uso e nem me levaste à troca. E isso é o que mais me magoa, Glória. Dizes que me mandas embora porque eu não presto e não porque encontraste melhor. Não faças assim, Glória, ao menos põe-me os cornos, ainda estás a tempo, faz-me esse favor, dá-me essa alegria, põe-me os cornos. Se não for por mim, que seja pelos nossos queridos filhos, coitadinhos, que vamos desgraçar para o resto da vida deles com esta tão unilateral quanto politraumatizante separação. O quê? Não temos filhos? Pois não, desculpa lá, Glória, às vezes entusiasmo-me um bocadinho.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

O velho pescador e a máquina de flippers

Naquele tempo, Quitério chegou-se um pouco mais, encostou a perninha como quem não quer a coisa, e disse:
- Se me dá licença, Luisinha, vou contar-lhe uma pequena história a propósito. Uma parábola, que também as sei. Era uma vez um velho pescador muito pobre, muito pobre, tão pobre que nem tinha moscas em casa. A sua amantíssima esposa era muito velhinha, muito velhinha, tão velhinha que sentia a falta das moscas. E não tinham filhos. Certo dia, quando andava na faina à faneca, o paupérrimo pescador foi surpreendido por uma violenta tempestade. Uma tempestade dir-se-ia talvez que dantesca, se não fosse asneira dizê-lo. As ondas eram adamastores, o barco uma casca de noz, uma esfera desgovernada numa máquina de flippers de gás a fundo. É hoje que me afogo, é hoje que me afogo, pensou o homem e calçou as galochas, sem fazer ideia do que é uma máquina de flippers. A aflição do velhíssimo pescador era do tamanho da borrasca: medonha. Graças a Deus, lembrou-se do Mártir São Sebastião e fez uma solene promessa: se Nossa Senhora do Leite e do Bom Parto lhe mandasse um filho, meteria imediatamente os sogros num asilo, livrando-os da fome de cão que passavam lá em casa, assim São Pedro o permitisse. Nessa noite de milagre, quando voltou são e salvo ao porto de abrigo do seu modesto porém honrado lar, a sua velhíssima e amantíssima esposa tinha-lhe guardado no borralho mortiço o fundo de uma malga com farinha-de-pau. O pescador despejou as galochas na pia de lavar a louça, para aproveitar, e ceou. Assim se passaram as coisas...
De braços teatralmente abertos, com a mão direita segurando a chávena do café e a esquerda agarrada ao pires, abanando compenetradamente a cabeça, em movimentos curtos, ritmados, de cima para baixo ou vice-versa a partir de uma certa altura, confirmando em absoluto a profundez da mensagem supra, Quitério fixava, inquiridor, num silêncio eloquente, uma estranha Luisinha que o olhava de boca aberta. Cansado de estar calado e de abanar a cabeça, Quitério perguntou finalmente: - Percebeu? - Olhe que não sei bem... - defendeu-se Luisinha, mais confusa era impossível. - Pois aí tem, exactamente a esse ponto é que eu queria chegar - sentenciou Quitério, dando por encerrada a sessão.

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Em defeso do futebol 9

Foto Hernâni Von Doellinger

Isto devia ser o ano inteiro, e desde os bancos da escola...
"Tempos difíceis estes os que vivemos", acabou por largar Quitério num longo suspiro, enfastiado com o raio da vida. Do outro lado do cimbalino mal tirado, Silveira, o chato, viu ali pé de conversa para dar e vender. E, sem contemplações, passou ao ataque:
- Exactamente, pá! Este permanente sentimento de insegurança, os ataques terroristas, as inspecções das Finanças, a greve dos médicos, o Trump, o Brexit, o Convento de Cristo reduzido a cinzas...
- Nada disso...
- Eu percebo-te, pá! Crise moral, queres tu dizer. Tens toda a razão, já não há valores, o que aí temos agora é uma juventude sem educação e sem respeito pelos mais velhos. No nosso tempo é que...
- Ó valha-me Deus...
- Sei aonde queres chegar, pá! Lá acima, estou a ver. É claro, já não há gente séria como antigamente. Saiu-nos na rifa esta cáfila de banqueiros arrivistas e gatunos e políticos onzeneiros e trafulhas. E qualquer dia o Papa aparece morto, é isso, não é?
- Não, pá! É o defeso, pá! O defeso! É este tempo todo sem futebolzinho a sério. O defeso é uma seca...

Banho de cultura, mas a seco
- E essa semaninha em Roma?
- Fantástica! Um tremendo banho de cultura! Um mergulho na História! Sabes que a cultura para mim...
- E o velho Coliseu?
- Absolutamente sem condições, carente de uma remodelação profunda. As bancadas, em ruína, e já estão a substituir o relvado...

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Quando se tem queda para a queda, tem-se

Quitério, fazendo jus ao extraordinário azar que lhe é apanágio, caiu e partiu o braço em dois sítios: mais precisamente em Mirandela, há coisa de dez anos, e no Sabugal, fará amanhã quinze dias.

quinta-feira, 28 de julho de 2016

Curtas & grossas (série Quitério)

É preciso ter azar (ou As grandes decisões devem ser tomadas em cuecas)
No dia em que Quitério decidiu finalmente atirar-se de cabeça na piscina vazia, a piscina estava cheia. Quitério ficou como um pito. E resolveu, dali para a frente: as grandes decisões, as decisões definitivas, devem ser tomadas em cuecas.

O extraordinário poder de observação dos barmen
Armado em parvo, o que lhe sucedia regularmente todas as primeiras sextas-feiras de cada mês, Quitério entrou no Bar Àluzdasvelas pendurado nuns óculos de sol Ray Ban de lentes enormes e escuríssimas que lhe tapavam cerca de 75 por cento da cara. Tacteou um lugar ao balcão e assim ficou. O homem do bar atentou e disse: - Boa noite, senhor Quitério. Está diferente, hoje. O que é? Cortou o cabelo?...

Ó da Guarda!...
Ó da Guarda, gritou Quitério. Faz favor de dizer, apresentou-se Manuel Miguel de Sousa Pelica, nascido e residente na ex-freguesia de Avelãs de Ambom, e por acaso de visita ao Porto derivado a uma consulta.

Em defesa do alargamento
"Tempos difíceis estes os que vivemos", acabou por largar Quitério num longo suspiro, enfastiado com o raio da vida. Do outro lado do cimbalino mal tirado, Silveira, o chato, viu ali pé de conversa para dar e vender. E, sem contemplações, passou ao ataque:
- Exactamente, pá! Esta crise que nos sufoca, a ditadura do Eurogrupo e do Ecofin, o desemprego que não abranda, a falta de perspectivas de futuro...
- Nada disso...
- Eu percebo-te, pá! Crise de valores, queres tu dizer. Tens toda a razão, já não há valores, o que aí temos agora é uma juventude sem educação e sem respeito pelos mais velhos. No nosso tempo é que...
- Ó valha-me Deus...
- Sei aonde queres chegar, pá! Lá acima, estou a ver. É claro, já não há gente séria como antigamente. Saiu-nos na rifa esta cáfila de banqueiros arrivistas e políticos onzeneiros e trafulhas. É isso, não é?
- Não, pá! É o defeso, pá! O defeso! É este tempo todo sem futebolzinho a sério! O defeso é uma seca...

O taxista-leninista
Bem lhe recomendavam que não misturasse trabalho com política, mas Quitério ignorava. E dizia, alto e bom som, a quem o quisesse ouvir, "Sou taxista-leninista, e com muito gosto"...

O poder do sabão
Quitério era muito cuidadoso com a ferramenta. Todos os dias, de manhã e à noite, lavava as intimidades com um bom naco de sabão azul. O sabão, se não me engano, é um poderoso desinfectante e antibacteriano. Um dia, faltando sabão azul em casa, Quitério lavou-se com sabão rosa. Nunca mais foi o mesmo homem...

domingo, 10 de abril de 2016

O extraordinário poder de observação dos barmen

Armado em parvo, o que lhe sucedia regularmente todas as primeiras sextas-feiras de cada mês, Quitério entrou no Bar Àluzdasvelas pendurado nuns óculos de sol Ray Ban de lentes enormes e escuríssimas que lhe tapavam cerca de 75 por cento da cara. Tacteou um lugar ao balcão e assim ficou. O homem do bar atentou e disse: - Boa noite, senhor Quitério. Está diferente, hoje. O que é? Cortou o cabelo?

sábado, 5 de março de 2016

Follow me ou o fado do desgraçadinho 4

Chamas-me adúltero, traidor, infiel, se calhar mouro, acusas-me de ir às putas nas tuas costas, e isso é uma calúnia muito grande, uma injustiça que eu não mereço, estou aqui que não me deixo mentir. Às meretrizes, querias tu dizer, Glória, às meretrizes, e foi apenas uma vez e não valeu. Eu conto-te, já que fazes questão:
Fui levado ao engano pelo Sarafim, que me telefonou para uma merenda na Baixa, disse-me que íamos comer uma coisinha boa num sítio da Rua de Coelho Neto, sabes como eu sou por petiscos. Fomos. Juro-te que entrei atrás dele e só comecei a desconfiar porque, lá dentro, em vez de me cheirar a bifanas, que era o que me apetecia, cheirava-me a outra coisa. E o balcão era um divã de molas ao léu. Mas a verdade é esta: já lá estávamos, não quis fazer feio nem deixar o Sarafim pendurado, tu é que me estavas sempre a dizer bem dele. Não, não estou a dizer que a culpa é tua, não destroças as minhas palavras.
Que se segue: sentei-me ao balcão, quero dizer, no divã, uma mola ainda tentou fazer-me uma colonoscopia a sangue frio, mas desviei-me a tempo, e dispus-me a ficar ali à espera, porque, já que não havia bifanas, eu não queria nada. Mas o Sarafim, o teu amigo Sarafim - tens razão, desculpa, não é para te ofender -, o Sarafim desata a insistir comigo para eu escolher entre a Aninhas Mijona e a Lela Moncosa, era o que havia na lista. Sim, dizes bem, ricos nomes, não haja dúvidas. Ainda por cima, ter de escolher, já sabes como eu sou, deste o exame de admissão ao Liceu que entrei em modo automático, deixo as minhas decisões nas mãos dos outros. Roí uma tarde inteira de angústia, introspectando o cruel dilema: "Ana, ina, não, bate china, bate cão, fica a Mijona, a Moncosa não. Não vale, não vale, que me enganei outra vez. Ana, ina, não, bate china, bate cão, fica a Moncosa, a Mijona não"...
O Sarafim, de tesão no ponto, a perder a paciência comigo e com medo de que a braguilha se lhe desmobilizasse, insistia ainda mais na insistência, desculpa-me a insistência neste ponto. Eu, farto de o aturar, estava para dizer, aliás sem convicção, que queria a Moncosa, quando ele me empurrou para os braços da Mijona. Sim, empurrou, Glória. Eu sei que ele não está aqui para o confirmar, mas isto é pela luz que me alumia. Por falar nisso, já veio a factura da EDP? Não, não estou a mudar de assunto...
Ora bem, onde é que eu ia? Já sei: assim que entrei no quarto, e aquilo era um quarto de um quarto, uma espécie de último terço do terreno mas em quarto, fui barbaramente agredido por um fedor a mictório público que era um ser vivo e tentacular, de ficção científica, um cheirete tamanho que fiquei logo a perceber por que razão é que a menina se chamava Aninhas. O ambiente era de cortar à faca e embrulhar em papel costaneira para venda a retalho. Cada vez que a feminil criatura se abanava, o ar, coalhado, avançava em vagas compactas e sucessivas estatelando-me contra os tabiques do chiqueiro. Não te rias, Glória, que isto é a sério, ainda tenho aqui as marcas nas costelas. E, para piorar o impossível, a menina era a cara escarrada da minha avó que eu nunca conheci nem por fotografia, mas são as coisas que nos vêm à cabeça nestas alturas. Não sejas assim Glória, à cabeça da cabeça, é o que eu quero dizer...
Conheces-me como as palmas da minha mão, Glória. Sabes que em ocasiões assim, quando me sinto inapelavelmente entalado, o meu vocabulário, de costume tão cumprimenteiro, não desfazendo, acaba por descambar-me para a javardice, desculpa-me a expressão. E foi nesses termos que introspectei, apreensivo, "Ó que caralho, que não há caralho para ninguém. Não vou conseguir galvanizar-me".

Diz-me a Mijona: - Anda cá, filhinho, chega-te ao bom. Não tenhas medo, que eu não te como.
Digo-lhe eu, com o polegar e o indicador da minha mão direita esganando-me o nariz e a voz a sair-me na afinação perfeita da Luísa Sobral: - Faça a fineza de desculpar, excelentíssima senhora. Nem me custa acreditar que não padeça felizmente de tendências canibalescas, o que é agradával sobretudo para a minha pessoa, mas a verdade é que eu estou ligeiramente um bocadinho indisposto...
E ela: - Deixa lá isso. Eu ameigo-te aqui umas festinhas, filho... Hã?, hã?, que tal? Gostas? Então? Nada?

Nada!
Nada.

E eu: - Faça-me o obséquio de desculpar, ilustríssima senhora, mas entendo por melhor retirar-me...
E ela: - Como é que queres? Diz lá, não te acanhes, que eu já desvirgulei muito homem feito. Vamos embora, meneia-te, rapaz, ou vieste só para gozar as vistas? Olha que isto está a contar e ainda há muito freguês à porta. Não sejas o meu prejuízo, diz lá: queres vir-te nas minhas mamas?
E eu: - Muitíssimo obrigadíssimo pela especial deferência, minha riquíssima senhora, mas isto não é má vontade, eu seja ceguinho. Eu, por mim, bem gostava de vir-me de qualquer maneira, a geografia, nestas circunstâncias, acaba por ser irrelevante, mas, faça a fineza de desculpar, não me encontro nas melhores condições. Sempre a considerá-la...

Ao tempo que isto vai. Falso alarme e, para todos os efeitos, já prescreveu. Não olhes para mim com essa cara, Glória, as coisas são como são, não faças pouco. Pareces o Sarafim, o Sarafim também se riu. Mas à conclusão: saí do sítio de Coelho Neto envergonhadíssimo pela momentânea inoperância, de rastos, cheio de fome, sem fôlego que fosse para acrescentar um fingido "Fica para outro dia", e só então troquei o ar dos pulmões. Lado positivo do infausto evento: tinha acabado de bater um dos meus primeiros recordes - cinco minutos sem respirar por cima de água. Ó Glória, podíamos era ir à Conga comer uma bifaninha? Não? Tens a certeza? Pronto, também não é preciso arreliares-te. Mas marchava...

sábado, 19 de setembro de 2015

O poder do sabão

Quitério era muito cuidadoso com a ferramenta. Todos os dias, de manhã e à noite, lavava as intimidades com um bom naco de sabão azul. O sabão, se não me engano, é um poderoso desinfectante e antibacteriano. Um dia, faltando sabão azul em casa, Quitério lavou-se com sabão rosa. Nunca mais foi o mesmo homem.

segunda-feira, 13 de julho de 2015

Follow me ou o fado do desgraçadinho 3

Foto Hernâni Von Doellinger

Casámos de branco, os dois, ou cuidavas que eu me ficava? Tu parecias uma princesa de conto de fadas e eu parecia o Américo Tomás a inaugurar um chafariz. Mas que belo par de jarras, diziam os convidados, serão da Vista Alegre? E os néscios dos teus progenitores inchados de orgulho, "Vista Alegre, estás a ver António, estou farta de te dizer, não há nada como o branco", rejubilava a tua mãe, e o teu pai, "Fresquinho, se for fresquinho não digo que não, Maria"...

Vinte anos, como tão redondamente disse o tal Patxi Andión. Dávamo-nos bem, Glória, parecíamos mesmo um casal: eu não me metia contigo e tu não te metias comigo. O cuidado que eu tinha com o estore, de manhã, para não te incomodar. Os vagares com que eu andava pela casa, em pezinhos de lã, porque dizias que a minha presença te fazia corrente de ar. Fui ou não fui ao workshop de reeducação para mijadores sem ponto de mira que tanto me recomendaste? Íamos ou não íamos aquele domingo de Agosto à Póvoa de Varzim fazer as nossas ricas férias? Tu sabes, devias saber que eu nunca te enganei, Glória, palavrísssima de honríssima, desculpa-me o superlativo absoluto sintéctico, mas é mesmo assim, com cê e tudo. Fui-te fiel como só um bacalhau seco e posteriormente demolhado pode ser. Dei-te vinte anos da minha vida e tu recambias-mos resumidos e empacotados em dezassete sacos de plástico que me obrigaste a pagar e colocaste na parte de fora da porta de casa. Dezassete? Não mereço vinte, para ser conta certa? Eu sei que as coisas já não estavam como antigamente, esfriaram, mas não será essa a evolução natural de vida de casados? O amor funciona a coração e não a gás, Glória, o amor não é chama eterna, vai arrefecendo como a comida, e deixa-me tomar nota desta, que é muito boa...
Vinte anos de uso e nem me levaste à troca. E isso é o que mais me magoa, Glória. Dizes que me mandas embora porque eu não presto e não porque encontraste melhor. Não faças assim, Glória, ao menos põe-me os cornos, ainda estás a tempo, faz-me esse favor, dá-me essa alegria, põe-me os cornos. Se não for por mim, que seja pelos nossos queridos filhos, coitadinhos, que vamos desgraçar para toda a vida com esta tão injusta quanto politraumatizante separação. O quê? Não temos filhos? Pois não, desculpa lá, Glória, às vezes entusiasmo-me um bocadinho...

(Repito hoje o apontamento que escrevi e publiquei no passado sábado. Repito para acrescentar a foto que ontem apanhei em Fafe e que eu acho que lhe fica muito bem.)

sábado, 11 de julho de 2015

Follow me ou o fado do desgraçadinho 3

Casámos de branco, os dois, ou cuidavas que eu me ficava? Tu parecias uma princesa de conto de fadas e eu parecia o Américo Tomás a inaugurar um chafariz. Mas que belo par de jarras, diziam os convidados, serão da Vista Alegre? E os néscios dos teus progenitores inchados de orgulho, "Vista Alegre, estás a ver António, estou farta de te dizer, não há nada como o branco", rejubilava a tua mãe, e o teu pai, "Fresquinho, se for fresquinho não digo que não, Maria"...

Vinte anos, como tão redondamente disse o tal Patxi Andión. Dávamo-nos bem, Glória, parecíamos mesmo um casal: eu não me metia contigo e tu não te metias comigo. O cuidado que eu tinha com o estore, de manhã, para não te incomodar. Os vagares com que eu andava pela casa, em pezinhos de lã, porque dizias que a minha presença te fazia corrente de ar. Fui ou não fui ao workshop de reeducação para mijadores sem ponto de mira que tanto me recomendaste? Íamos ou não íamos aquele domingo de Agosto à Póvoa de Varzim fazer as nossas ricas férias? Tu sabes, devias saber que eu nunca te enganei, Glória, palavrísssima de honríssima, desculpa-me o superlativo absoluto sintéctico, mas é mesmo assim, com cê e tudo. Fui-te fiel como só um bacalhau seco e posteriormente demolhado pode ser. Dei-te vinte anos da minha vida e tu recambias-mos resumidos e empacotados em dezassete sacos de plástico que me obrigaste a pagar e colocaste na parte de fora da porta de casa. Dezassete? Não mereço vinte, para ser conta certa? Eu sei que as coisas já não estavam como antigamente, esfriaram, mas não será essa a evolução natural de vida de casados? O amor funciona a coração e não a gás, Glória, o amor não é chama eterna, vai arrefecendo como a comida, e deixa-me tomar nota desta, que é muito boa...
Vinte anos de uso e nem me levaste à troca. E isso é o que mais me magoa, Glória. Dizes que me mandas embora porque eu não presto e não porque encontraste melhor. Não faças assim, Glória, ao menos põe-me os cornos, ainda estás a tempo, faz-me esse favor, dá-me essa alegria, põe-me os cornos. Se não for por mim, que seja pelos nossos queridos filhos, coitadinhos, que vamos desgraçar para toda a vida com esta tão injusta quanto politraumatizante separação. O quê? Não temos filhos? Pois não, desculpa lá, Glória, às vezes entusiasmo-me um bocadinho...

quinta-feira, 9 de julho de 2015

Follow me ou o fado do desgraçadinho 2

Tu eras uma jovem professora primária em princípio de carreira, eu vendia rifas, preservativos e canetas de tinta permanente. Estávamos tão bem um para o outro, que mais haveríamos de querer? Ainda por cima, eras a primeira que fazia de conta a esta minha peculiaridade, ao facto de eu dar um jeitinho nesta perna, a direita, que, por ironia do destino, me nasceu dez centímetros mais comprida do que a esquerda. As outras chamavam-me manquinho, as cagonas, gozavam-me, oh!, quem me dera que me gozassem, fosse de que maneira fosse, mas não, faziam era pouco de mim, chamavam-me deficiente motor, "Olha o Sobe-e-desce", diziam que eu lhes a arrastava a asa. E arrastava, que remédio. Por infelizmências assim é que, no que toca a mulheres, ando sempre de pé atrás...
Mas tua eras diferente, Glória.
Passei a ser visita dos Sousas, em Ermesinde, aos sábados à tarde, e a gramar o aeroporto, todos ao molho, aos domingos. Como quem não quer a coisa, tu sempre a mandar, metemos o namoro a cotio. Durante a semana, no final do vosso jantar, eu aparecia e namorávamos em família na sala de estar, eu, tu, o teu pai e a tua mãe, enquanto comíamos bolachinhas de sortido molhadas em vinho fino e discutíamos a telenovela brasileira. Com o andar do tempo, os teus velhotes atreveram-se a irem sozinhos ver pousar os aviões, o FC Porto lá aprendeu a desenrascar-se sem a minha presença, e nós ficávamos, eu, tu e mais ninguém, a tomar conta da casa, por assim dizer. Parafraseando o grande poeta norte-americano Bruce Springsteen, eram então os meus dias de Glória, como gostava de cocegar-te ao ouvido. Numa ânsia, num sufoco, com a cabeça à roda, voando, voando, "Ai professorinha, professorinha, ensina-me mais coisas", e tu de repente em contraciclo, a espernear aflita, "Tá queto, tira a mão, tira daí", não passávamos das primeiras letras. Querias casar de branco.

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Uma boa parábola deve ser à prova de água

Foto Hernâni Von Doellinger

- Se me dá licença, Luisinha, vou contar-lhe uma pequena história a propósito. Uma parábola, que também as conto bem. Era uma vez um velho pescador muito pobre, muito pobre, tão pobre que nem tinha moscas em casa. A sua amantíssima esposa era muito velhinha, muito velhinha, tão velhinha que sentia a falta das moscas. E não tinham filhos. Certo dia, quando andava na faina à faneca, o paupérrimo pescador foi surpreendido por uma violenta tempestade. Uma tempestade dantesca, se não fosse asneira dizê-lo. As ondas eram adamastores, o barco uma casca de noz (como se fosse possível...), uma esfera desgovernada numa máquina de flippers de gás a fundo. É hoje que me afogo, é hoje que me afogo, pensou o homem e calçou as galochas, sem fazer ideia do que é uma máquina de flippers. A aflição do velhíssimo pescador era do tamanho da borrasca: medonha. Graças a Deus, lembrou-se do Mártir São Sebastião e fez uma solene promessa: se Nossa Senhora do Leite e do Bom Parto lhe mandasse um filho, meteria imediatamente os sogros num asilo, livrando-os da fome de cão que passavam lá em casa, assim São Pedro o permitisse. Nessa noite de milagre, quando voltou são e salvo ao porto de abrigo do seu modesto porém honrado lar, a sua velhíssima e amantíssima esposa tinha-lhe guardado no borralho mortiço o fundo de uma malga com farinha-de-pau. O pescador despejou as galochas na pia de lavar a louça, para aproveitar, e ceou...
De braços teatralmente abertos, com a mão direita segurando a chávena do café e a esquerda agarrada ao pires, abanando compenetradamente a cabeça, em movimentos curtos, ritmados, de cima para baixo ou vice-versa a partir de uma certa altura, confirmando em absoluto a profundez da mensagem supra, Quitério fixava, inquiridor, num silêncio eloquente, uma estranha Luisinha que o olhava de boca aberta. Cansado de estar calado e de abanar a cabeça, Quitério perguntou finalmente:
- Percebeu?
- Olhe que não sei bem... - defendeu-se Luisinha, mais confusa era impossível.
- Pois aí tem, exactamente a esse ponto é que eu queria chegar - sentenciou Quitério, dando por encerrada a sessão.

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Follow me ou o fado do desgraçadinho

                                                                                   Foto Hernâni Von Doellinger

Foi em Setembro que te conheci, òs anos, quando o aeroporto de Pedras Rubras ainda nem se chamava aeroporto Praça Velásquez. Não havia chopingues como agora, o FC Porto jogava na Madeira, com o Marétimo, e a gente, eu mais o Sarafim, íamos passar um domingo de categoria a ouvir o relato no tijolo do Sarafim e a esgravatar engate nas Departures e Arrivals ou no terraço das excursões de nariz para o ar a verem aterrar e levantar aviões. Tu também lá ias com os parolos dos teus pais, que por acaso até me resultaram boas pessoas, e trazias a tua inseparável amiga Benilde, em quem o Sarafim se pôs numa fervurinha e como quem não quer a coisa. Adiante. Foi lá que te vi pela primeira vez em toda a tua excelsa Glória - Glória da minha terra, Glória de Sousa, Glória efémera -, no bar do aeroporto, que era só um e parecia um tasco. Foi tiro e queda: entrei caçador e saí caçado, apanhadinho de todo. Se calhar foi amor aquilo. Lembro-me como se fosse hoje: eras linda, num vestido justinho de chita às ramagens verdes estampadas, com umas sandálias rasas, pois, talvez estivesses de calças de ganga e botas de cano alto, mas toda coradinha e tão fresquinha. Tinhas uns olhos, uns olhos cor de, de que cor são os teus olhos, Glória? Eu bebia uma Super Bock e tu olhaste para mim mas eu não tive a certeza. Confirmaste-mo oito dias depois, eu sozinho, o Sarafim nas Antas e ver o jogo contra o Beira Mar e com a mão enfiada na parreca da Benilde, e eu para ali, aos caídos, abandonado como um cãozito sarnento, à espreita de um sinal, de um sorriso, perdoa-me a poesia. Deste-me ambos os dois, e confirmaste-mo. Mas nada de avanços, parte a parte, o respeito é muito bonito e os parolos dos teus pais, sem ofensa, gostavam muito, atenta e vigilantemente. Levava eu já perdida quase toda a primeira volta do campeonato, confortado pelos relatos do tijolo do Sarafim, "alô, Nuno!", quando te dignaste, muito dissimulada, num aceno de cabeça, dar-me sinal de Follow me. Alvorocei-me para vos levar as gasosas à mesa, a ti, minha riqueza, e aos parolos dos teus pais, não desfazendo.
Perguntaste-me o meu nome e eu disse-te a verdade, mostrando-te o cartão de sócio do FC Porto: Joaquim Maria dos Passos Eleutério, isto é, Quitério. Admiraste-te: Joaquim Maria dos Passos Eleutério, isto é, Quitério, que nome tão esquisito? E eu expliquei: quer-se dizer, o meu pai era Eleutério, minha mãe era dos Passos, o padrinho Joaquim e a madrinha Maria. Resulta realmente um nome de merda, desculpa-me a expressão, e confesso que tentei esconder o enxovalho nominal assinando Joaquim Eleutério, tinha esse direito, mas nem assim me convenci. Que se segue, agarrei no Joaquim e no Eleutério, espremi-os a ver o que davam, experimentei todas as combinações possíveis e imaginárias, e optei pela criação, inventei-me: aproveitei as sobras, casei-as e rebaptizei-me Quitério, que sempre é um nome assim mais coisa e tal. Mas chama-me Quim e beija-me na boca. Não, não ligues, é uma brincadeiras cá das minhas. Quê? O Sarafim e a Benilde, nunca mais os vi. Sim, fiquei com o tijolo do Sarafim, e o que é que essa merda interessa para a nossa conversa?...