Balada da neve
Batem leve, levemente
como quem chama por mim.
Será chuva? Será gente?
Gente não é certamente
e a chuva não bate assim.
É talvez a ventania:
mas há pouco, há poucochinho
nem uma agulha bulia
na quieta melancolia
dos pinheiros do caminho...
Quem bate assim levemente,
com tão estranha leveza,
que mal se ouve, mal se sente?
Não é chuva, nem é gente,
nem é vento com certeza.
Fui ver. A neve caía
do azul cinzento do céu,
branca e leve, branca e fria...
- Há quanto tempo a não via!
E que saudades, Deus meu!
Olho-a através da vidraça.
Pôs tudo da cor do linho.
Passa gente e, quando passa,
os passos imprime e traça
na brancura do caminho...
Fico olhando esses sinais
da pobre gente que avança,
e noto, por entre os mais,
os traços miniaturais
duns pezitos de criança...
E descalcinhos, doridos...
a neve deixa inda vê-los,
primeiro, bem definidos,
depois, em sulcos compridos,
porque não podia erguê-los!...
Que quem já é pecador
sofra tormentos, enfim!
Mas as crianças, Senhor,
porque lhes dais tanta dor?!...
Porque padecem assim?!...
E uma infinita tristeza,
uma funda turbação
entra em mim, fica em mim presa.
Cai neve na Natureza
- e cai no meu coração.
"Luar de Janeiro", Augusto Gil
(Augusto Gil nasceu no dia 31 de Julho de 1873. Morreu em 1929.)
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segunda-feira, 31 de julho de 2017
domingo, 31 de julho de 2016
Augusto Gil
Grão de incenso
Entraste com ar cansado
Numa igreja fria e triste.
Ajoelhei-me ao teu lado
- E nem ao menos me viste...
Ficaste a rezar ali,
Naquela imensa tristeza.
Rezei também, mas a ti
- Que aos anjos também se reza...
Ficaste a rezar até
Manhã dentro, manhã alta.
Como é que tens tanta fé
E a caridade te falta?...
"Luar de Janeiro", Augusto Gil
(Augusto Gil nasceu no dia 31 de Julho de 1873. Morreu em 1929.)
Entraste com ar cansado
Numa igreja fria e triste.
Ajoelhei-me ao teu lado
- E nem ao menos me viste...
Ficaste a rezar ali,
Naquela imensa tristeza.
Rezei também, mas a ti
- Que aos anjos também se reza...
Ficaste a rezar até
Manhã dentro, manhã alta.
Como é que tens tanta fé
E a caridade te falta?...
"Luar de Janeiro", Augusto Gil
(Augusto Gil nasceu no dia 31 de Julho de 1873. Morreu em 1929.)
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