O dono da bodega esperou que cada um caísse para o lado que acuasse melhor e destacou dois negros para a missão de fazer com que tivessem o destino das noitadas anteriores. Ele sabia: Gründling, no outro dia, pagava sempre a bebidas, as garrafas e os copos quebrados.
Na brumosa manhã do dia seguinte, domingo, o seleiro Schneider e os outros trataram de voltar aos casebres da extinta Real Feitoria do Linho Cânhamo, no Faxinal da Courita, onde há mais de três meses aguardavam que o governo cumprisse como o que lhes fora prometido na Alemanha.
"A Ferro e Fogo I - Tempo de Solidão", Josué Guimarães
(Josué Guimarães nasceu no dia 7 de Janeiro de 1921. Morreu em 1986.)
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segunda-feira, 7 de janeiro de 2019
domingo, 7 de janeiro de 2018
Josué Guimarães 5
Pensou, naquele momento, na figura alta e agitada de Gründling, a cara de fisionomia indefinida, os seus olhos sem nenhum calor humano. Soqueou em pensamento a figura imaginária, cortou-lhe o rosto com as unhas, como faria um gato ou um tigre, arrancou-lhe os olhos, viu as suas órbitas vazias. Um ódio que nunca sentiria em toda a sua vida e que jamais imaginara pudesse ter.
"Tempo de Solidão", Josué Guimarães
(Josué Guimarães nasceu no dia 7 de Janeiro de 1921. Morreu em 1986.)
"Tempo de Solidão", Josué Guimarães
(Josué Guimarães nasceu no dia 7 de Janeiro de 1921. Morreu em 1986.)
sábado, 7 de janeiro de 2017
Josué Guimarães 4
Àquela hora o salão já começava a receber a freguesia de sempre, Dolores tomando conta do negócio, os últimos soldados chegados da guerra tomando conta das mesas e das mulheres, iniciando pela décima vez a borracheira em comemoração pela paz. Lá estava Jacob batucando seu piano, a fumaça compacta dos palheiros, os palavrões e as danças com retinir de esporas.
"A Ferro e Fogo I, Tempo de Solidão", Josué Guimarães
(Josué Guimarães nasceu no dia 7 de Janeiro de 1921. Morreu em 1986.)
(Josué Guimarães nasceu no dia 7 de Janeiro de 1921. Morreu em 1986.)
quinta-feira, 7 de janeiro de 2016
Josué Guimarães 3
A velha suspirou:
- Se o Adroaldo fosse vivo, hoje estaria fazendo sessenta e oito anos.
O marido corrigiu sem pressa:
- Sessenta e sete, minha velha. Ele nasceu em 1911, numa quarta-feira. Era um feriado qualquer, eu não consigo me lembrar bem que feriado, mas era dia de ninguém trabalhar.
Dirigiu-se à cômoda onde estava o retrato do filho, em sépia, descolorido, arranhado. Era um jovem revolucionário de 30, entre dois companheiros, tendo ao fundo as grandes rodas inteiriças de uma locomotiva maria-fumaça. Os três riam descontraídos. Ao pé deles um cão branco com manchas escuras dormia, enrodilhado. O velho passou os dedos engelhados pela foto.
- O nosso Adroaldo - foi só o que pôde dizer.
- Te lembras de como a gente recebeu a notícia da morte do menino, na Revolução de 30, quando o batalhão dele andava pelos lados de Itararé? - ela fez uma pausa. - Itararé fica para os lados de São Paulo, não é?
- Fica - confirmou o velho depois de retornar à cadeira de balanço forrada com um velho pelego descolorido pelo tempo.
Perguntou se ainda tinham o suficiente para o mate de todos os dias; não custava nada fazer uma espera na estrada, em geral deserta, na tentativa de encontrar um viajante qualquer e pedir que arranjasse um pouco de erva ou que a mandasse por um outro que viesse de torna-viagem. Só um pouco de erva. A velhinha foi até o armário de portas envidraçadas, torceu a chave e tirou lá de dentro uma grande lata quadrada. Depois de calcular a quantidade pelo peso, recolocou-a no lugar e fechou novamente a porta.
- Tem menos de um quilo.
- Economizando bem a gente ainda tem erva para duas semanas.
- Se o Adroaldo fosse vivo, hoje estaria fazendo sessenta e oito anos.
O marido corrigiu sem pressa:
- Sessenta e sete, minha velha. Ele nasceu em 1911, numa quarta-feira. Era um feriado qualquer, eu não consigo me lembrar bem que feriado, mas era dia de ninguém trabalhar.
Dirigiu-se à cômoda onde estava o retrato do filho, em sépia, descolorido, arranhado. Era um jovem revolucionário de 30, entre dois companheiros, tendo ao fundo as grandes rodas inteiriças de uma locomotiva maria-fumaça. Os três riam descontraídos. Ao pé deles um cão branco com manchas escuras dormia, enrodilhado. O velho passou os dedos engelhados pela foto.
- O nosso Adroaldo - foi só o que pôde dizer.
- Te lembras de como a gente recebeu a notícia da morte do menino, na Revolução de 30, quando o batalhão dele andava pelos lados de Itararé? - ela fez uma pausa. - Itararé fica para os lados de São Paulo, não é?
- Fica - confirmou o velho depois de retornar à cadeira de balanço forrada com um velho pelego descolorido pelo tempo.
Perguntou se ainda tinham o suficiente para o mate de todos os dias; não custava nada fazer uma espera na estrada, em geral deserta, na tentativa de encontrar um viajante qualquer e pedir que arranjasse um pouco de erva ou que a mandasse por um outro que viesse de torna-viagem. Só um pouco de erva. A velhinha foi até o armário de portas envidraçadas, torceu a chave e tirou lá de dentro uma grande lata quadrada. Depois de calcular a quantidade pelo peso, recolocou-a no lugar e fechou novamente a porta.
- Tem menos de um quilo.
- Economizando bem a gente ainda tem erva para duas semanas.
"Enquanto a Noite Não Chega", Josué Guimarães
(Josué Guimarães nasceu no dia 7 de Janeiro de 1921. Morreu em 1986.)
(Josué Guimarães nasceu no dia 7 de Janeiro de 1921. Morreu em 1986.)
quarta-feira, 7 de janeiro de 2015
Josué Guimarães 2
O trem apitou, Eduardo deu uma olhada pela janela e viu que faltava menos de um quilômetro para atravessar a ponte sobre o Jacuí, numa zona baixa de campo onde caçavam perdiz. Era só atravessar a balsa, a cachorrada inquieta, as velhas espingardas de dois canos. Ao rever aquele pedaço de terra teve a sensação de enxergar seu pai e o dono do bar Minuano, um homenzinho barrigudo de gorro de lã enfiado até as orelhas, Seu Zeno; o sargento da Brigada Militar e comandante do Destacamento de Polícia, Euzébio Machado, cem quilos de uma mistura de índio com branco, bigodes caídos nos cantos da boca, palheiro nos beiços ou enfiado atrás da orelha; o Dr. Euríclides, juiz de paz, casado com uma mocinha de grandes peitos e olhar sonolento. Quando menino, Eduardo acompanhava as caçadas para carregar os cachorros - não havia um perdigueiro entre eles - e dava um duro no trabalho, voltando para casa, ao cair daquelas frias noites, mais morto do que vivo, sem ter dado um tiro de bodoque. Parecia, agora, tudo no mesmo lugar, as mesmas árvores, as cercas e os caminhos. Ao cruzar a ponte de ferro viu o prédio amarelo, a placa descascada, as letras em alto-relevo, negras, "Estação Abarama". O casario da Baixada, uma zona alagadiça com seu amontoado de favelas de tábuas e pedaços de lata, tudo gente da beira-rio, os moleques embarrados jogando futebol; onde andaria àquelas horas o Edmundo Pescador, o primeiro sujeito que vira com longas barbas de profeta, delegado encanzinado de sua gente? Vivia bebendo nos bares, dando socos no balcão, "um dia a nossa gente descobre a força que tem". Bêbado, não tropeçava e nem andava em ziguezague, era uma reta só até a Baixada.
"Depois do Último Trem", Josué Guimarães
"Depois do Último Trem", Josué Guimarães
(Josué Guimarães nasceu no dia 7 de Janeiro de 1921. Morreu em 1986.)
terça-feira, 7 de janeiro de 2014
Josué Guimarães
Quando Carlos Frederico Jacob Nicolau Cronhardt Gründling desceu o punho fechado sobre a mesa da bodega, fazendo saltar garrafas e copos, sacudindo o candeeiro de óleo de peixe que pendia do teto - berrando que toda a valia do mundo estava no dinheiro, nos patacões de ouro e em tudo aquilo que se pudesse comprar com eles - estava transtornado pela cerveja e certo de que nenhum dos seus compatriotas abriria a boca para contestá-lo. Mesmo porque todos já estavam bêbados. Gründling empinou, já de pé, uma outra talagada de cerveja mal fermentada, gesticulando sempre, com ouro se compra mulher, escrava, branca, mestiça, terra e carroças, se compra gado ou negro, delegado de polícia e até presidente. Sim, senhores, até presidente, sei de casos contados por gente de respeito, dinheiro tirado do bolso do colete e passado pela manga do casaco, feito burlantim. Por dinheiro se faz revolução. Sabem de alguma guerra que não tenha sido feita por dinheiro? Dinheiro corria até nos Tugendhund dos universitários alemães. Bem, vocês dirão, não se nasce com dinheiro. Mas eu pergunto - alguém já conseguiu sobreviver sem dinheiro?
Derreou-se no banco como um saco. Ria frouxo. O riso saía espremido por entre a barba ruiva e fechada, os olhos mortiços raiados de sangue, bigode agressivo bordado pela espuma amarela da cerveja.
- Ouro é o que vale - insistiu no seu bom alemão. - Digo a vocês agora que Deus inventou o negro para derrubar mato, cavar terra e carregar água. Não há sol que consiga queimar a sua pele, as patas e as mãos deles têm tais cascos que fazem a inveja de quanta mula existe por aí, da Feitoria às bandas do Uruguai.
"A Ferro e Fogo I - Tempo de Solidão", Josué Guimarães
(Josué Guimarães nasceu no dia 7 de Janeiro de 1921. Morreu em 1986.)
Derreou-se no banco como um saco. Ria frouxo. O riso saía espremido por entre a barba ruiva e fechada, os olhos mortiços raiados de sangue, bigode agressivo bordado pela espuma amarela da cerveja.
- Ouro é o que vale - insistiu no seu bom alemão. - Digo a vocês agora que Deus inventou o negro para derrubar mato, cavar terra e carregar água. Não há sol que consiga queimar a sua pele, as patas e as mãos deles têm tais cascos que fazem a inveja de quanta mula existe por aí, da Feitoria às bandas do Uruguai.
"A Ferro e Fogo I - Tempo de Solidão", Josué Guimarães
(Josué Guimarães nasceu no dia 7 de Janeiro de 1921. Morreu em 1986.)
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