Os amigos que morrem
Os amigos que morrem são arbóreos,
plantados e memoráveis como freixos.
Um freixo, que vejo entre árvores
como a aura, o tronco novo
sulcado de rasgões, a raiz curta
comparável à memória viva enterrada.
Têm uma única forma até à morte, próximos do Sol,
que torna as outras árvores mais ténues que os isolados freixos.
Fiama Hasse Pais Brandão
(Fiama Hasse Pais Brandão nasceu no dia 15 de Agosto de 1938. Morreu em 2007.)
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sábado, 15 de agosto de 2020
quinta-feira, 15 de agosto de 2019
Fiama Hasse Pais Brandão 4
Nada tão silencioso como o tempo
Nada tão silencioso como o tempo
no interior do corpo. Porque ele passa
com um rumor nas pedras que nos cobrem,
e pelo sonoro desalinho de algumas árvores
que são os nossos cabelos imaginários.
Até nas íris dos olhos o tempo
faz estalar faíscas de luz breve.
Só no interior sem nome do nosso corpo
ou esfera húmida de algum astro
ignoto, numa órbita apartada,
o tempo caladamente persegue
o sangue que se esvai sem som.
Entre o princípio e o fim vem corroer
as vísceras, que ocultamos como a Terra.
Trilam os lábios nossos, à semelhança
das musicais manhãs dos pássaros.
Mesmo os ouvidos cantam até à noite
ouvindo o amor de cada dia.
A pele escorre pelo corpo, com o seu correr
de água, e as lágrimas da angústia
são estridentes quando buscam o eco.
Mas não sentimos dentro do coração que somos
filhos dilectos do tempo e que, se hoje amamos,
foi depois de termos amado ontem.
O tempo é silencioso e enigmático
imerso no denso calor do ventre.
Guardado no silêncio mais espesso,
o tempo faz e desfaz a vida.
"Cenas Vivas", Fiama Hasse Pais Brandão
(Fiama Hasse Pais Brandão nasceu no dia 15 de Agosto de 1938. Morreu em 2007.)
Nada tão silencioso como o tempo
no interior do corpo. Porque ele passa
com um rumor nas pedras que nos cobrem,
e pelo sonoro desalinho de algumas árvores
que são os nossos cabelos imaginários.
Até nas íris dos olhos o tempo
faz estalar faíscas de luz breve.
Só no interior sem nome do nosso corpo
ou esfera húmida de algum astro
ignoto, numa órbita apartada,
o tempo caladamente persegue
o sangue que se esvai sem som.
Entre o princípio e o fim vem corroer
as vísceras, que ocultamos como a Terra.
Trilam os lábios nossos, à semelhança
das musicais manhãs dos pássaros.
Mesmo os ouvidos cantam até à noite
ouvindo o amor de cada dia.
A pele escorre pelo corpo, com o seu correr
de água, e as lágrimas da angústia
são estridentes quando buscam o eco.
Mas não sentimos dentro do coração que somos
filhos dilectos do tempo e que, se hoje amamos,
foi depois de termos amado ontem.
O tempo é silencioso e enigmático
imerso no denso calor do ventre.
Guardado no silêncio mais espesso,
o tempo faz e desfaz a vida.
"Cenas Vivas", Fiama Hasse Pais Brandão
(Fiama Hasse Pais Brandão nasceu no dia 15 de Agosto de 1938. Morreu em 2007.)
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sábado, 19 de janeiro de 2019
Fiama Hasse Pais Brandão 3
O canto da chávena de chá
Poisamos as mãos junto da chávena
sem saber que a porcelana e o osso
são formas próximas da mesma substância.
A minha mão e a chávena nacarada
- se eu temperar o lirismo com a ironia -
são, ainda, familiares dos pterossáurios.
A tranquila tarde enche as vidraças.
A água escorre da bica com ruído,
os melros espiam-me na latada seca.
É assim que muitas vezes o chá evoca:
a minha mão de pedra, tarde serena,
olhar dos melros, som leve da bica.
A Natureza copia esta pintura
do fim da tarde que para mim pintei,
retribui-me os poemas que eu lhe fiz
de novo dando-me os meus versos ao vivo.
Como se eu merecesse esta paisagem
a Natureza dá-me o que lhe dei.
No entanto algures, num poema, ouvi
rodarem as roldanas do cenário,
em que as palavras representavam
a cena da pintura da paisagem
num telão constantemente vário.
Só o chá me traz a minha tarde,
com a chávena e a minha mão que são
o mesmo pedaço de calcário.
Hoje a bica refresca a água do tanque,
os melros descem da latada para o chão,
e as vidraças devagar escurecem.
As palavras movem-se e repõem
no seu imóvel eixo de rotação
o espaço onde esta mesa de verga
gira nas grandes nebulosas.
"Cantos do Canto", Fiama Hasse Pais Brandão
(Fiama Hasse Pais Brandão nasceu no dia 15 de Agosto de 1938. Morreu no dia 19 de Janeiro de 2007.)
Poisamos as mãos junto da chávena
sem saber que a porcelana e o osso
são formas próximas da mesma substância.
A minha mão e a chávena nacarada
- se eu temperar o lirismo com a ironia -
são, ainda, familiares dos pterossáurios.
A tranquila tarde enche as vidraças.
A água escorre da bica com ruído,
os melros espiam-me na latada seca.
É assim que muitas vezes o chá evoca:
a minha mão de pedra, tarde serena,
olhar dos melros, som leve da bica.
A Natureza copia esta pintura
do fim da tarde que para mim pintei,
retribui-me os poemas que eu lhe fiz
de novo dando-me os meus versos ao vivo.
Como se eu merecesse esta paisagem
a Natureza dá-me o que lhe dei.
No entanto algures, num poema, ouvi
rodarem as roldanas do cenário,
em que as palavras representavam
a cena da pintura da paisagem
num telão constantemente vário.
Só o chá me traz a minha tarde,
com a chávena e a minha mão que são
o mesmo pedaço de calcário.
Hoje a bica refresca a água do tanque,
os melros descem da latada para o chão,
e as vidraças devagar escurecem.
As palavras movem-se e repõem
no seu imóvel eixo de rotação
o espaço onde esta mesa de verga
gira nas grandes nebulosas.
"Cantos do Canto", Fiama Hasse Pais Brandão
(Fiama Hasse Pais Brandão nasceu no dia 15 de Agosto de 1938. Morreu no dia 19 de Janeiro de 2007.)
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quarta-feira, 15 de agosto de 2018
Fiama Hasse Pais Brandão 2
A sépia
Chegava no seu carro solar
ao meio-dia
o amolador rústico.
Com uma roda fruste que brilhava
e ressoava surda
no bater do pedal?
Com o assobio que modula
um ser perdido
na estrada da velha vila
esboçada na paisagem
por trás da vila de hoje?
Fiama Hasse Pais Brandão, em "Colóquio Letras"
(Fiama Hasse Pais Brandão nasceu no dia 15 de Agosto de 1938. Morreu em 2007.)
Chegava no seu carro solar
ao meio-dia
o amolador rústico.
Com uma roda fruste que brilhava
e ressoava surda
no bater do pedal?
Com o assobio que modula
um ser perdido
na estrada da velha vila
esboçada na paisagem
por trás da vila de hoje?
Fiama Hasse Pais Brandão, em "Colóquio Letras"
(Fiama Hasse Pais Brandão nasceu no dia 15 de Agosto de 1938. Morreu em 2007.)
terça-feira, 15 de agosto de 2017
Fiama Hasse Pais Brandão
Epístola para Dédalo
Porque deste a teu filho asas de plumagem e cera
se o sol todo-poderoso no alto as desfaria?
Não me ouviu, de tão longe, porém pensei que disse:
todos os filhos são Ícaros que vão morrer no mar.
Depois regressam, pródigos, ao amor entre o sangue
dos que eram e dos que são agora, filhos dos filhos.
"Epístolas e Memorandos", Fiama Hasse Pais Brandão
(Fiama Hasse Pais Brandão nasceu no dia 15 de Agosto de 1938. Morreu em 2007.)
Porque deste a teu filho asas de plumagem e cera
se o sol todo-poderoso no alto as desfaria?
Não me ouviu, de tão longe, porém pensei que disse:
todos os filhos são Ícaros que vão morrer no mar.
Depois regressam, pródigos, ao amor entre o sangue
dos que eram e dos que são agora, filhos dos filhos.
"Epístolas e Memorandos", Fiama Hasse Pais Brandão
(Fiama Hasse Pais Brandão nasceu no dia 15 de Agosto de 1938. Morreu em 2007.)
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