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quinta-feira, 8 de abril de 2021

Alberto da Cunha Melo 5

Casa vazia

Poema nenhum, nunca mais,
será um acontecimento:
escrevemos cada vez mais
para um mundo cada vez menos,

para esse público dos ermos
composto apenas de nós mesmos,

uns joões batistas a pregar
para as dobras de suas túnicas
seu deserto particular,

ou cães latindo, noite e dia,
dentro de uma casa vazia.

"Dois Caminhos e Uma Oração", Alberto da Cunha Melo

(Alberto da Cunha Melo nasceu no dia 8 de Abril de 1942. Morreu em 2007.)

quarta-feira, 8 de abril de 2020

Alberto da Cunha Melo 4

Condensar/concertar

A vida aqui fala bem claro,
mas sem a eloquência da lágrima;
como a renda, como a poesia,
é uma linguagem concentrada;

é cloro na água da piscina
da cobertura, lá em cima,

onde Clara, uma pós-donzela,
posa nua para o helicóptero
que faz evoluções sobre ela;

e a luz do sol, como toalha,
só existe para enxugá-la.

 
"Dois Caminhos e Uma Oração", Alberto da Cunha Melo

(Alberto da Cunha Melo nasceu no dia 8 de Abril de 1942. Morreu em 2007.)

segunda-feira, 8 de abril de 2019

Alberto da Cunha Melo 3

Orgasmo

Todo corpo, em seu esplendor,
divide em duas esta vida,
mas este êxtase existe mesmo
para ocultar uma descida

da carne, no único momento
em que do cosmo é instrumento;

truque do eterno é todo amor:
toca por baixo o fogo alto
que aquece o sonho ao sol se pôr,

porque logo devolve aos dois
o nada de antes e depois.


"Dois Caminhos e Uma Oração", Alberto da Cunha Melo

(Alberto da Cunha Melo nasceu no dia 8 de Abril de 1942. Morreu em 2007.)