O meu avô da Bomba jurava que nunca pôs nem nunca na vida poria pé na
praia. Que era muito sol ao desamparo, areia demais para a sua
camioneta. Queixava-se: a água estava constantemente molhada e, ainda
por cima, salgada. O meu querido avô era "uma pessoa muito doente"
e precatada quanto ao sal. Portanto, o sol e o sal. "Se ainda ao menos
houvesse a sombrinha de uma árvore", dizia, molageiro, aí que contassem
com ele nem que fosse só para a soneca da tarde. Mas o meu avô era um
exagerado, um mentirosinho sem tenção de ofensa - e aquela jura eu sabia
que era a mangar...
Para o avô da Bomba, como para todo o fafense que então se prezasse, a
palavra praia queria dizer Póvoa de Varzim. Exactamente. Ir à praia e ou
ir para a praia (conceitos que importa diferençar), era ir à Póvoa
ou ir para a Póvoa, via Famalicão. E no entanto o meu avô conhecia
também satisfatoriamente os longínquos areais de Ofir, da Figueira da
Foz e da Nazaré, o que já não era brincadeira! E de onde é que lhe vinha
esta extraordinária mundivivência, este cosmopolitismo fafense tão
antes do tempo? Pois bem: o meu avô organizava excursões - dois dias ao
Alto Minho, com pernoita em Viana do Castelo, dentro do autocarro, no
Largo da Agonia a esbordar de camionetas e parolos como nós, e umas
senhoras cá fora a fazerem café de cafeteira em máquinas a petróleo, à
luz do petromax até que o sol nascesse; três dias a Fátima. Ano sim, ano
não. Partida e chegada no quartel dos Bombeiros, sempre, então na Rua
José Cardoso Vieira de Castro, ao lado da garagem do Zé Bastos e entre
os dois palacetes. Com as estradas que tinha, Portugal
era naquele tempo um país imenso. Ir de Fafe aos Arcos de Valdevez, por
aquela altura, era como embarcar por engano numa expedição ao fim do
mundo...
O meu avô era um videirinho, já aqui
contei. Tinha casa e salário de quarteleiro dos Bombeiros, não sei se
era muito ou pouco, mas não perdia oportunidade de fazer dinheiro extra
no que lhe estivesse mais à mão: o tasquinho na cave do quartel, os
tremoços, os bolinhos de bacalhau e o vinho na Festa da Bomba,
a aguardente e o vinho, sempre o vinho, nas sessões nocturnas do cinema
ao ar livre na parada das traseiras, muito antes de a sétima arte
descer ao campo de futebol, a banca de sapateiro
por baixo das escadas que subiam para o salão de festas, umas refeições
especiais encomendadas por um certo grupo de amigos, respeitosos
admiradores das mãos de ouro da minha avó para a cozinha. Uma vez há
cinquenta anos o papa Paulo VI veio a Fátima e pouca gente tinha
televisão em casa. No salão dos Bombeiros foram montados um projector e
uma tela para a transmissão em directo e em "ecrã gigante", com entradas
a pagar. A sala encheu, o dinheiro da receita revertia naturalmente
para a Associação Humanitária, mas de certeza que o avô também conseguiu
sacar dali algum, nem que fosse a vender rebuçados para a tosse ou
cascas de amendoins...
Ora é aqui que encaixam as excursões, que os
candidatos a excursionistas pagavam em suaves prestações semanais
desarriscadas nuns cartõezinhos que o meu avô mandava fazer na
tipografia. Isto para aí durante um ano. O avô da Bomba fazia a cobrança
aos sábados ou domingos de manhã, não sei precisar. Ia de motorizada e
às vezes levava-me, primeiro numa Florett e depois na Lambreta, uma
Vespa azul, antes e depois de haver sentidos proibidos nas ruas de Fafe.
Para o meu avô nunca houve, o caminho foi sempre o mesmo e tinha sempre
razão quando lhe apitavam ou gritavam para não ir por ali. Eu, nem
pio...
(A Florett tem muito que se lhe diga em Fafe, era um veículo de pecado,
mas por ser verdade aqui declaro que o meu avô nunca foi dado a essas
actividades por assim dizer extracurriculares. A Florett calhou-lhe, e
só isso...)
Mas as excursões. Eram viagens épicas,
cheias de cheirinho bom a merendeiro e muitas paragens para "mudar a
água às azeitonas", enjoos e borracheiras de caixão à cova. Cheiravam
também a gomitado,
a naftalina, a sapatos novos, a botas ensebadas de fresco, a chulé, a
urina, a tabaco, a suor, a desodorizante Lander, a perfume barato, a
brilhantina, a laca, a mundo. A coberto da noite soltavam-se uns traques
enfeitados com risinhos solertes que ajudavam à festa. A camioneta
avariava, pessoas perdiam-se. Cantava-se o "Treze de Maio", o "Queremos
Deus" e "O carrapito da Dona Aurora". Rezava-se o terço ao passar a
Ponte de Fão, sobre o rio Cávado, porque constava que a estrutura estava
a cair de podre. Morreríamos todos muito bem. Na Póvoa as mulheres
arregaçavam as saias, os homens arregaçavam as calças e os miúdos
ficavam em cuecas ou em pelote, consoante a idade, e todos se agarravam
com quanta força tinham à grossa corda que ligava o mar ao areal,
brincando aos sustinhos e trambolhões de felicidade histérica ali no
sítio onde o mar enrola na areia, que também se cantava.
Sei disto tudo porque estive lá. Que me lembre, fui uma vez a Fátima e
outra ao Alto Minho, esta ainda com o meu pai. O meu irmão Lando ainda
não tinha nascido. Eu, o Nelo e a Nanda
queríamos ir sempre, mas não podia ser. O meu avô não dava borlas, nem
aos netos. (Na verdade, o meu avô não dava nada a ninguém. Isto é: dava
os bons-dias mas pedia recibo.) Ia portante só um, e no colo da mãe,
mais do que isso seria prejuízo...
O meu pai, que gostava de fazer
rir a minha mãe, dizia aos dois que ficavam: "Não é preciso chorar, vós
também ides. Na sombra..."
Tanto relambório para chegar aqui: herdei do meu avô o horror à praia
em dias de sol e gente, mas tenho a árvore que ele reclamava.
Encontrei-a em Matosinhos, mesmo ao pé da porta, encostada à esplanada
do Lais de Guia. Passo por lá todos os dias e vejo o avô à sombrinha,
com os pés mansamente enfiados na areia morna. Gosto de o ver assim,
peço-lhe a bênção e beijo-lhe a mão. Sossego as saudades. O avô da Bomba
era molageiro e videirinho, forreta do piorio, mas é meu.
P.S. - Publicado originalmente no dia 12 de Maio de 2017. E repetido quando que me apetece.