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sábado, 30 de novembro de 2019

Fernando Pessoa 9

[Dá a surpresa de ser]

Dá a surpresa de ser.
É alta, de um louro escuro.
Faz bem só pensar em ver
Seu corpo meio maduro.

Seus seios altos parecem
(Se ela estivesse deitada)
Dois montinhos que amanhecem
Sem ter que haver madrugada.

E a mão do seu braço branco
Assenta em palmo espalhado
Sobre a saliência do flanco
Do seu relevo tapado.

Apetece como um barco.
Tem qualquer coisa de gomo.
Meu Deus, quando é que eu embarco?
Ó fome, quando é que eu como?

"Cancioneiro", Fernando Pessoa

(Fernando Pessoa nasceu no dia 13 de Junho de 1888. Morreu no dia 30 de Novembro de 1935.)

domingo, 30 de setembro de 2018

Paulo Bomfim 2

Inventário

Quem habitará, um dia,
Os ternos desabitados
E camisas que se aquecem
Ao sol de tempos passados?
Que esquinas reviverão
Contradanças de gravatas
Sobre sapatos que pisam
Calendários já sem datas?
Quando livros partirão
Da agonia dos instantes,
Silenciosas revoadas
Em busca de outras estantes?
Um dia, quem viverá
O poema que hoje invento?
Ai segredar confessado
À inconfidência do vento!


"Cancioneiro", Paulo Bomfim

(Paulo Bomfim nasceu no dia 30 de Setembro de 1926)

quinta-feira, 22 de março de 2018

Cabral do Nascimento 2

Natal africano

Não há pinheiros nem há neve,
Nada do que é convencional,
Nada daquilo que se escreve
Ou que se diz... Mas é Natal.

Que ar abafado! A chuva banha
A terra, morna e vertical.
Plantas da flora mais estranha,
Aves da fauna tropical.

Nem luz, nem cores, nem lembranças
Da hora única e imortal.
Somente o riso das crianças
Que em toda a parte é sempre igual.

Não há pastores nem ovelhas,
Nada do que é tradicional.
As orações, porém, são velhas
E a noite é Noite de Natal.

"Cancioneiro", Cabral do Nascimento

(Cabral do Nascimento nasceu no dia 22 de Março de 1897. Morreu em 1978.)

terça-feira, 13 de junho de 2017

Fernando Pessoa 5

Autopsicografia

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.


E os que leem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.


E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.


"Cancioneiro", Fernando Pessoa

(Fernando Pessoa nasceu no dia 13 de Junho de 1888. Morreu em 1935.)

quarta-feira, 22 de março de 2017

Cabral do Nascimento

Redondilha

Sobre os rios e ribeiros
Que por esses vales vão,
Pus um barco de papel.
Os desejos vogam nele,
Que as palavras essas não.


E quando as águas encontram
As suas irmãs do mar
E se misturam, aos beijos,
Vão para o fundo os desejos
As penas sobem ao ar.


Desejo, dor e saudade
São companheiros. Depois
Morre primeiro o primeiro,
Ainda ás vezes solteiro,
Ficam só os outros dois.


"Cancioneiro", Cabral do Nascimento

(Cabral do Nascimento nasceu no dia 22 de Março de 1897. Morreu em 1978.)