À nau Serpente
Já do lenho as prisões se desataram
E assustada serpente as águas trilha,
Já ondeia no mar a instável ilha,
E já no fundo as âncoras pegaram.
Os ventos sobre as asas se firmaram
Por ver de perto a nova maravilha,
E ao vasto peso da disforme quilha,
Gemeu Netuno, e as ondas s’encurvaram.
Verdes Ninfas azuis do pego undoso,
Conduzi pelos úmidos lugares
Esse errante edifício majestoso:
E entre tantas empresas singulares,
Veja o mundo qual é mais glorioso,
Dar leis à terra, se pôr freio aos mares.
Basílio da Gama
(Basílio da Gama nasceu no dia 8 de Abril de 1741. Morreu em 1795.)
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domingo, 8 de abril de 2018
sábado, 8 de abril de 2017
Basílio da Gama 4
[...]
Um frio susto corre pelas veias
De Caitutu que deixa os seus no campo;
E a irmã por entre as sombras do arvoredo
Busca com a vista, e treme de encontrá-la.
Entram enfim na mais remota, e interna
Parte de antigo bosque, escuro e negro,
Onde, ao pé duma lapa cavernosa,
Cobre uma rouca fonte, que murmura,
Curva latada e jasmins e rosas.
Este lugar delicioso e triste,
Cansada de viver, tinha escolhido
Para morrer a mísera Lindóia.
Lá reclinada, como que dormia,
Na branda relva e nas mimosas flores,
Tinha a face na mão e a mão no tronco
Dum fúnebre cipreste, que espalhava
Melancólica sombra. Mais de perto
Descobrem que se enrola no seu corpo
Verde serpente, e lhe passeia e cinge
Pescoço e braços, e lhe lambe o seio.
Fogem de a ver assim sobressaltados
E param cheios de temor ao longe;
E nem se atrevem a chamá-la e temem
Que desperte assustada e irrite o monstro,
E fuja, e apresse no fugir a morte.
Porém o destro Caitutu, que treme
Do perigo da irmã, sem mais demora
Dobrou as pontas do arco, e quis três vezes
Soltar o tiro, e vacilou três vezes
Entre a ira e o temor. Enfim sacode
O arco e faz voar a aguda seta,
Que toca o peito de Lindóia e fere
A serpente na testa, e a boca e os dentes
Deixou cravados no vizinho tronco.
Açoita o campo com a ligeira cauda
O irado monstro, e em tortuosos giros
Se enrosca no cipreste, e verte envolto
Em negro sangue o lívido veneno.
Leva nos braços a infeliz Lindóia
O desgraçado irmão, que ao despertá-la
Conhece, com que dor! no frio rosto
Os sinais do veneno, e vê ferido
Pelo dente sutil o brando peito.
Os olhos, em que Amor reinava, um dia,
Cheios de morte; e muda aquela língua,
Que ao surdo vento e aos ecos tantas vezes
Contou a larga história de seus males.
Nos olhos Caitutu não sofre o pranto,
E rompe em profundíssimos suspiros,
Lendo na testa da fronteira gruta
De sua mão já trêmula gravado
O alheio crime, e a voluntária morte.
E por todas as partes repetido
O suspirado nome de Cacambo.
Inda conserva o pálido semblante
Um não sei quê de magoado, e triste,
Que os corações mais duros enternece.
Tanto era bela no seu rosto a morte!
[...]
"O Araguai", Basílio da Gama
(Basílio da Gama nasceu no dia 8 de Abril de 1741. Morreu em 1795.)
Um frio susto corre pelas veias
De Caitutu que deixa os seus no campo;
E a irmã por entre as sombras do arvoredo
Busca com a vista, e treme de encontrá-la.
Entram enfim na mais remota, e interna
Parte de antigo bosque, escuro e negro,
Onde, ao pé duma lapa cavernosa,
Cobre uma rouca fonte, que murmura,
Curva latada e jasmins e rosas.
Este lugar delicioso e triste,
Cansada de viver, tinha escolhido
Para morrer a mísera Lindóia.
Lá reclinada, como que dormia,
Na branda relva e nas mimosas flores,
Tinha a face na mão e a mão no tronco
Dum fúnebre cipreste, que espalhava
Melancólica sombra. Mais de perto
Descobrem que se enrola no seu corpo
Verde serpente, e lhe passeia e cinge
Pescoço e braços, e lhe lambe o seio.
Fogem de a ver assim sobressaltados
E param cheios de temor ao longe;
E nem se atrevem a chamá-la e temem
Que desperte assustada e irrite o monstro,
E fuja, e apresse no fugir a morte.
Porém o destro Caitutu, que treme
Do perigo da irmã, sem mais demora
Dobrou as pontas do arco, e quis três vezes
Soltar o tiro, e vacilou três vezes
Entre a ira e o temor. Enfim sacode
O arco e faz voar a aguda seta,
Que toca o peito de Lindóia e fere
A serpente na testa, e a boca e os dentes
Deixou cravados no vizinho tronco.
Açoita o campo com a ligeira cauda
O irado monstro, e em tortuosos giros
Se enrosca no cipreste, e verte envolto
Em negro sangue o lívido veneno.
Leva nos braços a infeliz Lindóia
O desgraçado irmão, que ao despertá-la
Conhece, com que dor! no frio rosto
Os sinais do veneno, e vê ferido
Pelo dente sutil o brando peito.
Os olhos, em que Amor reinava, um dia,
Cheios de morte; e muda aquela língua,
Que ao surdo vento e aos ecos tantas vezes
Contou a larga história de seus males.
Nos olhos Caitutu não sofre o pranto,
E rompe em profundíssimos suspiros,
Lendo na testa da fronteira gruta
De sua mão já trêmula gravado
O alheio crime, e a voluntária morte.
E por todas as partes repetido
O suspirado nome de Cacambo.
Inda conserva o pálido semblante
Um não sei quê de magoado, e triste,
Que os corações mais duros enternece.
Tanto era bela no seu rosto a morte!
[...]
"O Araguai", Basílio da Gama
(Basílio da Gama nasceu no dia 8 de Abril de 1741. Morreu em 1795.)
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Um frio susto corre pelas veias
sexta-feira, 8 de abril de 2016
Basílio da Gama 3
Na idade em que eu, brincando entre os pastores,
andava pela mão e mal andava,
uma ninfa comigo então brincava,
da mesma idade e bela como as flores.
Eu, com vê-la, sentia mil ardores;
ela punha-se a olhar e não falava.
Qualquer de nós podia ver que amava,
mas quem sabia então que eram amores?
Mudar de sítio à ninfa já convinha:
foi-se a outra ribeira; e eu só, naquela
fiquei sentindo a dor que na alma tinha.
Eu, cada vez mais firme; ela mais bela.
Não se lembra ela já de que foi minha;
eu ainda me lembro que sou dela!...
Basílio da Gama
(Basílio da Gama nasceu no dia 8 de Abril de 1741. Morreu em 1795.)
andava pela mão e mal andava,
uma ninfa comigo então brincava,
da mesma idade e bela como as flores.
Eu, com vê-la, sentia mil ardores;
ela punha-se a olhar e não falava.
Qualquer de nós podia ver que amava,
mas quem sabia então que eram amores?
Mudar de sítio à ninfa já convinha:
foi-se a outra ribeira; e eu só, naquela
fiquei sentindo a dor que na alma tinha.
Eu, cada vez mais firme; ela mais bela.
Não se lembra ela já de que foi minha;
eu ainda me lembro que sou dela!...
Basílio da Gama
(Basílio da Gama nasceu no dia 8 de Abril de 1741. Morreu em 1795.)
quarta-feira, 8 de abril de 2015
Basílio da Gama 2
Ao Marquês de Pombal
Não temas, não, marquês, que o povo injusto,
De teus grandes serviços esquecido,
Pelos gritos da inveja enfurecido,
Solicite abolir teu nobre busto.
Para ser imortal, teu nome augusto
Não depende do bronze derretido;
Em mais firmes padrões fica insculpido
Teu nome excelso, teu valor robusto.
Lisboa restaurada, o Reino ornado
De ciência, de indústria e de cultura,
De política e comércio apropriado;
A tropa regulada, a fé segura,
O Tesouro provido, o mar guardado:
Eis aqui do teu gênio a cópia pura.
Basílio da Gama
(Basílio da Gama nasceu no dia 8 de Abril de 1741. Morreu em 1795.)
Não temas, não, marquês, que o povo injusto,
De teus grandes serviços esquecido,
Pelos gritos da inveja enfurecido,
Solicite abolir teu nobre busto.
Para ser imortal, teu nome augusto
Não depende do bronze derretido;
Em mais firmes padrões fica insculpido
Teu nome excelso, teu valor robusto.
Lisboa restaurada, o Reino ornado
De ciência, de indústria e de cultura,
De política e comércio apropriado;
A tropa regulada, a fé segura,
O Tesouro provido, o mar guardado:
Eis aqui do teu gênio a cópia pura.
Basílio da Gama
(Basílio da Gama nasceu no dia 8 de Abril de 1741. Morreu em 1795.)
terça-feira, 8 de abril de 2014
Basílio da Gama
A Uma Senhora Natural do Rio de Janeiro, Onde se Achava Então o Autor
Já, Marfisa cruel, que não maltrata
Já, Marfisa cruel, que não maltrata
Saber que usas comigo de cautelas,
Qu'inda te espero ver, por causa delas,
Arrependida de ter sido ingrata.
Com o tempo, que tudo desbarata,
Com o tempo, que tudo desbarata,
Teus olhos deixarão de ser estrelas;
Verás murchar no rosto as faces belas,
E as tranças d'oiro converter-se em prata.
Pois se sabes que a tua formosura
Pois se sabes que a tua formosura
Por força há de sofrer da idade os danos.
Por que me negas hoje esta ventura?
Guarda para seu tempo os desenganos,
Guarda para seu tempo os desenganos,
Gozemo-nos agora, enquanto dura,
Já que dura tão pouco, a flor dos anos.
"Obras Poéticas", Basílio da Gama
(Basílio da Gama nasceu no dia 8 de Abril de 1741. Morreu em 1795.)
"Obras Poéticas", Basílio da Gama
(Basílio da Gama nasceu no dia 8 de Abril de 1741. Morreu em 1795.)
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