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sábado, 27 de fevereiro de 2021

Albino Magaia 4

Peregrinação

Esta alma que sonha com mundos impossíveis
veio talvez de outras esferas
habitar a terra numa peregrinação cósmica
em busca da verdade.
Tatuada de revolta de nascença
sonha com mundos impossíveis
luta pela liberdade pelo amor.
Vencida pela rudeza palpável
de uma geração sem norte
mártir de uma sociedade injusta
um dia voltará a bater asas
prosseguindo a peregrinação cósmica
em busca da verdade.
Veio talvez de outras esferas
lançar um escarro numa geração sem norte
desafiar - com risco de perder
uma sociedade que não conhece outras esferas
nem pode entender uma revolta de nascença
nem pode (sem reprimir)
ver escarro de uma alma limpa... 


Albino Magaia

(Albino Magaia nasceu no dia 27 de Fevereiro de 1947. Morreu em 2010.)

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

Albino Magaia 3

Madjuba 

No pick-up arranha-se um disco importado do Djhôni.
É Madjuba!
Músicos de viola tocada com dedo eléctrico
música de negra de bairro
que junta ventre com seio e sorri a dançar ...

Madjuba!
Ancas sobem e descem imitando mar
corpo de rapaz vibra e sofre de grande desejo
enquanto menina de bairro dança com perna bonita
fecha olhos com êxtase de deusa
porque música que toca é Madjuba!
Mamanas não dançam porque anca não aguenta
e cocuana também não porque vida já se foi.
Madjuba é música de gente nova
gente que pode juntar ventre com peito
e fazer anca subir e descer como se fosse mar.
E música que marca tempo
porque no futuro toda a gente dirá:
"No tempo de Madjuba!"

Albino Magaia

(Albino Magaia nasceu no dia 27 de Fevereiro de 1947. Morreu em 2010.)

terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

Albino Magaia 2

Descolonizámos o Land-Rover

Já não é carro cobrador de impostos.
Nós descolonizámo-lo.
Já não é terror quando entra na povoação
Já não é Land-Rover do induna e do sipaio.
É velho e conhece todas as picadas que pisa.
É experiente este carro britânico
Seguro aliado do chicote explorador.
Mas nós descolonizámo-lo:
No matope e no areal
Sua tracção às quatro rodas
Garante chegada às machambas mais distantes
Às cooperativas dos camponeses.
Entra na aldeia e no centro piloto
Ruge militante nas mãos seguras do condutor
Obedece fiel a todas as manobras
Mesmo incompleto por falta de peças.

- Descolonizámos o Land-Rover!

Com nossos produtos
Compramos combustível que consome
Com nossa inteligência
Consertamos avarias que surgem
Com nossa luta
Transformamos em amigo este inimigo.
Nós, descolonizadores
Libertámos o Land-Rover
Porque também ficou independente, afinal
Transformaram-se os objectivos que servia
E hoje é militante mecânico
Um desviado reeducado
Uma prostituta reconvertida em nossa companheira.
Descolonizámo-la e com ela casámos
E não haverá divórcio.

De Tete a Cabo Delgado
Do Niassa a Gaza
Da sede provincial ao círculo
Este jeep saúda quando passa
O Caterpillar seu irmão
Outro descolonizado fazedor de estradas
E cruza-se com o Berliet atarefado
Ex-pisador de minas
Eles aprenderam com a G-3
Menina vanguardista na mudança de rumo
A primeira a saber e a gostar
A diferença antagónica
Entre a carícia libertadora das nossas mãos
E o aperto sufocante e opressor do inimigo que servia.

As mãos dos operários que o fabricam
são iguais às mãos dos operários da nossa terra.
Essas mãos inglesas que o criam
Um dia saberão que ajudaram a fazer a revolução
e vão levantar o punho fechado da solidariedade.

Ruge este militante nas picadas da Zambézia
Galga as difíceis estradas de Sofala
Passa pelos pomares de Manica
Pelo milho de Gaza
Pelas palmeiras de Inhambane
Na cidade do Maputo descansa.
Transporta pelo país
Os olhos dos estrangeiros amigos
Que querem conhecer de perto a nossa Revolução.

- Descolonizámos uma arma do inimigo
Descolonizámos o Land-Rover!

Aquelas quatro rodas e um motor potente
Aquela cabine dos mecanismos de comando
Aquelas linhas da carroçaria irmanadas ao medo
Já não afugentam o povo:
Homens, mulheres e crianças do campo
Fazendo sinal ao condutor,
Pedem boleia.
Nós descolonizámos o Land-Rover
E dele
O povo já não foge!

Albino Magaia

(Albino Magaia nasceu no dia 27 de Fevereiro de 1947. Morreu em 2010.)

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Albino Magaia

Inundação

Chuva forte
Impetuosa chuva
Cai no povoado.
Vai fazer sorrir o campo
Vai alegrar santo milho
Vai fazer crescer feijão.
Todos olham
Todos esperam comer
Todos esperam matar fome.
 
Vão encher barriga negra
Vão encher palhota de reservas
Vão encher panelas todos os dias
E vão também calar boca de crianças.
Chuva cai fortemente
Chuva cai impetuosa
Chuva cresce lentamente as águas.
 
Engrossa, engrossa lentamente o rio
Lento já galgou margens
Já subiu o vale
Já rebentou…
 
Milho afogado e batata-doce morreu!
Quem vai encher palhota de reservas
Encher panelas de barro
E calar de boca crianças?

Albino Magaia

(Albino Magaia nasceu no dia 27 de Fevereiro de 1947. Morreu em 2010.)