1939. Eu, nove anos de idade. Antes, meu pai tinha morado numa chácara; perto; mas agora a gente estava na cidade. Quer dizer, cidade mesmo não era. De verdade, uma vila. Na fronteira com os castelhanos. Tinha a praça, a rua principal, o clube, a prefeitura, o quartel, a igreja e a aldeia. Esse era o nome bonito que se havia dado a uma coisa feia: o amontoado de biongos do pobrerio. Ranchinhos humildes, famílias que vinham sendo despacito enxotadas do campo.
A gente chamava de campeiro a quem morava no campo e lidava a cavalo; mas os castelhanos chamavam de paissano. Gente buena, essa. Eu gostava. O velho Eusébio Manco, então, sabia contar cada causo! Só vendo. Só ouvindo.
Meus primos, que eram campeiros, seguido falavam no pago e davam muita importância aos pagos. De princípio custei a entender. Mais tarde cheguei a pensar que era o mesmo que distrito, pedaço administrativo do município; e só bem mais tarde atinei que não tinha nada a ver com a prefeitura e tinha muito a ver com o coração. Pago era o pedaço de chão onde a gente morava, com os vizinhos, e se delimitava pelos cascos do cavalo: seu limite alcançavam até onde a gente podia ir e voltar pra casa no mesmo dia, sem precisão de pousar fora. Os vizinhos de um mesmo pago tinham muita obrigação de se ajudarem. Ninguém vivia solito.
Mas por aquela época do princípio o Doutor Orlando comprou um automóvel; foi o primeiro; depois, uns outros poucos foram comprando; famosa foi a barata do filho de Seu Júlio Bica; e com tudo isso a idéia de pago foi se demundando e mermando, num só dia o vivente podia "galopar" até mui longe e voltar: e o mais pior era ver gente desconhecida atravessando a estrada, levantando poeira no corredor, cortando campo, apeando no terreiro mui sim-senhor e indo embora com pose de povoeiro. Os tempos começavam a ser outros. Pra quem tinha nascido e passado a vida inteira a cavalo, não foi nada bom.
Não mal comparando, o rádio também foi um automóvel que rompeu os limites da querência. A Dona Querubina tinha um. Eu vi. Eu escutei. Ela de noite acompanhava as novelas; ou, pela Rádio Municipal de Buenos Aires, se encantava com as óperas diretamente do Teatro Cólon. E a qualquer hora do dia ficava sabendo das notícias de longe, do Rio de Janeiro, do Getúlio.
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Meus primos, que eram campeiros, seguido falavam no pago e davam muita importância aos pagos. De princípio custei a entender. Mais tarde cheguei a pensar que era o mesmo que distrito, pedaço administrativo do município; e só bem mais tarde atinei que não tinha nada a ver com a prefeitura e tinha muito a ver com o coração. Pago era o pedaço de chão onde a gente morava, com os vizinhos, e se delimitava pelos cascos do cavalo: seu limite alcançavam até onde a gente podia ir e voltar pra casa no mesmo dia, sem precisão de pousar fora. Os vizinhos de um mesmo pago tinham muita obrigação de se ajudarem. Ninguém vivia solito.
Mas por aquela época do princípio o Doutor Orlando comprou um automóvel; foi o primeiro; depois, uns outros poucos foram comprando; famosa foi a barata do filho de Seu Júlio Bica; e com tudo isso a idéia de pago foi se demundando e mermando, num só dia o vivente podia "galopar" até mui longe e voltar: e o mais pior era ver gente desconhecida atravessando a estrada, levantando poeira no corredor, cortando campo, apeando no terreiro mui sim-senhor e indo embora com pose de povoeiro. Os tempos começavam a ser outros. Pra quem tinha nascido e passado a vida inteira a cavalo, não foi nada bom.
Não mal comparando, o rádio também foi um automóvel que rompeu os limites da querência. A Dona Querubina tinha um. Eu vi. Eu escutei. Ela de noite acompanhava as novelas; ou, pela Rádio Municipal de Buenos Aires, se encantava com as óperas diretamente do Teatro Cólon. E a qualquer hora do dia ficava sabendo das notícias de longe, do Rio de Janeiro, do Getúlio.
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"Porteira Aberta", Barbosa Lessa
(Barbosa Lessa nasceu no dia 13 de Dezembro de 1929. Morreu em 2002.)
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