domingo, 31 de março de 2013
A ordem dos factores nem sempre é arbitrária
- O meu problema foi deitar as canas e apanhar os foguetes - explicava o maneta.
sábado, 30 de março de 2013
Este futebol precisa de uma limpeza
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Lembro-me de uma Páscoa
A memória é fácil - foi em 1974 e no sábado do Domingo de Ramos havia Festival da Canção. Era a grande noite, a verdadeira. Deixaram-nos ir para a sala da televisão, ouvimos as cantigas a preto e branco, apresentadas pela Glória de Matos e pelo Artur Agostinho, mas na hora da votação, a parte mais emocionante, os do orfeão, à voz de comando, desatámos a descer por umas escadas que nem sabíamos e, num lampo, chegámos à rua. Ia passar a procissão. Era a nossa vez de cantar. O estrado com degraus estava montado logo ao pé da porta, no cantinho do Largo de Santiago, defronte do Governo Civil. Cantámos o "Miserere", como mandava a tradição. E era digno de ser ouvido, minhas senhoras e meus senhores: nós cantávamos a cores.
Cantámos numa fervurinha mas como querubins, como querubins apressados, a procissão parou e passou, em nome do Pai do Filho e do Espírito Santo amém, e toca a galgar a escadaria (que já não era secreta) com o coração aos saltos, quem é que ganhou, mas afinal quem é que ganhou? Foi o Paulo de Carvalho, foi "E Depois do Adeus".
Ao contrário do que alguém possa ainda pensar, "E Depois do Adeus" é apenas uma notável balada de dor de corno, sem qualquer submensagem política. Muito bem cantada, isso sim, e com uma orquestração (do maestro José Calvário, também autor da música) do melhor que alguma vez se fez ou virá a fazer no nosso país.
Há quase 40 anos que ando com esta Páscoa no ouvido. E não por causa da bela canção do Paulo de Carvalho. É o "Miserere". O "Miserere" que ainda sei de cor e com o qual, volta e meia, puxando pelo lamentável baixo-barítono que sobrevive dentro de mim, atazano o orelhame do pessoal cá de casa.
As saudades fizeram-me isto: fui ontem à procura do meu "Miserere" no YouTube e não o encontrei. Quem sou eu para desgostar do sublime "Miserere" de Allegri, que está em todo o lado como Deus Nosso Senhor, mas - deu-me para aqui - ontem o "Miserere" bracarense é que me sabia...
Abril de 1974 foi um mês muito mal organizado em Portugal, e tomem 2013 como termo de comparação: o Festival da Canção realizou-se a 6, o Domingo de Ramos a 7 e a Páscoa a 14. Vistas bem as coisas, só o 25 de Abril é que calhou no dia certo.
Cantámos numa fervurinha mas como querubins, como querubins apressados, a procissão parou e passou, em nome do Pai do Filho e do Espírito Santo amém, e toca a galgar a escadaria (que já não era secreta) com o coração aos saltos, quem é que ganhou, mas afinal quem é que ganhou? Foi o Paulo de Carvalho, foi "E Depois do Adeus".
Ao contrário do que alguém possa ainda pensar, "E Depois do Adeus" é apenas uma notável balada de dor de corno, sem qualquer submensagem política. Muito bem cantada, isso sim, e com uma orquestração (do maestro José Calvário, também autor da música) do melhor que alguma vez se fez ou virá a fazer no nosso país.
Há quase 40 anos que ando com esta Páscoa no ouvido. E não por causa da bela canção do Paulo de Carvalho. É o "Miserere". O "Miserere" que ainda sei de cor e com o qual, volta e meia, puxando pelo lamentável baixo-barítono que sobrevive dentro de mim, atazano o orelhame do pessoal cá de casa.
As saudades fizeram-me isto: fui ontem à procura do meu "Miserere" no YouTube e não o encontrei. Quem sou eu para desgostar do sublime "Miserere" de Allegri, que está em todo o lado como Deus Nosso Senhor, mas - deu-me para aqui - ontem o "Miserere" bracarense é que me sabia...
Abril de 1974 foi um mês muito mal organizado em Portugal, e tomem 2013 como termo de comparação: o Festival da Canção realizou-se a 6, o Domingo de Ramos a 7 e a Páscoa a 14. Vistas bem as coisas, só o 25 de Abril é que calhou no dia certo.
sexta-feira, 29 de março de 2013
Eduardo Prado Coelho
A crença geral anterior era de que Santana Lopes não servia, bem como Cavaco, Durão e Guterres. Agora dizemos que Sócrates não serve.
E o que vier depois de Sócrates também não servirá para nada.
Por isso começo a suspeitar que o problema não está no trapalhão que foi Santana Lopes ou na farsa que é o Sócrates.
O problema está em nós. Nós como povo.
Nós como matéria-prima de um país.
Porque pertenço a um país onde a esperteza é a moeda sempre valorizada, tanto ou mais do que o euro.
Um país onde ficar rico da noite para o dia é uma virtude mais apreciada do que formar uma família baseada em valores e respeito aos demais.
"Precisa-se de matéria-prima para construir um país", Eduardo Prado Coelho, Público
(Eduardo Prado Coelho nasceu no dia 29 de Março de 1944. Morreu em 2007.)
E o que vier depois de Sócrates também não servirá para nada.
Por isso começo a suspeitar que o problema não está no trapalhão que foi Santana Lopes ou na farsa que é o Sócrates.
O problema está em nós. Nós como povo.
Nós como matéria-prima de um país.
Porque pertenço a um país onde a esperteza é a moeda sempre valorizada, tanto ou mais do que o euro.
Um país onde ficar rico da noite para o dia é uma virtude mais apreciada do que formar uma família baseada em valores e respeito aos demais.
"Precisa-se de matéria-prima para construir um país", Eduardo Prado Coelho, Público
(Eduardo Prado Coelho nasceu no dia 29 de Março de 1944. Morreu em 2007.)
quinta-feira, 28 de março de 2013
Alexandre Herculano
O sentimento poético está mais vivo e puro nas almas habituadas às harmonias campestres do que em nós, os habitantes das grandes cidades: é por isso que os camponeses acendem no estio as fogueiras festivas, usança que, como todos sabem, ofende o nosso profundíssimo e estupidíssimo senso-comum. Eu, por mim, que graças a Deus não tenho a honra de pertencer à classe desses que lidam, contentes de si, por se bambolearem no vértice da animalidade pura e que se chamam homens da vida positiva, digo que, por mais ardente que vá o estio, amo uma fogueira no arraial em véspera de festa, e aquele estourar e chispar dos foguetes que roçam rápidos pelo manto escuro da noite. Sei também que o consumir-se pólvora em esbombardear cidades e em alastrar de cadáveres um campo de batalha é coisa muito mais filosófica e sisuda do que desbaratá-la nas festividades supersticiosas do povo. Mas nem todos podemos ser filósofos, e eu tenho queda particular para a superstição.
E que quereis? O catolicismo é jovial: o seu culto, como o vulgo o entende, é ruidoso e risonho e brilhante e atractivo e sociável, e por isso debalde trabalharíeis para arrancá-lo ao povo, que vive e morre no meio do trabalho, dos cuidados, das privações. O domingo, o dia santo, o orago da paróquia são os seus dias de contentamento e repouso. Abençoado quem inventou os oragos! Pois as invocações da Virgem, e a advocacia dos santos?! Mil vezes bendito quem os multiplicou!
"O Pároco da Aldeia" ("Lendas e Narrativas"), Alexandre Herculano
(Alexandre Herculano nasceu no dia 28 de Março de 1810. Morreu em 1877.)
E que quereis? O catolicismo é jovial: o seu culto, como o vulgo o entende, é ruidoso e risonho e brilhante e atractivo e sociável, e por isso debalde trabalharíeis para arrancá-lo ao povo, que vive e morre no meio do trabalho, dos cuidados, das privações. O domingo, o dia santo, o orago da paróquia são os seus dias de contentamento e repouso. Abençoado quem inventou os oragos! Pois as invocações da Virgem, e a advocacia dos santos?! Mil vezes bendito quem os multiplicou!
"O Pároco da Aldeia" ("Lendas e Narrativas"), Alexandre Herculano
(Alexandre Herculano nasceu no dia 28 de Março de 1810. Morreu em 1877.)
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