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domingo, 23 de junho de 2024

Os dias inúteis

Embirro solenemente com a terminologia manga-de-alpaca dos "dias úteis" e das "horas de expediente". A que propósito é que os nanocrânios da inexplicável burocracia terreiro-paçal determinaram e mandaram publicar que os meus sábados, os meus domingos, os meus feriados e dias santos, as minhas férias, se eu as tivesse, ou as férias deles são dias, por assim dizer, imprestáveis para a Nação? Quem lhes deu semelhante poder?
Onde é que estas sumidades acéfalas foram buscar a peregrina ideia de que os meus melhores dias não prestam? Eu, que tenho a mania de ser antes pelo contrário, desrespeito-os, desobedeço-lhes e contrario-os com quanta força consigo, e gozo como um perdido nos fins-de-semana e correlativos. Por acaso até são os meus dias mais úteis, a minha mulher que diga.
Depois, chateiam-me as "horas de expediente", expressão tão prestável ao duplo sentido e que sempre me deixou com a pulga atrás da orelha. A minha dúvida é apenas esta, segredada pela pulga residente: será que, das 9 às 17, nas Finanças, no Registo, nas autarquias ou nos ministérios, o papel do funcionalismo passa por lançar mão de todos os truques e armadilhas possíveis e inimagináveis para nos infernizar a vida e sacar-nos tudo, até o cotão dos bolsos, a mando do Estado? Então mais vale ir lá bater à porta depois do fecho dos serviços. Pode ser que, sem a obrigação do expediente, sejamos enfim atendidos com honradez.

P.S. - Hoje é Dia das Nações Unidas para o Serviço Público.

quarta-feira, 23 de junho de 2021

Os dias inúteis

Embirro solenemente com a terminologia manga-de-alpaca dos "dias úteis" e das "horas de expediente". A que propósito é que os nanocrânios da burocracia terreiro-paçal determinaram e mandaram publicar que os meus sábados, os meus domingos, os meus feriados e dias santos, as minhas férias, se as tivesse, ou as férias deles são dias, por assim dizer, imprestáveis para a Nação? Quem lhes deu semelhante poder?
Eu, que tenho a mania de ser antes pelo contrário, desobedeço-lhes com quanta força consigo e gozo como um perdido nos fins-de-semana e correlativos. São os meus dias mais úteis.
Depois, chateiam-me as "horas de expediente", expressão tão prestável ao duplo sentido e que sempre me deixou com a pulga atrás da orelha. A minha dúvida é apenas esta, segredada pela pulga: será que, das 9 às 17, nas Finanças, nas autarquias ou nos ministérios, o papel do funcionalismo passa por lançar mão de todos os truques e armadilhas possíveis e inimagináveis para nos infernizar a vida e sacar-nos tudo, até o cotão dos bolsos, a mando do Estado? Então mais vale ir lá bater à porta depois do fecho dos serviços. Pode ser que, sem a obrigação do expediente, sejamos enfim atendidos com honradez.
Acredito que não estou sozinho nesta minha embirração. E por isso hoje apelo a que todos me sigam na desobediência. Apelo à revolta. Não vamos sair à rua para partir montras e pilhar iPods ou atirar pedras às cabeças dos polícias, nem vamos sequer cagar à porta dos políticos, como se recomendaria, mas combinamos o seguinte: peguemos nestes quatro dias "inúteis" que temos pela frente a façamo-nos felizes como se o fim do mundo fosse para a semana. Façamo-nos felizes, antes que a felicidade pague imposto ou seja proibida por decreto.

P.S. - Publicado originalmente no dia 12 de Agosto de 2011. Hoje, 23 de Junho, é Dia das Nações Unidas para o Serviço Público.

Expediente de horário

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sexta-feira, 6 de julho de 2012

Pedimos desculpa por esta interrupção

O roubo dos subsídios de férias e de Natal aos funcionários públicos e pensionistas é inconstitucional, mas este ano nem por isso. Um vou ali e venho já do Estado de direito, em nome da troika, da execução orçamental e da meta do défice. E se défice não for cumprido, o dinheiro vai ser devolvido?

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Já começou

Um grupo indeterminado de pessoas atacou ontem o balcão da Segurança Social na Loja do Cidadão da Torre das Antas, no Porto. Não foi um assalto. Eram utentes, estavam revoltados com o atendimento naquele serviço e destruíram a pontapé uma divisória em vidro. O Sindicato dos Trabalhadores em Funções Públicas e Sociais do Norte garante que este não é um caso isolado e está preocupado com a segurança dos funcionários daqueles serviços. Na verdade, as ameaças de agressões a trabalhadores com, por exemplo, canadianas e guarda-chuvas são já o pão nosso de cada dia, havendo mesmo situações em que os clientes tentaram saltar o balcão para ajustar contas com os funcionários.
Ontem também, mas em Queluz, uma dezena de pessoas, quase todas idosas, forçou a entrada no centro de saúde, levando o segurança à frente, em protesto contra a falta de médicos de família no concelho.
São os primeiros sinais do que se adivinhava. O povo não aguenta, vai rebentar. Foi previsto aqui, no Tarrenego!, e decerto as mentes dos mentecaptos que nos desgraçam a partir de Lisboa também já lá tinham chegado. Mas isto ainda não é nada. Apenas começou. Vai piorar e muito.
O desemprego, os cortes nos salários e nas reformas, a fome, a doença sem assistência, a falência, o despejo, o desprezo, a desesperança são sementes de ódio e insensatez que este Governo anda por aí a semear como se não fosse nada com ele. Diz apenas, o Governo mandado, que está a acabar um serviço que outros começaram.
Rico serviço. O serviço de nos tornar a todos pobres, para "salvar o País". País que, hoje em dia, quer dizer Eduardo Catroga, Celeste Cardona, Braga de Macedo ou Manuel Frexes, como antes queria dizer Armando Vara ou José Penedos.
O povo não pode mais e vai rebentar na rua, isso é certo. Conviria é que afinasse a pontaria. Porque ontem, no Porto e em Queluz, a ira popular errou no alvo. Porque os funcionários públicos (nas lojas do cidadão, nos centros de saúde, nos hospitais, nas câmaras ou nas juntas de freguesia) não fazem leis - cumprem-nas. Estamos todos no mesmo barco, que se afunda em alto mar. Que não seja um simples balcão a separar-nos. Os funcionários públicos também são vítimas das mesmas políticas paridas da barriga de aluguer que é o Governo Relvas-Passos-Portas e que nos desgraçam a vida. Pior: esta troika de trazer por casa, ao mesmo tempo que nos empobrece a todos, vai cinicamente retirando à Segurança Social os poucos meios de que ela ainda dispunha para nos acudir. É o serviço completo. É a completa filhadaputice.