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segunda-feira, 14 de junho de 2021

A guerra do Solnado

Em Fevereiro de 2016 o Governo cubano devolveu aos Estados Unidos um míssil americano que lhe fora enviado por engano em 2014. A sério.

segunda-feira, 6 de março de 2017

As 10 caras mais emblemáticas da RTP (3)

Carlos Cruz, Júlio Isidro, Fernando Pessa, Maria Elisa, Fialho Gouveia, José Rodrigues dos Santos, Raul Solnado, Judite de Sousa, José Hermano Saraiva e Vitorino Nemésio. Há dez anos, quando a RTP e os portugueses celebravam as suas bodas de ouro, estas foram consideradas "as 10 caras mais emblemáticas da RTP", numa espécie que ranking que me mandaram fazer para a revista do jornal 24horas. A escolha não foi minha - quem era (sou) eu para tanto? -, limitei-me a coligir opiniões eventualmente entendidas.
Os eleitos: personalidades da informação à comédia, da cultura ao entretenimento. Os rostos de quem verdadeiramente fez história em Portugal, sendo-nos de casa, gente das nossas vidas, desde os tempos a preto e branco. E não sei se hoje, nos 60 anos da televisão pública e tão a cores, a selecção poderia ser diferente...
Vamos hoje aos quatro que faltam.

Foto VIP
Raul Solnado
Verdadeiro artista da rádio, TV e disco, Raul Solnado mostrou todo o seu esplendor de humorista, actor e apresentador em programas de colecção como Zip Zip, com Carlos Cruz e Fialho Gouveia, A Visita da Cornélia e O Resto São Cantigas.
O Zip, em 1969, constitui-se como uma autêntica pedrada no charco do cinzento panorama televisivo português.
Representados por Solnado, bonecos como "O Homem da Bandeira", "O Badaleiro" ou "Fritz, o Turista Alemão" anunciaram uma nova maneira de fazer humor em Portugal.
Em 2007, Emídio Rangel colocava Raul Solnado na restrita lista das "figuras incontornáveis que fizeram, ao longo dos anos, a imagem da RTP". Solnado teve também na RTP uma temporada de pequenas crónicas, no final das quais costumava deixar uma enternecedora despedida aos seus telespectadores, que éramos todos: "E façam o favor de ser felizes"...
Raul Solnado morreu em 2009, aos 79 anos.

Foto PARANÓIAS
Judite de Sousa
"Sou a jornalista mais antiga da RTP". Foi assim que Judite de Sousa se me definiu, em 2007, recordando uma carreira que começara há 25 anos, tinha ela 18. "A minha história profissional apenas se cruza com a RTP e a história da minha vida acaba por ter um percurso coincidente. Fiz-me jornalista e mulher nesta casa", dizia-me então.
Pivô de telejornais ou de especiais informativos, ao tempo anfitriã das Notas Soltas de António Vitorino, às segundas-feiras, Judite de Sousa contava que se sentia como peixe na água na sua "Grande Entrevista", às quintas, onde terçava armas com os maiores nomes de Portugal e do mundo. "É um programa que tem muita visibilidade, que está em antena há cerca de dez anos e por onde passou quase toda a gente", fazia notar. Mas a sua grande paixão era a reportagem. Como quando, em 1994, esteve na fronteira do Zaire com o Ruanda. "Todos os dias tropeçava em dezenas de mortos. É uma imagem que me acompanha e acompanhará para sempre".
Judite de Sousa deixou a RTP em 2011. Está na TVI.

Foto RTP
José Hermano Saraiva
O humorista Nilton dizia-me que "nem o Google sabia tanto de História" como José Hermano Saraiva, esse fenómeno de popularidade em Portugal e em todo o mundo onde se falasse e ouvisse português. Os programas de Hermano Saraiva na RTP - O Tempo e a Alma, A Alma e a Gente e Horizontes da Memória - foram, durante anos e anos, a missinha das oito de muito e bom povo.
Jurista de formação e historiador por vocação, ex-ministro de Salazar e antigo embaixador de Portugal no Brasil, José Hermano Saraiva era uma figura polémica. Os que não gostavam dele criticavam-lhe uma certa visão fantasista da História e o facto de não possuir qualquer grau académico superior nesta área do saber. Os seus defensores preferiam enfatizar as suas inegáveis capacidades de comunicador e de divulgador cultural junto das camadas menos instruídas da população. Alheio a estas guerras do alecrim e da manjerona, Saraiva continuava a ser uma presença assídua, entusiasta e apareciada na TV. Ia nos 87 anos, mas não foi ainda aí que parou...
José Hernano Saraiva morreu em 2012, com 92 anos.

Foto COMUM
Vitorino Nemésio
É um dos heróis dos gloriosos tempos do preto e branco. Professor, ficcionista, poeta, cronista, ensaísta, biógrafo, historiador, jornalista e investigador, Vitorino Nemésio revelou-se também um comunicador televisivo de mão-cheia.
De 1969 a 1975, num estilo muito próprio, quase de conversa de café, o seu Se Bem me Lembro tornou-se um êxito popular junto de um público socialmente transversal e que o ouvia deliciado. A cultura e o conhecimento entravam assim pelas casas dentro, de uma forma simples, cativante e com sotaque ilhéu.
No tempo em que não havia medições de audiências, como me fazia notar Emídio Rangel, Nemésio brilhava sobretudo pelo saber e pelo saber dizer, muito mais do que pela (inexistente) qualidade técnica da sua presença no pequeno ecrã. "É daquelas caras que marcaram uma época na RTP. Faz parte do percurso histórico da estação", vincava Rangel.
Natural da Terceira, Açores, Vitorino Nemésio morreu no dia 20 de Fevereiro de 1978, em Lisboa. Contava 77 anos de idade. Quando ao excelentíssimo Se Bem me Lembro, desapareceu até da RTP Memória...

(Fim)

domingo, 14 de fevereiro de 2016

A guerra do Raul Solnado, versão EUA-Cuba

O Governo cubano devolveu aos Estados Unidos um "míssil americano que lhe foi enviado por engano" em 2014. Se acham que eu estou outra vez no gozo, tirem a coisa a limpo no Público.

P.S.: Eu sei que a rapaziada não sabe o que é a guerra do Solnado. Portanto, é isto, aqui com introdução, parece-me, do Nuno Markl, e esse a rapaziada sabe quem é.

quarta-feira, 12 de março de 2014

Ligue-me quando estiver noutro jornal

Trabalhar no meu jornal era obra desenganada. As pessoas que contactávamos sabiam que, se falassem, tudo o que dissessem podia ser usado contra elas. (Como na América e nos filmes.) E geralmente era. Nem que lhes telefonássemos apenas para perguntar as horas, havia de sair dali cagada da grossa. Nós depois ligávamos a ventoinha. O 24horas era assim, fugia-lhe o pé para a escandaleira. Se não houvesse sangue, os meus chefes tratavam disso. Para os mais distraídos perceberem: estão a ver como são agora todos os jornais? Pronto, o meu jornal é que começou.
Portanto tínhamos muito poucas "fontes". As pessoas minimamente informadas fugiam de conversar connosco como o diabo foge da cruz. Umas tinham vergonha na cara ou medo e outras desprezavam-nos simplesmente. Umas e outras sabiam que as nossas perguntas tinham quase sempre volta de foda. Se desse jeito, pedíamos a A para falar de B, para a seguir metermos A e B no mesmo saco e malharmos nos dois como se fossem um só. O jornal escolhia os seus alvos e gastava a pólvora toda (seca, por norma) enquanto a coisa vendesse. Mas é preciso que se diga: isto de eleger "inimigos" e disparar até cair para o lado foi uma herança recebida de Paulo Portas, do tempo em que o actual vice-primeiro-ministro era director do semanário Independente e fazia a vida negra ao Cavaco primeiro-ministro e respectivos ajudantes no Governo. O das feiras é que inventou esta receita de sucesso e gabava-se disso. O seu a seu dono.
No meu jornal, Lisboa encarregava-se de fechar as portas às quais nos mandava depois bater, aqui do Porto. Levávamos quase sempre com a porta no nariz. As pessoas respondiam-nos torto, muito torto, era o pão-nosso de cada dia. Uma vez calhou-me o Sócrates, nas vésperas de ganhar as primeiras eleições. Lembram-se do génio do gajo? Pois é. Foi uma discussão das antigas, mas essa história merece prefácio à parte e hei-de contá-la quando os linchadores de aviário sossegarem a parreca e largarem os tomates ao homem. Os outros malcriados não merecem que lhes diga os nomes.
Claro que a grosseria não era geral. Havia também pessoas que muito simplesmente se recusavam a falar-nos mas sem baixarem o nível. O bom do Raul Solnado (1929-2009), Luís Represas, o actor José Pedro Gomes, são dos que me lembro agora que escrevo. Nenhum dos três me conhecia, mas, depois de me ouvirem educadamente, foram igualmente atenciosos na nega. Disseram-me: "Desculpe, Hernâni, não é nada de pessoal consigo, portanto ligue-me quando estiver noutro jornal. Então conversaremos do que quiser". Agradeci sinceramente a franqueza e a urbanidade. E pedi desculpa eu. Eu sabia que eles tinham razões.
Era vida difícil. Num jornal que precisava da "opinião" dos "famosos" sobre tudo e sobre nada. A propósito da Marisa Cruz nua num filme ou por causa do Fidel Castro que passou a pasta ao irmão. A minha sorte é que acabava sempre por encontrar uma alma caridosa que me ajudava a ganhar o dia. Gente que sabia o que era o 24horas mas que, fosse por que razão fosse, nunca me deixou ficar pendurado: gente como Marcelo Rebelo de Sousa e Júlio Magalhães, os empresários e portistas Pôncio Monteiro (1940-2010), Manuel Serrão e Rui Moreira, hoje presidente da Câmara do Porto, os estilistas Miguel Vieira, Katty Xiomara, Luísa Pinto e Gio Rodrigues, os juízes Rui Rangel e Eurico Reis, o fiscalista Saldanha Sanches (1944-2010), Valentim Loureiro (o meu cromo da sorte), Júlio Isidro e Joaquim Letria, que também eram da casa, Tozé Brito, Luís Filipe Barros, José Cid, o humorista Nilton, Octávio Machado, Francisco José Viegas, Manuel Luís Goucha, José Carlos Malato, Jorge Gabriel, Hélio Loureiro, Paulo Teixeira Pinto e mais uns poucos de que injustamente me estou a esquecer. Eram sempre os mesmos e a minha tábua de salvação. O meu piquete de emergência.
Cada qual lá teria os seus motivos. Alguns, tenho a certeza, era mesmo uma questão de bondade. Fiquei agradecido a todos. De vez em quando pago-lhes aqui com umas ripeiradas. É este maldito 24horismo que não há maneira de me passar.

(Texto escrito e publicado no dia 31 de Março de 2012, só actualizei os cargos ao Portas e ao Rui Moreira. O jornal 24horas nasceu em 1998 e morreu oficialmente em 2010, um ano depois de os seus alegados responsáveis terem liquidado a sangue frio a Redacção do Porto. Podem limpar as mãos à parede. Mas tinha piada o pasquim, que até chegou a ser bem feito, e é a bíblia do jornalismo que hoje se faz em Portugal.)

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Um supositório para todos

Depois da cagada que fez no Governo, o PS de Oposição quer limpar as mãos à parede apresentando na Assembleia da República uma série de medidas exemplares e impactantes, numa demanda de poupança hipócrita que começa por meter nos eixos o próprio Parlamento mas que visa salvar o País inteiro e arredores. E é hoje mesmo que os socialistas, com o deputado Pedro Farmhouse a porta-vozar, lançam a primeira iniciativa do seu pacote regenerador, propondo que a Comissão Parlamentar do Ambiente passe a consumir apenas água da torneira. Não é de crânio?
O PS teve acesso aos números: na AR, só entre Janeiro e Novembro de 2010, foram consumidas 45.288 garrafas de água de 0,33 l, assim como 1.986 garrafas de 1,5 litros, a que se juntam 930 garrafões de 18,9 litros e 78.200 copos de plástico. No total, 35.501 litros de água mineral, a uma média de 150 litros por dia, e 125.474 garrafas e copos de plástico para o lixo, com um custo de mais de oito mil euros para o Parlamento. E o PS concluiu: mais vale manter 230 burros a pão-de-ló!
Em conformidade, os socialistas pediram orçamentos a doceiros amigos das zonas de Ovar e Margaride, saía muito mais caro mas mesmo assim iam avançar, até que uma alma caridosa lhes explicou, inclusive com desenhos, que as compras agora são com o PSD. A ideia da água da torneira aparece, portanto, como retaliação.
E já há outras engatilhadas. Nos próximos dias, o PS vai propor que os deputados da Comissão de Economia e Obras Públicas passem a deslocar-se em skate ou trotinete, abrindo somente excepção para os parlamentares mais idosos, que poderão fazer-se transportar em carrinhos de rolamentos. Os socialistas querem também que todos os elementos da Comissão de Defesa que tenham licença de porte de arma usem apenas fisga.
De alcance mais profundo, porém, é a proposta do PS para a Comissão de Saúde. Aqui, os socialistas exigem que os deputados, em caso de doença e necessitando de tratamento, passem a usar um supositório colectivo e reutilizável, atado com uma guita, como a bala do Raul Solnado. Acho muito bem!