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quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

António Alçada Baptista 4

- Meu amor, isto parece absurdo mas é mesmo assim: quanto mais as pessoas são ricas por dentro, mais sentem a necessidade de reivindicar uma vida que esteja de acordo com aquilo que sentem, maior é a sua incomodidade e a sua insatisfação. A vida para estas pessoas é mais difícil e mais dolorosa embora tenha depois grandes compensações. As respostas que queremos não estão naquilo que os outros vivem e cada vez se encontram menos interlocutores para a nossa inquietação. Mas não te aflijas: os valores que nos deram não nos satisfazem e andamos à procura daquilo que os poderá substituir. Não creio que seja possível fazer grandes mudanças sem sofrimento, por isso temos é que procurar resistir com a serenidade que pudermos.

"O Riso de Deus", António Alçada Baptista

(António Alçada Baptista nasceu no dia 29 de Janeiro de 1927. Morreu em 2008.)

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

António Alçada Baptista 3

Pus-me a pensar nas minhas procuras e mais em todas as outras que me despertaram as buscas dos homens de Bangalore, Imaginei o mundo como o tal imenso formigueiro, com dois de cada dez homens, para um lado e para o outro, a ver se encontram o grão para comer na sua eternidade. Imaginei um Deus com um enorme sorriso - aquele sorriso da Rita ampliado à dimensão do tempo da história, desde o homem das cavernas até ao dia em que se realizasse o tal projecto pressentido. Disse-lhe:
- Rita: eu acho que Deus tem assim um sorriso como o teu quando nos vê amargurados...
- E eu acho que ele se ri mas é daqueles que andam por aí, muito contentes e convencidos, a fazerem o mundo como está...

Depois, ainda com o mesmo sorriso, levantou a roupa da cama, deitou-se e disse-me:
- Vá. Vem para a nossa Arca de Noé...

"O Riso de Deus", António Alçada Baptista

(António Alçada Baptista nasceu no dia 29 de Janeiro de 1927. Morreu em 2008.)

domingo, 29 de janeiro de 2017

António Alçada Baptista

A letra de Deus nem sempre á decifrável e ninguém conhece a língua em que escreveu a alma humana. Às vezes, a gente julga que as palavras chegam para esclarecer a vida mas, hoje, estou certo de que muitas coisas permanecem por detrás de palavras que ainda não foram feitas e outras, por detrás de palavras de que perdemos o uso. (...) Tudo me leva a crer que as marcações que nos deram para o desempenho da vida passam ao lado do caminho por onde os nossos afectos continuam a fluir conforme o que está escrito no mapa oculto do ser humano. Pressinto que continuamos fora do essencial e que as razões das circunstâncias - que, muitas vezes, são poderosas e reais - só servem para nos afastar dos enigmas que estão à frente das coisas e que nos caberia decifrar. Porque, algumas vezes, até parece que a simplicidade emana do andamento da vida e que bastaria um pequeno gesto de espírito para passarmos para o lado de lá de tantas

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A letra de Deus nem sempre é decifrável e ninguém conhece a língua em que escreveu a alma humana. Às vezes a gente julga que as palavras chegam para esclarecer a vida, mas hoje estou certo de que muitas coisas permanecem por detrás de palavras que ainda não foram feitas e outras por detrás de palavras de que perdemos o uso. 
Quando penso na minha vida e nas circunstâncias atribuladas do tempo que me foi dado viver, pressinto o que será a incomodidade do bêbedo no dia seguinte ao da sua bebedeira, porque nos encharcámos de razão e esperança terrena e tudo ficou aquém de todas as promessas: tudo mais pequenino e mais cruel. Pior: é uma sensação de ressaca de bêbedo com uma certa forma de orfandade: um desamparo perante a perda da herança prometida no texto fundador que fixou o projecto da nossa condição, como se, ao decretar a morte de Deus, ele tivesse levado consigo todos os seus bens. É isso que me leva a olhar para tudo o que vivi como se fosse um ensaio falhado duma harmonia possível.

"O Riso de Deus", António Alçada Baptista

(António Alçada Baptista nasceu no dia 29 de Janeiro de 1927. Morreu em 2008.)