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terça-feira, 9 de março de 2021

Manuel Resende 3

Dentes portugueses

Adeus, adeus, meus dentes! Só mais outro dia,
E vai-se acabar todo o conflito entre nós,
Divórcio que a dentista estrangeira oficia
Num desconsentimento total e feroz.

Essa fidelidade tão à portuguesa,
Feita de tanto golpe baixo, tantas fintas,
Com que me temperastes o prazer da mesa,
Fruto de fero amor, tão vero e troca-tintas,

Ficai com ela, que eu dispenso despedidas.
A culpa é toda minha, devo confessar
Que não tinha dinheiro e descurei medidas

Evidentes no plano mais elementar.
O remorso católico arde-me feridas
No sítio que Calvino gosta de brocar.

"O Mundo Clamoroso, Ainda", Manuel Resende

(Manuel Resende nasceu em 1948. Morreu em 2020.)

quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

Manuel Resende (1948-2020)

Na auto-estrada

Ainda posso perceber
Esses miúdos nos viadutos
Que atiram pedras aos carros da auto-estrada.
É um gesto eficaz
Que matou alguns caixeiros-viajantes,
E até famílias inteiras,
É pura malvadez
E o mundo precisa de pureza.


Mas como se justificam esses que nos acenam
Com alegria ao passarmos? 


"O Mundo Clamoroso, Ainda", Manuel Resende

(Manuel Resende nasceu em 1948. Morreu hoje.)