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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

Daniel Filipe 5

Morna

É já saudade a vela, além.
Serena, a música esvoaça
na tarde calma, plúmbea, baça,
onde a tristeza se contém.

os pares deslizam embrulhados
de sonhos em dobras inefáveis.

(Ó deuses lúbricos, ousáveis
erguer, então, na tarde morta
a eterna ronda de pecados
que ia bater de porta em porta!)

E ao ritmo túmido do canto
na solidão rubra da messe,
deixo correr o sal e o pranto
- subtil e magoado encanto
que o rosto núbil me envelhece.

"A Ilha e a Solidão", Daniel Filipe

(Daniel Filipe nasceu no dia 1 de Fevereiro de 1925. Morreu em 1964.)

sábado, 18 de julho de 2020

Manuel Ferreira 5

Na véspera, quem dormia? O sol a romper, e os tambores de todo o lado, como se fosse bicho endiabrado, o povo numa impaciência desabalada. Tambores de Salamanza, de Pé de Verde, de Monte, de Lazareto. De todo o lado. Havia mesmo tocador de tambor que era um demónio. Por exemplo, nhô Amazo. Um homem que pedia comida porque não tinha trabalho mas quando lhe davam trabalho dizia que não tinha tempo nem modo. Pois quando nhô Amazo se agarrava ao tambor ou se debruçava sobre ele tocando hora e hora, aquele mundão de gente quem o segurava? Ali na Ribeira Julião mandava ele. Vocês sabem, tambor bem tocado, bem batido mete-se no corpo da gente e arranca a gente da engoneação.

"Morna", Manuel Ferreira

(Manuel Ferreira nasceu no dia 18 de Julho de 1917. Morreu em 1992.)

quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

Manuel Ferreira 4

"Nha gente, fiquem sabendo, festa dagora não presta para nada. Mesmo nada. Noutro tempo era sabe de-mundo. tambor sem dança é mesmo que nada. Tambor quer-se acompanhado mulher còlando mulher batendo direito e com força."
Em boa verdade, os bons tempos de coladeira - aonde já vão? Aonde já vão eles, os tempos grandes de coladeira, gente? Hoje os tambores ecoam os tambores lançam a fúria pelos esconsos da cidade, em dia de São João, e lá no centro da ilha montuosa, nas terras de Manel Cantante, aí na deserta planície, fechada pelos montes, atiram à desgarrada, quentes bárbaros, uma toada de batuque degradado mas vivaz. Um grito desesperado de quem anda no mundo à procura da sua terra em busca da sua gente.
O Administrador proibiu a dança. E que é tambor sem dança, se ela nasceu com o tambor? Pergunta, e bem, nhô João. Só  mesmo um tipo veio lá de longe podia ter tamanha salienteza. Só mesmo um estranho. O que é tambor sem coladeira?

"Morna", Manuel Ferreira

(Manuel Ferreira nasceu no dia 18 de Julho de 1917. Morreu em 1992.)

quinta-feira, 18 de julho de 2019

Manuel Ferreira 3

De manhã a sol pôr, e pela noite dentro, andava tudo num sobressalto. Os tambores rufavam num rumor de luta que repercutia pelos subúrbios e se perdia para lá das redondezas da cidade. O impulso a loucura vinham daí. Do anúncio madrugador do troar ininterrupto que galgava de lés a lés e sobre a noitinha galvanizava novos e velhos, sobretudo as mulheres que pulavam gritavam felizes e azougadas.
Era. Quando em dias de São João os tambores irrompiam, de madrugada, dos acumes do Mindelo, vibrando pelos recantos da cidade, o povo ficava em pé de guerra.
Isto nos tempos antigos. Ou mais propriamente, como vão ter ocasião de ver, nos tempos da mocidade de nhô João. No tempo desse velho tão velho que pode contar histórias inverosímeis que fala de gente que muitos já não conhecem porque ele é dos mais velhos se não o mais velho de todos os velhos ali da Ribeira Bota.

"Morna", Manuel Ferreira

(Manuel Ferreira nasceu no dia 18 de Julho de 1917. Morreu em 1992.)

domingo, 9 de dezembro de 2018

António Nunes 3

Morna

As mesmas casas... as mesmas ruas...
O mesmo largo...
Só os rostos dos homens é que não são os mesmos
e, ébrios, os braços pendem, os homens tombam...

Som de violino escapando-se da casa térrea.
Cheiro a petróleo e a fumo.
Quêréna treme os dedos sobre as cordas,
Olhos vidrados berram por mais grog!

Titina sente-se frágil sob os braços de Armando.

A morna traz ao corpo a lassidão e o sonho,
Como a lua pondo sombras em coisas impossíveis...

"Poemas de Longe", António Nunes

(António Nunes nasceu no dia 9 de Dezembro de 1917. Morreu em 1951.)

quarta-feira, 18 de julho de 2018

Manuel Ferreira 2

Tudo isto já lá vai. Esse Administrador que manda na ilha proibiu a coladeira. E o povo nesse dia bebe grogue come cachupa peixe frito empastado de poeira mordiscado das moscas chalaceia fornica tonto azougado embriga-se briga não trabalha dança a morna ouve tambor mas não pode dançar a coladeira. Dia de São João vem aí - que adianta?
O Administrador matou o povo. O povo gosta de coladeira como se fosse comida bebida coisa sagrada da vida. O povo gosta e sente a falta. O povo agora vai sentindo falta de muita coisa que lhe vão tirando, sim senhor.

"Morna", Manuel Ferreira

(Manuel Ferreira nasceu no dia 18 de Julho de 1917. Morreu em 1992.)