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quarta-feira, 17 de abril de 2019

Max Nunes 5

Freguês: Garçom, quem botou manteiga neste pão?
Garçom: Fui eu.
Freguês: E quem foi que tirou?

Max Nunes

(Max Nunes nasceu no dia 17 de Abril de 1922. Morreu em 2014.)

terça-feira, 17 de abril de 2018

Max Nunes 4

Homeopoesia

Não sei se a homeopatia cura ou não. Mas acho lindos os nomes de seus remédios. Eis alguns, colhidos no velho Guia Homeopático de Almeida Cardoso, de 1938.
Bórax - Lembra nome de âncora de telejornal, mas resolve a falta do leite materno.
Briônia - Uma rainha da antiga Babilónia? Não. É um remédio para problemas da bexiga e suores noturnos.
Dulcâmara - Para dores reumáticas ou nome de mucama em filme brasileiro de época.
Gelsemium - Remédio para senhoras histéricas. Cairia igualmente bem como nome de parlamentar corrupto.
Ipecacuanha - Serve para bronquite catarral ou para batizar cidade do interior paulista.
Jucaína - Remédio que não informam muito bem para o que serve, mas cujo nome seria ideal para índia de novela.
Lobélia - Poderia ser o título de um balé do Bolshoi com coreografia de Roland Peti, mas também cura sarna.
Stramonium - Ficaria melhor como nome de compositor russo, mas é remédio para insônia.

Uma certeza: enquanto houver homeopatia, não vai faltar poesia.

Max Nunes

(Max Nunes nasceu no dia 17 de Abril de 1922. Morreu em 2014.)

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Max Nunes 3

- Era tão azarado que, se quisesse achar uma agulha no palheiro, era só sentar-se nele.
- A prova de que o balé dá sono na platéia é que os artistas entram sempre na ponta dos pés.
- Não é que as moças de hoje sejam mais bonitas. É que as de ontem já deixaram de ser.
- O caqui não passa de um tomate diabético.
- Quem pede a palavra nem sempre a devolve em condições.
- No Nordeste, a seca é tão braba que são as árvores que correm atrás dos cachorros.
- O jipe é o maior esforço feito pelo homem para chegar à mula mecanizada.
- O casamento é como a pessoa que quer tomar um copo de leite e compra uma vaca.
- O casamento é o único jogo que acaba mal sem que ninguém ponha a culpa no juiz.
- Os homens casados se dividem em três categorias: os polígamos, os bígamos e os chateados.
- Com as ruas esburacadas desse jeito, é preciso ser muito virtuoso para não dar um mau passo.
- O difícil de confundir alhos com bugalhos é que ninguém sabe o que são bugalhos.
- O motivo pelo qual o povo não consegue mais comer de garfo e faca é que há muita gente comendo de colher...
- Já tinha oito anos e não bebia uísque, não dançava rock e não fumava maconha. Era um retardado mental.
- Democracia é aquele regime pelo qual qualquer cidadão pode ser presidente da República, menos eu e você, naturalmente.
- Duplicata é uma coisa que sempre vence. Nunca empata.
- Houve um tempo no Brasil em que ninguém tinha dinheiro. É hoje.
- Há casais que se detestam tanto que não se separam só pra um não dar esse prazer ao outro.
- O eleitor, obrigatoriamente, tem que ser qualificado. O candidato, não.
- Personalidade é aquilo que uma pessoa tem quando não está precisando do emprego.
- Algumas mulheres são tão feias que deviam processar a natureza por perdas e danos.
- Quando a mãe informou aos filhos que ia conferir um prêmio ao mais obediente da casa, todos gritaram ao mesmo tempo: "É o papai!".
- Ah, o que seria do governo se o povo pudesse falar pela boca do estômago!
- Já foi o tempo em que a união fazia a força. Hoje a União cobra os impostos e quem faz a força é  você.
- A prova de que tudo subiu de preço é que até uma coroa já é cara.
- Uma camisa nova tem sempre um alfinete além daqueles que você já tirou.
- Opinião é uma coisa que a gente dá e, às vezes, apanha.
- Na praia é que a gente nota que esse negócio de vacina pega mesmo.

"Uma Pulga na Camisola - O Máximo de Max Nunes", Max Nunes

(Max Nunes nasceu no dia 17 de Abril de 1922. Morreu em 2014.)

domingo, 17 de abril de 2016

Max Nunes 2

Se...

Um dos poemas mais conhecidos é "Se...", de Rudyard Kipling, em que um pai diz a um filho o que é necessário para ele se tornar um homem. Mas isso foi em 1910. Como seria hoje o homem de Kyplinkg?

Meu filho:
Se és capaz de usar uma peruca
De caracóis dourados sobre a cuca
E manter a aparência dos esnobes
Ao dormir com uma touca sobre os bobs;
Se és capaz de rodar uma bolsinha,
Segurando-a com charme, pela alça,
Em lugar de levar a carteirinha
E o dinheiro guardados em tua calça;
Se és capaz de levar sobre o pescoço
Colares e medalhas como adornos
Usar calças bem justa e bordadas,
Que acentuem por trás os teus contornos;
Se és capaz de vestir essas camisas
Com frases pelas costas e abdômen
E, corajoso, nem te ruborizas,
Então, sim, filho meu,
Serás um homem.

Max Nunes

(Max Nunes nasceu no dia 17 de Abril de 1922. Morreu em 2014.)

sexta-feira, 17 de abril de 2015

Max Nunes

A galinha fuzilada

Naquele tempo era coronel. Hoje, passados que são uns anos, deve ser muito mais. Declaro, em seu favor, que foi o militar mais militar que conheci. Morava em Jacarepaguá, em frente à minha casa, e sua família, muito numerosa, era sua tropa, perfeitamente instruída e disciplinada. Na rua, mesmo em passeio, andavam todos de passo certo, mulher, filhos e cachorro. Seu ardor patriótico fazia-o acordar às cinco da manhã e, no banheiro, cantava todos os hinos que conhecia. Apenas reservava o Hino Nacional, com introdução e tudo, para os dias santos e feriados. A farda era seu invólucro: nunca o vi na rua à paisana.
Esperava o bonde perfeitamente empertigado, quase em posição de sentido, e continência, apenas para as senhoras e superiores. A roupa (a farda) era sempre impecável, de vinco firme, com botas que poderiam servir de espelhos. No tempo da guerra, que acompanhou todinha pelo Repórter Esso, redobrou de austeridade. Aí já não cumprimentava os vizinhos, e as continências às senhoras, como tudo na época, foram drasticamente racionadas. No bairro, todos o respeitavam e não havia ladrão que se atrevesse a passar na esquina daquela rua. As filhas é que não olhavam com bons olhos aquele excesso de austeridade. Embora jeitosas, corriam o risco de ficar solteiras, pois nenhum mancebo se atrevia a aproximar-se da casa, ou melhor, do quartel.
Tinha um hobby: criar galinhas. Possuía umas cinqüenta cabeças, algumas de boa raça. Todo domingo, num espetáculo inédito, soltava as galinhas na rua e, de pijama e cinturão - com um bruto revólver do lado -, ficava vigiando o piquenique. Passados uns trinta minutos, bastava que fizesse um "Xô, galinha" para que as cinqüenta, uma a uma, fossem voltando para o jardim da casa e, finalmente, ao galinheiro. Era uma prova eloqüente de que a disciplina naquela casa era igual para todos.
Até que um domingo não foi bem assim. Lembro-me bem de uma galinha preta que não atendeu ao primeiro "xô", provocando, com esse ato de rebeldia, uma repetição do mesmo, em tom menos amigo. Ocorreu uma nova desobediência, seguida de novo "xô".
Mas a doida, naturalmente julgando-se uma galinha civil, novamente desatendeu a ordem. Considerando-a insubmissa, e passível de crime militar, uma vez que estávamos em guerra, o valente coronel sacou de sua arma e fez partir um balaço que deve ter ido direto ao coração da galinha. Que nem estrebuchou. Ficou o dia inteiro por ali mesmo, gelando o sangue, até que foi encontrada por um mulato que, à noite, na encruzilhada, ao lado do corpo de penas pretas, fez acender sete velas de cera. Até hoje, porém, não se sabe se foi macumba ou velório. E a única testemunha do crime foi este seu criado que, a respeito, nunca prestou declarações, mesmo porque, até agora, nada lhe foi perguntado.

Max Nunes

(Max Nunes nasceu no dia 17 de Abril de 1922. Morreu em 2014.)