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sexta-feira, 13 de março de 2026

Esplanada, de Manuel António Pina

Foto Hernâni Von Doellinger

Esplanada

Naquele tempo falavas muito de perfeição,
da prosa dos versos irregulares
onde cantam os sentimentos irregulares.
Envelhecemos todos, tu, eu e a discussão,

agora lês saramagos & coisas assim
e eu já não fico a ouvir-te como antigamente
olhando as tuas pernas que subiam lentamente
até um sítio escuro dentro de mim.

O café agora é um banco, tu professora do liceu;
Bob Dylan encheu-se de dinheiro, o Che morreu.
Agora as tuas pernas são coisas úteis, andantes,
e não caminhos por andar como dantes. 


Manuel António Pina, "Um Sítio Onde Pousar a Cabeça"

quinta-feira, 1 de julho de 2021

As palavras dormem talvez

Transpôs a porta sagrada, procurou instintivamente à direita a piazinha de água-benta que não encontrou, genuflectiu e benzeu-se num silêncio e num respeito que só vistos, caminhou lentamente até à estante, no mais profundo recolhimento, pegou no livro como quem pega em asa de borboleta ferida, afagou-o, ao livro, abriu-o como que a medo, em ângulo recto não mais, folheou-o sem destino mas com mil cuidados, contemplativo, num deleite adivinhatório de santidade gozosa. Tinha acabado de entrar numa biblioteca.

P.S. - Hoje, 1 de Julho, é Dia Mundial das Bibliotecas.

segunda-feira, 31 de maio de 2021

E os amigos do Pina, que é deles?

Quando Manuel António Pina morreu, por assim dizer, em Outubro de 2012, os amigos de Manuel António Pina fundaram o Clube dos Amigos à Espera do Pina. Outros amigos de Manuel António Pina fundaram o Círculo Literário e Artístico Manuel António Pina. Sinceramente achei então que o Pina não merecia tanto. Quero dizer: não merecia tanta vaidade e inveja, tanto umbiguismo, tanto acotovelamento, tanta sede de aparecer à pala do desaparecido, vamos um supor. O Pina de certeza que não sabia que tinha tantos amigos. E ainda por cima amigos desavindos, dissidentes. Que fartura! Duas-colectividades-duas em nome do Pina, no Porto que ainda há pouco enterrara e responsara a Fundação Eugénio de Andrade, com o descaramento de quem limpa as mãos à parede depois de limpar o cu sem papel. Eugénio de Andrade, esse - não sei se tem amigos ou se alguém espera por ele...
Ignoro o que se passa hoje em dia com aquelas duas pressurosas e exclusivas agremiações pinaculares. Desconheço se ainda existem, se bolem, se fazem saraus literários ou pelo menos almoço de Natal, se são nenhuma ou se se multiplicaram por vinte. O Pina é grande e chega para todos: para os compinchas de verdade e para os simpatizantes, curiosos, atrevidos e outros aproveitadores. Eu sou um simples admirador das palavras de Manuel António Pina, só lhe conhecia a voz da televisão e da rádio, naquele falar de quem fala, e do olá distraído no elevador do Edifício JN, e parece que o estou a ouvir dizer: - Sirvam-se.

quarta-feira, 18 de novembro de 2020

Manuel António Pina 5

Os tempos não

Os tempos não vão bons para nós, os mortos.
Fala-se demais nestes tempos (inclusive cala-se).
As palavras esmagam-se entre o silêncio
que as cerca e o silêncio que transportam.

É pelo hálito que te conheço no entanto
o mesmo escultor modelou os teus ouvidos
e a minha voz, agora silenciosa porque nestes tempos
fala-se demais são tempos de poucas palavras.

Falo contigo demais assim me calo e porque
te pertence esta gramática assim te falta
e eis porque não temos nada a perder e porque é
cada vez mais pesada a paz dos cemitérios.

"Ainda Não É o Fim Nem o Princípio do Mundo Calma É Apenas Um Pouco Tarde", Manuel António Pina

(Manuel António Pina nasceu no dia 18 de Novembro de 1943. Morreu em 2012.)

segunda-feira, 18 de novembro de 2019

E os amigos do Pina, que é deles?

Quando Manuel António Pina morreu, por assim dizer, em Outubro de 2012, os amigos de Manuel António Pina fundaram o Clube dos Amigos à Espera do Pina. Outros amigos de Manuel António Pina fundaram o Círculo Literário e Artístico Manuel António Pina. Sinceramente achei então que o Pina não merecia tanto. Quero dizer: não merecia tanta vaidade e inveja, tanto umbiguismo, tanto acotovelamento, tanta sede de aparecer à pala do desaparecido, vamos um supor. O Pina de certeza que não sabia que tinha tantos amigos. E ainda por cima amigos desavindos, dissidentes. Que fartura! Duas-colectividades-duas em nome do Pina, no Porto que ainda há pouco enterrara e responsara a Fundação Eugénio de Andrade, com o descaramento de quem limpa as mãos à parede depois de limpar o cu sem papel. Eugénio de Andrade, esse - não sei se tem amigos ou se alguém espera por ele...
Ignoro o que se passa hoje em dia com aquelas duas pressurosas e exclusivas agremiações pinaculares. Desconheço se ainda existem, se bolem, se fazem saraus literários ou pelo menos almoço de Natal, se são nenhuma ou se se multiplicaram por vinte. O Pina é grande e chega para todos: para os compinchas de verdade e para os simpatizantes, curiosos, atrevidos e outros aproveitadores. Eu sou um simples admirador das palavras de Manuel António Pina, só lhe conhecia a voz da televisão e da rádio, naquele falar de quem fala, e do olá no elevador do Edifício JN, e parece que o estou a ouvir dizer: - Sirvam-se.

P.S. - Escrito a partir de um texto publicado originalmente no dia 26 de Novembro de 2013.

Manuel António Pina 4

Vê se há mensagens
no gravador de chamadas;
rega as roseiras;
as chaves estão
na mesa do telefone;
traz o meu
caderno de apontamentos
(o de folhas
sem linhas, as linhas distraem-me).
Não digas nada
a ninguém,
o tempo, agora,
é de poucas palavras,
e de ainda menos sentido.
Embora eu, pelos vistos,
não tenha razão de queixa.


Senhor, permite que algo permaneça,
alguma palavra ou alguma lembrança,
que alguma coisa possa ter sido
de outra maneira,
não digo a morte, nem a vida,
mas alguma coisa mais insubstancial.
Senão para que me deste os substantivos e os verbos,
o medo e a esperança,
a urze e o salgueiro,
os meus heróis e os meus livros?


Agora o meu coração
está cheio de passos
e de vozes falando baixo,
de nomes passados
lembrando-me onde
as minhas palavras não chegam
nem a minha vida
Nem provavelmente o Adalat ou o Nitromint.


"Cuidados Intensivos", Manuel António Pina

(Manuel António Pina nasceu no dia 18 de Novembro de 1943. Morreu em 2012.)

domingo, 18 de novembro de 2018

Manuel António Pina 3

Os livros

É então isto um livro,
este, como dizer?, murmúrio,
este rosto virado para dentro de
alguma coisa escura que ainda não existe
que, se uma mão subitamente
inocente a toca,
se abre desamparadamente
como uma boca
falando com a nossa voz?
É isto um livro,
esta espécie de coração (o nosso coração)

dizendo "eu" entre nós e nós?

Manuel António Pina

(Manuel António Pina nasceu no dia 18 de Novembro de 1943. Morreu em 2012.)

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

O Pina nasceu no próximo domingo

Quando Manuel António Pina morreu, por assim dizer, em Outubro de 2012, os amigos de Manuel António Pina fundaram o Clube dos Amigos à Espera do Pina. Outros amigos de Manuel António Pina fundaram o Círculo Literário e Artístico Manuel António Pina. Sinceramente achei então que o Pina não merecia tanto. Quero dizer: não merecia tanta vaidade e inveja, tanto acotovelamento, tanta sede de aparecer à pala do desaparecido, vamos um supor. O Pina de certeza que não sabia que tinha tantos amigos. E ainda por cima amigos desavindos. Que fartura! Duas-colectividades-duas em nome do Pina, no Porto que ainda há pouco enterrara e responsara a Fundação Eugénio de Andrade, com o descaramento de quem limpa as mãos à parede. Eugénio de Andrade, esse - não sei se tem amigos ou se alguém espera por ele...
Ignoro o que se passa hoje em dia com aquelas duas pressurosas e exclusivas agremiações pinaculares. Desconheço se ainda existem, se bolem, se são nenhuma ou se se multiplicaram por vinte. O Pina é grande e faz anos domingo. Chega para todos: para os compinchas de verdade e para os simpatizantes, curiosos, atrevidos e outros aproveitadores. Eu sou um simples admirador das palavras de Manuel António Pina, só lhe conhecia a voz da televisão e da rádio, naquele falar de quem fala, e do olá no elevador do Edifício JN, e parece que o estou a ouvir dizer: - Sirvam-se.

sábado, 18 de novembro de 2017

Manuel António Pina 2

Amor como em casa

Regresso devagar ao teu
sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que
não é nada comigo. Distraído percorro
o caminho familiar da saudade,
pequeninas coisas me prendem,
uma tarde num café, um livro. Devagar
te amo e às vezes depressa,
meu amor, e às vezes faço coisas que não devo,
regresso devagar a tua casa,
compro um livro, entro no
amor como em casa.


"Ainda Não É o Fim Nem o Princípio do Mundo Calma É Apenas Um Pouco Tarde", Manuel António Pina

(Manuel António Pina nasceu no dia 18 de Novembro de 1943. Morreu em 2012.)

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Manuel António Pina

A poesia vai

A poesia vai acabar, os poetas
vão ser colocados em lugares mais úteis.
Por exemplo, observadores de pássaros
(enquanto os pássaros não
acabarem). Esta certeza tive-a hoje ao
entrar numa repartição pública.
Um senhor míope atendia devagar
ao balcão; eu perguntei: "Que fez algum
poeta por este senhor?" E a pergunta
afligiu-me tanto por dentro e por
fora da cabeça que tive que voltar a ler
toda a poesia desde o princípio do mundo.
Uma pergunta numa cabeça.
- Como uma coroa de espinhos:
estão todos a ver onde o autor quer chegar?


Manuel António Pina

(Manuel António Pina nasceu no dia 18 de Novembro de 1943. Morreu em 2012.)

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Os amigos do Pina

Os amigos de Manuel António Pina fundaram o Clube dos Amigos à Espera do Pina. Outros amigos de Manuel António Pina fundaram o Círculo Literário e Artístico Manuel António Pina. Sinceramente acho que o Pina não merecia tanto. Quero dizer: não merecia tanta vaidade e inveja, tanta sede de aparecer. O Pina de certeza que não sabia que tinha tantos amigos. Que fartura! Duas-colectividades-duas em nome do Pina, no Porto que ainda outro dia deixou morrer a Fundação Eugénio de Andrade.
Mas o Pina é grande. Chega para todos: para os compinchas de verdade e para os simpatizantes, curiosos, atrevidos e outros aproveitadores. Eu sou um simples admirador de Manuel António Pina, só lhe conhecia a voz da televisão e da rádio, e parece que o estou a ouvir dizer: - Sirvam-se.