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domingo, 9 de dezembro de 2018

José Rodrigues Miguéis 6

Arroz do Céu

[...]
Volta e meia há casório, sobretudo no bom tempo, ou aos domingos. E um desperdício de arroz, não sei donde vem o costume: talvez seja um prenúncio votivo de abundância, ou um símbolo do "crescei e multiplicai-vos" (como arroz). A gente pára a olhar, e tem vontade de perguntar: "A como está hoje o arroz de primeira cá na freguesia?"
Aquela chuva de grãos atravessa as grades, resvala no plano inclinado do respiradouro, e, se não adere à sujidade pegajosa ou ao chewing gum (o bairro é pouco dado a mastigar o chicle), ressalta para dentro do subterrâneo, numa estreita passagem de serviço vedada aos passageiros.
A primeira vez que viu aquele arroz derramado no chão, e sentiu os bagos a estalar-lhe debaixo das botifarras, o limpa-vias não fez caso; varreu-os com o resto do lixo para dentro do saco cilíndrico, com um aro na boca. Mas como ia agora por ali com mais frequência, notou que a coisa se repetia. O arroz limpo e polido brilhava como as pérolas de mil colares desfeitos no escuro da galeria. O homem matutou: donde é que viria tanto arroz? Intrigado, ergueu os olhos pela primeira vez para o Alto, e avistou a vaga luz de masmorra que escorria da parede. Mas o respiradouro, se bem me compreendem, obliquava como uma chaminé, e a grade, ela própria, ficava-lhe invisível do interior. Era dali, com certeza, que caía o arroz, como as moedas, a poeira, a água da chuva e o resto. O limpa-vias encolheu os ombros, sem entender. Desconhecia os ritos e as elegâncias. No casamento dele não tinha havido arroz de qualidade nenhuma, nem cru, nem doce, nem de galinha.
[...]

"Gente da Terceira Classe", José Rodrigues Miguéis

(José Rodrigues Miguéis nasceu no dia 9 de Dezembro de 1901. Morreu em 1980.)

sábado, 9 de dezembro de 2017

José Rodrigues Miguéis 5

Na grande cama de ferro do casal, no quarto ao fundo, branca como os lençóis, a dona Adélia repousa com o filho ao lado, já lavado e enfaixado. Reabre a custo os olhos imensos, como se as pestanas lhe pesassem, e procura a parteira. A sua voz é um sopro:
- É menino ou menina, comadrinha?- É rapaz, é rapaz! E perfeitinho, um latagão!
 
"A Escola do Paraíso", José Rodrigues Miguéis

(José Rodrigues Miguéis nasceu no dia 9 de Dezembro de 1901. Morreu em 1980.)

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

José Rodrigues Miguéis 4

Devia eu andar nos meus seis anos quando uma tarde um vizinho, que era oficial de diligências e mestre de bandolim, disse sentenciosamente a minha mãe, pousando-me a mão nos caracóis:
"Este menino, minha senhora, devia ter nascido rapariga. Mal empregado, um cabelo tão lindo numa cabeça de rapaz!"
Era no patamar da escada, e foi assim que eu aprendi, se alguma vez havia de aprender, a odiar. Aqueles caracóis dum castanho-doirado deram-me pesadelos, dali em diante, e serviram-me de pretexto a muita brabeira. (Quanto ao bandolim, ainda hoje me causa uma desagradável sensação de aperto na boca do estômago.) Até que um dia não houve mais remédio senão a minha mãe levar-me pela mão a um mestre-escama do Largo da Graça.
Foi para mim um dia de orgulhos e alegrias: a aurora, em suma, da virilidade. Depressa o vestidinho verde, de "machos", ia ter a mesma sorte: pois naquela época, que nos parecia de uma romântica paz (é sempre paz para quem não está em guerra), os garotos da minha idade andavam de saias, como os gaiteiros da Escócia. O barbeiro, de olhos verdes estagnados na cara pálida, balofa, picada das bexigas, era todo frisado como um tenor. Disse-me palavras boas para me animar. Crianças daquela idade em loja de barbeiro são como elefante em loja de louças: mas eu caprichava, mordi a boca e fiz exceção. A minha compostura e coragem arrancaram brados de louvor ao fígaro e aos frequentadores ociosos, reunidos em círculo a admirar-me. Nunca se tinha visto um menino tão bonito, tão bonzinho, com tanto juízo, numa cadeira de barbeiro! As tesouras do mestre cantavam-me aos ouvidos como rouxinóis e, com a secreta voluptuosidade de que só as crianças têm o segredo, eu vi cair um após outro os odiosos caracóis, sob as tesouradas libertadoras. Era um tempo de fáceis demolições. Minha mãe, coitada, e sorrindo, derramou duas lágrimas sentidas. Curvou-se e apanhou do soalho enxovalhado um anel do meu cabelo, que havia de conservar para o resto dos dias, numa medalhinha de ouro: "Eras tão loirinho!", dizia-me ela para me consolar da trunfa negra, escorrida, dura como arame, que mais tarde me vestiu o escalpe.
 
"Pouca sorte com barbeiros", em "Léah e Outras Histórias", José Rodrigues Miguéis

(José Rodrigues Miguéis nasceu no dia 9 de Dezembro de 1901. Morreu em 1980.)

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

José Rodrigues Miguéis 3

Sinto-me bem nesta cadeia. É um belo edifício claro, em pavilhões de dois andares, isolados no meio duma grande cerca arborizada, que um alto muro separa, julgo eu, de caminhos e terras cultivadas. Nenhum rumor chega de fora. Às vezes, vou até junto desse muro, que a hera muito densa envolve de poesia, e, numa sombra repousante e fresca, abandono-me a ouvir os pequenos murmúrios da terra e do ar - uma folha que tomba, um pássaro que tila, um insecto que zumbe, um gorgolejo de água - e assim levo muitas horas do meu dia, meditando e escrevendo, como os frades antigos, até que um toque de sineta me venha chamar para a comida ou para o recolher.
Tudo me parece raro, novo e extraordinário. Só agora descobri o oculto sentido de muitas coisas - e mais pela emoção que me provocam do que pelos juízos que formulo. Assim, depois dos meus erros e crimes, pergunto a mim mesmo se será legítimo viver com tanta calma e despreocupação: um criminoso não deveria ter dores, ser torturado? A punição é apenas isto?
Sim, tenho há muito a impressão de que vivo num sonho. A vida corre com uma serenidade impressionante. Penso quanto, noutro tempo, eram felizes os homens a quem se concedia o direito de fugir, como eu fugi, afinal, à vida angustiosa do mundo. Quase me julgo feliz. E porque não?
A cadeia não é como eu supunha, nem o que se diz lá fora. Nada nos falta, tratam-nos bem, embora vivamos numa quase completa solidão. Isto a mim agrada-me, de resto: aborreço o convívio dos homens. Só na aparência os considero meus semelhantes. Aqui, sou apenas um número: o 28.
Vejo agora quanto a criminologia tem progredido no sentido da mais ampla liberdade: cada qual faz o que quer - ou não faz nada. Muitos presos passam os dias metidos na cama. O trabalho deixou de ser obrigatório. A regeneração do criminoso obtém-se agora, ao que parece, por uma forma espontânea, a que eu, se dão licença, chamaria a "psicoterapia da indulgência".
Toda a casa é irrepreensivelmente asseada. O meu quarto é branco, limpo, tem um tecto alto e uma enorme janela sem grades, donde enxergo um vasto panorama de pinhais e terras de lavoura.
Não posso deixar de registar, no entanto, um facto muito estranho: às vezes, durante a noite (eu durmo pouco e tenho o sono leve), sobressalto-me ouvindo gritos, discussões, gemidos, um rumor de luta e de pancadas, e mesmo um estilhaçar de vidros... A primeira vez que tal aconteceu, cobri-me de suores e fiquei todo arrepiado. Receei que se aproveitassem da noite para nos aplicar um tratamento um pouco rude. Como tudo se calou, tornei a adormecer. O caso repetiu-se, e cheguei a julgar-me vítima de alguma ilusão. Porque gritavam? Intrigado, ergui-me várias vezes para escutar, mas acabei felizmente por me desinteressar do que se passa nesta grande casa de aspecto misterioso. São presos que se revoltam, ou que brigam, e a quem aplicam penas corporais? Não sei. Renuncio a sabê-lo. Ninguém me dá, nem eu peço, explicações. Nada me importa, os outros não existem para mim... Que façam como eu: calo-me, obedeço, vivo tranquilamente. De que serve a liberdade? Livre, o homem corre ao precipício.
Outro facto que de começo me indispôs: não me deixam ler os jornais, nem mesmo os antigos, onde poderia encontrar certos dados cuja falta me perturba.
Que terá dito de mim a grande imprensa?
Não tenho notícias do que vai pelo mundo. Não sei mesmo onde me encontro. Vivo como um cenobita.
Isto é bom.
 
"Páscoa Feliz", José Rodrigues Miguéis

(José Rodrigues Miguéis nasceu no dia 9 de Dezembro de 1901. Morreu em 1980.)

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

José Rodrigues Miguéis 2

Não. Nada de proas homéricas singrando rio acima, batidas de ignotos mares, a fundar a capital do futuro Império-que-foi: mas um homem hirsuto e furtivo, talvez em busca da liberdade, que um dia assomou aqui e, com a mão afeita ao sílex, arredou o espesso canavial a olhar com espanto a serena e virgem expansão das águas, onde o sol se espelhava, quente e glorioso como um deus possessivo.
Ergueu a choça à beira-ria, ao abrigo do juncal, onde convergiam as águas dos abruptos morros e colinas. E constituiu família, pedra angular duma história e dum carácter. Tudo data da entrada em cena desse homem seminu e ungulino.

Para trás, toda esta orla caótica da Meseta, selva aspérrima esparsamente povoada de gentes entre si estranhas e hostis, dormitava na inocente bruteza primordial. Com o tempo vagoroso, vieram vindo incertas caravanas de nómades e rechaçados. Isto era um cabo-do-mundo, onde (como na Roma de Rómulo e Remo ou no, mais tarde, Far-West) a ninguém se perguntava o nome nem a origem. Fixaram-se perto da gente bisonha do lugar: as barreiras naturais que separam os homens, uma vez vencidas, fundem-nos melhor. Alguns terão vindo pelos meandros do litoral; um dia a primeira canoa desceu o rio, a medo. O coio de aventureiros maltrapidos espraiou-se pela margem pantanosa, pescando e caçando. Havia lugar para todos.
O sítio era malsão, e do mar distante chegavam a espaços mercadores e agressores, bem armados e apetrechados homens do bronze: numa hora de perigo, a horda inorgânica subiu a íngreme colina, carregando a prole e as magras posses, em busca de abrigo e baluarte. Assim nasceu a Acrópole, e com ela a unidade, o compacto e o poder.


José Rodrigues Miguéis

(José Rodrigues Miguéis nasceu no dia 9 de Dezembro de 1901. Morreu em 1980.)

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

José Rodrigues Miguéis

Ponho-me a olhar a Avenida cá de cima, da minha água-furtada e meu refúgio, e digo-lhe, seu Apolinário: tudo isto levou uma grande volta. Antigamente vivia-se aqui como num céu aberto. Nem faz ideia. Onde isso vai, parece que não, os dias passam devagar, mas os anos vão-se depressa. A gente só dá por isso quando já não há remédio.
Foi nos começos da República, e eu, de calção, com os sapatos nas poças da chuva, travava os primeiros corpo a corpo com a gramática latina e o verbo Amar. A Avenida era então novinha em folha, como o regime. Começava lá em baixo, num boqueirão sinistro, um rio de lama onde às vezes havia inundações e gritos, entre ribanceiras e prédios esguios, e ia-se perder ao alto, nas quintas e azinhagas. As casas, modestas e limpinhas, tinham fachadas de azulejo de mau gosto, outras eram pintadas a cor. Havia as "terras", lotes vagos de barro viscoso onde a gente ia "reinar", e as carroças se atolavam até aos eixos, com muitas pragas dos carroceiros. As árvores eram frágeis e verdes, de mocidade e esperança. Que sossego o desses dias agitados! Isto não era Avenida, era a Rua do Lá-Vai-Um. O mundo acabava-se ali no redondel da praça: um muro decrépito e, para além dele, era a poesia, o silêncio, o bucolismo e a Perna-de-Pau. As noites uma paz. A brisa trazia lá de cima um cheiro fresco de húmus, de estrumes, de águas e verduras. As meninas pensativas, cheias de Júlio Dinis e pescadinha frita, dedilhavam pianos langues, aguitarrados, com as janelas escancaradas, ou então escutavam pelas sacadas, em roupas leves, a voz dos Tenórios empregados em escritórios, gemendo o Fado nas ruas:

                             Ó pálida madrugada,
                             já tenho saudades tuas...

O luar encharcava a noite, entrava em cascata pelas janelas, vinha ter connosco à cama. As luzes eram raras e mortiças, de gás incandescente. Pairava no ar um resto de Cesário, e muito José Duro e amargo. Noite morta, pelas dez, passava o varino dos jornais, descalço, anelante da maratona em que vinha desde a Baixa, apregoando A Capital - e a voz dele tinha um tal desgarramento de mundo perdido, que eu, na minha cama fria de impúbere, a seguir-lhe em mente os passos, sentia um aperto na garganta e uma irresistível vontade de chorar.

"Saudades para a Dona Genciana", em "Léah e Outras Histórias", José Rodrigues Miguéis

(José Rodrigues Miguéis nasceu no dia 9 de Dezembro de 1901. Morreu em 1980.)