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quinta-feira, 2 de novembro de 2017

João Verde 4

Ingénuo amor

Depois da missa, às vezes, quando a gente
Desaparece ao fundo do caminho,
Ela demora-se a rezar baixinho,
Pregado o olhar no Cristo docemente.

E ninguém sabe deste amor ardente
Que nos sagramos doidos entre o linho,
Por uma tarde em que bebemos vinho
na romaria todos, francamente.

Uns dizem que ela está mudada, e tanto
Que tem no olhar doentio um tal quebranto
Bem diferente do dos olhos seus.

Outros - a gente boa do lugar:
"Está como as rosas brancas dum altar!"
A minha amante, tão temente a Deus!

"Obra Poética", João Verde

(João Verde nasceu no dia 2 de Novembro de 1866. Morreu em 1934.)

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

João Verde 3

A tua boca

Falas tu, julgo escutar,
como num sonho bendito,
as vibrações do infinito
no coreto do luar.

Falas tu e oiço ais,
guitarras e bandolins,
como por entre jardins
os trovadores medievais.

Falas tu, penso nas loucas
mariposas do desejo
que no conúbio dum beijo
unissem as nossas bocas.

Falas tu e creio bem,
meu pequenino bijou,
que se ando alegre também
é só quando falas tu.

"Obra Poética", João Verde

(João Verde nasceu no dia 2 de Novembro de 1866. Morreu em 1934.)

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

João Verde 2

Do conto

A noite escura baixava.
De cantarinha na mão,
A pequenita chorava
Que cortava o coração.

É que entre o lugar e a fonte
Há muito causava horrores
O extenso pinhal do monte,
Povoado de malfeitores.

E a noite escura baixava.
De cantarinha na mão,
A pequenita chorava
Que cortava o coração.

Foi quando a madrinha sua,
A Virgem, vendo-a chorar,
Mandou acender a lua
Para lhe vir alumiar.

"Obra Poética", João Verde

(João Verde nasceu no dia 2 de Novembro de 1866. Morreu em 1934.)

domingo, 2 de novembro de 2014

João Verde

Vendo-os assim tão pertinho,
a Galiza mail’o Minho,
são como dois namorados
que o rio traz separados
quase desde o nascimento.
Deixai-os, pois, namorar,
já que os pais para casar
lhes não dão consentimento.

"Obra Poética", João Verde

(José Rodrigues Vale, que usou o pseudónimo literário de João Verde, nasceu no dia 2 de Novembro de 1866. Morreu em 1934.)