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domingo, 29 de abril de 2018

Jaime Cortesão 6

A borboleta
 
Filha da larva que o Inverno hostil
Gelou numa dureza concentrada
Ao aquecer do flavo Sol d'Abril
Surgiu de forma leve e curva alada.


Íris que voa, aspiração subtil
Da flor que quis ser ave, e transformada
Libra no ar a pétala gentil,
Asa da cor, paleta iridiada,


Poisa tão breve que se um sopro a agita
Ergue-se a bambolina num fulgor...
Aflora os lábios duma margarita.


Abrindo manchas, vai de flor em flor,
Flutua, anseia, embala-se e palpita...
Como um bailado trémulo da cor.

Jaime Cortesão

(Jaime Cortesão nasceu no dia 29 de Abril de 1884.  Morreu em 1960.)

sábado, 29 de abril de 2017

Jaime Cortesão 5

A mulher grávida

Eu sou a mulher pejada.
Minha boca apetecida,
Com outra boca colada,
Deu beijos para dar vida.

Em mim é santo o desejo,
É santo por ser fecundo:
Pus toda a alma num beijo,
E fui a origem do mundo.

Olhai: caminho por entre
Todo o povo sem receio,
Pois trago um filho no ventre
E uma fonte em cada seio.

Quem sentir vida tão alta
Não se furte, não a esconda;
Vêde-a... em meu ventre se exalta,
Sobe toda numa onda.

Um filho todas as vezes,
Que é de mãe enternecida,
Trá-lo o ventre nove meses
E o coração toda a vida.

Que imenso poder eu tenho
- Dar vida por ser o amor;
Não há poeta tamanho,
Nem génio mais criador!

E por meu ventre sagrado
Vou falar: escutai bem.
Fala o verbo revelado
No meu instinto de mãe.

Eu vejo para além da vista,
Ouço para além dos ouvidos:
Oh! Que terra nunca vista,
Que heróis jamais concebidos!

Ouço em mim vozes estranhas,
A minha alma deita luz…
Trago nas minhas entranhas
Outro menino Jesus.

Meu filho mostra-me a face,
Faz-te aurora nascida,
Embora a luz me queimasse, 
Ainda que eu perdesse a vida.

Sou o céu da madrugada,
A minha carne anda em brilho;
Sinto-me ébria de alvorada
Rompe o sol: nasce o meu filho!

"Glória Humilde", Jaime Cortesão

(Jaime Cortesão nasceu no dia 29 de Abril de 1884.  Morreu em 1960.)

sexta-feira, 29 de abril de 2016

Jaime Cortesão 4

O casamento da Franga

Diz o Galo
para a Galinha:
Quando casaremos
a nossa filhinha?
Casaremos
Ou não casaremos:
Agora o noivo
Donde o arranjaremos?

Salta o Gato
Do seu mural:
"Eu estou pronto
Para me ir casar."
- Agora o noivo
já nós cá temos;
Agora a madrinha
Donde arranjaremos?

Salta a Cabra
Da sua casinha:
"Eu estou pronta
Pra ser a madrinha."
- Agora a madrinha
já nós cá temos;
Agora o padrinho
Donde o arranjaremos?

Salta o Rato
Do seu buraquinho:
"Eu estou pronto
Pra ser o padrinho."
- Agora padrinho
Já nós cá temos;
Agora o padre
Donde o arranjaremos?

Salta o escaravelho
Do seu escaravelhar:
"Eu estou pronto
Para os ir casar."
- Agora o padre
Já nós cá temos;
Agora o chibo

Donde o arranjaremos?

Salta o Lobo
Do seu lobal:
"Eu estou pronto
Prò chibo dar."
Chibo já nós cá temos;
Agora o vinho
Donde o arranjaremos?

Salta o Mosquito

Do seu mosquital:
"Eu estou pronto
Prò vinho dar."
- Agora o vinho
Já nós cá temos;
Agora o trigo
Donde o arranjaremos?

Salta o Pardal,
Do seu ninho estar:
"Eu Estou pronto
Pra trigo dar."

Acabou-se a boda
Com tal desatino;
Veio o noivo
Engoliu o padrinho.


Jaime Cortesão
 
(Jaime Cortesão nasceu no dia 29 de Abril de 1884.  Morreu em 1960.)

quarta-feira, 29 de abril de 2015

Jaime Cortesão 3

Ode à liberdade

Quero-te, como quero ao ar e à luz
Porque não sou a ovelha do rebanho,
Nem vendi ao pastor alma e a grei;
E onde não haja mais do que o redil,
És tu a minha pátria e a minha Lei.


Leva-me onde as estradas me pertençam.
Porque as vozes viris que me conduzem
Ninguém, melhor do que eu, sabe dizê-las;
Porque eu não temo as livres solidões,
Onde habitam os ventos e as estrelas.


Leva-me ao teu sopro, éter divino,
Porque me queima a sede das alturas
E o meu amor se oferece sem limite;
E és tu que abres as asas aos condores,
És tu que ergues os astros ao zénite.


Toma-me nas tuas mãos de sagitário,
Faze de mim o arco retesado
Pelo teu braço e a tua força inquieta,

Pois, quando o meu desejo atinge o alvo,
És tu o impulso que dispara a seta.


É lá, sempre mais longe, além do Oceano,
Nos limites do mundo conhecido,
Em plena selva e onde há que abrir a senda,
Que eu quero devorar os frutos novos
E erguer à beira de água a minha tenda.


Torna-me ágil e ardente, alma do Fogo,
Porque tu és a inspiradora inquieta
Dos bailados da morte e da alegria;
E eu prefiro ao aprisco a vida heróica,
A que devora o ser, mas alumia.


Queima-ma, embora custes, quando negas,
Quer o ódio fanático dos bonzos,
Quer o ciúme vil dos fariseus.
Sou dos que amam demais a Divindade
Para poder acreditar num deus.


Não és a flor da beira do caminho.
Bem sei que é preciso conquistar-te
A cada novo dia e duro preço.
Por ti tenho sofrido quanto os homens
Podem sofrer. Por isso te mereço.


Por ti sofri os transes da agonia,
Desde a fome da alma no deserto
Ao pão que, por amargo, se recusa.
E, náufrago da grande tempestade,
Cá vou sobre a jangada da Medusa!


Gerou-te, lentamente, com revolta
E dor, a consciência dos escravos;
Renasce mais perfeita a cada idade;
E, sempre, com as dores cruéis do parto,
Dá-te de novo à luz a Humanidade.


Querem mãos assassinas sufocar-te
Nas entranhas maternas. Mas em vão.
Virás como a torrente desprendida,
Porque és o sopro e a lei da Criação
E não há força que detenha a Vida.


Jaime Cortesão

(Jaime Cortesão nasceu no dia 29 de Abril de 1884.  Morreu em 1960.)

terça-feira, 29 de abril de 2014

Jaime Cortesão 2

Romance do homem da boca fechada

- Quem é esse homem sombrio
Duro rosto, claro olhar,
Que cerra os dentes e a boca
Como quem não quer falar?
– Esse é o Jaime Rebelo,
Pescador, homem do mar,
Se quisesse abrir a boca,
Tinha muito que contar.


Ora ouvireis, camaradas,
Uma história de pasmar.

Passava já de ano e dia
E outro vinha de passar,
E o Rebelo não cansava
De dar guerra ao Salazar.
De dia tinha o mar alto,
De noite, luta bravia,
Pois só ama a Liberdade
Quem dá guerra à tirania.
Passava já de ano e dia…
Mas um dia, por traição,
Caiu nas mãos dos esbirros
E foi levado à prisão.

Algemas de aço nos pulsos,
Vá de insultos ao entrar,
Palavra puxa palavra,
Começaram de falar
- Quanto sabes, seja a bem,
Seja a mal, hás de contá-lo,
- Não sou traidor, nem perjuro;
Sou homem de fé: não falo!
- Fala: ou terás o degredo,
Ou morte a fio de espada.
- Mais vale morrer com honra,
Do que vida deshonrada!

- A ver se falas ou não,
Quando posto na tortura.
- Que importam duros tormentos,
Quando a vontade é mais dura?!

Geme o peso atado ao potro
Já tinha o corpo a sangrar,
Já tinha os membros torcidos
E os tormentos a apertar,
Então o Jaime Rebelo,
Louco de dor, a arquejar,
Juntou as últimas forças
Para não ter que falar.
- Antes que fale emudeça! -
Pôs-se a gritar com voz rouca,
E, cerce, duma dentada,
Cortou a língua na boca.

A turba vil dos esbirros
Ficou na frente, assombrada,
Já da boca não saia
Mais que espuma ensanguentada!

Salazar, cuidas que o Povo
Te suporta, quando cala?
Ninguém te condena mais
Que aquela boca sem fala!
Fantasma da sua dor,
Ainda hoje custa a vê-lo;
A angústia daquelas horas
Não deixa o Jaime Rebelo.
Pescador que se fez homem
Ao vento livre do Mar,
Traz sempre aquela visão
Na sombra dura do olhar,
Sempre de boca apertada,
Como quem não quer falar.


Jaime Cortesão

(Jaime Cortesão nasceu no dia 29 de Abril de 1884.  Morreu em 1960.)

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Jaime Cortesão

Quero-te, como quero ao ar e à luz
Porque não sou a ovelha do rebanho,
Nem vendi ao pastor a alma e a grei;
E onde não haja mais do que o redil,
És tua a minha pátria e a minha Lei.

Leva-me onde as estradas me pertençam.
Porque as vozes viris que me conduzem
Ninguém, melhor do que eu, sabe dizê-las;
Porque eu não temo as livres solidões,
Onde habitam os ventos e as estrelas.


Jaime Cortesão, "Ode à Liberdade", excerto

(Jaime Cortesão nasceu no dia 29 de Abril de 1884.  Morreu em 1960.)