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segunda-feira, 9 de novembro de 2020

Cruzeiro Seixas (1920-2020)

A tua boca adormeceu

A tua boca adormeceu
parece um cais muito antigo
à volta da minha boca.

Mas as palavras querem voltar à terra
ao fogo do silêncio que sustém as pontes
perdidas na sua própria sombra.

E há um cão de pedra como um fruto
que nos cobre com o seu uivo
enquanto pássaros de ouro com mãos de marfim
transplantam as árvores transparentes
para o ponto mais fundo do mar.

As lágrimas que não chorei
arrependidas
fazem transbordar a eterna agonia do mar
como um lençol fúnebre
com que tivesse alguém coberto o rosto metafórico
dos cinco continentes que em nós existem.

Assim é ao mesmo tempo
que sou eu e não o sou
aquele relógio das horas de ouro
que além flutua.

Cruzeiro Seixas, "Homenagem à Realidade"

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

Cruzeiro Seixas 2

Um cão é isto de sermos gente

Um cão
é isto de sermos gente.

Se temos só duas pernas
temos em contrapartida
uma complicação escura
dentro do peito.

Qualquer coisa como
os fundos desconhecidos
da água
só conhecidos
dos náufragos.

Para matar
é preciso uma arma
e para voar
como búzios
precisamos papel e lápis
- e assim viajamos
dentro de vegetais malas de viagens
procurando o destino sufocante
de todas as paragens.


"Homenagem à Realidade", Cruzeiro Seixas

(Cruzeiro Seixas nasceu no dia 3 de Dezembro de 1920)